Postado em 18 de fevereiro de 2015 por Lu Bento

Estava  de férias. E como qualquer mãe que trabalha, estuda, cuida das crias, da casa, do marido, do bichinho de estimação e quando sobra tempo, cuida de si mesma, eu resolvi aproveitar as férias pra resolver um monte de coisas. Uma dessas coisas era comprar o  ₢.material escolar da cria. A saga pra encontrar a mochila ideal já foi relatada aqui no blog. A do material escolar vai ser contada outro dia.  Hoje vou falar da boneca enorme que eu acabei comprando.

São Paulo é uma delícia pra quem gosta de fazer compras em lugares baratos e muvucados. E eu, como gosto da coisa, fui explorar a 25 de março.  Minha lista de compras era bem simples: os 10 itens da lista de material escolar de Isha Bentia, um carrinho de bebê e um presente pra coleguinha da Isha que faria a festinha na escola. Coisa simples!

De cara já encontrei o carrinho de bebê e deixar pra comprar depois que já estivesse com tudo comprado. Comprei o material, e na hora de escolher o presente, começou o meu dilema.

Tenho por princípio evitar brinquedos sexistas e dar preferência a jogos. Mas nada me impede de dar uma boneca de presente, e quando eu dou uma boneca, sempre compro uma boneca negra.  Por quê? Compro bonecas negras porque acho que todo mundo têm o direito de conviver com a diversidade,e crianças negras têm direito a identidade.

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Sempre falam da dificuldade de se encontrar bonecas negras nas lojas, e eu realmente não as vejo nas grandes magazines. Mas eu confesso que sempre encontro quando eu procuro, principalmente no centro de São Paulo. Lógico que quando reclamam dessa ausência de bonecas negras se fala em bonecas manufaturadas, muitos empreendedores já produzem lindíssimas bonecas negras artesanais e esse mercado só tende a crescer a cada dia.

Dessa vez, dei de cara com uma boneca linda numa caixa enorme que fala 62 frases! Nem sou tão fã de boneca assim, mas me encantei! Primeiro pensei em comprar de presente pra menina, afinal, que menina de 3 anos não vai gostar de um boneca que fala pra caramba? Depois mudei de idéia, a caixa era muito grande, ia ser um transtorno pra levar pro colégio e depois pra mãe da criança levar pra casa. Desisti da boneca.

Depois tive a genial idéia de levar pra Mini Bentia, nunca comprei uma boneca pra ela, essa ainda vinha com uma mamadeira que o liquido some, Isha Bentia ia gostar também e tal… Comprei a boneca e me virei pra conseguir carregá-la e mais as outras coisas que eu tava levando. Mas saí de lá feliz da vida. Saí tão feliz que eu acho que no fundo eu comprei a boneca pra mim!

Quando cheguei na loja de bebê pra comprar o tal carrinho, a vendedora achou a boneca bonita e quis ver. A primeira pergunta que ela fez foi a que dá título a esta postagem: “mas sua filha gosta de boneca assim, escurinha?” Na hora eu só pude responder “Gosta. Elas gostam de bonecas que se parecem com elas.” Mas me veio a cabeça todo o preconceito por trás disso.

A boneca estava 4 reais mais cara que a similar branca. Não consigo relacionar isso a crítica que fazem sobre os valores das bonecas negras em relação às bonecas brancas, ora mais caras ora mais baratas. Preciso fazer uma pesquisa melhor pra me aprofundar nessas questões em uma próxima oportunidade.

Então, vamos voltar à questão principal deste texto. A partir do momento que uma pessoa acha que uma mulher negra comprar uma boneca negra pras suas filhas negras é algo estranho, a gente tem que começar a pensar o quando esses padrões de beleza tem afetado nossa visão de mundo. O pior, é que era uma mulher não-branca questionando a escolha de uma boneca negra. Era uma mulher não-branca com dificuldade de falar que a boneca é negra, precisou usar um eufemismo.

Já diz uma galera que produz bonecas pretas artesanais: boneca preta é identidade. Minhas curicas têm bonecas pretas desde antes de nascerem. A maior parte das bonecas delas são pretas, e eu acho que esse é o caminho certo. Se é pra começar a fazer simulações da realidade, exercitar o cuidado, reproduzir e representar os cuidados que elas mesmas recebem dos seus diferentes cuidadores, que seja  principalmente com bonecas que se assemelham à elas. Lógico, toda criança tem direito à diversidade, e por isso, boencas brancas são bem vindas aqui em casa. Mas elas não são e não serão nunca a maioria. As minhas curicas estão sendo criadas para verem o mundo a partir da perspectiva delas e não a partir dos olhos dos outros. E para isso, cada boneca é importante.

Ah, o presente da coleguinha? Pra ela eu comprei um carrinho de controle remoto. Tomara que saia do senso comum e que ela curta muito. E a boneca  que eu comprei? Dei pras curicas e elas nem ligaram muito. Acho que a boneca é mais pra mim mesmo!

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