Postado em 27 de maio de 2015 por Lu Bento

Mini Bentia tem  olhos claros. Não claros de verdade, talvez cor de mel. Um pouco mais claro em  comparação com os meus olhos e os olhos da irmã. Infinitamente longe de serem “olhos claros”. Mas ainda sim essa é uma característica de chama a atenção de algumas pessoas.

É impressionante como  um certo padrão de beleza nos é imposto e fica impregnado em nós. Porque ainda valorizamos tanto as características eurocentricas em detrimento da nossa africanidade?   Confesso que me sinto bem incomodada com essa super valorização de um padrão de beleza que nada tem a ver com a gente. A ponto de não considerar a beleza como um atributo importante nas pessoas.

As crianças crescem buscando se adequar a esse padrão, seja por incentivo dos pais e familiares que vivem falam mal de traços que ressaltam nossa ancestralidade africana ” que menino beiçudo!” “Olha essa carapinha!”, seja pelos exemplos que vemos o tempo todo na mídia, que raramente mostra pessoas negras associadas à idéia de beleza.

Os meus olhos coloridos

Quando eu era mais nova, usei lentes coloridas  durante um tempo. Uma passagem que um amigo costuma sempre lembrar é que um diretor da faculdade um dia me olhou e elogiou meus “olhos claros”. Eu imediatamente respondi que eram lentes de contato e o tal diretor ficou super sem graça.  Quer dizer que o que era bonito em mim, digno de elogio era o que me aproximava fisicamente do padrão branco? Ah, vá! Não tô aqui pra fazer coro nessa doidera de que é preciso embranquecer pra ser belo. Muito menos minhas filhas!

Um dos motes deste blog é trabalhar a autoestima. A minha e das meninas. Eu usei lentes coloridas porque a gente pode e tem o direito de mudar esteticamente como a gente quiser. Mas em momento algum eu desejei que meus olhos fossem daquela cor. Não era  porque eu queria ter olhos claros. O que eu queria era me libertar de padrões, queria ousar, experimentar coisas novas, deixar de ser convencional. Não me sentia especialmente mais bonita com as tais lentes, só me sentia diferente, quebrando um padrão e isso era importante pra mim no momento.

Valorizando a nossa negritude

Não gostaria que minhas meninas crescessem desejando ser algo que elas não são. Pior ainda será se Mini Bentia crescer com todo mundo ressaltando nela só seus traços mais “brancos”.  Porque entre nós, negros, não podemos ressaltar “ela tem lábios grossos!” “Ela tem o cabelo bem crespinho!” como qualidades? Como signos de beleza?  Sem dúvida a mudança começa por nós mesmos. A partir do momento que reconhecemos a beleza dos nossos traços, criamos a base para que nossos filhos também se reconheçam bonitos.

E graças aos novos tempos hoje todo mundo pode ser produtor de conteúdo e transmitir a sua mensagem.  tem um monte de blogueiras negras  e youtubers por aí falando sobre moda, cabelo, maquiagem e tirando a beleza negra do gueto na qual nas grandes mídias a colocaram. Não somos exóticos.

olhos clarosVoltando aos tais olhos claros de Mini Bentia, lógico que eu mesma já fiquei reparando que Mini Bentia tem os olhos um pouco mais claros. Mas toda vez que me peguei reparando nisso, imediamente temo estar estimulando uma visão de que olhos claros são melhores.  Uma coisa é constatar um fato e outra completamente diferente é valorizar uma característica em detrimento de outras. Bom mesmo é desapegar desses padrões de beleza que tentam nos impor uma determinada noção de beleza e focar em elogios que vão além simples idéia estética, como o que Isha Bentia sempre recebia ” ela tem o olhar expressivo!”. Sobre os olhos de Mini Bentia? Prefiro dizer que ela tem o sorriso no olhar.

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