Postado em 16 de abril de 2016 por Lu Bento
Quando uma criança nasce em uma família, ainda mais em uma família que já não tem convivência frequente crianças, todos se sentem na obrigação  de “ajudar” ou de “ensinar” os pais a educarem esse novo membro da família. Se essa prática já é invasiva e inconveniente quando parte de pessoas distantes, imagina quando parte de pessoas que teoricamente deveriam tornar tudo mais tranquilo para os novos pais.
Eu sei que nem sempre a família interfere com más intenções. A questão é que as decisões sobre o modo de criação dos filhos cabe primeiramente ao país, e estes precisam de autonomia para exercer essa função de criação e educação de suas crias de acordo com seus valores.  Não adianta um tio tentar impor seu modo de agir diante de uma situação, aquela criança não está sob sua responsabilidade. Um avô ou avó não podem exigir que os filhos imitem exatamente os seus passos. A chegada dos netos não é uma repetição da sua própria história.
Esse limite entre participar e impor o seu modo de vista deve ser observado pelos parentes. Cara criança é uma nova história. Em geral, as pessoas não têm filhos pra simplesmente reproduzir o modo como foram criadas. Avós não conseguirão, interferindo na criação dos netos, corrigir possíveis erros do passado na criação dos próprios filhos. Muito menos “ensinar” seus filhos a educar seus netos da maneira que eles acham ser “o certo”. Educar é um processo relacional e depende de toda a bagagem de conhecimento de cada indivíduo. A minha maneira de educar não será igual à sua por mais que a gente compactue de valores e de experiências de vida.
Avós negros
E é por esse motivo que  nem sempre os progenitores concordam na maneira de conduzir uma determinada situação que envolva os filhos. E aí, ou um deles cede ou rola um longo debate pra que se chegue a um consenso.
Uma das coisa que mais me desafia é saber o momento e a maneira de dar limite aos parentes que insistem em tentar impor seu modo de pensar. Principalmente quando essa opiniões envolvem questões raciais. Nem todos as pessoas da família tem a mesma compreensão sobre a importância de fornecer ferramentas para a formação da autoestima da criança de desde pequena. Muitos ainda tem uma visão romântica do racismo no Brasil, acreditam no mito da democracia racial ou simplesmente não enxergam o quanto pequenos gestos são importantes para a formação de uma criança que sabe e valoriza as suas origens.
Um dos pontos que eu mais encontro resistência na família é sobre a necessidade das meninas terem majoritariamente bonecas negras. Já teve gente dizendo que isso poderia ser racismo inverso, ou levantando a bandeira de que as meninas precisam ter bonecas brancas sim. Outros, sempre insistem em perguntar se a próxima será branca, já que elas já possuem muitas bonecas brancas.  Eu e meu marido acreditamos que elas precisam se enxergar em seus brinquedos e que bonecas brancas elas já ganharão de todas as pessoas brancas com que elas convivem, porque então as pessoas negras precisam ficar tão preocupadas em garantir a presença de bonecas brancas por aqui.
E aquelas sugestões para alisar o cabelo das crias? Quem nunca ouviu isso de alguém próximo? Ou insistindo para sempre prender o cabelo da criança, como se por ser crespo o cabelo da menina não pudesse ficar solto. Ou aquelas indiretas de que o cabelo do menino tá grande, que já pode raspar que não doí nada, que ele fica mais bonito com o cabelo crespo raspado, que cabelo grande parece crianças mal-cuidada. Que atire a primeira pedra quem nunca passou por esse tipo de interferência de parentes, sejam eles próximos ou distantes.
São muitos pontos de divergência que temos  com relação aos nossos parentes e muitas vezes o respeito que temos por nossos pais e avós nos impede de dar uma resposta mais direta e definitiva a algumas questões. Mas de qualquer forma, precisamos desenvolver métodos para que nossas ideias prevaleçam e sejam respeitadas. Um desses métodos é a sintonia entre os pais da criança.
E eu não falo tudo isso no sentido de que os pais estão sempre certos, claro que não. Na realidade estamos errados muitas vezes, mas precisamos desses erros para aprender e ganhar maturidade e segurança. Eu posso tentar combater o racismo impedindo que minhas filhas vejam desenhos animados com as princesas, por exemplo, e minhas filhas ficarem extremamente infelizes  e com raiva dos pais por serem as únicas crianças do círculo de amizade delas que não pode ver Frozen. Isso pode acontecer. E a gente precisa ter consciência que nossas decisões e escolhas tem consequências.

Quando os parentes interferem na educação

Tudo que foi dito antes pode ser contornado relativamente bem, sem grandes comoções familiares. Mas, e quando os parentes interferem de fato na educação das crianças, desautorizando os pais? Aí a coisa fica série, e a gente precisa cortar para que a criança não fique sem referência de autoridade.

Quando um terceiro, por exemplo, impede um dos pais de corrigir a criança quando esta faz algo errado, tentado minimizar a desobediência da criança e evitar a correção, esse tipo de interferência desautoriza dos pais. Se o combinado com a criança é não colocar o sapato na cama, em qualquer cama, isso precisa ser respeitado. Não pode um tio, avô ou primo chegar, falar que não tem problema nenhum nisso e não deixar os pais orientem a criança a fazer o combinado entre eles.

Pior ainda é quando um dos pais corrige a criança, a criança reage com choro e os avós reclamam na frente da criança com o responsável pela bronca. Além de ser uma invasão na dinâmica de educação desta família, é uma forma de fomentar o desrespeito dos netos pelos pais. Se não é bom que nos pais discordem da criação das crianças na frente delas, que dirá se os avós brigam com os pais pela forma de educar na frente das crias.

Quando os pais e as crianças combinam determinadas regras e os parentes deliberadamente às rompem, quando por exemplo há uma proibição em comer doces durante a semana e os parentes fazem questão de dar os alimentos proibidos  naquelas dias para as crianças, deliberadamente rompendo as regras e ainda pedindo segredo para as crianças. Além de ensinar que as crianças não devem respeitar o combinado com os pais, ainda ensinam a fazer coisas escondido.

Existe um ditado que diz “O papel dos pais é educar os filhos, o dos avós é estragar os netos!”. Tem familiares que levam muito a sério essa frase. O estragar deveria ser proporcionar aos netos pequenos atos de rebeldia, escapulidas perdoáveis  e não permitir e estimular os netos a cometerem atos que causem prejuízo à autoridade dos pais. Porque determinadas atitudes acabam forçando os pais a limitar o convívio dos  avós com o netos para que os primeiros não “estraguem” os pequenos.

Tem jeito?

Os psicólogos falam que o jeito é conversar. Uma conversa franca, expondo aos seus parentes seus pontos de vista e permitindo um certa flexibilidade às regras. Se está difícil conversar, ignorar os conselhos não pedidos e fazer do seu jeito pode ser uma opção, mesmo que seja super chato ter que ficar ouvindo um monte de orientações que não lhe interessam. Pequenas indiretas, também pode funcionar com aqueles parentes um pouco mais atentos, que interferem inocentemente na educação, sem sequer perceberem que estão sendo invasivos.

avó negra - parente

Outra dica, para os avós e parentes mais velhos que as pessoas veem como avós, é um site que eu conheci através do projeto 100 meninas negras, o site Avosidade. Lá eles falam sobre a relação entre avós e netos e falam muito sobre qual é o papel dos avós nesse contexto familiar. Importante para que avós repensem suas práticas e seus pais e se vejam mais como parceiros dos pais na educação, sem a obrigação formal de educar os netos, mas como apoio para que os pais busquem conselhos e ajudas em situações pontuais.

Aos outros parentes mais distantes, uma boa conversa pedindo para não interferirem ou reforçando seu ponto de vista pode ser o suficiente. Mas nunca se sabe. O jeito mesmo é tentar reforçar ainda mais com os filhos a importância deles respeitarem o combinado pela família nuclear. Assim, pelo menos, temos a esperança que as próprias crianças rejeitem escapulidas propostas pela família ou entenda que determinada interferência dos parentes em sua vida é inadequada.


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