Postado em 5 de agosto de 2018 por Lu Bento

Hoje no LêproErê um livro para jovens de todas as idades. Muitas pessoas me perguntam sobre livros com protagonismo negro para jovens, e eu conheço muito poucos. E em se tratando de livros com autoria africana então, menos ainda. Mas nem tudo está perdido, não é mesmo? Conheça o livro do LêproErê de hoje.

 

Esperança para Voar

Esperança para voar

Autora: Rutendo Tavengerwei

Editora: Kapulana

Tradução: Carolina Fachin

Onde encontrar: Amazon| Kapulana

SinopseEsperança para voar, de Rutendo Tavengerwei, jovem escritora do Zimbábue, é a história de superação e amizade de duas adolescentes, Shamiso e Tanyaradzwa. Shamiso retorna com a mãe do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. Tanyaradzwa, sua grande amiga, luta contra o câncer. O cenário é o Zimbábue, em 2008, ano de grave crise política nesse país africano. A narrativa é emocionante e mostra como duas jovens procuram compreender uma realidade tão brutal, e como aprendem a lutar contra adversidades sem perder a sensibilidade.

 

Você já parou pra pensar como é ser adolescente na África? A África é diversa demais para que possamos ter uma representação geral de adolescência no continente. Então, que tal tentar lembrar o que você sabe sobre o modo de vida dos jovens no Zimbábue? Difícil né? É porque ainda temos uma visão muito estereotipada e exotificada dos países africanos que esse livro é uma excelente opção para adolescentes. A partir de uma premissa comum dos romances Young Adults (adaptação a grande  mudanças na vida, enfrentamento de uma doença grave), Rutendo traz a vida cotidiana do Zimbábue, mostrando com sensibilidade e muita assertividade o impacto das questões políticas na vida dos jovens.

Esperança para Voar é uma história que me arrebatou e que me faz olhar com novos olhos para a literatura voltada para o público jovem. Mais que um festival de clichês e de situações que de forte apelo emocional, essa literatura pode introduzir vários elementos para o universo jovem que, talvez, sejam pouco atraente em um primeiro momento. Rutendo fala em seu livro sobre a situação política do Zimbábue em 2008, que vive o ápice de uma crise política, econômica e social que até hoje causa impactos no país. O assunto, que passou batido por mim nos noticiários da época, é pano de fundo da história e tem grande impacto na vida das personagens. Lendo o livro agora em 2018 eu me interessei em compreender o que se passava e fui pesquisar mais sobre a história e a política do país. Sei que esse meu movimento não foi só motivado pelo meu amadurecimento ao longo desses 10 anos. Foi o contexto da narrativa e as implicações da política na vida das personagens que me fizeram pesquisar sobre tudo que aconteceu por lá. O livro denuncia uma situação em meio a uma bem construida história, e hoje eu acredito que essa seja uma das melhores formas de gerar interesse e empatia de quem não vive a situação.

Eu escrevi a orelha de apresentação da edição brasileira do  livro e uma resenha que vocês podem ler lá no site da editora. Além disso, está rolando um sorteio lá nosso instagram de dois exemplares do livro, então aproveitem! A Rutendo está no Brasil esta semana para conversar com os leitores brasileiros. Dia 7/08 ela estará no Sesc Avenida Paulista  às 19h conversando comigo e com a Bianca Gonçalves do Leia Mulheres Negras. E dia 9/09 ela estará na Bahia, na FLIPELÔ, conversando com a historiadora Luiza Reis às 18h no Teatro Sesc-Senac.

 

 

Dica de Série

Se você se interessa por esse tema de adolescentes superando o câncer e o poder da amizade nesse processo, assista a série Alexa e Katie, na Netflix. Alexa é uma menina que está enfrentando um câncer, mas não quer se deixar abater pela doença e tenta levar uma vida normal na escola. Sua amiga Katie faz de tudo pra ajudar Alexa nesse processo, sempre apoiando a amiga. Apesar do tema denso, a série é muito divertida e rende boas risadas, além de ter passagens muito emocionantes.


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Postado em 12 de julho de 2018 por Lu Bento

No Leituras Maternas de hoje, um livro de uso diário  que é uma ferramenta para conhecer uma pouco mais na nossa relação com nossos filhos.

 

Uma pergunta por dia (para mães)

leituras maternas - uma pergunta por dia para mãesAutores: Vários

Tradutora: Marina Vargas

Editora: Intrínseca

SinopseUma pergunta por dia, o livro-diário que já vendeu no Brasil mais de 100 mil exemplares, ganha agora uma edição especial exclusiva para as mães. Mais do que um álbum de fotos, mais do que um tradicional livro do bebê, Uma pergunta por dia para mães é o instrumento perfeito para registrar cada acontecimento não só do crescimento dos filhos, mas da intensa experiência de aprendizado, descobertas e autoconhecimento na qual a mulher embarca ao ser mãe.

Funciona assim: são 365 perguntas diferentes, uma para cada dia do ano. Você começa qualquer dia e, percorridos doze meses, volta para o início. E é aí que reside o ponto alto do diário, porque cada novo ano é um convite a rever as respostas anteriores, revisitar as mais diversas lembranças e refletir sobre como tudo já mudou e se transformou.

 

Eu já gostava da ideia do Uma pergunta por dia como uma forma de registrar os acontecimentos diários. Eu tenho uma quedinha por registrar o que acontece em minha vida, principalmente pelo prazer de reler no futuro e ver o quanto eu mudei e me transformei ao longo do tempo. Então quando eu soube do Uma pergunta por dia para mães, fiquei bem interessada em ter um, para acompanhar minha relação com as curicas. O livro-diário foi lançando para o dia das mães de 2017, e por algum motivo não consegui comprar na época, mas fiquei com aquele desejo na cabeça.

Com a parceria com a Intrínseca, finalmente consegui ter o livro e posso dizer que estou amando essa ferramenta. Todos os dias antes de dormir respondo a pergunta do dia e deixo registrado algum momento com as meninas, seguindo a pergunta do dia do livro.

Já faz 1 mês que estou preenchendo e estou gostando muito da experiência. Fico imaginando as mudanças que perceberei nas respostas ao longo do tempo, já que o livro tem previsão de ser respondido diariamente nos próximos 5 anos, quando as meninas já terão 10 e 9 anos.

Sinto que essa pode ser uma boa lembrança da dos meus sentimentos e impressões sobre a infância delas, além de ser uma forma de perceber minhas mudanças de perspectiva ao longo dos anos.

Uma pergunta por dia para mães é um livro lindo, onde você mesma registra a sua história, sendo autora e protagonista da sua vivência de maternidade.

 


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Postado em 11 de julho de 2018 por Lu Bento

Vamos falar de literatura e esportes? No LêproErê  dessa semana, dois livrinhos que batem um bolão! As vibrações da Copa do Mundo já vão se dissipando, mas o espírito esportivo continua vivo por aqui. Esporte e infância tem tudo a ver. Confira as dicas de literatura infantil de hoje.

 

A turma do Elias em O bullying não tem vez

esporte - a turma do eliasAutor: Elias Mendes Trindade

Ilustrador: Alessandro Almeida

Editora: Uirapuru

Sinopse: Elias e seu irmãozinho Davi se prepararam para ingressar numa escola nova, mas logo no primeiro dia Elias presencia uma cena de bullying contra Vinícius, um garoto que a turma do Pedrão insiste em maltratar. Somente um desafio poderá dar solução a esse problema: uma partida de futebol. Acompanhe esse confronto em que inteligência, planejamento e força-bruta são colocados em jogo.

 

O livro foi escrito pelo jogador de futebol  do Atlético Mineiro, Elias Trindade, que aborda um tema frequente nas relações infantis, o bullying. A utilização do esporte como pano de fundo torna lúdica a aboradagem desse tema e ajuda a promover uma aprendizado mais orgânico. Me incomoda um pouco a abordagem do racismo enquanto bullying, e esse ponto merece atenção e cuidado. Bullying e racismo não são a mesma coisa. Mas apesar disso, acho o livro uma boa pedida para se trabalhar esses temas com as crianças.

Elias é criador do Projeto Elias, uma iniciativa social de apoio e incentivo ao esporte para crianças da região do Parque Novo Mundo, em SP, onde o jogador cresceu.

Maira- a alegre campeã

esporte - maira a alegra campeãAutora: Maíra Brochado Ranzeiro

Ilustrações: J. Rafael

Editora: autopublicado

Sinopse: Maira é uma menina muito alegre com olhos de jabuticaba e pele negra que se encantou pelo mundo dos esportes em especial por esse criativo jogo de bolinhas e raquete, o tênis de mesa, e brincando aprendeu a ter disciplina,foco, concentração e persistência .
Contudo a alegre menina ao saber que estava chegando o dia do seu primeiro campeonato ficou ansiosa e com medo, mas com o amor e apoio de sua família recuperou sua confiança e decidiu se divertir e jogar com alegria.O livro é baseado em fatos reais e conta a trajetória da autora Maira Ranzeiro, primeira negra campeã brasileira de tênis de mesa, e revela um papel social muito importante, pois apesar do Brasil ser constituído em sua maioria pela população negra (54%), ainda se fala muito pouco da presença negra em diferente setores da sociedade.

Cada vez que eu vejo uma menina negra se destacando em um área pouco falada, a primeira coisa que eu penso é “menina negra pode tudo”. Esse é o meu mantra para reconhecer as nossas potencialidades em todas as áreas, por mais improvável que possa parecer. Repeti esse mantra assim que soube da maravilhosa história de Maíra Ranzeiro, mesa-tenista campeã brasileira ao 15 anos.  E Maíra segui acumulando conquistas: bicampeã Latino-Americana, primeira colocada no Ranking Nacional de Tenis de Mesa e Melhor Atleta do Ano de 2017.  Mas o mais importante de tudo isso é que Maíra nutriu a vontade de compartilhar suas conquistas no esporte com outras crianças através da literatura infantil, e hoje temos a oportunidade de incentivar nossos pequenos e pequenas com esse livro maravilhoso.

Maira, a alegre campeã traz essa representatividade que a gente tanto fala e busca, e também tem o potencial de inspirar muitas pessoas através das conquistas da menina Maira. A autora está com uma campanha de financiamento para uma nova edição do livro, e se você quiser saber mais e colaborar, acesse o site e siga seu perfil no instagram.

 

 

 

 

Postado em 9 de julho de 2018 por Lu Bento

Uma das coisas mais legais de ser blogueira é a oportunidade de conhecer e compartilhar coisas interessantes com vocês. Esses dias conheci um programa online gratuito para pais que compartilham sabers afetivos e medicinais sobre saúde integral dos bebês. Quando ainda não somos mães e pais, parece muito natural cuidar de um bebê. Tipo, aquela coisa de instinto animal, é natural cuidar de um filhote, certo?higiene do bebê

Mais ou menos. São tantas as mudanças quando esperamos um bebê que ninguém está realmente preparado para tudo isso.  A rotina se torna diferente, são inúmeras descobertas diárias, tudo isso com aquele tempero de desafios e fortes emoções. É gente, bebê em casa não é só passeio no parque e soneca da tarde não!

A chegada do bebê – precisamos de ajuda

Bebê não vem com manual (infelizmente). E hoje em dia as nossas redes de apoio estão cada vez mais esporádidas. São cada vez mais raros os casos de que mães recém-nascidas tem aquele monte de avós, tias ou amigas com mais experiência que dão aquele apoio no comecinho da vida daquela família. Ficamos imersos em dúvidas e inseguranças que são fruto de uma pressão social que ignora as diferentes formas possíveis de cuidado e afeto. Será que tô fazendo certo? Aprendi desse jeito, mas estão falando que é daquele outro jeito, e agora?

A internet está aí pra preencher aquele vazio de informação e de apoio moral que fica quando estamos higiene do bebê - imagem de divulgação Sikanacom um bebezinho e não temos a menor ideia se estamos cuidado direito ou não. A internet é uma ferramenta para que pais e mães recém-nascidos troquem experiências com outras famílias, encontrem apoio e aprendam a lidar com as expectativas, dúvidas e medos, que são totalmente naturais nesse período de adaptação ( e durante toda a vida, porque nosso estado de espírito não muda muito com o passar do tempo, viu…). E aos poucos vamos fortalecendo a nossa confiança e construindo o conhecimento sobre os processos que envolvem os cuidados nos primeiros dias.

Eu tive ajuda da família na chegada das curicas, mas tenho vontade de ter mais um bebê e sei que vai ser bem difícil ter alguém além do meu marido para dar um suporte. Moramos longe da família, e dessa vez, nossa vida já está muito estruturada aqui, não podemos ir pra perto dos parentes para termos um suporte. Então, tenho pensado muito em alternativas para me ajudar a relembrar o que fazer e como fazer, porque cada bebê é um novo ser, e precisamos aprender a melhor forma de lidar com essa relação específica. Pensando nisso, fiquei muto empolgada quando soube do projeto Cuidado e Higiene do Bebê e não poderia deixar de compartilhar isso com vocês!

Projeto Cuidado e  Higiene do Bebê

A Sikana, uma organização que produz e distribui conteúdo audiovisual com o objetivo de acelerar a transmissão de conhecimentos educativos, lançou em junho um programa online sobre Cuidado e Higiene do Bebê, em parceria com o projeto Saúde da Criança e a marca Granado, além de vários apoiadores que dão um sinal da qualidade do trabalho.

Gente, são uns vídeos lindos sobre diferentes temas que podem nos auxiliar nos cuidados nos primeiros dias.  São 19 vídeos bem curtinhos, de cerca de 3 minutos, que falam sobre cuidados com bebês de uma forma bem carinhosa e delicada, em perder o embasamento teórico necessários, nem o respeito à diversidade das famílias.higiene do bebe - imagem de divulgação Sikana

Uma das coisas que eu mais gostei dos vídeos foi a diversidade de perfis familiares, incluindo aí muitas famílias negras. Que delícia ver um conteúdo que nos contempla não só como público-alvo, mas como produtores de saberes também.  Os vídeos são divididos em categorias como Relações Afetivas entre pais e bebê, Higiene e bebê e Cuidados com o bebê.

Pra vocês sentirem o gostinho desses vídeos lindos sobre os cuidados com o bebê, acompanhe esse vídeo sobre higiene íntima no qual um pai preto fala dos cuidados com os bebês meninos e meninas.

Lindo demais não é? Se você se interessou por esse conteúdo e quer ter acesso aos outros vídeos direto no site do Sikana para download, e também no YouTube. Vale muito a pena conhecer esse trabalho e acompanhar toda a série de vídeos, tanto para aprender sobre cuidados com os bebês, quanto pra encher seu dia de fofura e boas notícias.

Postado em 8 de julho de 2018 por Lu Bento

Cuidar do próprio corpo é um aprendizado básico de qualquer ser humano. Às vezes é bem complicado saber quando e como falar sobre isso com as crianças, principalmente para que a relação com o próprio corpo não seja permeada por traumas e medos.

É natural que nesse periodo de descoberta, crianças perguntem e façam coisas que consideramos constrangedoras. Nós, adultos, já estamos condicionados a pensar que alguns coisas são inadequadas de serrem faladas  na frente de outras pessoas e esse condicionamento acaba se refletindo na educação de nossos filhos quando cortamos determinados assuntos e os tratamos como tabu.

Nosso trabalho, como pais e educadores, é ensinar a autoproteção aos nossos filhos, ou seja, é fornecer ferramentas para que as crianças conheçam seus corpos e saibam como se cuidar e se proteger. Essa dimensão da educação sexual na infância é fundamental para que a criança cresça conhecendo seu corpo, sabendo se cuidar e se proteger.

É natural a percepção das diferenças pelas crianças e, em geral, tudo isso é reflexo de uma curiosidade natural, uma vontade de compreender o mundo. Muitos dos adultos de não tiveram a oportunidade de aprender sobre o próprio corpo de maneira franca e direta com os pais. Por isso, é tão difícil estabelecermos essa diálogo com os filhos. Quando é uma mãe conversando com um filho ou um pai conversando com uma filha então, a situação fica ainda mais complicada. Ainda somos permeados por tabus e valores que nos impedem de estabelecer uma relação sincera com o nosso corpo. Não pode ver, não pode tocar, não pode falar sobre o assunto. O proibido e o imoral rondam esse tema e nos silencia sobre tudo isso.

Já pararam pra pensam que até mesmo os brinquedos assexuados são sinais desse silenciamento? Bonecas sem vagina, bonecos sem pênis, seios sem mamilos. Nosso corpos são mutilados nos brinquedos numa tentativa de omitir as partes íntimas e uma identificação das crianças. Como se a naturalidade dos nossos corpos fossem nocivas à infância.

Que corpo é esse?

 

Esses dias descobrir uma ferramenta maravilhosa para auxiliar os pais no diálogo sobre questões relacionadas ao corpo. O canal Futura  exibe uma série chamada Que corpo é esse? no qual uma família interracial vive situações  relacionada ao corpo e traz um conteúdo maravilhoso para ajudar nos diálogos sobre diferenças físicas entre meninos e meninas, cuidados com o corpo, higiene e masturbação, entre vários outros temas. O interessante é que a série mostra as crianças realmente peladas quando estão falando das partes íntimas, fomentando um diálogo franco sobre o assunto.

A série é totalmente voltada para famílias, com linguagem acessível para crianças e com uma curadoria de conteúdo excelente.  Por isso, a série aborda os direitos sexuais e autoproteção destinada à três faixas etárias de público: 0 a 6 anos; 7 a 13 anos; e 14 a 18 anos. Ariel e Dandara são as crianças mais novas, e quando eles são os protagonistas da história, utilizam termos como pipi e pepeka que é como as crianças menores conhecem as partes íntimas. Quando fala de puberdade, os protagonistas são Cauã e Tainá e são utilizados termos como pênis e vagina, mostrando para as crianças mais velhas a nomenclatura das partes íntimas de maneira natural. Pra quem tem adolescentes, a série aborda questões de identidade de gênero, relações sexuais e assédio, por exemplo. Tudo isso sem moralismos.

A série é produção do Canal Futura em parceria com a Childhood Brasil e o Unicef, é foi criada com muito cuidado por profissionais dedicados a pensar os processos psicológicos e físicos relacionados à consciência corporal, respeitando as necessidades de carinho e de aceitação das crianças e dos jovens e as diferentes dimensões das trocas afetivas.

Os episódios passam no canal Futura nos intervalos da programação, mas é possível assistir direto no YouTube ou no Futuraplay.

 

Primeira infância e sexualidade

 

Aqui em casa ainda vivo as experiências da primeira infância. Por ser mãe de duas meninas, a preocupação em não tornar a sexualidade delas um tabu é ainda mais latente. Como deixar que elas descubram o corpo com liberdade e sem repressões, mas também auxiliá-las na autopreservação? Como é difícil saber até como falar sobre isso, sem tolher as experiências e sensações das meninas se a minha própria visão está condicionada por valores e regras internalizados ao longo de toda a minha vida?

Sexualidade não é sexo. Então o melhor mesmo é não se assustar com as manifestações curiosidade das crianças e tentar responder da melhor maneira possível as perguntas que surgem nesse período, além de orientar para que práticas naturais, como a masturbação infantil,  não sejam proibidas ou demonizadas.

Como mãe de meninas negras, não posso simplesmente ignorar tudo isso e deixar que elas aprendam com a vida. Mulheres negras tendem a ser hipersexualizadas e estarem mais vulneráveis a situações de abuso. A gente nunca pode perder de vista as estatísticas quando pensa educação de crianças negras. Por isso, é preciso adotar uma postura ativa, se antecipar os problemas e se dedicar à prevenção.

Esse processo de descoberta é inerente e natural do ser humano. Quanto mais a gente trata esse tema com subterfúgios e melindres, mais complicada é a forma como as crianças internalizam essas questões na relação com o próprio corpo. Quantos de nós, adultos, temos hoje inúmeras questões com o nosso próprio corpo, sexualidade e expressão do prazer porque que internalizamos diversos tabus?

Não tenho respostas definitivas sobre como agir nessa período de descobertas. Sei que não vale a pena reprimir as descobertas do corpo e que as crianças precisam saber cada vez mais sobre autocuidado e autoproteção. E que cada vez mais existem ferramentas para nos ajudar a lidar com essa questão, que não deve ser jogada para debaixo do tapete.

 

 

 

 

 

Postado em 3 de julho de 2018 por Lu Bento

O leituras maternas de hoje é pra trazer polêmica. Sim, falaremos sobre mães arrependidas. Será é que possível se arrepender da maternidade? Se é possível, será é adequado falar sobre isso? Confira minhas impressões da leitura do livro da antropóloga israelense Orna Donath.

 

Mães Arrependidas – uma outra visão da maternidade

Autora: Orna Donath

Editora: Civilização Brasiliera ( Grupo Record)

 

A maternidade envolve uma mudança gigantesca na vida das mulheres. Ela pode ser muito desejada ou pode ter acontecido de repente, mas não faz diferença. O impacto das mudanças é totalmente imprevisível, e pode resultar em sentimentos de arrependimento.  Nessa pesquisa magnífica da antropóloga Orna Donath, diferentes mulheres compartilham seus sentimentos de arrependimento com relação a maternidade, muitas delas mães de vários filhos, outras até avós.

O livro é extremamente provocador e inquietante, principalmente para mães, porque não somos estimuladas a questionar os nossos sentimentos com relação a maternidade. Estamos tão culturalmente condicionadas a compreender a maternidade como uma dádiva na vida das mulheres que nos parece tão ingrato sentir qualquer outra coisa que não felicidade por ter filhos que essa assunto se torna tabu. Por isso esse livro é tão espetacular.  Ele aborda a possibilidade de mulheres se sentirem frustradas por terem seguido pelo caminho da maternidade.

Tendo em vista que o arrependimento marca o ‘o caminho não tomado’, arrepender-se de ser mãe indica que há na verdade caminhos que a sociedade proíbe as mulheres de tomarem, eliminando a priori vias alternativas como a não maternidade.

Mães Arrependidas – orna donath

A liberdade de escolha de ser ou não ser mãe ainda é muito restrita. As mulheres que não desejam ser mães são bombardeadas com a possibilidade de sentirem culpa essa escolha, como se o arrependimento só pudesse ocorrem quando não se tem filhos. A pesquisadora fala que essa “liberdade condicional” em decidir se tornar mãe ou não é ditada pela sociedade que em diferentes instâncias associam a realização feminina à maternidade, deixando claro que crianças nascem porque muitas vezes as mulheres não têm ou não veem um caminho alternativo para si.

Uma das coisas que eu achei mais bacana é que as  mulheres verbalizam e refletem sobre o arrependimento, e é desconcertante como a gente se identifica e compartilha muito dos sentimentos dessas mulheres que se arrependeram da maternidade. Mas, diferente das mães que não nutrem sentimentos de arrependimento, as mães arrependidas compreendem que tornar-se mãe foi um erro. Cada uma delas diz claramente que deixaria de ser mãe se tivesse essa oportunidade. E mesmo amando os filhos, elas sabem que seriam mais felizes se eles não fossem seus filhos ou mesmo não existissem.

 

Esse é um livro  que mexe com questões muito profundas da sociedade e na nossa subjetividade feminina e foi uma leitura que mexeu muito com os meus sentimentos. Desenvolvi uma profunda empatia com essas mulheres e tenho vontade de falar com cada mulher para que pense muito antes de se decidir pela maternidade, mesmo que isso não seja garantia contra o arrependimento.

E como eu ainda tenho muito pra falar sobre o livro e esse post se tornaria quase outro livro de tanto que eu marquei meu exemplar de Mães Arrependidas, então aos poucos vou desenvolvendo minhas impressões sobre esse tema aqui no blog.

Li esse livro em maio e foi interessante o contraste entre as propagandas e as homenagens as mães que tomaram conta da mídia nesse período e a crueza da maternidade pelo ponto de vistas de mães arrependidas de terem embarcado nessa. Mostra que todo pode ter mais de uma percepção.

Recomendo muito essa leitura para mulheres e mulheres-mães como uma forma de nos apropriamos de questões de nos afetam. A maternidade envolve muito mais que os comerciais de tv, os discursos sobre a beleza da maternidade e a nossa impressão como filhos e filhas podem dar conta. Já está na hora de olharmos para a maternidade como uma relação entre pessoas e uma condição que causa um impacto profundo na existência da mulher. E esse livro pode ajudar na desconstrução da maternidade romântica.

Meu amor pelo livro:


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Postado em 1 de julho de 2018 por Lu Bento

Hoje começamos um novo cantinho aqui no blog para compartilhar a visão de maternidade de outras mães pretas. Nessa estreia, Nanda de Oliveira, criadora de um manual para promover a diversidade e inclusão na educação, compartilha conosco a sua experiência de maternidade.

Acompanhe!

AMP:Quem é Nanda de Oliveira?

Meu nome é Fernanda, Nanda para os amigos. Tenho 37 anos, sou bacharel em direito, funcionária pública, consultora capilar de “Deixa a Madeixa”, corredora amadora (conteúdos relativos à corrida são compartilhados no instablog corredoras cacheadas) e mãe da Inaê, de 3 anos.

AMP: Como foi a sua gravidez?

A gravidez da minha filha foi planejada e desejada. A construção de sua identidade preta começou desde que ela estava na minha barriga, passando pela decoração do quarto, aquisição de livros com protagonismo negro, bonecas e escolha do nome.

AMP: Você ou sua filha já passaram por alguma situação de racismo que você queira relatar? Conte como foi e como vocês reagiram.

Me pergunto qual negro não tenha passado e também poderia ficar relatando várias situações, mas gosto de focar no racismo estrutural. A mais recente foi ser confundida DUAS vezes como funcionária de uma loja de departamento esportivo, onde TODOS os vendedores usam coletes com o nome da loja.

AMP: O que você acha que existe de diferente entre ser uma mãe branca ou negra na sociedade brasileira?

Nossa, várias coisas, que gosto de dizer que são privilégios. Não se preocupar se a escola estará preparada para receber seu filho; que aborde diversidade, que tenha representatividade nos materiais didáticos e no corpo docente. Mãe branca compra roupa pra filha ou filho sem se preocupar se a figura estampada realmente represente seu filho; não precisa instruir seu filho como andar na rua para não ser confundido com ladrão; não se preocupa que seu filho vire estatística. Enfim, elas constantemente têm o privilégio de descansar.

AMP: Com relação a abordagem racial, a relação que você tem com sua filha  é semelhante a que você teve na infância?

Não. Totalmente diferente. Até porque hoje em dia temos mais ferramentas para empoderar nossos filhos. Quando eu era criança, apesar de saber que era negra, nunca foi um hábito da minha família conversar sobre as questões da negritude (racismo, empoderamento, etc).

Educação Antirracista

AMP: Você acredita na importância de uma educação com o recorde racial?

A educação antirracista é o único caminho para uma sociedade mais justa e igualitária.

AMP: A escola da sua filha faz alguma abordagem da lei 10639/03? Você faz alguma coisa para que a escola tenha mais representatividade?

A escola da Inaê possui um quadro de funcionários diverso (desde corpo docente a auxiliares), mas ainda há muito que caminha na questão racial. Não a reconheceria como uma instituição antirracista. A impressão que tenho é que eles nunca foram questionados sobre isso antes de mim. E também se apoiam muito na metodologia montessoriana para se esquivar das responsabilidades. Depois de uma conversa que tive no ano passado notei algumas pequenas mudanças (tô na vibe de comemorar cada uma delas), mas sei que há muito mais que pode e deve ser feito neste quesito.

Nanda de Oliveira

Empoderamento e Autocuidado

 

AMP: O que você faz para elevar a autoestima da sua filha?

Busco referências positivas. Mostro a beleza dos seus traços, do seu cabelo e sempre elogio.

AMP: O que você faz para elevar a sua autoestima?

Gosto de um tempo pra mim. Fazer as coisas que eu gosto. Confesso que depois que tornei mãe e o tempo ficou mais escasso faço uma escala de prioridades. E procuro sempre atender às minhas necessidade de saúde, beleza e bem-estar.

AMP: O que você faz para cuidar de si?

Pratico esporte e faço coisas que me deem prazer, desde a cursos a ficar maratonando séries no Netflix.

Rede de Apoio

AMP: Como é o compartilhamento de responsabilidades sobre a criação da sua filha? O pai dela divide as responsabilidades? Você se sente sobrecarregada de alguma forma?

As responsabilidades são divididas, mas de uma forma ou de outra sempre sobra mais para mãe. O homem não foi educado para ser pai e essa desconstrução e esse aprendizado tem que ser diário. Aqui em casa, meu marido sempre acompanhou tudo desde a gestação, fica com a Inaê na parte da manhã (para que eu possa treinar e trabalhar), dá banho, comida, coloca pra dormir, brinca….efetivamente está presente, mas sempre tenho que estar atenta para que a machonormatividade não se impere.

 

AMP: Existe um provérbio africano que diz “é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança”. Você tem uma rede de apoio que te ajuda na criação dos seus filhos?

Minha mãe e minha irmã (madrinha da Inaê) são verdadeiros anjos e sempre me ajudaram muito.

AMP: Se você tem um relacionamento interracial/multirracial: Quais questões te chamam mais atenção na sua vivência? Como a sua família lida com as situações de preconceito e discriminação que eventualmente acontece com os membros de pele mais escura?

Sou casada com um homem não negro e, apesar de sempre estar envolvido nas questões relacionadas à negritude ele está aprendendo a ser pai de uma criança negra, pois não teve as vivencias do racismo. Esse envolvimento com nossa cultura (música / religião) que, pra nossa relação, foi essencial não é o suficiente para sua paternidade. E neste aspecto, toda família tem aprendido: ele na sua desconstrução, eu no fortalecimento da minha identidade e a Inaê na educação descolonizada que estamos proporcionando a ela através do contato com elementos da nossa cultura.

Nanda de Oliveira

 Maternância

AMP: Eu costumo usar a expressão maternância para falar que a maternidade exercida pela mulher negra é uma espécie de militância na medida em que a gente passa a desenvolver estratégias pra combater o racismo e evitar que nossos filhos sofram os impactos dele. Você acredita em maternância? Se sim, como você vê que exerce a sua maternância?

Acredito e depois que aprendi esse termo com você eu praticamente o incorporei. Rs. A maternidade foi a terceira e mais impactante cortina que se abriu para que pudesse expandir minha consciência racial. Pela minha filha eu senti a necessidade de escrever um manual para promover a diversidade e a inclusão no ambiente escolar. Através da maternância veio a necessidade/desejo de aprender mais sobre a nossa história, sobre a história da Africa e me levou a fazer cursos sobre o tema. O conhecimento liberta e esse manual é um chamado para que nossos filhos e todos os cidadãos tenham acesso à uma educação descolonizada.

AMP:  Cite uma mãe negra que te inspira de alguma forma.

Nossa, são tantas. Vou citar da minha família: minha mãe e minhas saudosas avós. Minhas queridas irmães Lu Bento (conhece? Rs), Clélia Rosa e Egnalda Côrtes.


Essa foi a Nanda de Oliveira. Conheça essa mãe preta e acompanhe seu trabalho nas redes sociais: instagram | facebook

 

 

Postado em por Lu Bento

No LêproErê de hoje uma graphic novel que faz justiça a um personagem tão desvalorizado da Turma da Mônica e ainda traz um menino negro como protagonista retratado de uma forma positiva e inspiradora ( algo raro nos livros com protagonistas masculinos negros).

Jeremias – Pele

LeproEre - Jeremias Autores e ilustradores: Rafael Calça e Jefferson Costa

Editora: Panini  Comics

 

Jeremias é um dos personagens mais antigos de Maurício de Sousa, foi criado em 1960 quando o autor ainda publicava suas histórias em tirinhas dos jornais. Mas Jeremias nunca protagonizou uma revistinhas. As poucas histórias protagonizadas por ele só surgiram a partir de 83, e ele mal aparece ou tem falas nas historinhas de outros personagens.

Digo tudo isso para contextualizar a importância histórica de Jeremias – Pele, graphic novel da  série Graphic MSP que traz releituras de personagens de Mauricio de Sousa escritas e ilustradas por diferentes quadrinistas. Jeremias é a 18ª graphic novel da série, que é voltada para jovens e adultos e  foi criada em 2012.  Estamos em 2018 e só agora Jeremias foi lembrado, inclusive depois de  mais de uma edição protagonizadas pela Mônica, pelo Bidu ou pelo Astronauta. Sinal do total desprezo que o personagem sofre.

Não sei o que fez Jeremias ser lembrado ( dado o histórico de desprezo nos mais de 50 anos do personagem), o importante é que Rafael Calça e Jefferson Costa fizeram a melhor releitura possível do personagem, trazendo a masculinidade negra  para o centro do debate. Por ser escrita por um homem negro, a HQ fala sobre racismo na infância, com enfase para os sentimentos e os mecanismos de defesa que as pessoas negras, e especificamente, os homens negros, desenvolvem para sobreviver.

Meninos negros são constantemente vistos de forma negativa na sociedade, como bandidos em potencial. Jeremias -Pele confere humanidade e sensibilidade à visão do senso comum diante da masculinidade negra. O tema do preconceito racial na infância é fundamental de ser abordado, mas destaco também a importância da relação pai-filho e da afetividade entre homens negros. Como mulher negra, que já está “acostumada” a ver produções que abordem o racismo, me surpreendeu  e emocionou muito encontrar essas relações entre homens negros tão lindamente retratada em múltiplas possibilidades: pai-filho; avô-neto, entre meninos negros.

Jeremias demorou muito para ser valorizado. Mas sua hora chegou. Maurício de Sousa faz sua mea-culpa dizendo que  a partir de agora todos no estúdio estarão “mais atentos à realidade que nos cerca.” Para nós, negros, não vale a pena esperar muita coisa de um estúdio que sempre o tratou como coadjuvante dos coadjuvantes. A maravilhosa releitura do personagem nessa narrativa forte, emocionante e extremamente realista, finalmente honrou um personagem discriminado e mostrou todo o seu potencial.

Como a maioria das HQs, Jeremias -Pele tem um conteúdo extra, com alguns esboços dos desenhos, o histórico do personagem nas obras de Mauricio de Sousa e um conteúdo sobre elementos significativos da história dos negros no Brasil que aparecem ao longo da trama.

Recomendo muito essa HQ para meninos e jovens e homens negros, principalmente pela relação entre gerações. Mas a leitura é maravilhosa para todos os públicos, é um material com um potencial didático enorme para educadores, tanto para atividades com os alunos quanto para repensar práticas e atitudes (os professores têm papel importante na reprodução ou não de atitudes preconceituosas em ambiente escolar, como a HQ demostra com muita presteza).

 

Meu amor pelo livro:

 

 

 

 


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Postado em 18 de junho de 2018 por Lu Bento
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No Leituras Maternas de hoje um livro que fala de maternidade de uma maneira muito peculiar. É possível esquecer um filho? E um filho que não chegou a nascer? Confira o que eu achei do livro O que Alice esqueceu?, da autora australiana Liane Moriarty, e como foi a minha experiência de leitura.

 

O que Alice esqueceu?

O que Alice esqueceuAutora: Liane Moriarty

Editora: Intrínseca

Sinopse: Alice tinha certeza de que era feliz: aos 29 anos, casada com Nick, um marido lindo e amoroso, aguardando o nascimento do primeiro filho rodeada pela linda família formada por sua irmã, a mãe atenciosa e a avó. Mas tudo parece ir por água abaixo quando ela acorda no chão da academia. Dez anos depois.Enquanto tenta descobrir o que aconteceu nesse período, Alice percebe que se tornou alguém muito diferente: uma pessoa que não tem quase nada em comum com quem ela era na juventude e, pior, de quem ela não gosta nem um pouco.Ao retratar a vida doméstica moderna provocando no leitor muitas risadas e surpresas, Liane Moriarty constrói uma narrativa ao mesmo tempo ágil e leve sobre recomeços, o que queremos lembrar e o que nos esforçamos para esquecer.

 

Atenção: esse texto contém spoilers

O que Alice esqueceu? é um romance que me arrebatou logo de cara. Com uma linguagem simples e uma narrativa bem montada, Liane Moriarty nos transporta para a vida de Alice sob a perspectiva da própria, que acabara de cair e bater a cabeça. O começo do livro é essa confusão, não dá pra entender direito o que se passa e Alice está tomando consciência  do acidente que sofreu e tentando compreender quem ela é e onde está. Enquanto  isso, nós, leitores, tentamos entender que história confusa é essa. Aos poucos vamos percebendo que Alice parece acreditar que ainda é 1998, quando ela estava grávida pela primeira vez. Mas na realidade já 2008, Alice tem quase 40 anos, 3 filhos e está em meio a um processo complicado de divórcio. E claro, não se lembra de nada que aconteceu nos últimos 10 anos. O que você esqueceria se fosse apagado da sua memória os últimos 10 anos da sua vida?

O livro me atraiu por essa enredo sobre uma mãe que esquece completamente sobre seus filhos. Será o vínculo mãe-e-filho é forte tão forte assim que resiste até a uma perda abrupta de memória? Amamos nossos filhos instintivamente? A história de Liane que mergulha nessas questões com muita delicadeza e nos provoca a refletir sobre tudo isso, principalmente quando já somos mães. É bem provável que quem não vive ou viveu a maternidade não se impacte tanto com essas questões e se interesse pelo livro de uma maneira mais focada no entretenimento: uma história interessante e bem contada. Mas é inegável que este é um livro sobre maternidade, e as outras personagens femininas também têm suas questões  relacionadas à maternidade.

Para manter o ritmo da história e trazer outras perspectivas sobre a situação da Alice, a autora optou por utilizar diferentes formas de narração. Intermeando os trechos narrados sob o ponto de vista de Alice, o livro tras também trechos do diário de Elisabeth, irmã de Alice que faz um tratamento psicológico para lidar com as suas sucessivas perdas gestacionais, e  também trechos do blog da Frannie, avó de Alice e Elisabeth, que mora em um retiro de idosos e mantém um blog no qual compartilha sua vida.  Esse mosaico de pontos de vista torna a leitura bem fluida, não dá tempo de cansar de  nenhuma das narrações e possibilita uma diversidade de olhares sobre o enredo.

O que Alice esqueceu? é um livro focado nas relações familiares. Alice, que esqueceu dos próprios filhos, busca retomar seus vínculos familiares ao tentar reconciliação com o marido e com a irmã. É interessante como a vida segue por caminhos tão imprevisíveis que Alice não consegue acreditar que está se divorciando e que sua relação com a irmã não é mais tão próxima. Ao mesmo tempo, ela precisa lidar com 3 crianças que ela não conhece, não ama e sequer saber o que fazer diante dessas desconhecidas. Essa noção de que o amor é construído na convivência é muito forte no livro.  Frannie é outra personagem que traz muito forte a questão dos laços afetivos. Ela é uma solteirona que não tem vínculo sanguíneo com  netas, mas se tornou próxima ao ajudar a família quando Barb ficou viúva. Barb, por sua vez, deixou de lado alguns cuidados maternos após a morte do marido e é uma personagem mais voltadas para o seu bem-estar, independente das necessidades das filhas. São mulheres totalmente diferentes que compõe esse mosaico materno, nem sempre maternal se romantiza.

 

Elisabeth: infertilidade e determinação

Elisabeth é sem dúvidas a personagem que mais me tocou. Ela passou por sucessivas perdas gestacionais e processos de fertilização in vitro que  a deixaram amarga e desiludida. Ela mesma se descreve como um damasco seco, uma mulher sem capacidade de amar. Quantas vezes eu me senti como ela por não conseguir manter a gravidez. Além da tristeza pelas perdas, Elisabeth personifica as dores das mulheres inférteis, que oscilam entre a esperança de ter um filho biológico e a culpa por ter esperanças.

Confesso que meu carinho pelo livro tem muito a ver com Elisabeth. Ela é aquele tipo de mulher que eu quero abraçar e dizer “tamo junta, amiga. Eu sei o quanto doí e o quanto você se sente culpada por tudo isso.Não é culpa sua!” Maratonei a leitura do livro: li a 414 páginas em 2 dias, algo praticamente impossível para uma mãe de duas crianças que passou o fim de semana sozinha com elas. Não tenho o hábito de ler tão rápido assim e me surpreendi em como a leitura fluiu e me prendeu. Elisabeth me lembrou um pouco a Fig, de Stalker, por esse desequilíbrio emocional diante da perda gestacional e essa supervalorização da maternidade, como se a felicidade  e a razão de ser de uma  mulher estivesse em ter um filho.

Elisabeth me tocou muito por ter uma cuidado especial em manter suas memórias vivias sobre cada gravidez.  Foram muitas perdas, mas ela se preocupava em individualizar os bebês e manter alguma memória sobre cada um deles, reconhecendo para si a existência dos suas filhos mesmo que ninguém mais parecesse sentir a ausência deles.

 

Histórico do livro

As lembranças de Alice
Essa não é uma história nova de Liane e já foi lançada no Brasil pela editora Leya com o título As Lembranças de Alice em 2009. Não sei se na época fez sucesso, mas eu curti muito mais o título e a capa da versão atual.  O relançamento da obra 10 anos depois é interessante e simbólico, pois nos remete a pensar em tudo que vivemos nesses dez anos e que seriam esquecidos se estivéssemos no lugar de Alice.

Coincidência ou não, a TAG inéditos indicou o livro As Lembranças de Alice para quem curte o tipo de literatura enviada pro ela no mês de junho. Mas um motivo para trazer a história de Alice para o cenário literário nacional e aguçar o interesse das leitoras. Não li a versão antiga do livro não sei se houveram alterações significativas nas traduções. Também não creio que essa é uma história que eu leria várias vezes.

Infelizmente, a história é bem previsível no final das contas. Já dá pra saber o que vai acontecer, não tem viradas surpreendentes. Pra quem não se importa com isso, a leitura diverte e distraí. Pra quem tem essa olhar para a maternidade na literatura, o livro é fascinante e nem importa muito o desfecho. De um modo geral, gostei muito da escrita da Liane Moriarty e fiquei muito curiosa em conhecer seus outros livros.

 

Meu amor pelo livro:

 

 

 


Esse livro foi enviado para a nossa leitura como parte da parceria com a editora Intrínseca e esse post faz parte da Semana Especial Liane Moriarty. Ao longo da semana, outros blogs estão produzindo conteúdo sobre a autora e suas obras. Se você gostou e se interessa em adquirir esse livro, compre pelo nosso link da Amazon e ajude a manter o AMP.

Postado em 4 de junho de 2018 por Lu Bento
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Olá Pessoal! Vamos de mais um Leituras Maternas de hoje uma autora que eu estava louca para conhecer e já adianto que curti bastante. Não sabia que esse livro era todo focado em relações mães e filhas e perceber a complexidade das possibilidades de relações narradas pela autora foi bem interessante. Ah, esses são meus comentários sobre a leitura e algumas partes contém spoilers. Chega de enrolação e vamos ao livro!

 

Pequenos incêndios por toda parte

Autora: Celeste Ng

Editora: Intríseca

Uma família perfeita, em um bairro perfeito vivendo uma vida perfeita. Essa seria a família Richardson se não fosse pela filha Izzy, a caçula que incendiou a casa família logo no primeiro capítulo.  Além da família Richardson, conhecemos também a família Warren, mãe e filha andarilhas que vivem com muito pouco e não criam vínculos nas cidades onde moram e acompanhamos a disputa entre os Mac , pais adotivos, e a mãe biológica que é uma imigrante chinesa pela guarda de uma menina de quase 2 anos.

O que Celeste Ng nos mostra nessa narrativa intensa e envolvente que as relações familiares podem ser bem complexas, principalmente as relações entre mães e filhas. Por adotar uma estrutura narrativa invertida, em que o final já é apresentado no primeiro capítulo,  Celeste Ng encara o desafio de desenvolver diferentes micronarrativas sobre questões relacionadas à maternidade: aborto, perda gestacional recorrente, adoção interracial, barriga de aluguel, maternidade super protetora, maternidade negligente… enfim, toda a trama é baseada nessa relação entra as mulheres e a autora sustenta bem o desafio de começar pelo desfecho e construir uma boa história.

Celeste Ng - pequenos incêndios por toda parte

A leitura é muito fluida, com apenas alguns pecados de vício de linguagem. Como as passagens no tempo são constantes, ela vai de um passado recente a passados mais distantes na intenção de esclarecer as motivações das personagens, em algumas partes há a  repetição excessiva de um recurso de fechamento de ideia numa seção do texto que passa a impressão que os personagens são todos muito inteligentes e perspicazes. Ela diz com muita frequência ” e ele saberia que a partir desse momento nada seria como antes” ou algo como ” e ela percebeu que tudo havia mudando para sempre”. Esse exagero me incomodou um pouco nos primeiro capítulos, mas depois ou a leitura me envolveu tanto que eu deixei de notar, ou ela diminuiu a frequência dessas frases. De qualquer forma, não é algo que comprometa o livro, apenas um ponto que poderia ter sido analisado melhor na preparação do texto ou mesmo na tradução para o português.

Uma curiosidade é que a autora é  norteamericana de origem chinesa e viveu durante muitos anos em Shaker Heighs, Ohio, cidade onde se passa a história. A origem étnico-cultural da Celeste Ng provavelmente foi muito importante para a sensibilidade em desenvolver uma narrativa sobre a adoção interracial abortando de forma muito embasada a questão da importância de uma criança crescer com elementos de referência à sua estética, cultura e identidade. Tem uma passagem maravilhosa do julgamento sobre qual família deveria ficar com a menina e o advogado da mãe biológica pergunta se a menina tem acesso a bonecas chinesas ou livros com personagens chineses e questiona a capacidade de pais não-chineses desenvolverem esse olhar para a questão da identidade da menina. Uma passagem maravilhosa e que dialoga muito com as discussões que temos sobre construção da identidade e autoestima de crianças de grupos “minoritários”. A questão da diversidade racial é abordada com frequência. Lexie, a filha mais velha dos Richardson, namora um jovem negro Brian, e esse se dá de uma maneira muito natural, sem problematizações com as diferenças. Pra nós, brasileiros que só estamos acostumados a ler sobre personagens negros associado ao racismo, a abordagem surpreende.

A história se passa em 1998, e Celeste Ng faz referências sobre o caso Bill Clinton e Monica Lewinsky como pano de fundo das descobertas sexuais do núcleo adolescente. Além disso, adorei a referência à The Bill Cosby Show ( apesar de saber o quanto o Bill Cosby é o cara desprezível, um abusador), quando os jovens namorados Brian e Lexie chamam os pais dele de Cliff e Claire. Família preta de classe média: uma realidade frequente no contexto americano e pouca vista por aqui.

Muito ainda poderia ser dito sobre esse livro, ele é muito rico em temas para discussão, a autora me surpreendeu bastante e fiquei muito feliz em finalmente conhecê-la. Adorei a leitura de Pequenos incêndios por toda parte, já estou planejando ler o primeiro livro da Celeste Ng e outros focados em dramas familiares.

Recomendo muito a leitura para quem quer uma leitura de entretenimento que provoque reflexões e trate de temas familiares.

Meu amor pelo livro:

 

 


Esse livro foi enviado para leitura pela editora Íntrinseca, parceira do blog. Se você ficou interessada em adquirir o livro, compre pelo nosso link da Amazon. Assim, você ajuda na manutenção do AMP.

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