Postado em 5 de outubro de 2017 por Lu Bento

 

 

 

“Mamãe, o menino falou que não ia brincar comigo porque os amigos dele são brancos e eu sou marrom. Ele disso que não gosta de marrom.”

“E o que você disse filha?”

“Eu disse que eu gosto de marrom, e que às vezes as famílias são marrom. E toda a minha família é marrom e eu sou linda!”

” Ah é filha? E ele?”

” Ele disse que só brinca com os amiguinhos brancos.”

 

Esse foi o meu diálogo desta manhã com a minha filha caçula, de 3 anos. Ela me contou, com muita naturalidade e sem nenhum sinal de mal-estar que um coleguinha da turma falou que não brincaria com ela porque ela é “marrom”. Quando ela começou a conversa e me disse isso, meu sangue gelou. Um desconforto físico tomou conta do meu corpo e eu percebi que minha filha, minha garotinha que mal deixou de ser um bebê, já está enfrentando o racismo.

Mini Bentia é muito sensível e emotiva, então assim que ela me contou isso eu a imaginei chorando e ficando triste essa rejeição com base em sua cor de pele. Em seguida, perguntei qual foi a reação dela e a resposta me surpreendeu e me acalmou. Ela não se deixou abalar pela rejeição e falou de forma positiva da sua cor de pele.  Não tenho como ter certeza que ela agiu dessa maneira. O racismo nos pega de surpresa e nos deixa sem ação, mesmo quando já sabemos várias respostas para o preconceito. Como essa história está sendo contada por ela depois, é claro que essa reação positiva pode ser uma forma idealizada, pode ser uma construção de como ela gostaria de ter agido na hora, mas que não fez de verdade ou pode até mesmo ser uma forma dela me contar que me deixe feliz com ela, porque sempre falamos em casa o quanto gostamos de ser negros.  O final da história é aquele já narrado, o menino manteve a mesma posição e não brincou com ela.

Mesmo que os fatos não tenham acontecido exatamente assim, é pouco provável que a cena toda seja uma invenção da minha pequena. Crianças negras sofrem racismo na escola desde cedo e é até natural que as crianças não saibam lidar com as diferenças.

Na escola da Mini Bentia, a maioria das crianças são brancas. As professoras também. Então pensando no contexto daquele espaço e nas prováveis relações que esse menino estabelece, o contato com pessoas negras deve ser muito pequeno. Somando-se a isso, a ausência de representatividade negras nos desenhos animados, na publicidade e nos espaços de poder fazem com que a criança branca cresça com uma visão distorcida sobre a negritude.  Eu entendo que a criança branca não queira se misturar com crianças de outras etnias, que prefira ficar entre iguais. O que eu não entendo é que adultos não façam nada quanto a isso. Não entendo como professores e pais não desenvolvem um olhar atendo sobre essas questões, não percebem que as crianças brancas estão afastando as crianças negras ou se negando a brincar ou interagir com elas.

Essa atitude de afastamento a partir da diferença é o embrião do racismo. E ele é alimentado pela falta de educação para as relações étnico-raciais, pela falta de uma atitude pró-ativa para o combate à discriminação racial na infância e pela omissão das pessoas não-negras na luta antirracista.

O caso relatado pela Mini Bentia mostra que essa situação precisa de uma intervenção. Não sei se algum adulto acompanhou o diálogo, nem se esse menino convive com outras crianças negras além da minha filha e essa foi uma atitude pontual, uma justificativa naquele momento pra não brincar com ela. Não sei sequer se a família dessa criança a ensina a se afastar de pessoas negras ou se essa foi só uma percepção da criança de que o afastamento é uma postura adequada diante das diferenças. Não tenho essas respostas.

Só sei que o nosso trabalho de formiguinha só vai resolver parte do problema, a parte que nos afeta e nos faz sofre. Minha filha me contou tudo isso com naturalidade, como se fosse mais um fato corriqueiro da escola e sorriu quando me contou a sua resposta para o menino. Eu posso trabalhar para que ela entenda que é o menino que sai perdendo com essa atitude, que a discriminação racial não é culpa dela e que ele é que está agindo de uma forma errada e mal educada. Mas e a outra parte? Quem trabalhar para ensinar o menino a conviver e respeitar as diferenças? Quem ensina pra criança que essa atitude é racismo? Quer percebe logo na primeira infância as raízes dessa atitude racista e procura combatê-la?

Eu marquei uma reunião com a direção da escola para informar o que minha filha contou essa manhã. Mas nada me garante que as pessoas se interessarão verdadeiramente em por essa questão. Nada me garante que as professoras olharão com amis cuidado para as interações entre as crianças e perceberão essas situações a ponto de intervir. Nada me garante que os profissionais da escola estão habilitados para promover uma educação pra diversidade, que valorize as diferenças e que combata o racismo. Nada me garante que a família do menino será informada para também se dedicar a promover uma educação que respeite o outro e que o ensine a conviver com as diferenças.

Não dá pra colocar toda a carga do racismo nas costas das pessoas negras. O racismo contra negros é um problema gerado pelos brancos e precisa ser combatido por todos.

 

Postado em 30 de setembro de 2017 por Lu Bento

Estreou ontem na Netflix um dos meus desenhos favoritos dos anos 90, O ônibus mágico. Esse desenho maravilhoso sobre um grupo escolar que aprende sobre ciência viajando em um ônibus mágico e descobrindo as respostas para suas perguntas através da experiência.  Com qualquer produção que busca tornar a ciência mais atraente para as crianças (e pessoas em geral), o desenho foca muito na prática, na compreensão dos fenômenos naturais através da experiência, bem diferente do que as escolas reais fazem, focando principalmente na teoria.

A versão atual do desenho, produzida e transmitida pela Netflix, mantém  o formato de começar a exploração científica a partir de um questionamento de uma das crianças. A professora Frizzle conduz as crianças em uma aventura de aprendizado, onde várias coisas mágicas acontecem e as crianças vão construindo o conhecimento a partir disso. Com a devida atualização tecnológica ( a versão antiga falava em disquetes nos computadores, por exemplo), a série volta com 13 episódios de 25 minutos, um bom tempo para  desenvolvimento de uma história completa sem perder o foco e a atenção das crianças.

Um dos primeiros desenhos animados preocupados com a diversidade e com a representação positiva das diferenças, o grupo de alunos é composto por meninos e meninas de diferentes origens étnicas e personalidades, formando o equilibrado ecossistema onde todos têm um papel importante. Isso é incrível em termos de identificação, principalmente porque a cada episódio criança se torna protagonista, dando destaque para sua personalidade. É um desenho que não hierarquiza as crianças, onde os pretos não estão lá apenas para ser “o melhor amigo do protagonista branco”.

O desenho original foi inspirado em uma série de livros (livros, sempre eles!) escritos por  Joanna Cole  e ilustrados por Bruce Degen qu chegaram ao Brasil através do selo Rocco para jovens leitores. Infelizmente não conheço os livros, mas o desenho animado é incrível e acho uma boa forma de estimular a curiosidade dos pequenos sobre ciências.

Assisti os dois primeiros episódios com a Mini Bentia, mas pra crianças de 3 anos o desenho não é tão interessante ainda. Agora estou assistindo os demais episódios com a Isha Bentia, de 5 anos, e ela parece bem mais interessada em descobrir como as coisas funcionam. De minha parte, vou aproveitar pra fazer também uma maratona dos episódios da primeira versão, as 4 temporadas também estão disponíveis na Netflix!

Postado em 4 de agosto de 2017 por Lu Bento

Esse ano finalmente fomos pra Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.  Eu sempre paquerei o evento, mas nunca tínhamos nos organizado pra ir. Esse ano, logo em janeiro eu comecei a pesquisar casas pra alugar  e curtir Paraty com toda a família. Mas logo meu plano miou, meus pais não poderiam ir, talvez meus sogros também não fossem e eu achei que talvez não fosse a hora de gastarmos uma grana. Já estava ficando frustrada por mais um plano fracassado, quando eu me dei conta que passarei grande parte das minhas férias viajando sozinha e que eu precisava desse momento de descanso e lazer com eles.

Encontrei uma pousada próxima ao centro histórico, fiz a reserva por impulso e pronto: comuniquei ao marido que nós íamos passar uma semana em Paraty e curtir a Flip. Ele topou, na hora não parecia tão interessado em curtir a programação do evento, mas já tínhamos feito uma viagem de férias em família pra lá em 2014 e provavelmente ele achou uma boa ideia voltarmos pra cidade.

O plano era chegar em Paraty na quarta, fazer um passeio de barco com as meninas e depois ficar por conta da programação da Flip. Me preparei pra assistir todas as atividades possíveis, tanto na programação oficial, quanto na diversas programações paralelas. Estava tudo planejado. E obviamente, deu tudo errado. Que bom!

Acabamos indo pra região de Paraty dois dias antes, já que estávamos interessados em conhecer também a vila de Trindade e eu não abria mão de nenhum dia da programação da Flip.  Demos uma passada rápida no Rio pra ver os parentes e de lá partimos pra estrada rumo a Trindade. A ideia inicial era ficarmos em uma pousada mais simples, mas na hora de fechar e reserva eu já tinha chutado o balde das preocupações e estava disposta de ter férias de verdade, e acabamos ficando em uma pousada de frente pro mar.  Que lugar lindo! Não poderíamos ter feito escolha melhor.

Dias 1 e 2 – Trindade

A primeira reação de Mini Bentia foi perguntar à moça da pousada que nos recebeu se a praia ela dela e se ela ia P_20170724_153802emprestar pra gente. A moça, muito simpática, disse que a praia era de todo mundo e que a gente poderia usar quando quisesse. Mini Bentia ficou louca de alegria. Aquela liberdade era tudo que ela mais queria e mas me preocupava. Por alguns minutos me arrependi de ter escolhido esse lugar. Mas aos poucos ela entendeu que não poderia ficar indo pra praia sozinha e eu pude relaxar um pouco. Também, com aquela vista e o barulho do vai e vem do mar  não tem como ficar estressada.

Os dias em Trindade foram de praia, boa comidade e pura curtição em família. Tudo que a gente precisava. Fizemos um breve passeio de barco até as piscinas naturais do Cachadaço  e, pra  nossa sorte, e maré tava muito baixa e a região estava bem rasinha, perfeita pra curtição com crianças. Elas se acabaram de tanto brincar  na praia! Se a viagem terminasse ai já tinha valido a pena pra todos nós. Trindade tem aquele clima gostoso de vila de pescadores bem pequena, onde todo mundo se conhece e nos passa a sensação de que não precisamos de muita coisa pra viver. Não conseguimos fazer os passeios mais adultos, como conhecer as cachoeiras ou fazer algumas trilhas, mas valeu pela tranquilidade do lugar e pela oportunidade de estarmos juntos, nos curtindo.

No último dia em Trindade ficamos curtindo nossa praia particular. Aproveitei pra ver o nascer do sol e fazer minha meditação na praia. Que vontade de largar tudo e ficar morando lá sempre. Aliás, cada vez que eu vou pra um lugar onde o ritmo de vida é mais tranquilo fico morrendo de vontade de mudar pra lá de vez. Sinal que o agito da vida em São Paulo já não está tão interessante pra mim, tenho desejado cada vez mais um ritmo de vida mais lendo, onde posso curtir mais o momento presente. A vibe tava tão gostosa em Trindade que acabei escrevendo algumas poesias e reacendeu minha vontade de escrever que andava meio abandonada.

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Dias 3, 4 e 5 – FLIP

Depois de 2 dias nesse paraíso, fomos pra Paraty com o coração  mas também empolgados com a nova etapa das nossas férias. Ficamos em um hostel bem ruinzinho e essa queda no padrão nos deixou um pouco chateados. Mas as pessoas do lugar eram muito simpáticas e a gente mal ficava no quarto, então acabou valendo a pena. Passeamos por Paraty relembrando os locais conhecidos na primeira vez e conhecendo os espaços onde aconteceriam as atividades que gostaríamos de acompanhar.

P_20170726_154626Quando a Flip começou pra valer a minha ficha caiu: seria impossível acompanhar a programação com duas crianças loucas pra se divertir. No começo fiquei decepcionada, porque eu queria muito assistir várias da mesas programadas. Mas estávamos em clima de férias né? E férias em família tem que ser legal pra toda a família. Então mudei meus planos e foquei na programação infantil. Fiquei bem decepcionada com a programação oficial, que se resumia em uma grande tenda com livros infantis para os pais lerem com a crianças. Bem sem-graça. Com a grana envolvida dava pra fazer atividades bem melhores pra crianças. A maioria das casas do circuito paralelo também não contemplava a infância. E olha que tinha muita criança por lá.

Acabamos curtindo muito a programação do SESC, que tinha contação de histórias todos os dias e uma intensaP_20170730_104750_BF programação infantil. Todo o dia a gente dava uma passadinha por lá e as meninas ficam um tempão lendo e brincado com as educadoras de lá. Uma das atividades, a contação de histórias da Cia Alcina da Palavra, foi um bálsamo de africanidade em meio a tantas atividades que não pensavam em representatividade e diversidade na infância. A Flipinha tava cheia de livros de Monteiro Lobato disponíveis pra leitura, como se o grande mestre da literatura infantil não fosse um grande racista. Além de Lobato, alguns livros de qualidade duvidosa também estavam expostos lá.

Outro espaço que vale a pena destacar foi a Casa do Papel. Lá as meninas fizeram uma oficina de encadernação super bacana, e  Isha Bentia ficou concentradíssima produzindo seu cartão flag card. Mini Bentia dispersou bastante, normal pra uma criança de 3 anos que não gosta muito de atividades calmas, mas o pessoal de lá foi bem bacana e me ajudou a acompanhar as duas na atividade. Saímos de lá com dois lindos cartões e duas crianças felizes e orgulhosas dos seus feitos.

Pra não dizer que eu não fiz nada por mim na Flip. participei de uma gincana bem louca da Publishnews, fiquei em segundo lugar  e acabei ganhando uns 15 livros. Foi bem divertido e uma oportunidade de conhecer mais sobre o mercado editoral, possibilidades de publicação e várias pessoas incríveis na Casa da Publishnews. E as meninas, que não são bobas nem nada, fizeram amizade com a representante do SESI-SP editora e ganharam 2 livros maravilhosos (falarei sobre eles no instagram, corre lá!).

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Dias 6 e 7 – Paraty

P_20170730_080159Nos últimos dias decidimos trocar do hostel por uma pousada e fomos pra um lugar mais confortável. Quarto com espaço, banheiro sem janelão pra rua e diversões pras curicas. A gente merecia um descanso antes de voltar pra rotina.  Mais uma vez, pudemos diminuir o ritmo e simplesmente curtir o dia. As meninas estavam loucas por um hotel com piscina, e mesmo com a água super gelada criam coragem pra entrar. Até Mini Bentia, a rainha do banho quente, topou entrar na piscina gelada.

Pra fechar a viagem, almoço à beira mar, caminhada de despedida pela cidade e muitas fotos. Paraty continua sendo nosso destino favorito de férias e  já estamos sonhando com a volta em 2018.

Voltamos pra São Paulo felizes por dias incríveis que vivemos juntos, por tantas alegrias e experiências gostosas durante a Flip.

Postado em 19 de julho de 2017 por Lu Bento

Fala Galera!

A Netflix é um mundo, não é mesmo? Estamos em um ritmo bem devagar de eventos por aqui e eu estou em um momento mais recolhida mesmo, recusando diversos convites pra passear por aí e preferindo ficar no meu cantinho. Com isso, a Netflix é a minha companheira fiel, junto com uma xícara de chá de morango e uma barra de chocolate. Somos o quarteto fantástico desse inverno.

A Netflix percebeu vale muito a pena trazer pro catálogo brasileiros obras diferentes do senso comum. Então podemos encontrar lá várias  produções negras e de várias nacionalidades que raramente chegavam até o público brasileiro. Em junho entrou  no catálogo uma leva de produções coreanas e eu acabei assistindo algumas.

Hoje eu quero falar com vocês sobre elas. Nunca pensei que eu fosse ficar tão interessada na cultura coreana. E na verdade, nem sou tão fã assim, não  ouço K-pop ou  assisto as séries e animes mas famosos,  mas fiquei viciada em alguma séries sobre famílias.

Antes, quero falar que a minha atenção se voltou pra Coréia do Sul depois que o conheci o canal do Youtubecoreanissima Coreaníssima, de uma jovem coreana que passou uma temporada aqui no Brasil, aprendeu português  e mantém esse canal voltado pro público brasileiro Lá ela fala sobre a Coréia do Sul e faz relações e comparações com o Brasil. Não sei bem como cheguei até ela, provavelmente zapeando por canais de estrangeiros falando sobre o Brasil, e gostei do modo como ela se expressa, da desenvoltura e do nome escolhido por ela no Brasil, Helena, o mesmo das minhas filhas. São motivos meio aleatórios para começar a acompanhar um canal, mas acabou despertando em mim esse interesse em conhecer mais sobre a Coréia do Sul e hoje eu sigo o Coreaníssima e acompanho todos os seus vídeos.

Quando as séries coreanas chegaram na Netflix, fiquei curiosa em ver a produções. Nunca fui de ver muitos animes e de saber sobre as culturas orientais, mas sei lá, provavelmente meio nostálgica me lembrando de Jaspion e companhia (mesmo sabendo ser uma heresia misturar Japão e Coréia no mesmo balaio), resolvi procurar alguma pra assistir…

Até agora assisti apenas 2 séries inteiras. Parece pouco, mas essas séries entraram no catálogo em junho e eu faço um monte de coisas da vida além de assistir séries. Então dizer que eu assisti 2 séries inteiras significa que eu surtei e maratonei acompanhando séries coreanas quando eu deveria estar fazendo outras coisas, inclusive dormindo.

Sem mais enrolação, vamos às séries:

Minha Bebezinha

Minha BebezinhaGente, que série maneira! Eu fiquei totalmente viciada nesse série e em toda a sua tosqueira. Porque essas séries orientais tem uma pegada bem tosca né? Essa série não é diferente.

Fiquei frustrada em não ter dublagem em português porque Isha Bentia é minha parceira de Netflix e eu adoraria assistir essa série com ela. Ela até assistiu muitos episódios comigo, mas sem conseguir acompanhar o que está sendo dito fica bem chato. A série é bem leve, super acessível pra crianças. Um programa pra toda a família.

Basicamente a série é sobre um cara que é um policial super reconhecido e precisa cuidar da sobrinha de meses após a morte da irmã e do cunhado. A trama toda da série se desenvolve a partir dessa situação e esse cara durão vai se transformando em paizão ao longo da série.

Tem muito dessa coisa de supervalorizar a transformação do cara diante da criação de um criança como se uma fralda trocada por um homem fosse um grande feito e, por uma mulher, apenas mais uma obrigação. Mas  dá pra problematizar e e divertir ao mesmo tempo.   A série mostra um pouco desse universo da maternidade e do cuidados com as crianças e é bem interessante ver como a maternidade é vivenciada em outras culturas.

 Uma das dificuldades que tive no começo foi acompanhar quem era quem. Eu não estou acostumada a ver tantos coreanos, muito meno com os nomes e reconhecer as personagens foi bem difícil no começo. Outra dificuldade é que as mães são conhecidas pelo nome dos filhos, então é mãe de Fulano pra lá, mãe de Sicrana pra cá  e eu fiquei perdidinha no começo. A ordem que  nome aparece na legenda também confunde: primeiro o sobrenome depois o nome. São tantas diferenças culturais que assistir uma série assim acaba sendo um exercício de olhar de outra forma para culturas diferentes da nossa,  tentar compreender as especificidades de cada povo.

Ah, pra quem curte aqueles romances complicados, que o casal principal sempre tem um impedimento pra ficar junto, essa embromation rola durante a série (de uma maneira bem fofa). Essa parte é bem novela mexicana, sabe? Fiquei bem surpresa!

Melhor da série: Atenção especial às barrigas de grávida. Parece zueira, e provalvemente é, mas eles retratam as grávidas com uma almofada da barriga! Os partos também seguem a linha bem pastelão.

Love in her bag

love in her bagEsse é mais um dorama que me pegou de jeito na Netflix.  É a história de duas primas com ambições bem diferentes na vida que se tornam rivais. A série começa na infância e vai até a vida adulta delas, fazendo com que  a acompanhe os acontecimentos que conectam a duas moças de maneiras bem complexas.

Uma das coisas que me chamou atenção na série, além do enredo bem construído, é que ela conta a história de uma família pobre coreana. Os dois primeiros episódios são todos falando dessa família pobre  e, como o pouco que vemos sobre a Coréia do Sul aqui no Brasil tem a ver com tecnologia e coisas bem modernas, ver um pouco da “vida real” na Coréia foi muito interessante para desconstruir esteriótipos.

A série demora um pouco pra engatar, o primeiro episódio é todo contanto a infância dessas mulheres, com direito a tia fazendo pape de madrasta má e tudo. Demorou um pouco pra que eu entendesse sobre o que a série falava e isso é bem complicado quando se trata de uma produção com episódios de 1h. Mas fui insistente e acabei descobrindo uma série bem divertida.

Com um toque fashionista, Love in her bag tem como cenário a industria da moda, sendo ambientada uma marca de bolsas de luxo. Mais uma vez vemos um traço bem coreano de transmissão de um ofício de geração em geração de uma família. A série mostra isso com muita intensidade, todos os jovens tem alguma relação familiar com a industria das bolsas, como se o talento e interesse pelo assunto fosse transmitido via DNA. É bem diferente daquilo que vemos de filhos seguindo o negócio dos pais apenas por conveniência. Tem muita paixão e respeito pela tradição familiar.

As séries coreanas são bem tranquilas, sem cenas de violência (as cenas de tapa na cara chegam a ser ridículas de tão artificiais) ou sexo ( os canais apaixonados nem se beijam na boca, pra vocês terem uma ideia), então são bem legais pra assistir com os mais novos. Os temas não são infantis, mas são séries que falam muito sobre valores como respeito ao outro e aos mais velhos. Sabe uma série sem maldade? Então, essa série é mais leve que muito desenho infantil por aí. Assisti alguns episódios com Isha Bentia e eu ia lendo a legenda pra ela. Ela adorava. E ainda ficou interessada em conhecer as letras coreanas e em saber onde fica a Coréia do Sul no mapa.

A inocência dos relacionamentos amorosos é encantadora. Os coreanos parecem ser muito respeitadores e o flerte é demonstrado nas séries de modo reservado e contido. Não que essa formalidade toda seja o melhor dos mundos, mas é muito interessante ver outras possibilidades de demonstrar afeto sem essa hipersexualização da produções ocidentais.

As aberturas das séries coreanas são espetaculares. E longas também. 1 minuto só de abertura. Pelo menos a Netflix pula essa parte quando estamos vendo em sequência.  Muitas cores e um toque divertido, parece até que vai começar um desenho animado ou série infantil.

Melhor da série: A série é dramática  e divertida na medida certa. A mocinha é tão Poliana que às vezes irrita. Mas ao mesmo mesmo tempo, coisas boas sempre acontecem ela  nos mostra a leveza e a grandeza de ver o lado bom da vida.


E vocês? Acompanham séries coreanas na Netfix? Conta pra gente!

Postado em 25 de junho de 2017 por Lu Bento
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letra a

Ela. E-L-A. A. Artigo feminino. Sempre. Ou deveria ser artiga feminina? Confusa. Complexa. Intensa. Segunda sexa. A outra. Oposta. Ousada. Usada. Múltipla. Iguala ou diferenta? A primeira. A única. A origem. A destina? Presa ou liberta. Livra e descoberta. A letra de saia. Arredondada. Esguia. A perna aberta. A grita. A gruta. A fenda.  A letra mulher. A

Escrito e vivido em: março de 2017.

Postado em 24 de junho de 2017 por Lu Bento

Olá pessoal!

Existe uma variada literatura voltada pra mães, não é mesmo? São livros e mais livros que nos “ensinam” ou orientam, pra ser mais suave, a educar nossos filhos. A verdade é que pedagogos, médicos, psicólogos, todos querem compartilhar conosco seus anos e anos de estudo e experiencia. Fora a infinidade de livros de mães compartilhando suas experiências pessoais e desabafos sobre a maternidade real.

Esse é o nosso espaço de diálogo sobre esses livros. No leituras maternas desse mês quero falar de 2 livros que li há pouco tempo sobre o assunto, um voltado pera a educação dos filhos e outro de compartilhamento de vivências maternas. Porque entre uma fralda e o apoio à tarefa de casa,  mãe lê e produz literatura!

 

Vamos brincar? Atividades para ensinar bons hábitos para crianças

capa - Vamos brincar

Autores: Eduard Estivill e Yolanda Saenz Tejada

Editora: WMF Martins Fontes

Tenho passado por muitos problemas Não que elas sejam propriamente mal-educadas. As pessoas de fora até as elogiam e falam que são meninas bem educadas. Mas em casa é um terror. Mini Bentia não guarda absolutamente nada do que ela usa e Isha Bentia parece ter uma surdez seletiva que só faz as coisas que pedimos depois de que a gente perde a paciência. Sei que a origem desses comportamentos está muito mais em nós, pais, e em como lidamos com a nossa própria bagunça e desatenção com as demandas delas. Mas também sei que precisamos de ajuda para mudar esses comportamentos em nós e ajudá-las nesse processo educacional. E esse livro entra como uma das ferramentas que têm nos ajudado a melhorar nossa comunicação intrafamiliar.

Eu confesso que fiquei com o pé atrás com relação a essa obra porque o autor, o médico espanhol Eduard Estivill também é autor de um livro bem criticado, Nana Nenê, que “ensina” a estabelecer rotinas de sono para bebês com métodos, no mínimo, polêmicos que estimulam os pais a deixarem as crianças chorando sozinhas por longos minutos. Mas como o livro tava bem baratinho em um saldão da Martins Fontes e, como eu tava bem desesperada em aprender métodos eficientes para lidar com minhas dificuldades na criação das meninas, que eu decidi me aventurar nesse leitura.

A leitura é bem rápida, esse é um livro de consulta porque traz várias atividades para serem feitas com as crianças em diferentes situações e, com isso, ensiná-las bons hábitos. Gostei muito das atividades propostas, algumas já estou começando a por em prática, mas preciso de um tempo para avaliar o quanto elas funcionam pra minha realidade.

De qualquer forma, curti a leitura, fiquei com algumas ideias e com muitas esperanças de que as coisas melhores mor aqui.

Livro nota 3

Mamãe é rock

 

Mamãe é rock

Autora: Ana Cardoso

Editora: BelasLetras

Esse é aquele típico livro de maternidade real. Ana Cardoso trás relatos bem intensos sobre o cotidiano de uma família e a criação de filhos, de forma bem humorada. Sabe aquela sensação de rir da própria desgraça? Não que as situações que passamos no dia-a-dia cheguem a ser uma desgraça, mas algumas são bem frustrantes e sem um pouco de graça não dá pra passar por tudo isso sem ficar maluca.

A leitura é leve e divertida. Aquela típica leitura de relaxamento, sabe? E ideal para quem não tem muito o hábito de ler. A diagramação é bem irreverente, ele lembra muito aqueles livros pra pré-adolescentes sabe, me veio logo na memória aquele antiguinho “Coisas que toda garota deve saber”. Mas é essa identidade visual jovial e irreverente que facilita a conexão com o livro e tem tudo a ver com o próprio conteúdo.

Adorei ler, me identifiquei em muitas partes dele, principalmente porque também sou mãe de duas meninas. E lendo algumas coisas lá fiquei imaginando que provavelmente passarei por situações bem parecidas em alguns anos.

Livro nota 3


E aí, já leram esses livros? Conta pra gente! Até a próxima.

Postado em 20 de junho de 2017 por Lu Bento
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A trança da vida

Na roda do mundo

A cada partida

Um pedaço de tudo

Um inteiro em cada lugar

 

Uma história

A memória

O começo ou um fim?

Regresso e progresso

Chegada e saída

Na vicissitude

O todo em mim

Dança

mudança2

Escrito e vivido em : 19 de junho de 2017

Postado em 18 de junho de 2017 por Lu Bento

Eu sempre escuto comentários impressionados sobre como as curicas são independentes. E elas realmente são. Fazem muitas coisas sozinhas, e não têm aquele medo exagerado de ficar longe da gente. Essas meninas sabem se virar.  Mas…como educar nossos filhos pra serem independentes? Não é tão fácil quanto parece. Encontrar a medida certa entre independência e obediência não é fácil.

Student reading aloud in class

Quem me acompanha há mais tempo já sabe que não foi fácil ter as meninas. Perdi dois bebês antes delas, tive que passar por um repouso intenso durante as gravidezes pra que elas chegassem, então não foi molezinha. O medo era o meu companheiro durante toda a gravidez. Não só o medo de perdê-las, mas também o medo de me tornar uma mãe superprotetora. Sempre tive medo de me tornar uma daquelas mães que não deixam os filhos fazerem nada. Mesmo eu sendo uma pessoa super desencanada, temia não conseguir desapegar das minhas filhas e deixar que elas tivesse suas própria experiêncas, que errassem e acertassem por conta própria. Afinal, de nada adianta tentar transformar a vida delas em uma versão melhorada da minha própria vida. Elas precisam tentar, errar, acertar, descobrir coisas, experimentar a vida da forma delas porque o aprendizado a partir das nossas próprias viviências é muito mais significativo e marcante.

Então, minha meta de vida era deixar elas experimentarem o  mundo e permitir que elas tivessem a proteção e segurança necessárias, sem exageros.Pra isso, tava valendo andar descalça pra sentir que o chão tava realmente frio, comer sozinha mesmo que fosse mais comida para o chão que para boca ou escolher as próprias roupas mesmo que a combinação tivesse totalmente inadequada para o tempo.  Cabe a mim, como mãe, providenciar recursos para que elas, ao perceberem falhas em suas escolhas, possam voltar atrás e aprender com isso. Então o chinelo tava lá disponível pra proteger o pé, a comida passou a ser colocada no garfo pra diminuir a quantidade que caia no chão e  uma roupa mais adequada ao clima estava preparada caso elas sentissem frio ou calor. E é assim que a gente faz no dia-a-dia.

Da mesma forma, eu e o pai delas sempre incentivamos elas a buscarem soluções para os  problemas. Quer uma colher no restaurante, peça você mesma ao garçom! Quer comprar um biscoito, pergunte o preço você mesma! E assim por diante, sempre atenta às atividades compatíveis com a idade e o desenvolvimento delas.

Nós fazemos tudo isso por dois motivos principais: primeiro porque somos só nós 4 aqui em SP, tem horas que eu e meu marido estamos bem atarefados e as meninas precisam fazer coisas simples sozinhas, como pegar um brinquedo no quarto ou uma roupa na gaveta; e segundo porque a gente acredita que elas precisam ter coragem para fazer coisas por conta própria e a nossa casa, o nosso espaço,  é o melhor laboratório pra que elas experimentem isso.

Pessoas negras são constantemente desestimuladas a se expor. Não é algo explicito, verbalizado. É a aquela velha história do racismo estrutural, sabe, que nos exclui sistematicamente dos espaços de poder e visibilidade. Ser independente, correr atrás do que você deseja, é fundamental para que o sistema racista não te oprima. Então é importante que nossas crianças negras cresçam sabendo que elas tem voz e vez de se expressar. E que suas vontades são levadas em conta, são respeitadas ou, ao menos, ouvidas.

Oferecendo ferramentas para a independência

Como a preocupação com a independência delas veio antes do nascimento, a gente sempre procurou fornecer ferramentas para que elas desenvolvessem a autonomia. Uma delas, foi adotar a concepção montessoriana na decoração do quarto. Tanto Isha Bentia, como Mini Bentia tiveram a liberdade de dormir fora de berços. Assim, elas acordavam e iam para onde nós estávamos. Não precisavam ficar presas, dependendo da ação de adultos pra se locomover. Seus pratos e copos ficam em locais acessíveis na cozinha, assim elas mesmas podem pegar um prato ou copo quando precisam. Elas mesmas jogavam a fralda no lixo e pegam outra para ser trocada. Isso aos poucos vai desenvolvendo a autonomia da criança.

Uma coisa que o Leo faz muito e eu preciso me monitorar para fazer mais e conversar com elas sobre algo que elas fizeram e nós consideramos errado. Ele pergunta porque elas fizeram aquilo, ele explica porque aquilo não pode ser feito e orienta como fazer corretamente, ou de uma maneira segura.  Isso é muito bacana, porque isso as fazem perceber que nós as enxergamos  como sujeitos. Quantos de nós fomos criados na base do “era só meu pai olhar, que eu gelava, que eu sabia que estava errado” ou “o pai não sabia porque tava batendo, mas a criança sabia porque tava apanhando”. Cara, isso é cultura do medo. Nem dá pra chamar de pedagogia, por que não tem nada de pedagógico nisso. É opressor mesmo. Claro que esse tipo de postura  contribuiu para uma geração que atualmente tem medo de tentar coisas novas, tem medo de se expressar, tem medo de fazer algo que não foi mandado.

Encontrando o limite

Saímos muito com as meninas, tanto por causa do nosso trabalho, quanto a passeio. E elas se adaptaram bem a essa rotina de estar em diferentes lugares, sempre cercadas de pessoas novas. No começo elas sentem o ambiente e depois já se soltam e começam a circular com uma certa liberdade. Nesse aspecto é preciso encontrar um limite. Uma coisa que me incomoda bastante é que as curicas resolvem por conta própria ir explorar novos lugares.  Esse é um limite que temos trabalhado constantemente com elas. Crianças (e adultos também!) precisam dar satisfação de onde vão. Não dá pra simplesmente sumir enquanto as pessoas que estão contigo não sabem de nada.  E aí, a gente enfatiza isso para elas principalmente pela questão da segurança e pela falta de percepção das maldades do mundo, mas sempre com um olhar respeitoso pra tomada de iniciativa delas. Em geral a gente fala coisas do tipo “eu entendo que você quer ir lá fazer tal coisa, mas antes é preciso pedir permissão pra mamãe e por papai, pra gente saber onde você está, com que está e se não é perigoso pra você.”

A gente sempre evita aquele discurso do “não pode fazer porque eu não quero” porque não cabe a minha como mãe querer ou não querer algo pra vida da minha filha. Os meus quereres pessoais podem até ser externados, mas não podem servir como baliza para as minhas decisões com relação a elas. Eu, como mãe, preciso preservar o direito delas de escolha, ressalvados os todos os meus deveres de cuidado e proteção delas. Mas cada vez que eu extrapolo meus deveres de proteção e tomo atitudes que limitam minhas filhas de forma que elas ficam mais dependentes de mim eu estou ensinando a elas que elas precisam de mim pra realizar aquilo, eu estou vinculando aquele ato a minha pessoa e com isso, eu estou limitando as minhas próprias filhas.

Lógico que nem sempre é seguro e saudável deixar as crianças soltas fazendo o que querem. Por isso mesmo que não fácil criar filhos independentes. Porque a gente precisa o tempo todo recalcular os limites entre cultivar a independência e o descaso, a falta de atenção e cuidado.

Algumas vezes eu vejo mães com crianças da idade de Mini Bentia no colo e bate aquela dúvida se eu não deveria estar carregando a minha no colo também. Mas depois, quando eu vejo a curica correndo de um lado para outro durante longos minutos, eu vejo que ela tem plena capacidade de andar esse percurso, então não tem necessidade de estar no colo o tempo todo. É um processo de avaliação e reavaliação constante. E também, quando elas começam a perceber que podem fazer coisas sozinhas e a vontade de fazer por conta própria cresce mais ainda.

E como elas já fazem muitas coisas sozinhas, como escolher a roupa, calçar os sapatos, ou pegar o suco no armário, elas se sentem aptas a fazer outras coisas também, como ficar longe dos pais por uns dias ( na casa dos avós), ou sair sem a gente com pessoas do nosso convívio.

Superando barreiras

O que eu falo aqui vale para todas as crianças, mas quando a gente pensa em crianças negras, crescer sem autonomia é ainda mais danoso, porque reforça o racismo estrutural que diz silenciosamente que negros não podem ocupar determinados espaços. Com a autonomia que a gente procura oferecer para as meninas estamos mostrando a elas que elas podem ocupar espaços e realizar coisas que são da vontade delas, sem que precise de uma ordem expressa para fazer. Nossa intenção é que isso contribua para que no futuro, barreiras como “não tem nenhum negro aqui” ou “isso não parece ser uma coisa adequada para uma pessoa negra” nem sequer sejam consideradas por elas. Que elas não se percebam limitadas por percepções que nos condicionam a determinados espaços.

Young girl smiling, holding white sheet

Não é um processo fácil e mexe com muitas das nossas noções de como criar filhos e com as nossas próprias memórias sobre como fomos criados. Mas educar é um processo e uma sucessão de escolhas. Escolhemos esse caminho, provavelmente o mais difícil. Mas também incrivelmente prazeroso vê-las escolhendo seus caminhos, questionando o limites e buscando compreender a lógica do mundo e das relações interpessoais.

Postado em 24 de maio de 2017 por Lu Bento

Olá pessoal! Vamos falar sobre livros? Existe um ampla bibliografia voltada para mães e no Leituras Maternas compartilho com vocês minha impressões sobre esses livros. O universo materno é abordado de diferentes maneiras nas publicações impressas. Nesse edição, trago pra vocês um livro de exaltação a figura materna e um livro de poesias que ampliam nossos sentidos sobre o maternar.

Leituras

 

 

As mães que mudaram o mundo

Histórias inspiradoras de mulheres que fizeram a diferença para seus filhos e para  mundo

 

mães que mudaram o mundoAutor:Billy Graham

Editora: Habacuc

Comprei esse livro por pura compulsão por livros em uma dessas feiras de saldão. Li esse livro por plena necessidade de estímulo e motivação nessa jornada materna. Sem dúvidas, é um livro cativante. A história e o empenho dessas mulheres em fazer o que elas consideraram melhor para seus filhos é reconfortante. E é exatamente o que se espera quando se pega um livro com forte viés religioso: conforto.

O livro conta a história das mães de grandes personalidades do mundo, mostrando como essas mulheres aturam para que essas pessoas (em geral, homens) se destacassem ou aprimorassem características que foram marcantes para história do mundo. Fiquei um pouco chateada porque essa mulheres são definidas a partir de seus filhos famosos, a mãe de Luther King, a mãe de Condoleeza Rice. Mas entendo que essas mulheres se tornaram interessantes para o grande público devido aos seus filhos famosos. Ah, falando nisso, um dos motivos que me fizeram comprar esse livro foi a curiosidade de conhecer essas mães pretas aí…

No meio da leitura fiquei meio saturada pelo viés religioso do livro, sempre ressaltando a fé dessa mulheres como decisiva no poder de influencia delas ou citando mulheres bíblicas. Pra quem não é religioso, pode ser chato tudo isso. Mas pra quem acredita, pode ser uma mais uma forma de fortalecer a maternidade também na dimensão religiosa.

A escrita é bem simples, a leitura é super acessível para as pessoas que não tem o hábito de leitura e, como são histórias individuais, é perfeito pra mães que nem sempre tem tempo para ler um livro. Dá pra ler fora da ordem dos capítulos e ir buscando as histórias que mais te interessam ou se conectam com o momento que você está vivendo. É aquele tipo de publicação feito pra dar de presente, tem até um espaço de dedicatória na primeira página. E funciona bem como presente viu?

Não foi um livro que eu amei, mas valeu a pena ter lido. E ele continua com espaço na minha estante.

Livro nota 2

Cria Jubal

 

criajubal-202x224

Autora: Adriana Rolim

Editora: Metanóia

Gente, filho é poesia. E praquelas pessoas mais próximas das palavras, só a poesia pra conseguir expressar os sentimentos da gravidez e da maternidade. É isso que a Adriana Rolin faz nesse lindo livro. Esse livro faz você se sentir entrando na intimidade de uma família a cada poesia, conto, relato, fotografia. Amor que transpassa as páginas do livro  nos fazem perceber o quanto essa obra deve ser importante pra essa família.

Além da maternidade, Cria Jubal articula diferentes dimensões do nosso ser, a mulher-companheira, a mulher-ativista, a mulher-amiga, a mulher-artista… todas elas juntas, com essas nuances se sobrepondo. Acaba servido de estímulo para nos vermos completas, perspectiva que muitas vezes é esquecida quando nos tornarmos.

A leitura de Cria Jubal, além de enternecer meu coração, me fez olhar com outros olhos pra mima vivência cotidiana, me vez ver com olhos de poeta o amor que nutrimos uns pelos outros em casa e me estimulou a escrever um pouco mais sobre isso.

Esse é aquele livro pra dar de presente para amiga quando nasce o bebê ou ela descobre que está grávida. Leitura e espera e de conforto.

Onde encontrar: InaLivros

Livros nota 4


E aí, gostaram do Leituras Maternas desse mês? Conta pra gente nos comentários! Tem dicas de livros sobre maternidade? Bora conversar! Até a próxima.

Postado em 20 de abril de 2017 por Lu Bento

Ontem saiu um texto da Patrícia Froes no blog #AgoraÉQueSãoElas, da Folha,  intitulado “Filho, o mundo não é seu”, falando da sua experiência em ser mãe de um menino branco e abonado e da necessidade de ensinar ao filho que o mundo não é dele.  O texto é bem interessante e o título me provocou a ponto de pensar que ela falava em termos mais gerais, fazendo uma contraposição a noção que a nossa geração Y teve de que somos o centro do mundo. Comecei a ler o texto bem de boa, pensado nessas coisas mas logo percebi que ela falava de um ponto bem específico e necessário. O que Patrícia traz é uma reflexão sobre a posição do homem branco e rico na sociedade brasileira. Ressalto que Patrícia não usa o termo rico, e eu o uso sem nenhuma conotação ofensiva,  apenas para que a gente possa realmente colocar as ideias às claras.

Muitas ideias me vem sobre as reflexões trazidas por Patrícia e pela ausência de problematização da questão racial na desconstrução dos privilégios.  E obviamente, fiquei tentada a escrever sobre isso. Rascunhei um texto, pensei muito sobre o assunto e em como expressar a necessidade das pessoas brancas se posicionaram diante do racismo de forma assertiva e combativa,  mas no final das meninanegrapulando1contas, pra mim,  é muito mais importante gastar minhas energias reafirmando pras nossas pretinhas que o mundo é delas. Que o mundo é nosso!

Porque essa mesma sociedade que  passa o tempo todo reforçando que o mundo é dos homens brancos e ricos, também reforça que o mundo não é das mulheres negras. E aí a questão de classe se torna menos relevante, porque basta ser negra para a mulher seja discriminada, não importa o quão recheada é a sua conta bancária. A sociedade grita o tempo todo que o mundo não é nosso. Tão alto que muitas vezes não conseguimos ouvir nossa voz interna nos dizendo para ocupar nosso lugar no mundo. Como mulher e mãe negra, se eu tenho forças pra lutar, que minha luta seja para que essas meninas negras não sejam empurradas para a subserviência e baixa autoestima pela enxurrada racista que recebemos todos os dias. Porque eu desejo que nós, mães e pais de pretos, sejamos a barreira de contenção que não deixa a autoestima das nossas novas gerações cair barranco abaixo. E mais que isso, que nós sejamos molas propulsoras, colocando nossas crianças para voarem futuros ainda mais altos do que o sistema racista espera de nós.

Reafirmando a negritude

Eu tenho filhas pretas. Eu poderia dizer simplesmente estimular minhas filhas dizendo “filha, o mundo é seu”. Mas não colocar a nossa negritude nessa frase de motivação e incentivo das meninas negras é uma forma de cair no mito da democracia racial que nos invisibiliza e nos desumaniza, como negros tivessem que se sentir contemplados pelo padrão branco e o discurso de que “não importa a cor”. A cor da pele importa sim! Muito. Uma mulher branca alcançando um posto de destaque em uma grande empresa não é o suficiente para que eu e minhas filhas nos vejamos nessa posição pelo simples fato de que quase nunca vemos uma mulher negra nessa posição de destaque e sucesso como uma representação de conquista de todas as mulheres. Quando uma mulher negra ascende ela é vista e lembrada como uma referência para as mulheres negras e só.

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Eu não estou com isso querendo incitar uma divisão racial, uma segregação. Até porque essa divisão racial já existe na sociedade em que vivemos. Raramente uma pessoa branca escolherá uma pessoa negra como referência universal para qualquer coisa porque simplesmente pessoas brancas não se conectam com referenciais negros.  Uma revista com uma modelo negra na capa vende menos que uma revista com uma modelo branca. Por que isso acontece? Porque o público da revista, majoritariamente branco, quando vê uma mulher negra na capa entende que aquela matéria não é pra ele, não é do interesse dele. Como reação a isso,  as revistas colocam menos negras nas capas e alegam que “negro não vende”.

O ciclo é perverso, é cruel e contínuo. Ele se retroalimenta quando a vendedora diz pra menina branca que ela não deve comprar uma boneca negra porque a boneca bonita é a loira de olhos azuis ou quando a professora dá um lápis rosa chamado “cor de pele” para que a criança negra pinte o desenho. O tempo todo nossas crianças “aprendem” que nossa cor de pele não é valorizada e que a gente “precisa” se sentir contemplado por representações brancas.

Então, ao falar pras minhas filhas que o mundo é delas, eu reforço e valorizo nosso lugar de mulher preta, coloco o Pretinha como um vocativo afetivo e com isso, reforço o olhar positivo para a nossa negritude.

Fortalecendo a autoestima

World map (globe) in an African school

Nossa missão é romper com esse ciclo, ocupar os espaços, abrir portas, chutá-las se for preciso. Pretinha, o mundo é seu! Não aceite quando falarem que você não tem o perfil. Não ceda quando falarem que seu cabelo ficaria melhor se você fizesse uma escova. Não desista quando falarem que seria melhor você cursar pedagogia ou invés de engenharia porque existem engenheiras negras. Pretinha, o mundo é seu! Ocupe-o! Tome posse do seu espaço, questione os privilégios, afronte os privilegiados. Porque, na realidade, não podemos esperar que ninguém ceda seus privilégios e nos dê acesso ao nosso espaço de direito. Precisamos ir lá e ocupar. E mostrar que a gente tem plenas condições de ocupar esses lugares tão bem ou até mesmo melhor que todos esses que hoje têm acesso a eles por serem privilegiados. E não é porque nosso acesso foi garantido por ações afirmativas que nosso direito e nossa capacidade de estar lá devem ser questionadas ou diminuídas.

 

Pretinha, o mundo é seu! Não precisa esconder ou se envergonhar de ter feito algo incrível e ter seu talento reconhecido. Não precisa baixar a cabeça e se desculpar por tudo que deu errado, quando você não tepretinha, o mundo é seunha culpa nenhuma nesse processo. Não precisa desistir antes mesmo de tentar com medo de ser barrada. Não precisa ter medo de romper com os lugares que o sistema racista destina para as mulheres negras.

Ser mulher e negra não é essa molezinha de ter tudo esperando por você. É um remar contra a maré racista que insiste e nos levar pro fundo. Quando a gente repete pra uma menina negra que o mundo é dela, estamos também repetindo pra nós mesmas. O mundo é nosso, pretinhas!  A construção da nossa autoestima é um processo constante, porque a desconstrução racista também é.  Então repita em voz alta pra si mesma e pra todas nós: pretinha, o mundo é seu! Somos resistência e não tem sistema racista e machista que vai nos fazer parar. O mundo é seu, pretinha. Não tenha medo de ocupar o seu lugar.

Veja mais em Combate ao Racismo e Educação


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