Postado em 8 de abril de 2015 por Lu Bento

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Somos um casal de leitores. Amamos livros e esse amor vêm desde antes de nos conhecermos, então quando nos casamos posso dizer que  coisa ficou crônica. Antes das meninas, nossos livros tinham um lugar de destaque na casa, são (eram né, a coleção já cresceu!) três estantes dessas de ferro completas e mais alguns livros espalhados pela casa. Sempre carregamos aquele livro na bolsa pra uma leitura no meio do caminho, sempre  temos um livro ao lado da cama pra ler antes de dormir.

A coleção é muito eclética, livros acadêmicos de ciências humanas, livros com temática racial, literatura em geral, poesia, quadrinhos e agora, livros infantis. Nossa biblioteca vem crescendo rapidamente no setor de livros infantis. As meninas já tem vários livros e é uma lindeza ver nosso amor por livros passando pra elas também.

Escaravelho do diaboEu sou daquela geração que cresceu lendo a Coleção Vaga-lume, que pedia livros de presente de aniversário e de Natal e que devorava cada um com tanta vontade que não se saciava com aquela leitura e logo precisava iniciar outro. Nessa época, morava longe da civilização (em um bairro distante de tudo) e infelizmente não tinha muito o hábito de frequentar bibliotecas. Coitado do bolso dos meus pais! Comprava a maioria dos meus livros, alguns poucos eu pegava emprestado com as vizinhas que me introduziram no mundo da leitura.

Quando me mudei pra civilização (sério gente, eu morava numa vila no meio do mato), meus pais me matricularam numa escola tradicional do bairro em que morávamos e, apesar do meu excelente boletim da escola anterior, eles teimavam em achar que eu teria dificuldades porque a escola exigia 4 leituras complementares por ano. Nessa época eu já lia uns 12 livros por ano. Vendo hoje, em retrospectiva, sinto que rolou aquele preconceito básico que a gente já conhece bem: “como essa neguinha vinda lá de longe vai conseguir acompanhar o ritmo da nossa escola? No mínimo tinha notas boas por estudar em um colégio fraco. Não vai dar conta de se sair tão bem aqui“. Olha o racismo aí, gente! Dei conta  perfeitamente e no ano seguinte queriam me colocar na turma especial. Mas essa história fica pra uma outra oportunidade. O que eu quero falar mesmo é sobre o quanto eu gostava/gosto de ler.

Nos anos seguintes, comecei com a fase Agatha Christie e ler os livros dela era o meu objetivo de vida. Comprava em qualquer banca, uma belezinha. Sidney Sheldon, romances históricos em série ( tipo, Memórias de Cleópatra, Os Incas, Ramsés…), as histórias de Sherlock Holmes, os clássico da literatura nacional (Machado de Assis, José de Alencar…) literatura policial noir (Raymond Chandler, Chester Himes) enfim, eu lia muita coisa e coleção só ia crescendo.  Escolhi uma graduação na área de humanas e com isso a quantidade de leituras aumentou ainda mais e meus horizontes definitivamente se ampliaram.

Foi só há pouco tempo, praticamente depois de formada, que comecei a ler literatura produzida por autores negros ou africanos, busquei por temas que eu pudesse me identificar mais e conheci Mia Couto, Richard Wright, Alex Haley, Alice Walker, Toni Morrison, Carolina Maria de Jesus, Paulina Chiziane e – minha diva – Chimamanda Ngozi Adichie, entre muitos outros.

E foi nesse movimento em busca de uma leitura que me trouxesse mais identidade, que antes eu só conseguia com os romances históricos, que eu comecei a problematizar a ausência de personagens negros nas minhas leituras de infância. O único personagem negro que eu consigo me lembrar é O Menino Marrom, do Ziraldo, apesar de não ter tão boas recordações do livro.

Antes mesmo das meninas nascerem comecei a me interessar por literatura infantil com temática afro, porque estava determinada a proporcionar desde cedo a elas uma leitura que lhes permitisse uma identificação imediata e que fosse instrumento para a elevação da autoestima delas. Queria livros sobre princesas negras, sobre cabelo crespo. Livros que valorizassem nossa identidade racial.

A biblioteca das minhas filhas

Então, chegamos no ponto principal do texto: a biblioteca das curicas. As meninas hoje já têm uma respeitável coleção de livros. Alguns ainda muito complexos pra idade delas, ficam guardados junto com os nosso livros. Outros, ficam em um cantinho exclusivo pra elas, onde elas podem pegar sempre que quiserem. E elas adoram manusear os livros! Isha20150328_002426 Bentia os folheia com cuidado, como se estivesse lendo de fato. Mini Bentia também, mas de vez enquanto rasga um ou outro. Faz parte! O livro com as histórias que o pai conta antes de dormir, ela já sabe colocar na página das suas histórias favoritas. No outro, ela mesma conta a história de Oyá, Ogum e o búfalo pra quem quiser ouvir. No outro, ela vê as princesas negras na capa e fica falando “essa é você mamãe, essa é a Mini Bentia, essa sou eu…”. E toda essa identificação com os personagens que ela vê não tem preço. Ver o seu cabelo, sua estética, sua cultura representada, olhar para uma personagem e se identificar imediatamente não tem preço.

Eu não posso afirmar que elas vão crescer gostando tanto dos livros quanto elas gostam agora. Mas sei que elas vão crescer sabendo que elas não são uma exceção por serem negras, por terem cabelos crespos. Sabendo que são negras, que têm cabelo crespo, que existe uma religião de matriz africana com deuses e deusas bem diferentes do Deus que todo hora é citado na TV, que existe um lugar chamado África de onde vieram seus ancestrais e onde vive muitas pessoas negras como a gente.

(In)felizmente doei toda a minha Coleção Vaga-lume. Adoraria que minhas filhas pudessem se deliciar com os livros que eu li. Mas também sei que cada um tem o seu tempo e a sua história, e que elas precisam também descobrir o mundo através de seus próprios livros. E ainda tá cedo pra isso, vai que na época delas relançam a coleção e elas passam a curtir também?

A gente segue comprando livros, mas também doamos livros que não vamos mais ler. Livro é pra circular. Elas ainda são pequenas, mas o próximo passo é ensiná-las a circular com o livros, doar os que não interessam mais para que outras pessoas possam aproveitá-los. Assim, além de ajudar alguém elas liberam espaço para novos livros.

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