Postado em 18 de outubro de 2018 por Lu Bento
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Estamos em pleno processo eleitoral. Mas nunca na história desse país ( pra lembrar um certo presidente) as eleições presidenciais mobilizaram tantas discussões e sentimentos. Vivemos tempos de grande desconforto, famílias e amigos separados por visões de mundo distintas, relacionamentos se reestruturando com outras bases e um sentimento coletivo de desesperança.

As pessoas defendem seus candidatos com tanto fervor, que as discussões extrapolam o campo da política e adentra o campo dos valores, refletindo posicionamentos que afetam severamente as relações estabelecidas. Não é mais sobre Haddad e Bolsonaro e quem será o novo presidente.  É um embate muito mais profundo que está sendo jogado no campo das  fake news, da intolerância e do medo. 

Eu, que sou mãe de duas meninas negras, tenho vivido dias de desesperança. Qualquer que seja o resultado final das eleições, a poeira debaixo do tapete da sociedade brasileira veio a tona e esta sufocando todo mundo. Como eu explico essa situação para as minhas meninas? Como eu falo com ela que seus avós e seu tio apoiam um candidato que acredita que as mulheres são inferiores, merecem ganhar menos, são frutos de uma “fraquejada”? Como explicar os casos de pessoas negras como nós, homossexuais como nossos amigos e amigas, militantes como todos que convivem conosco que estão sendo agredidos todos os dias por eleitores e apoiadores do candidato apoiado por seus avós?

desesperança

Não é nada fácil. Eu sei que a nossa visão de mundo não é absoluta, que minha família se posiciona ao lado do que acreditamos e que o certo é relativo de acordo com os olhos de quem vê. Mas a forma como educamos e ensinamos nossos filhos tem a ver com a nossa filosofia de vida. Tenho plena consciência de que minhas filhas devem crescer como suas próprias opiniões, mas também sei que a função dos pais e educar com valores e para que as crianças se tornem boas pessoas, e não vejo como isso é possível se eu fecho os olhos para as crescente sensação de insegurança que algumas pessoas vivenciam neste momento por simplesmente existirem. 

Desesperança no futuro

O sentimento que domina é a desesperança. Temos a tendência a acreditar que o futuro será sempre melhor. Mas quando a gente está imerso em uma situação em que um projeto de sociedade opressor ganha cada dia mais força, a sensação é que tempos sombrios virão. 

Como lidar com a perspectiva de que a infância de nossas crianças se dará , em grande parte, em tempos nos quais as diversidades estarão todas ameaçadas?  Como imaginar uma infância livre, em um cenário em que grupos extremistas e racista agridem pessoas por usarem vermelho, por serem negros, por se relacionarem com pessoas do mesmo sexo, por simplesmente discordarem deles e se manifestarem? Como imaginar uma infância segura se muitas pessoas anseiam pelo uso de armas e estimulam as crianças a fingir que estão atirando. 

E como retomar um relacionamento tranquilo com o parentes que o apoiam caso o candidato que estimula tudo isso ganhe e esse cenário de violências se agrave ainda mais? Como não atribuir a eles uma parcela de culpa por colaborarem com tudo isso? E como lidar com um sentimento de frustração com os parentes que é meu, de adulta, sem transferi-lo para as crianças?

No momento atual, o futuro parece ainda mais desafiador. Todas as conquistas sociais e identitárias de grande para da sociedade estão ameaçadas: respeito à orientação sexual e identidade de gênero dos sujeitos, mecanismos de busca da equidade racial, mecanismos de proteção às mulheres do feminicídio, direitos trabalhistas, autonomia dos espaços escolares, liberdade religiosa… 

O que fazer?

Hoje eu não tenho respostas nem sugestões sobre qual caminho seguir. Estou em uma espiral de desilusão. Penso no futuro das minhas filhas em um mundo em que elas não poderão ser o que quiserem, que elas precisarão adotar posturas de autopreservação ainda mais rígidas por serem negras. Penso em possibilidades para tentar garantir uma infância segura, na qual não precisem temer atiradores com ódio racial . Mas hoje eu estou dominada por sentimentos de medo e angustia. Tenho perguntas sem resposta, que também não serão respondidas após o segundo turno, independente do resultado das urnas. A poeira do ódio está no ar, e não sabemos ainda onde estão as máscaras que nos protegerão. 

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