Postado em 1 de outubro de 2017 por Lu Bento

Estou prestes a realizar a minha primeira viagem longa sem as meninas. Pra quem viaja sempre, pode não ser nada demais. Mas pra mim, a proximidade dessa experiência está reativando aquele sentimento de culpa que se instala em todas as mães assim que começam a viver a maternidade.

Viajo para Espanha em outubro para participar da Gira por la Infancia, um grande encontro internacional sobre promoção da participação infantil no mundo. A proposta da viagem é incrível e eu fui convidada a participar devido ao meu projeto 100 meninas negras e todas as atividades que realizo em prol de uma infância sem racismo. É uma grande oportunidade pra mim e estou muito feliz em participar desse projeto.

 

Mas com a proximidade da viagem, eu preciso explicar para as meninas sobre esses dias que estarei fora ( 3  longas semanas!) e como será a dinâmica da casa enquanto eu estiver fora. Decidi começar a falar sobre isso com 1 mês de antecedência para que a gente fosse se adaptando aos poucos. Ao meu ver, seria bem traumático só falar com elas sobre isso na semana da viagem. Queria que elas estivessem envolvidas na preparação da viagem, ma arrumação das coisas e entendessem que essa é uma experiência boa para toda a família.

Aqui em casa temos uma parceria incrível no cuidados das meninas e sei que o pai vai dar conta direitinho da missão. Elas sentirão saudades de mim como pessoa, mas não por se sentirem desassistidas ou desamparadas e isso me dá mais segurança e tranquilidade para viajar. Mas também sei que a saudade vai bater de ambos os lados em algum momento e que não vai ser nada fácil lidar com os apelos de “mamãe, volta logo!” que eu vou ouvir.

Isha Bentia, com 5 anos, consegue compreender melhor e costuma lidar de uma forma bem madura com as frustrações. Ela fica calada, meio triste, mas parece entender quando a gente não consegue atender uma demanda dela. Mini Bentia, com 3 anos e psiciana de corpo e alma, chora sempre que se sente triste. Chora, pede pra gente voltar, abre um berreiro. Mesmo sabendo como ela age, sei que isso vi me abalar e reacender a culpa por estar longe. Não sou aquela mãe super apegada às filhas, que não consegue ficar um dia longe, mas o meu complexo de culpa bate exatamente n

a questão de priorizar algo importante pra mim em oposição a algo importante pra elas.  E essa viagem é uma grande oportunidade pra mim. Além disso, decidi ficar mais alguns dias na Espanha após  o encontro pra conhecer mais a fundo Madrid. Aí já viu né, podendo voltar antes pra casa eu vou ficar sozinha curtindo uma viagem enquanto marido e filhas seguram a onda.

Racionalmente a gente sabe tudo que provavelmente acontecerá, como cada um de nós vai reagir e como enfrentar a situação. Mas a verdade é que e bate um medinho de ficar tão longe delas. De não estar aqui para resolver o problemas, para acolher as meninas quando elas precisam.

 

Viajar sem filhos – a culpa da mãe

 

A verdade é que em nossa sociedade, a mulher é quem assume a maior parte (ou mesmo a totalmente) a responsabilidade de cuidados com as crianças. Então, para uma mulher-mãe viajar sem filhos deixando as crianças aos cuidados de outras pessoas é bem pesado. Primeiro porque você se cobra quando a necessidade de se afastar das crianças por um determinado tempo. Depois porque a sociedade te cobra quanto a isso.

Quantas vezes eu falo que estou prestes a viajar e alguém me pergunta ” E as menina, como vão ficar?” O primeiro pensamento de uma mulher-mãe que queira viajar é quem cuidará dos meus filhos. Se você planeja uma viagem, mas não tem essa resposta na ponta da língua será julgada e mal-falada. Como se nossa vida depois de ter filhos se resumisse a cuidar deles, tê-los sempre como prioridade, abdicar da nossa autonomia como ser humano para viver em função deles.

“É preciso uma aldeia para cuidar de uma criança” já diz o provérbio africano. A gente precisa se aproximar desse conceito como uma mantra e começar a responsabilizar os outros integrantes da nossa rede nesses cuidados. Mãe também é gente e precisamos do nosso espaço. Precismos existir para além da maternidade e essa existência deve ser construída na medida em que gente afrouxa as amarras com as crias. Elas precisam de laços fortes com outras pessoas da rede também.

Estou tentado levar numa boa essa minha primeira experiência de desatar os nós com as meninas e deixar que a minha rede cuide delas.

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