Postado em 10 de abril de 2015 por Lu Bento

A Xuxa postou uma foto em seu facebook com uma camiseta com uma campanha contra o racismo. Não é de hoje que ela é questionada sobre a ausência de paquitas negras. Eu, que nunca pensei que falaria sobre Xuxa aqui, faço uma carta aberta a ela.

xuxa

Xu,

Bora falar sobre a ausência de paquitas negras?

paquitas1

Cresci vendo os seus programas. Cresci dançando as suas músicas. Cresci achando que ter o cabelo longo-loiro-liso era uma das maravilhas do mundo. Cresci achando que aquelas meninas de cabelo longo-loiro-liso do seu programa eram as mais lindas, eram as mais felizes.

Cresci vendo o quanto eu era diferente de tudo aquilo. Cresci preta, com o cabelo curto e crespo.

Paquitas2

Você e a imagem que o seu programa sempre passou contribuíram muito para a minha formação. Ajudaram a formar a baixa autoestima de milhares de meninas negras. Foram importantes para que as meninas negras percebessem que nosso lugar não é na TV.

Agora você vem vestir uma camiseta, fazer carão de indignada e dizer que não precisa ser negro pra lutar contra o racismo. Deve ser fácil pra você lutar contra algo que você ajudou a construir durante tantos anos.

Ao mesmo tempo que eu crescia aprendendo contigo “o meu lugar” na sociedade, um monte de gente não-negra cresceu aprendendo contigo a nos discriminar e excluir.

Não sei o que te levou a vestir essa camiseta e tirar essa foto, mas será preciso mais que isso para que todas as gerações que foram influenciadas negativamente pelos seus programas possam captar essa mensagem.

Além disso, seu poder de influencia está cada vez menor. Só uma foto com uma camiseta contra o racismo não apagará o que anos e anos de programa diário em TV aberta construiu.

Bora então falar sobre a ausência de paquitas negras?

Em uma conversa com alguns fãs, você foi questionada sobre isso e atribuiu a culpa à Marlene Mattos. Xuxa, foi muito feio isso. Você é uma mulher. Uma senhora. Você era uma mulher adulta na maior parte do tempo que você apresentou seus programas. Não tente nos fazer crer que você não concordou com tudo isso. Você não era simplesmente um fantoche nas mãos da sua diretora. Não tente atribuir exclusivamente a uma mulher preta a culpa pelo show de racismo que você apresentava na tv. Assuma suas atitudes e não se esconda atrás de uma mulher preta porque o tempo todo você teve oportunidade de fazer escolhas e de mudar. Se não o fez foi porque não quis.

Além disso, cada vez que você responde com irritação e rispidez esse tipo de pergunta e atribuiu a culpa à uma mulher preta, você tenta reforçar a ideia de que a culpa do racismo é dos próprios negros. É assim que você pretende combater o racismo?

“Olha, não somos racistas, tenho até uma escrava assistente de palco negra!”

Ah, mas você colocou uma mulher preta no seu programa. Bora falar sobre o que foi aquilo de colocar uma mulher preta no programa mas não como paquita?

paquitas e bombom

Porque tudo isso é bem importante. Numa tentativa de aplacar as críticas o seu programa passou a contar com a participação de uma mulher negra, que não podia ser considerada paquita e claramente foi diferenciada nas roupas, no tratamento, nas atribuições no programa. No status. Uma mulher negra que toda hora era mostrada de forma sexualizada, estereotipada, que era exibida o tempo todo para “provar” que vocês não eram racistas. “Olha, não somos racistas, tenho até uma escrava assistente de palco negra!” A Bombom foi colocada lá para ser um “cala boca” nessa questão. E piorou ainda mais a situação.

Não é só a imagem de uma pessoa pública que importa, são suas atitudes. Talvez por isso, por essa distância entra a imagem e a atitude, várias pessoas que cresceram te vendo na TV não deixam seus filhos chegarem perto de nada que leve a sua marca.

A gente pode tentar dizer que tudo que você foi ou representa não imppaquitas negrasorta, e hoje realmente não importa para as novas gerações. Mas para as crianças de antigamente foi preciso várias iniciativas de representatividade pra que a imagem que você criou fosse desconstruídas. Ano passado, por exemplo, numa exposição de fotos sobre identidade negra, a foto com meninas negras com roupas de paquita foi uma das mais divulgadas.

Não posso deixar que minhas filhas cresçam influenciadas pela realidade excludente e racista dos seus programas, filmes e DVDs. Tenho orgulho em dizer que as meninas sequer sabem quem você é ou foi.

Bora falar sobre essa campanha contra o racismo?

Você já é uma senhora. Já tem maturidade pra saber se tem cabimento ou não o que te mandam fazer. A desculpa de que foi o  assessor/diretor/empresário que decidiu isso não vai colar. Pode perceber sozinha o papel ridículo que você faz ao  participar de uma campanha contra o racismo sendo o simbolo do racismo contra meninas negras dos anos 80 aos anos 2000.

Não que sua opinião seja hoje tão importante quando era antigamente. Mas, querendo ou não, você fez parte da minha infância e da infância de milhares de meninas negras que hoje são mães e outras meninas e meninos negros. Será que não é a hora de assumir sua culpa nisso tudo? Será que não é a hora de falar abertamente sobre a questão? Sua negação e irritação quando se entra nesse tema só nos faz perceber o quanto você sempre concordou com a ausência de paquitas negras no seu programa.

Quer realmente combater o racismo? Faça direito a sua parte.

De uma mãe preta.

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