Postado em 20 de abril de 2017 por Lu Bento

Ontem saiu um texto da Patrícia Froes no blog #AgoraÉQueSãoElas, da Folha,  intitulado “Filho, o mundo não é seu”, falando da sua experiência em ser mãe de um menino branco e abonado e da necessidade de ensinar ao filho que o mundo não é dele.  O texto é bem interessante e o título me provocou a ponto de pensar que ela falava em termos mais gerais, fazendo uma contraposição a noção que a nossa geração Y teve de que somos o centro do mundo. Comecei a ler o texto bem de boa, pensado nessas coisas mas logo percebi que ela falava de um ponto bem específico e necessário. O que Patrícia traz é uma reflexão sobre a posição do homem branco e rico na sociedade brasileira. Ressalto que Patrícia não usa o termo rico, e eu o uso sem nenhuma conotação ofensiva,  apenas para que a gente possa realmente colocar as ideias às claras.

Muitas ideias me vem sobre as reflexões trazidas por Patrícia e pela ausência de problematização da questão racial na desconstrução dos privilégios.  E obviamente, fiquei tentada a escrever sobre isso. Rascunhei um texto, pensei muito sobre o assunto e em como expressar a necessidade das pessoas brancas se posicionaram diante do racismo de forma assertiva e combativa,  mas no final das meninanegrapulando1contas, pra mim,  é muito mais importante gastar minhas energias reafirmando pras nossas pretinhas que o mundo é delas. Que o mundo é nosso!

Porque essa mesma sociedade que  passa o tempo todo reforçando que o mundo é dos homens brancos e ricos, também reforça que o mundo não é das mulheres negras. E aí a questão de classe se torna menos relevante, porque basta ser negra para a mulher seja discriminada, não importa o quão recheada é a sua conta bancária. A sociedade grita o tempo todo que o mundo não é nosso. Tão alto que muitas vezes não conseguimos ouvir nossa voz interna nos dizendo para ocupar nosso lugar no mundo. Como mulher e mãe negra, se eu tenho forças pra lutar, que minha luta seja para que essas meninas negras não sejam empurradas para a subserviência e baixa autoestima pela enxurrada racista que recebemos todos os dias. Porque eu desejo que nós, mães e pais de pretos, sejamos a barreira de contenção que não deixa a autoestima das nossas novas gerações cair barranco abaixo. E mais que isso, que nós sejamos molas propulsoras, colocando nossas crianças para voarem futuros ainda mais altos do que o sistema racista espera de nós.

Reafirmando a negritude

Eu tenho filhas pretas. Eu poderia dizer simplesmente estimular minhas filhas dizendo “filha, o mundo é seu”. Mas não colocar a nossa negritude nessa frase de motivação e incentivo das meninas negras é uma forma de cair no mito da democracia racial que nos invisibiliza e nos desumaniza, como negros tivessem que se sentir contemplados pelo padrão branco e o discurso de que “não importa a cor”. A cor da pele importa sim! Muito. Uma mulher branca alcançando um posto de destaque em uma grande empresa não é o suficiente para que eu e minhas filhas nos vejamos nessa posição pelo simples fato de que quase nunca vemos uma mulher negra nessa posição de destaque e sucesso como uma representação de conquista de todas as mulheres. Quando uma mulher negra ascende ela é vista e lembrada como uma referência para as mulheres negras e só.

modelo-negra-vogue-01

Eu não estou com isso querendo incitar uma divisão racial, uma segregação. Até porque essa divisão racial já existe na sociedade em que vivemos. Raramente uma pessoa branca escolherá uma pessoa negra como referência universal para qualquer coisa porque simplesmente pessoas brancas não se conectam com referenciais negros.  Uma revista com uma modelo negra na capa vende menos que uma revista com uma modelo branca. Por que isso acontece? Porque o público da revista, majoritariamente branco, quando vê uma mulher negra na capa entende que aquela matéria não é pra ele, não é do interesse dele. Como reação a isso,  as revistas colocam menos negras nas capas e alegam que “negro não vende”.

O ciclo é perverso, é cruel e contínuo. Ele se retroalimenta quando a vendedora diz pra menina branca que ela não deve comprar uma boneca negra porque a boneca bonita é a loira de olhos azuis ou quando a professora dá um lápis rosa chamado “cor de pele” para que a criança negra pinte o desenho. O tempo todo nossas crianças “aprendem” que nossa cor de pele não é valorizada e que a gente “precisa” se sentir contemplado por representações brancas.

Então, ao falar pras minhas filhas que o mundo é delas, eu reforço e valorizo nosso lugar de mulher preta, coloco o Pretinha como um vocativo afetivo e com isso, reforço o olhar positivo para a nossa negritude.

Fortalecendo a autoestima

World map (globe) in an African school

Nossa missão é romper com esse ciclo, ocupar os espaços, abrir portas, chutá-las se for preciso. Pretinha, o mundo é seu! Não aceite quando falarem que você não tem o perfil. Não ceda quando falarem que seu cabelo ficaria melhor se você fizesse uma escova. Não desista quando falarem que seria melhor você cursar pedagogia ou invés de engenharia porque existem engenheiras negras. Pretinha, o mundo é seu! Ocupe-o! Tome posse do seu espaço, questione os privilégios, afronte os privilegiados. Porque, na realidade, não podemos esperar que ninguém ceda seus privilégios e nos dê acesso ao nosso espaço de direito. Precisamos ir lá e ocupar. E mostrar que a gente tem plenas condições de ocupar esses lugares tão bem ou até mesmo melhor que todos esses que hoje têm acesso a eles por serem privilegiados. E não é porque nosso acesso foi garantido por ações afirmativas que nosso direito e nossa capacidade de estar lá devem ser questionadas ou diminuídas.

 

Pretinha, o mundo é seu! Não precisa esconder ou se envergonhar de ter feito algo incrível e ter seu talento reconhecido. Não precisa baixar a cabeça e se desculpar por tudo que deu errado, quando você não tepretinha, o mundo é seunha culpa nenhuma nesse processo. Não precisa desistir antes mesmo de tentar com medo de ser barrada. Não precisa ter medo de romper com os lugares que o sistema racista destina para as mulheres negras.

Ser mulher e negra não é essa molezinha de ter tudo esperando por você. É um remar contra a maré racista que insiste e nos levar pro fundo. Quando a gente repete pra uma menina negra que o mundo é dela, estamos também repetindo pra nós mesmas. O mundo é nosso, pretinhas!  A construção da nossa autoestima é um processo constante, porque a desconstrução racista também é.  Então repita em voz alta pra si mesma e pra todas nós: pretinha, o mundo é seu! Somos resistência e não tem sistema racista e machista que vai nos fazer parar. O mundo é seu, pretinha. Não tenha medo de ocupar o seu lugar.

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