Postado em 4 de maio de 2016 por Lu Bento
diversidade ideologica
Esta cena se passou em nossa casa, durante a cobertura das manifestações contra o golpe e afagar da manutenção da presidente eleita democraticamente.  Uma pessoa logo comentou que Isha Bentia era “do contra”. Minha mãe afirmou que ela é igualzinha mim quando pequena, “do contra”. Resolvi refletir um pouco sobre o que é ser do contra.
De fato, quando pequena eu não acompanhava a maioria das decisões dos meus familiares. Sempre busquei ter uma opinião própria. É sempre fui tachada de “do contra”. Lembro de uma vez em que escolhemos a cor do carro que estávamos comprando, todos tinham escolhido a cor mais clara. Eu optei pela mais escura. No final das contas a cor mais clara estava indisponível e acabou sendo a cor que eu havia escolhido. Posteriormente, a cor que eles escolheram deixou de ser fabricada por baixo volume de vendas. O interessante é que a cor que eu escolhi se mostrou muito mais funcional para o carro, melhor para a revenda, acompanhou a tendência de cores mais sóbrias para carros que existe no Brasil… Enfim, foi uma boa escolha. Mas ninguém reconheceu de fato o mérito da minha escolha, só ficou pra história que eu fui – e sou – a do contra.
Minha família nuclear é toda de exatas. Pai engenheiro, mãe química industrial, irmão engenheiro. E eu decidi seguir para humanas. Socióloga. Mais uma vez eu optando em ser do contra. Sou de esquerda e eles de direita. Moro em São Paulo e eles odeiam essa cidade. Se a gente for parar para refletir, em muitas coisas minha família nuclear de origem aponta para um lado e eu para outro.
Não sei se eu era mesmo do contra quando criança. Mas sei que a prática em questionar e discordar da opinião dos meus parentes me fez uma pessoa com opiniões próprias. Me fez uma pessoa que reflete sobre os temas e se posiciona de acordo com suas convicções. E não alguém que tem medo de se posicionar na vida.
Minha filha hoje, aos 3 anos, sente liberdade e segurança pra discordar da opinião política da própria família. Não acho que ela tenha maturidade e informação para ter uma opinião formada sobre a situação política do país, mas ao menos ela tem liberdade para perceber que não precisa seguir os nossos passos se ela não quiser. Eu tive essa liberdade (mesmo sendo tachada de do contra) e ela também tem, dessa vez sem o rótulo.
Isha Bentia já demonstra desde agora que ela quer ter opiniões próprias, que as visões nos pais não a limitam no mundo. E a gente precisa perceber o quanto isso é libertador para a formação da personalidade dela. Porque ela sabe que pode experimentar coisas que nós, os pais, sequer pensamos como alternativas, e todos nós vamos nos adaptar a essa situação, cada um arcando com as consequências dos seus atos, sem culpabilizar os outros por suas próprias escolhas.
E que fique posto que eu não quero dizer que quem concorda com a opinião da maioria é alienado ou pouco inteligente. Nada disso. Só estou dizendo que é muito mais difícil discordar daqueles que amamos e que são nossa primeira referência. O que eu quero dizer, é que em um ambiente que valoriza o diálogo e respeita as opiniões, discordar de quem amamos e ser acolhida e respeitada é fundamental para que ela se sinta segura para discordar de qualquer outra pessoa sem medo de ser recriminada.

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