Postado em 17 de março de 2018 por Lu Bento
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Essa semana fomos devastadas com o assassinato de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, mulher negra, mãe, lésbica e favelada. A repercussão desse caso pode ser acompanhada na mídia em geral e em especial na mídia com um olhar de esquerda  ou da comunidade negra. Minha ideia não é falar sobre como esse caso afeta a gente, nem fazer um acompanhamento das investigações. Muito menos uma análise política e de conjuntura sobre os ganhos políticos com o ocorrido.  Esse texto é apenas uma forma de refletir sobre como podemos canalizar os nossos sentimentos e ações para o futuro.

Quando eu soube da morte de Marielle me senti muito mal. Chorei como se a conhecesse, sofri como fosse alguém do meu convívio mesmo sem nunca a ter visto pessoalmente. Tínhamos muitos pontos em comum: mulher, negra, socióloga, mãe, carioca. Ativismo. Militancia pelas mulheres negras.  Muitos amigos em comum. Marielle foi a primeira pessoa que me proporcionou o desejo de ir votar. O orgulho por uma candidata que me representasse. Doeu em mim perder um espelho de uma forma tão brutal.

Assim como eu, várias mulheres negras não tão próximas a ela, o que sequer se lembravam de ter ouvido falar seu nome se sentiram tocadas e essa dororidade é expressa nos milhares de textos disponíveis na rede. Mas o que me chama atenção é rever a história de Marielle e saber que ela se tornou essa grande referência política e ativista depois de uma experiência de perda. Marielle perdeu uma amiga vítima de bala na Maré. A partir de então, ela sentiu essa necessidade de se engajar nessa causa.

Em várias cidades dos país as pessoas foram às ruas, realizaram protestos, se mobilizaram e se uniram para exigir uma resposta do Estado à esse assassinato político e expressar o luto por perdemos mais vidas negras. Como sempre acontece em momentos marcantes e chocantes, formou-se uma onda de união e mobilização que domina todos as mentes e assuntos nos espaços. E isso nos fortace de alguma forma.

 

Caso Marielle e as crianças

Lógico que nossas crianças percebem tudo isso que está acontecendo ao nosso redor. Principalmente quando a maioria das pessoas com as quais elas convivem estão diretamente impactadas com o caso. Por isso, foi preciso explicar o que tinha acontecido e porque as pessoas estavam falando tanto sobre isso.

Cada criança se conecta com alguma coisa que a gente fala. Mini Bentia, minha curica mais emotiva, estava mais interessada em saber por que eu estava triste e tantas pessoas  chorando nas manifestações. O  sentimento de vazio era o mais a impactava diante da situação. Isha Bentia, por sua vez, estava querendo saber por que as pessoas estão tristes e só falavam sobre isso. E principalmente porque em todo lugar ficam falando “Marielle, Presente”.

Difícil demais ter que falar sobre política, assassinato e violência com crianças tão pequenas, mas ao mesmo tempo foi necessário compartilhar com elas de alguma forma o que estávamos sentindo e vivendo. Afinal, elas são duas mulheres negras em formação e tudo isso as atinge também.

Com a Mini Bentia abordamos o caso na perspectiva da perda e da necessidade de expressarmos o nosso luto de forma coletiva e estarmos próximos a outras pessoas quando perdemos alguém querido, por isso tantas pessoas nas ruas, tanto choro e tantos abraços. Com Isha Bentia, por ela estar em meio a uma greve das professoras da rede municipal contra as mudanças na previdência do social, falamos também sobre necessidade de protestar e lutar pelos nossos direitos, e que as pessoas vão para as ruas para que não aconteçam casos como esse novamente e para exigir que o poder público investigue esse assassinato.

Do luto à luta

Eu não consigo ir pra rua. A minha desculpa oficial é que eu tenho duas meninas, é muito difícil ir pra grandes protestos com duas crianças e sempre pode rolar uma confusão. É uma desculpa bem coerente e legítima. Mas a verdade é essa forma de transformar imediatamente o luto em luta me machuca. Já tive algumas experiências fortes de luto que me fizeram perceber que eu preciso externar esse sentimento. Que eu preciso viver o meu luto ao invés de tentar escondê-lo sob o manto de uma pretensa força. Não sou forte o tempo todo! Não dá.

Aprendi a não me culpar por não ser uma pessoa de rua. Aprendi também que a nossa luta é tão diversa e multifacetada que cada um tem sua missão nessa batalha. Talvez a minha missão seja falar com você, que também está em busca do seu modo de intervir na realidade,  mas está tão perdida quanto eu.

Uma frase frequente nesses momentos é que dizer que morremos um pouco com as pessoas queridas que se vão. E  aprendi com o luto que eu revivo a cada um que nos deixa, porque eu ganho a missão de manter aquela referência viva em mim. Não podemos aceitar que nos matem  pouco a pouco quanto tiram a vida de pessoas que nos inspiram.

Eu andava meio desestimulada em escrever aqui. Cansada e  sem motivação apesar de fervilhando de ideias. Mas a energia  vital de Marielle me alimentou com a vontade de continuar contribuindo com as pessoas do jeito que eu posso: escrevendo.

 

 

 

 

 

 

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