Postado em 9 de março de 2016 por Lu Bento
aldeia2 O provérbio africano que dá título ao post tem me acompanhado de diversas formas ao longo da maternidade. Primeiro porque eu me sinto muito só em ter que criar minhas meninas longe dos nossos parentes e me preocupo muito em estabelecer uma rede de suporte em casos de emergência. E também porque sabemos que uma criança não aprende e se desenvolve só a partir dos valores da sua família nuclear, a criança se relaciona com toda a comunidade. E infelizmente as pessoas ainda acham que cada pai/mãe sabe o que é melhor pra sua cria e que não é problemas delas quando pais abusam da autoridade ou são omissos na educação dos filhos.
Mas  o que eu quero mesmo dizer é que esse proverbio se tornou ainda mais significativo para mim nesta semana. A Elidy Moreira, da marca de bonecas de pano Cria Criôla, criou uma coleção de marcadores de página e nomeou de Aisha. Sim,  o nome da minha aisha-marcadorcurica mais velha! E o mais fofo: foi em homenagem a minha curiquinha! Não é lindo?  Mais lindo ainda é ver a amizade que as duas construiram, ver a afinidade que elas desenvolveram a ponto da Aisha preferir dormir no colo dela invés de ficar com os próprios pais quando estamos em algum evento trabalhando.
Esse é um vínculo muito bonito, sincero.  É reconfortante ver que a Aisha está construindo referenciais para além dos limites da parentela, que ela se inspira em outras pessoas fora do núcleo familiar e que ela, com 3 anos, já estabelece laços de amizade consistentes e acaba  trazendo novas pessoas ao nosso círculo de amizades. Porque a Elidy, a Tia Iemanjá como ela chama, é um contato que surgiu pra nós a partir da aproximação da Aisha com ela.
Tudo isso me fez refletir sobre a importância dos laços que as nossas  crianças estabelecem com outros adultos, a importância do vinculo que nossas crianças estabelecem com outros adultos independente da relação que os pais tem com essa pessoas.
Quando as nossas crianças enxergam referências positivas em outras pessoas, quando nossas meninas olham pra outras mulheres e as admiram, de uma forma totalmente diferente do modo como se dá a admiração da relação filha-mãe, é nesse momento que a gente está formando a nossa aldeia.
Perceber que um adulto de fora pode influenciar e pode ser tão importante na vida de uma criança, e que este pode ser um adulto que nem tem uma convivência cotidiana com essa criança é refletir sobre o lugar que nós ocupamos na formação de crianças negras com uma boa autoestima.
boneca negra e meninaOutro caso que me remeteu ao provérbio africano nesses últimos dias foi o de uma mulher que procurou pra contar que queria muito dar uma boneca negra para sua enteada, também negra, mas que as pessoas em volta estavam contra. Essas pessoas consideravam que poderia parecer racismo dar uma boneca negra para uma criança negra. Sem entrar no mérito que fez a moça me procurar (porque vamos tratar desse assunto em outra postagem), o fato dessa mulher querer dar uma boneca negra para uma menina negra mostra uma disponibilidade para  fornecer àquela menina objetos com os quais ela possa se identificar. É uma demonstração de interesse e preocupação em oferecer  uma boneca que pode vir a ser um mega incentivo para a menina se reconhecer e se amar como ela é. Uma mulher de fora do núcleo familiar atuando para a elevação da autoestima de uma menina negra.

 A aldeia que a gente vive

Isso é aldeia! É quando a gente se importa em ver aquela outra criança crescendo bem, com a autoestima elevada, em segurança física e psicológica, sem sofrer abusos. É quando a gente toma pra si o compromisso de colaborar que que outras crianças cresçam bem, sem se importar com as barreiras de parentesco que às vezes nos intimida e nos impede.  Todos nós somos responsáveis pela criação e pela autoestima de crianças negras. Todos nós! Inclusive você, pessoa branca que lê esse texto!
“Ah, é filho dos outros, isso não é problema meu!” É problema nosso sim! Quando eu me aldeia1arrumo, quando eu cuido do meu cabelo, quando eu escolho um brinco legal, quando eu dou um sorriso pra uma criança negra que está me olhando na rua, admirada com a minha aparência, eu estou ajudando a fortalecer a autoestima de uma criança negra. Principalmente de uma menina negra que me vê como um espelho, que projeta o seu futuro a partir da minha imagem.
Não é tão difícil assim formamos a nossa aldeia.  Agimos como uma aldeia quando, por exemplo, impedimos que pais agridam fisicamente seus filhos. Quando sorrimos  para uma criança que fica encantada vendo o nosso cabelo black ou aquele turbante superproduzido. Quando elogiamos o penteado, a textura do cabelo de uma menina crespa que está passando na rua. Quando defendemos uma criança ou adolescente que está sendo alvo de racismo/intolerância religiosa mesmo sem ter qualquer relação com essa criança/adolescente.
Somos uma aldeia quando reforçamos positivamente a negritude de crianças e jovens e quando rechaçamos publicamente qualquer ato discriminatório que essas crianças e jovens são alvos. E nessa aldeia, nossas crias podem caminhar com segurança, podem construir seus vínculos e descobrir suas referências.
É preciso uma aldeia para educar uma criança. Sejamos essa aldeia em nosso dia a dia.

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