Postado em 20 de maio de 2018 por Lu Bento

Dia das mães passou, todos lembramos de nossas mães e de como a maternidade é linda e um grande ato de amor. Na mídia, comerciais e programas dedicados a mostrar as belezas da maternidade. Em contrapartida, temos uma onda de “maternidade real” ganhando cada vez mais espaço e adeptos e não faltaram críticas à falta de isonomia no mercado de trabalho, à romantização da maternidade e a sobrecarga feminina na criação dos filhos.

A realidade é que por mais diversidade que a maternidade real traga para o conceito de maternidade, ainda existem alguns temas que são tabu quando falamos sobre o assunto. E sinto que está na hora de começarmos a visibilizar sentimentos mais profundos relacionados à maternidade. É hora de olharmos para as mães. O que a mulher-mãe sente? Será que a maternidade foi uma escolha ou uma imposição? O que fazer quando  a maternidade se torna opressora? Esses e outras questões pairam os debates maternos mas ainda são pouco exploradas.

 

Maternidade em questão

Tornar-se mãe não é uma escolha totalmente livre. Somos o tempo todo educadas e condicionadas à reproduzir. O mito do instinto materno, a romantização da maternidade, a pressão do “relógio biológico”, a  crença de que precisamos de um filho que cuide de nós na velhice. Tudo isso exerce pressão para que a mulher “opte” por  se reproduzir. Em geral, mulheres não fazem filhos sozinhas. Mas toda a responsabilidade pelo novo ser recai sobre as mulheres, mesmo sobre aquelas que tem um “casamento perfeito, com um companheiro que está junto em todos os sentidos e que divide as tarefas”.

Não temos nossos direitos reprodutivos assegurados. Sabemos muito pouco sobre métodos contraceptivos, naturais ou farmacológicos. Sabemos menos ainda sobre nosso corpo, seus ciclos e seus sinais. Aprendemos a ter vergonha de perguntar sobre sexualidade e contracepção e todas as conversas e orientações que temos acesso nessas áreas são mediadas por valores tradicionais e/ou religiosos. “A mulher foi feita para procriar.” Somos o útero do mundo, corpos condicionados a reproduzir para a manutenção da espécie. E com isso, nosso direito de escolha e nosso poder de decisão não são considerados.

Escolher não ser mãe ainda é motivo de julgamento para as mulheres. Uma mulher sem filhos é vista como fracassada, como alguém que não consegue realizar a tarefa mais básica de uma mulher. Ou como masculinizada, uma mulher que prefere se dedicar mais ao trabalho, à realização individual. Nunca é uma escolha consciente de um ser que tem livre -arbítrio. Porque a idealização da maternidade está no inconsciente da sociedade e uma mulher que escapa a esse modelo idealizado é uma mulher que escapa, de alguma forma, ao controle social.

 

Maternidade 3.0

Com maternidade 3.0 eu quero propor um olhar mais real para a maternidade. Um olhar que compreende a maternidade como uma relação entre pessoas que pode não ser fonte de prazer e realização. E que perceba que essa relação pode ser muito frustrante, opressora e até fonte de um grande arrependimento.

Ser mãe pode ser tão devastador na vida de uma mulher principalmente pela carga de mudanças que a maternidade acarreta. São mudanças muito intensas e permanentes, de incalculáveis proporções e impactos.  Já aceitamos que o amor materno não é um sentimento intrínseco, instintivo e imediado. O amor de uma mãe por seus filhos é construído, e por ser uma construção, ele pode simplesmente não acontecer.

 

Dica de Leitura:

A dica de leitura de hoje é o livro Mães Arrependidas, da antropóloga israelense Orna Donah. O livro é uma pesquisa qualitativa sobre arrependimento materno na qual ela entrevistou algumas mulheres ( muitas delas já avós) que relatam um pouco sobre como é lidar com o arrependimento diante da maternidade e o tabu que é debater esse tema.

Livro maravilhoso para aprofundar nessas questões e vale muito a pena a leitura.

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