Postado em 1 de julho de 2018 por Lu Bento

No LêproErê de hoje uma graphic novel que faz justiça a um personagem tão desvalorizado da Turma da Mônica e ainda traz um menino negro como protagonista retratado de uma forma positiva e inspiradora ( algo raro nos livros com protagonistas masculinos negros).

Jeremias – Pele

LeproEre - Jeremias Autores e ilustradores: Rafael Calça e Jefferson Costa

Editora: Panini  Comics

 

Jeremias é um dos personagens mais antigos de Maurício de Sousa, foi criado em 1960 quando o autor ainda publicava suas histórias em tirinhas dos jornais. Mas Jeremias nunca protagonizou uma revistinhas. As poucas histórias protagonizadas por ele só surgiram a partir de 83, e ele mal aparece ou tem falas nas historinhas de outros personagens.

Digo tudo isso para contextualizar a importância histórica de Jeremias – Pele, graphic novel da  série Graphic MSP que traz releituras de personagens de Mauricio de Sousa escritas e ilustradas por diferentes quadrinistas. Jeremias é a 18ª graphic novel da série, que é voltada para jovens e adultos e  foi criada em 2012.  Estamos em 2018 e só agora Jeremias foi lembrado, inclusive depois de  mais de uma edição protagonizadas pela Mônica, pelo Bidu ou pelo Astronauta. Sinal do total desprezo que o personagem sofre.

Não sei o que fez Jeremias ser lembrado ( dado o histórico de desprezo nos mais de 50 anos do personagem), o importante é que Rafael Calça e Jefferson Costa fizeram a melhor releitura possível do personagem, trazendo a masculinidade negra  para o centro do debate. Por ser escrita por um homem negro, a HQ fala sobre racismo na infância, com enfase para os sentimentos e os mecanismos de defesa que as pessoas negras, e especificamente, os homens negros, desenvolvem para sobreviver.

Meninos negros são constantemente vistos de forma negativa na sociedade, como bandidos em potencial. Jeremias -Pele confere humanidade e sensibilidade à visão do senso comum diante da masculinidade negra. O tema do preconceito racial na infância é fundamental de ser abordado, mas destaco também a importância da relação pai-filho e da afetividade entre homens negros. Como mulher negra, que já está “acostumada” a ver produções que abordem o racismo, me surpreendeu  e emocionou muito encontrar essas relações entre homens negros tão lindamente retratada em múltiplas possibilidades: pai-filho; avô-neto, entre meninos negros.

Jeremias demorou muito para ser valorizado. Mas sua hora chegou. Maurício de Sousa faz sua mea-culpa dizendo que  a partir de agora todos no estúdio estarão “mais atentos à realidade que nos cerca.” Para nós, negros, não vale a pena esperar muita coisa de um estúdio que sempre o tratou como coadjuvante dos coadjuvantes. A maravilhosa releitura do personagem nessa narrativa forte, emocionante e extremamente realista, finalmente honrou um personagem discriminado e mostrou todo o seu potencial.

Como a maioria das HQs, Jeremias -Pele tem um conteúdo extra, com alguns esboços dos desenhos, o histórico do personagem nas obras de Mauricio de Sousa e um conteúdo sobre elementos significativos da história dos negros no Brasil que aparecem ao longo da trama.

Recomendo muito essa HQ para meninos e jovens e homens negros, principalmente pela relação entre gerações. Mas a leitura é maravilhosa para todos os públicos, é um material com um potencial didático enorme para educadores, tanto para atividades com os alunos quanto para repensar práticas e atitudes (os professores têm papel importante na reprodução ou não de atitudes preconceituosas em ambiente escolar, como a HQ demostra com muita presteza).

 

Meu amor pelo livro:

 

 

 

 


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