Postado em 4 de junho de 2018 por Lu Bento
0 0

Olá Pessoal! Vamos de mais um Leituras Maternas de hoje uma autora que eu estava louca para conhecer e já adianto que curti bastante. Não sabia que esse livro era todo focado em relações mães e filhas e perceber a complexidade das possibilidades de relações narradas pela autora foi bem interessante. Ah, esses são meus comentários sobre a leitura e algumas partes contém spoilers. Chega de enrolação e vamos ao livro!

 

Pequenos incêndios por toda parte

Autora: Celeste Ng

Editora: Intríseca

Uma família perfeita, em um bairro perfeito vivendo uma vida perfeita. Essa seria a família Richardson se não fosse pela filha Izzy, a caçula que incendiou a casa família logo no primeiro capítulo.  Além da família Richardson, conhecemos também a família Warren, mãe e filha andarilhas que vivem com muito pouco e não criam vínculos nas cidades onde moram e acompanhamos a disputa entre os Mac , pais adotivos, e a mãe biológica que é uma imigrante chinesa pela guarda de uma menina de quase 2 anos.

O que Celeste Ng nos mostra nessa narrativa intensa e envolvente que as relações familiares podem ser bem complexas, principalmente as relações entre mães e filhas. Por adotar uma estrutura narrativa invertida, em que o final já é apresentado no primeiro capítulo,  Celeste Ng encara o desafio de desenvolver diferentes micronarrativas sobre questões relacionadas à maternidade: aborto, perda gestacional recorrente, adoção interracial, barriga de aluguel, maternidade super protetora, maternidade negligente… enfim, toda a trama é baseada nessa relação entra as mulheres e a autora sustenta bem o desafio de começar pelo desfecho e construir uma boa história.

Celeste Ng - pequenos incêndios por toda parte

A leitura é muito fluida, com apenas alguns pecados de vício de linguagem. Como as passagens no tempo são constantes, ela vai de um passado recente a passados mais distantes na intenção de esclarecer as motivações das personagens, em algumas partes há a  repetição excessiva de um recurso de fechamento de ideia numa seção do texto que passa a impressão que os personagens são todos muito inteligentes e perspicazes. Ela diz com muita frequência ” e ele saberia que a partir desse momento nada seria como antes” ou algo como ” e ela percebeu que tudo havia mudando para sempre”. Esse exagero me incomodou um pouco nos primeiro capítulos, mas depois ou a leitura me envolveu tanto que eu deixei de notar, ou ela diminuiu a frequência dessas frases. De qualquer forma, não é algo que comprometa o livro, apenas um ponto que poderia ter sido analisado melhor na preparação do texto ou mesmo na tradução para o português.

Uma curiosidade é que a autora é  norteamericana de origem chinesa e viveu durante muitos anos em Shaker Heighs, Ohio, cidade onde se passa a história. A origem étnico-cultural da Celeste Ng provavelmente foi muito importante para a sensibilidade em desenvolver uma narrativa sobre a adoção interracial abortando de forma muito embasada a questão da importância de uma criança crescer com elementos de referência à sua estética, cultura e identidade. Tem uma passagem maravilhosa do julgamento sobre qual família deveria ficar com a menina e o advogado da mãe biológica pergunta se a menina tem acesso a bonecas chinesas ou livros com personagens chineses e questiona a capacidade de pais não-chineses desenvolverem esse olhar para a questão da identidade da menina. Uma passagem maravilhosa e que dialoga muito com as discussões que temos sobre construção da identidade e autoestima de crianças de grupos “minoritários”. A questão da diversidade racial é abordada com frequência. Lexie, a filha mais velha dos Richardson, namora um jovem negro Brian, e esse se dá de uma maneira muito natural, sem problematizações com as diferenças. Pra nós, brasileiros que só estamos acostumados a ler sobre personagens negros associado ao racismo, a abordagem surpreende.

A história se passa em 1998, e Celeste Ng faz referências sobre o caso Bill Clinton e Monica Lewinsky como pano de fundo das descobertas sexuais do núcleo adolescente. Além disso, adorei a referência à The Bill Cosby Show ( apesar de saber o quanto o Bill Cosby é o cara desprezível, um abusador), quando os jovens namorados Brian e Lexie chamam os pais dele de Cliff e Claire. Família preta de classe média: uma realidade frequente no contexto americano e pouca vista por aqui.

Muito ainda poderia ser dito sobre esse livro, ele é muito rico em temas para discussão, a autora me surpreendeu bastante e fiquei muito feliz em finalmente conhecê-la. Adorei a leitura de Pequenos incêndios por toda parte, já estou planejando ler o primeiro livro da Celeste Ng e outros focados em dramas familiares.

Recomendo muito a leitura para quem quer uma leitura de entretenimento que provoque reflexões e trate de temas familiares.

Meu amor pelo livro:

 

 


Esse livro foi enviado para leitura pela editora Íntrinseca, parceira do blog. Se você ficou interessada em adquirir o livro, compre pelo nosso link da Amazon. Assim, você ajuda na manutenção do AMP.

Comentários no Facebook

Veja mais em Literatura e Literatura para adultos

24 de maio de 2017 Olá pessoal! Vamos falar sobre livros? Existe um ampla bibliografia voltada para mães e no Leituras Maternas compartilho com...
4 de junho de 2016 Olá Pessoal! Estavam  com saudades do LêproErê?  O blog vai passar por uma reformulação em breve, o LêproErê vai...