Postado em 17 de março de 2016 por Lu Bento

Hoje resolvi listar algumas coisinhas que a gente vive  e faz que estão relacionados a maternidade preta. Costumo pensar a minha maternidade, e a maternidade das mulheres negras em geral, como uma maternância.  Porque tudo que a gente faz no processo de criar filhos nessa sociedade racista, de modo que nosas crias saibam o seu valor e saibam se posicionar no mundo são também atos de militância, por mais anti-militante que a mãe seja.

Ser mãe preta é…

…saber que sua cria sofrerá racismo em algum momento da vida, e você nada pode fazer pra evitar que isso aconteça.

…ouvir por aí que é uma bênção que sua cria tenha nascido com o “cabelo bom“.

…saber que, mesmo que determinadas doenças preexistentes sejam mais recorrentes na população negra como a hipertensão, ninguém tem o direito de dizer que você não deve ter filhos por causa disso sem prévia avaliação médica.

…ser considerada a babá se sua cria nasce com uma tonalidade de pele mais clara.

…estar mais vulnerável a sofrer violência obstétrica porque os médicos acham que você é naturalmente “forte”, não deve ficar reclamando de dor.

…recomendar sempre ao seu filho sair com a carteira de identidade, mesmo se for logo ali na esquina, e se possível, com alguma outra carteirinha de escola, de clube, de qualquer outra coisa que ele frequente que  possa sinalizar pra polícia em caso de dura que ele não é bandido.

 

… Ouvir questionamentos sobre quando você vai passar química no cabelo a suas crias: “é uma maldade deixar a criança com os cabelos assim desse jeito!”

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…saber que seu menino deixa de ser visto como uma criança  pela sociedade por volta dos 5 anos e passa a ser visto como uma ameaça, um criminoso em potencial.

 

…saber que é preciso ensinar a sua cria a se amar com mais dedicação que outras mães não-negras, porque a sociedade estará o tempo todo ensinado suas crias a se odiarem.

 

… ensinar seus filhos a evitar falar com mulheres brancas na rua, inclusive para pedir informações, porque podem ser imediatamente considerados bandidos, sem sequer uma chance de provar que não é.

 

… ter que ouvir de um médico em plena ultrassonografia de uma gravidez de risco que você deveria fazer um planejamento familiar, sem que essa pessoa sequer saiba nada da sua vida e do seu planejamento familiar.

 

…ouvir inúmeros comentários sexistas e racistas se você engravida “cedo”.

 

…precisar ensinar pras crias a “parecer inocente” mesmo sendo inocente.

 

 

…sentir uma felicidade enorme quando sua filha se reconhece em alguém na TV, numa revista, num outdoor: “olha mamãe, ela é pretinha igual a gente!”

 

… precisar explicar pras crias que nem tudo que seus amiguinho brancos fazem, ela deve fazer também. Explicar que a culpa sempre cai em cima dos negros, que a punição para os negros é sempre mais rigorosa e cruel.

 

…saber que a professora demonstrará mais afeto pelas crianças brancas da turma e que sua cria vai precisar de uma atenção a mais pra lidar com essa sutil rejeição.

 

… empoderar cotidianamente nossas crias para que elas possam enfrentar o mundo.

 

…saber que qualquer falha de seu filho negro será lido como um crime que deve ser punido, e que se fosse um jovem branco seria algo que precisa ser tratado, educado.

 

… saber que você vai passar por louca e não terá o apoio da maioria quando você denunciar alguma situação de discriminação na escola das crias.

 

…buscar referências em todos os lugares possíveis para que suas crias se inspirem e vejam que podem alcançar todos os seus sonhos.

…é receber dicas de “como deixar o nariz das suas crias mais fininho”.

 

… Ouvir de suas crias questionamentos do tipo “porque eu sou negro?” ” porque as pessoas não gostam de negros?” “Porque meu cabelo é crespo? ” e saber que tudo isso está embutido de um sofrimento enorme, não são só curiosidades infantis, são verdadeiros desabafos.

 

…correr meio mundo pra achar um livro que tenha um personagem negra ou negro para que sua cria se identifique, porque não são tão fáceis de achar nas grandes livrarias.

 

…acolher suas crias que sofrem discriminação por seguirem uma religiosidade de matriz africana.

 

…consolar as crias que foram preteridas na formação de parzinho da festa junina.

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…saber a diferença que faz para sua filha ganhar uma  boneca negra de presente.

…saber que se seu filho adolescente curte funk, ele será automaticamente lido pela sociedade como bandido, diferente do que acontece com um adolescente branco.

 

…saber que se sua filha negra adolescente engravida ela terá ainda menos oportunidades que uma adolescente branca grávida. E sofrerá ainda mais julgamentos e preconceitos.

 

… saber que seu filho sempre será visto como marginal e como o culpado em alguma situação, mesmo que o contexto deixe explícito a pouca probabilidade de envolvimento da sua cria na situação.

 

… ser alvo de racismo em consulta pre-natais por aqueles que deveriam nos acolhe e nos dar suporte.

 

…ter que aturar sempre alguém sugerindo prender o black da sua filha, mesmo sabendo que ela e você acham que o cabelo fica muito mais bonito solto. “Porque assim ela fica mais bonitinha, arrumadinha

 

… receber a sugestão de esterilização definitiva após o segundo filho. “Depois desse vamos ligar né?

 

…ser lida como invariavelmente como promíscua se seus filhos têm país diferentes.

…ensinar seu filho negro a observar, quando está na rua, onde estão os policiais e a movimentação deles, para que ele não fique muito perto nem demonstre medo exagerado. Qualquer contato visual um pouco mais prolongado ou temeroso e seu menino leva uma dura.

 

… ensinar sua filha a se defender em transportes públicos lotados daqueles abusadores que acabam que “não pega nada dar uma roçadinha nessa negrinha

 

… saber que redução da maioridade penal é um ação que visa atingir diretamente os jovens negros.

 

…saber que suas crias podem ser as únicas pessoas negras nos espaços que elas frequentam e que isso pode resultar em  uma invisibilidade nesses espaços.  É a professora que não escuta especificamente a pergunta deles, é a diretora que ignora as denúncias de racismo, são os colegas que os excluem das brincadeiras, das tarefas em grupo…

 

…preparar seus filhos  adolescentes a agirem com serenidade quando a polícia parar um ônibus e só revistar as pessoas negras, os homens negros.

 

… ensinar quando é prudente reagir ao racismo e quando pode ser um risco concreto a sua vida.

 

…não encontrar nas grandes lojas uma mochila sequer que tenha um personagem negro par que suas crias se identifiquem.

 

…trocar um sorriso cúmplice  felicidade quando encontramos outras mães pretas em ambiente predominantemente brancos.

 

… ser espelho para suas crias. Nosso visual, nossa postura diante da vida, nossa relação com a nossa negritude são observadas e aprendidas pelas crias.

 

… ensinar, em pleno século XXI, que é preciso ser duas (três, dez…) vezes melhor que os outros para que o nosso talento prevaleça ao preconceito.

 

…saber que a maioria das crianças disponibilizadas para adoção são crianças negras como as suas crias, e por esse motivo são rejeitadas pela maioria dos pretendentes à adoção.

 

… sentir um aperto no peito cada vez que uma criança negra como as suas para no sinal para pedir esmolas ou vender coisas para sobreviver.charge- risco de morte

 

…saber que o índice de mortalidade de jovens negros é muito maior que de jovens brancos.

…saber que a gente nunca está suficientemente preparada quando uma situação de discriminação racial acontece, por mais que a gente tente antever e se prevenir.

 

…saber que todos esses desafios se somam aos desafios da maternidade em geral.



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