Postado em 6 de março de 2015 por Lu Bento

autoestima como empoderamento feminino

Um dia entrei no meu facebook e vi uma imagem na minha linha do tempo com a seguinte frase: “Uma mãe que irradia amor próprio  e autoconfiança, na verdade, vacina sua filha contra baixa autoestima.“* Aquilo me marcou. Sou mãe de duas meninas e minha autoestima ia ladeira abaixo desde que perdi meu primeiro bebê. Percebi que era hora de fazer alguma coisa concreta ou minhas filhas cresceriam tendo um péssimo exemplo em casa.

Me olhei no espelho demoradamente e refleti sobre o que eu vinha fazendo por mim mesma nos últimos 7 anos. Logo depois que perdi o primeiro bebê (ainda espero conseguir parir um relato de aborto e da violência obstétrica que sofri na ocasião), comecei a estudar pra concursos públicos. Não demorou muito e passei em alguns e foi bem elogiada pelas pessoas com quem convivo. Todos reconheciam o quão difícil é passar em um concurso e que eu tinha conseguido até relativamente rápido resultados pelos meus esforços. Para mim, eu simplesmente não tinha feito mais que a minha obrigação, afinal, era para isso que eu estudava. Me concentrava mas nos concursos que eu não passei e vivia remoendo o fato de ter errado várias coisas bobas nas provas. Nos concursos que eu passei me comparava com os primeiros colocados e me achava burra por não ter conseguido melhores posições.

Na faculdade, não procurava um grupo de pesquisa porque não me achava boa o suficiente. Fazer a prova do mestrado então, nem pensar! Da menina que falava bem nas aulas e não tinha problemas em se expressar em público quando criança pouco restou. Expressava minhas opiniões cada vez menos e com isso ia me anulando.

A verdade é que eu me culpava enormemente pelo aborto. Se eu não era capaz de segurar um bebê na barriga, o que eu poderia fazer direito? Nada né! Uma baixa autoestima que inicialmente pode ter sido motivada por um fato que me trouxe enorme tristeza foi se perpetuando ao longo do tempo e afetando todos os setores da minha vida. Quando engravidei de Isha Bentia, eu já sabia que precisaria ficar de repouso durante toda a gravidez. A sensação de estar mais doente do que grávida permeou os nove meses e reforçou em mim mais uma sensação de  “fracasso”. Nem uma gestante normal eu poderia ser! A amamentação exclusiva que também não rolou (meu relato de amamentação pode ser visto aqui) foi outro marco nesse meu processo de autodepreciação.

Quando Mini Bentia chegou, achei que conseguiria parir naturalmente. Não consegui. Precisei de uma cesárea no meio do trabalho de parto e acabei com mais um motivo pra me autossabotar emocionalmente. Então eu me tornei aquela que não consegue segurar um bebê no útero sem ajuda externa, não consegue ter uma gestação normal, não consegue parir e não consegue amamentar. Que porcaria de mãe que eu sou? Que porcaria de mulher/mamífera eu sou?

A terapia sempre ajuda neste lado mais deprê da coisa, mas nem sempre consegue nos fazer lidar com essas pequenas autossabotagens cotidianas. A falta de tempo e duas crianças pequenas pra criar me davam passe livre pra priorizar as necessidades das meninas, da casa, do marido, do trabalho e deixar as minhas demandas para último plano. Quero comprar uma roupa nova? Não posso, tenho que comprar isso pras curicas. Preciso me exercitar? Não posso, não tenho tempo livre. Quero voltar a estudar? Não posso, deixa o marido primeiro. Gostaria de fazer tal coisa? Não posso, tenho que cuidar da casa.

Nunca fui das mais vaidosas, mas percebo que nos últimos anos tenho ficado cada vez mais largada. Com a chegada das filhas então, meu tempo pra cuidar de mim mesma foi reduzido a zero e eu não fazia nada pra mudar isso. E nem me lamentava muito quanto a isso, a falta de tempo era a minha justificativa pra andar por aí toda largada.

Então, quando eu vi essa imagem com a frase eu percebi que se não começasse a fazer algo por mim minhas filhas teriam como exemplo uma mãe/mulher que não se cuida, que não se ama.

Por isso decidi começar a cuidar de mim. Claro que começar a se cuidar é um processo e escrever o blog faz parte disso. Precisei começar a escrever pra encontrar uma forma de me expressar, de expressar minhas opiniões e sentimentos e sair da letargia do “tá tudo bem.” o tempo todo. E me expressando consegui me enxergar.

Não estou ainda fazendo nem um terço do que eu gostaria de fazer por mim mesma, mas já tenho tempo pra me exercitar, já cuido melhor da minha pele, do meu cabelo, da minha saúde. Estou me organizando pra voltar a estudar. Já consigo gastar meu dinheiro com algo pra mim sem culpa. Consigo ir ao médico e ao dentista quando preciso e comecei a tirar algumas selfies quando gosto do meu visual. São pequenos passos mas são fundamentais. Isso tudo é empoderamento. Cuidar de si é um processo que não pode ser colocado como um item menos importante na lista de prioridades. Estou cuidando de mim, e assim cuido delas.

Que essa minha mudança de atitude comece a vacinar minhas meninas desde pequenas.

* Pesquisando na internet, as informações indicam que a frase é de Naomi Wolf. Não consegui encontrar uma fonte realmente confiável que me confirmasse essa informação. Quem souber confirmar a autoria, por favor, me ajude.

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