Postado em 18 de junho de 2018 por Lu Bento
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No Leituras Maternas de hoje um livro que fala de maternidade de uma maneira muito peculiar. É possível esquecer um filho? E um filho que não chegou a nascer? Confira o que eu achei do livro O que Alice esqueceu?, da autora australiana Liane Moriarty, e como foi a minha experiência de leitura.

 

O que Alice esqueceu?

O que Alice esqueceuAutora: Liane Moriarty

Editora: Intrínseca

Sinopse: Alice tinha certeza de que era feliz: aos 29 anos, casada com Nick, um marido lindo e amoroso, aguardando o nascimento do primeiro filho rodeada pela linda família formada por sua irmã, a mãe atenciosa e a avó. Mas tudo parece ir por água abaixo quando ela acorda no chão da academia. Dez anos depois.Enquanto tenta descobrir o que aconteceu nesse período, Alice percebe que se tornou alguém muito diferente: uma pessoa que não tem quase nada em comum com quem ela era na juventude e, pior, de quem ela não gosta nem um pouco.Ao retratar a vida doméstica moderna provocando no leitor muitas risadas e surpresas, Liane Moriarty constrói uma narrativa ao mesmo tempo ágil e leve sobre recomeços, o que queremos lembrar e o que nos esforçamos para esquecer.

 

Atenção: esse texto contém spoilers

O que Alice esqueceu? é um romance que me arrebatou logo de cara. Com uma linguagem simples e uma narrativa bem montada, Liane Moriarty nos transporta para a vida de Alice sob a perspectiva da própria, que acabara de cair e bater a cabeça. O começo do livro é essa confusão, não dá pra entender direito o que se passa e Alice está tomando consciência  do acidente que sofreu e tentando compreender quem ela é e onde está. Enquanto  isso, nós, leitores, tentamos entender que história confusa é essa. Aos poucos vamos percebendo que Alice parece acreditar que ainda é 1998, quando ela estava grávida pela primeira vez. Mas na realidade já 2008, Alice tem quase 40 anos, 3 filhos e está em meio a um processo complicado de divórcio. E claro, não se lembra de nada que aconteceu nos últimos 10 anos. O que você esqueceria se fosse apagado da sua memória os últimos 10 anos da sua vida?

O livro me atraiu por essa enredo sobre uma mãe que esquece completamente sobre seus filhos. Será o vínculo mãe-e-filho é forte tão forte assim que resiste até a uma perda abrupta de memória? Amamos nossos filhos instintivamente? A história de Liane que mergulha nessas questões com muita delicadeza e nos provoca a refletir sobre tudo isso, principalmente quando já somos mães. É bem provável que quem não vive ou viveu a maternidade não se impacte tanto com essas questões e se interesse pelo livro de uma maneira mais focada no entretenimento: uma história interessante e bem contada. Mas é inegável que este é um livro sobre maternidade, e as outras personagens femininas também têm suas questões  relacionadas à maternidade.

Para manter o ritmo da história e trazer outras perspectivas sobre a situação da Alice, a autora optou por utilizar diferentes formas de narração. Intermeando os trechos narrados sob o ponto de vista de Alice, o livro tras também trechos do diário de Elisabeth, irmã de Alice que faz um tratamento psicológico para lidar com as suas sucessivas perdas gestacionais, e  também trechos do blog da Frannie, avó de Alice e Elisabeth, que mora em um retiro de idosos e mantém um blog no qual compartilha sua vida.  Esse mosaico de pontos de vista torna a leitura bem fluida, não dá tempo de cansar de  nenhuma das narrações e possibilita uma diversidade de olhares sobre o enredo.

O que Alice esqueceu? é um livro focado nas relações familiares. Alice, que esqueceu dos próprios filhos, busca retomar seus vínculos familiares ao tentar reconciliação com o marido e com a irmã. É interessante como a vida segue por caminhos tão imprevisíveis que Alice não consegue acreditar que está se divorciando e que sua relação com a irmã não é mais tão próxima. Ao mesmo tempo, ela precisa lidar com 3 crianças que ela não conhece, não ama e sequer saber o que fazer diante dessas desconhecidas. Essa noção de que o amor é construído na convivência é muito forte no livro.  Frannie é outra personagem que traz muito forte a questão dos laços afetivos. Ela é uma solteirona que não tem vínculo sanguíneo com  netas, mas se tornou próxima ao ajudar a família quando Barb ficou viúva. Barb, por sua vez, deixou de lado alguns cuidados maternos após a morte do marido e é uma personagem mais voltadas para o seu bem-estar, independente das necessidades das filhas. São mulheres totalmente diferentes que compõe esse mosaico materno, nem sempre maternal se romantiza.

 

Elisabeth: infertilidade e determinação

Elisabeth é sem dúvidas a personagem que mais me tocou. Ela passou por sucessivas perdas gestacionais e processos de fertilização in vitro que  a deixaram amarga e desiludida. Ela mesma se descreve como um damasco seco, uma mulher sem capacidade de amar. Quantas vezes eu me senti como ela por não conseguir manter a gravidez. Além da tristeza pelas perdas, Elisabeth personifica as dores das mulheres inférteis, que oscilam entre a esperança de ter um filho biológico e a culpa por ter esperanças.

Confesso que meu carinho pelo livro tem muito a ver com Elisabeth. Ela é aquele tipo de mulher que eu quero abraçar e dizer “tamo junta, amiga. Eu sei o quanto doí e o quanto você se sente culpada por tudo isso.Não é culpa sua!” Maratonei a leitura do livro: li a 414 páginas em 2 dias, algo praticamente impossível para uma mãe de duas crianças que passou o fim de semana sozinha com elas. Não tenho o hábito de ler tão rápido assim e me surpreendi em como a leitura fluiu e me prendeu. Elisabeth me lembrou um pouco a Fig, de Stalker, por esse desequilíbrio emocional diante da perda gestacional e essa supervalorização da maternidade, como se a felicidade  e a razão de ser de uma  mulher estivesse em ter um filho.

Elisabeth me tocou muito por ter uma cuidado especial em manter suas memórias vivias sobre cada gravidez.  Foram muitas perdas, mas ela se preocupava em individualizar os bebês e manter alguma memória sobre cada um deles, reconhecendo para si a existência dos suas filhos mesmo que ninguém mais parecesse sentir a ausência deles.

 

Histórico do livro

As lembranças de Alice
Essa não é uma história nova de Liane e já foi lançada no Brasil pela editora Leya com o título As Lembranças de Alice em 2009. Não sei se na época fez sucesso, mas eu curti muito mais o título e a capa da versão atual.  O relançamento da obra 10 anos depois é interessante e simbólico, pois nos remete a pensar em tudo que vivemos nesses dez anos e que seriam esquecidos se estivéssemos no lugar de Alice.

Coincidência ou não, a TAG inéditos indicou o livro As Lembranças de Alice para quem curte o tipo de literatura enviada pro ela no mês de junho. Mas um motivo para trazer a história de Alice para o cenário literário nacional e aguçar o interesse das leitoras. Não li a versão antiga do livro não sei se houveram alterações significativas nas traduções. Também não creio que essa é uma história que eu leria várias vezes.

Infelizmente, a história é bem previsível no final das contas. Já dá pra saber o que vai acontecer, não tem viradas surpreendentes. Pra quem não se importa com isso, a leitura diverte e distraí. Pra quem tem essa olhar para a maternidade na literatura, o livro é fascinante e nem importa muito o desfecho. De um modo geral, gostei muito da escrita da Liane Moriarty e fiquei muito curiosa em conhecer seus outros livros.

 

Meu amor pelo livro:

 

 

 


Esse livro foi enviado para a nossa leitura como parte da parceria com a editora Intrínseca e esse post faz parte da Semana Especial Liane Moriarty. Ao longo da semana, outros blogs estão produzindo conteúdo sobre a autora e suas obras. Se você gostou e se interessa em adquirir esse livro, compre pelo nosso link da Amazon e ajude a manter o AMP.

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