Postado em 16 de fevereiro de 2015 por Lu Bento

 

Em dezembro do ano passado a revista Pais&Filhos fez uma reportagem de capa sobre racismo e como lidar com ele. Na capa, colocou a foto de um menina de cabelos cacheados. Longe de mim dizer que ela não deve sofrer racismo e que ela não é negra, mas está na cara que essa menina pouco representa quem sofre racismo cotidianamente.

meme-paisefilhos

Não é de hoje que nós, negros, somos ignorados pela publicidade. Nas revistas sobre maternidade e criação de filhos, as crianças e as famílias negras raramente são encontradas. Não temos espaço para dividir e refletir sobre questões que nos afligem, como racismo na escola, a construção da identidade racial da criança ou sobre dicas de como cuidar do cabelo afro das nossas meninas.

É fácil a gente lidar com essa questão afirmando que a revista é um lixo, que ela reproduz uma série de preconceitos e conceitos duvidosos sobre criação dos filhos, e por isso não devemos nos importar por não ter negros. Esse é o caminho mais simples, o da negação.

Mas tudo isso não é sobre a qualidade da publicação. É sobre representatividade. Eu quero crianças negras lá mesmo que a revista fale sobre maravilhosas cesáreas eletivas, tenha propagandas de chupetas, mamadeiras e andadores (não, andadores não, essa porcaria já está proibida!) ou que tenha coluna de pediatra patrocinada por marca de leite em pó. Até porque, existem várias pessoas negras que concordam com algumas dessa atitudes, e nosso objetivo aqui não é julgar. A luta é pela plena inclusão do negro, é pela visibilidade das crianças negras, das mulheres, da nossa estética, das nossas questões.

E não é por falta de solicitação do público. Já escrevi e-mails para essas revistas questionando e solicitando mais negros em suas páginas. No facebook, já vi inúmeras manifestações de leitores questionando a ausência de negros e essas revistas simplesmente se calam diante desta realidade. Sei que não sou a única que faz isso, muitas pessoas notam essa demanda e as revistas sabem bem que tem uma parcela do público muito insatisfeita com essa falta de representatividade em suas páginas.

Ter mais negros nessas revistas não é importante só pra nós negros que queremos acompanhar uma publicação sobre maternidade e criação de filhos. É importante para todos. Todos têm o direito de conviver com a diversidade. Todos têm o dever de ensinar pras crianças o que é diversidade e como respeitar as especificidades de cada um.

Optar por não colocar negros em suas páginas mesmo sendo constantemente alertados por essas falhas é deixar clara a sua linha editorial racista, é transparecer sua vontade de segregar o negro a um determinado espaço de invisibilidade. Não nos querem  na mídia, menos como  de consumidores em potencial de determinados produtos e serviços.

A inspiração dessa postagem veio quando eu encontrei uma reclamação de um pai no site Reclame Aqui falando sobre a falta de representatividade nas revistas. Um pai faz a seguinte reclamação no site:

“Hoje comemoro o meu primeiro Dias dos Pais! Quando minha esposa estava grávida pensamos em assinar essa revista, mas comprávamos avulsamente nas bancas e tínhamos um motivo: nunca vimos um bebê negro na capa da revista.
Mesmo sendo a população não-branca, maioria no Brasil, vocês só publicam capa com bebês de traços europeus, pergunto: vocês são racistas ou é falta de uma política de igualdade??? “

A pergunta foi bem clara e direita, exatamente o que muitas pessoas postam na página do Facebook da revista e comentam cotidianamente. A representante da revista, em um arroubo de sinceridade, respondeu isso:

reclame aqui2

A reclamação e a resposta da revista podem ser vistos  neste link aqui.

Diante dessa clara demonstração do posicionamento da revista, que podemos inferir que não é muito diferente do posicionamento da outra revista do estilo, fica ainda mais claro que precisamos fazer algo. Não podemos simplesmente aceitar essa tentativa de  nos manter à margem da sociedade.

Cabe a nós, negros, e especificamente à mães pretas,  brigarmos por representação nesses espaços e também construirmos espaços de sociabilidade alternativos, onde possamos interagir e debater sobre questões relativas à maternidade e maternagem consciente.

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