Postado em 21 de janeiro de 2015 por Lu Bento
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Cerca de 15 dias atrás  houve o atentado em Paris e toda essa mobilização em torno do tema religiosidade. Hoje é o dia nacional de combate à intolerância religiosa. O que nossas crianças tem a ver com isso?  Já estou rascunhando um texto sobre religiosidade há algum tempo, então finalmente decidi terminá-lo.

Em geral, nos preocupamos em cuidar dos nosso filhos e satisfazer suas necessidades físicas, mentais, sociais e emocionais. A gente alimenta as crias, ensina coisas novas, proporciona uma convivência familiar e comunitária agradável, satisfaz suas necessidades de afeto, carinho… Mas e o lado espiritual?  O que fazemos neste sentido?

religiosidade e crianças

Nem todo mundo segue uma religião. Outros ainda, sequer acreditam que existe religião ou qualquer outra dimensão de entendimento da vida que não seja o que vemos e vivemos aqui.  Tudo bem. Pra quem não acredita em nada, tá tudo certo, não há o que falar.  Mas a maioria das pessoas acredita em alguma coisa, mesmo que essa crença não esteja vinculada a uma religião específica. E aí entra importância em se refletir também sobre esse lado transcendental da vida.

Eu e o marido fomos criados por famílias católicas. Hoje, não seguimos ritualisticamente  nenhuma religião. Apesar disso, acreditamos em algumas coisas, ou em muitas coisas. Enfim, pra gente existe algo além do que vivemos aqui.

Decidimos nreligiosidade e crianças negrasão impor uma religião a nossas filhas, já que não seguimos nenhuma. Mas também achamos é que importante que elas tenham contato com as religiões para que elas mesmas possam escolher que caminho seguir. Por respeito aos nossos mais velhos, decidimos batizar Isha Bentia na igreja católica e o mesmo faremos com Mini Bentia. Mas o ritual do batismo na igreja católica não nos faz restringir nossas filhas a esse religião.  Nossas filhas escutam mantras hare krishna em casa, reconhecem alguns orixás e assistem um ou outro desenho bíblico na tv. Aceitamos e guardamos todos os presentes dados a elas, independente da religião a qual estão relacionados. Acredito que assim elas saberão escolher que caminho seguir quando elas acharem conveniente. E mesmo que o caminho seja não seguir religião nenhuma, acredito que elas saberão respeitar os rituais de cada religião e os seus praticantes.

O respeito às religiões

Como crianças negras acho fundamental, independente da religião que elas sigam no futuro, que  aprendam a respeitar e a reconhecer as religiões de matriz africana. Não podemos ser reprodutores do racismo que fez com que essas religiões fossem demonizadas. Quero que minhas filhas cresçam reconhecendo que a crença nos orixás é uma das formas de se alcançar um entendimento sobre coisas do mundo. Que não há mal nenhum em ser “macumbeira”.

É comureligião e crianças negrasm entre as crianças a reprodução de preconceitos como se fosse brincadeira. Crianças negras (e crianças não-negras também!)  precisam crescer sabendo que não devem chamar alguém de macumbeira na intenção de ridicularizar a pessoa.  Que se afastar de um colega por ele praticar uma religião de matriz africana não é certo.  Que ela não precisa ter vergonha das suas crenças e da crença de seus pais.  Esse tipo de “brincadeira” só acaba quando as pessoas deixam de legitimá-las. E esse é o nosso papel.

Ano passado uma diretora proibiu um aluno de 12 anos de entrar na escola porque ele estava com uma guia no pescoço e uma bermuda branca. Você pode relembrar o caso neste link aqui. O pior dessa história é que o menino foi vítima de preconceito, intolerância religiosa e na hora ninguém interveio pra impedir que a diretora humilhasse o menino dessa forma. Um adolescente, que deveria ser acolhido e protegido pela escola no exercício da sua liberdade de religião, foi humilhado e exposto pela própria direção da escola e não recebeu apoio de ninguém. Uma clara manifestação do racismo e de intolerância religiosa que nossas crianças estão expostas todos os dias.

Não podemos, independente da religião que sigamos, continuar a reproduzir opiniões equivocadas sobre as religiões afro. Precisamos conhecer, respeitar  e principalmente, ensinar para as nossas crianças a respeitar à liberdade religiosa. Precisamos criar condições para que as pessoas não precisem mais esconder suas crenças por medo ou vergonha de não serem aceitos.

Não importa o quanto a sua religião discorda da religião do outro, é preciso respeitar e saber conviver.

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