Postado em 13 de outubro de 2018 por Lu Bento
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Comprei uma Barbie preta. Nunca fui fã de bonecas Barbie nem estava com intenção de comprar uma boneca no momento. Mas encontrar uma Barbie preta de cabelo crespo sendo vendida em um supermercado comum foi demais para mim. Não resisti. Sem pensar duas vezes, fiz uma compra por impulso para agradar a minha menina interior. “Toma Luluzinha, uma Barbie preta como você. Agora vai brincar com as suas amiguinhas, vai…”.

barbie preta - close do rosto.

Estava com as minhas filhas no mercado e elas não entenderam bem o tamanho da minha empolgação em encontrar tão fácil assim uma boneca Barbie preta e crespa. Para elas, que já possuem uma maioria de bonecas pretas em casa, e também não são grandes fãs de barbies, era só mais uma boneca.

Elas já estão crescendo com outros parâmetros. Mesmo que muito pouca coisa tenha mudado de fato, como mãe eu me esforço muito para que elas não se sintam sub-representadas em suas próprias brincadeiras. Ser preto não é raro ou diferente. Ser preto é normal e a maioria em nossa casa, a casa de uma família preta.  Temos muitas bonecas artesanais e algumas outras manufaturadas. Variedade é que não falta.

Mas faltava ela, a Barbie. Já falei que não sou fã e continuo não sendo. Vejo crianças com 4, 5 anos e coleções com mais de 100 dessas bonecas. Tá aí um monte de vídeos de meninas no youtube pra provar que eu não tô mentido. Aquele corpo idealizado, desfigurado, impossível de ser alcançado por mulheres reais. Aquele ideal de beleza sendo fomentado desde a primeira infância, uma expectativa de um futuro corpo sem defeitos, plastificado.

barbie preta

A Barbie, mas que uma representação de um tipo de feminino, é um símbolo da opressão sofrida pelas mulheres, que crescem desejando a vida perfeita e cor-de-rosa da boneca.

Mesmo assim comprei uma Barbie. Comprei uma Barbie preta e crespa que estava sendo vendida em um supermercado comum. Uma Barbie preta e crespa que estava lá, pronta para ser comprada por qualquer um, sem ser exótica, rara, trazida do exterior naquela viagem do amigo do tio. Uma Barbie com a minha cara.

Como pode o fato de eu ter comprado uma boneca ser tão marcante em minha trajetória. Efeitos do racismo que eu não pude perceber nos anos 80/90 enquanto brincava com minhas Barbies brancas, loiras e de olhos azuis como se fosse totalmente natural pra mim desejar ser representada de maneira tão diferente de mim no mundo do faz de conta onde tudo é perfeito.  Não, o defeito não estava comigo por ser preta. O defeito era da indústria de brinquedos que não disponibilizava bonecas pretas, que nos fazia acreditar que para ser bonita era preciso ser branca-loira-de-olhos-azuis. E ainda alegavam que “boneca preta não vende.”.

Finalmente eu tenho uma Barbie preta e crespa como eu. Uma Barbie comprada exatamente da mesma forma de todas as outras que tive: num supermercado, como parte das compras de mês. Aquela aquisição corriqueira, natural, sem data especial ou preparação específica. Foi só ir ao mercado e ela estava lá.

Que as minhas filhas possam crescer encontrando com naturalidade brinquedos representativos. Que cada vez mais lojas disponibilizem bonecas pretas sem que a gente precise garimpar para achar o que queremos; “Ah, pretinha assim só se você encomendar, a gente não deixar na loja não…”. Que as minhas meninas e as  pretinhas que virão depois delas não pensem sequer por um instante que não existem bonecas pretas porque elas não são bonitas.

Minha Barbie preta segue em destaque em minha estante. A minha menina interior agradece a várias meninas crescidas que há anos lutam para que as meninas de hoje se vejam representadas em seus brinquedos.

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