Postado em 18 de outubro de 2018 por Lu Bento
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Estamos em pleno processo eleitoral. Mas nunca na história desse país ( pra lembrar um certo presidente) as eleições presidenciais mobilizaram tantas discussões e sentimentos. Vivemos tempos de grande desconforto, famílias e amigos separados por visões de mundo distintas, relacionamentos se reestruturando com outras bases e um sentimento coletivo de desesperança.

As pessoas defendem seus candidatos com tanto fervor, que as discussões extrapolam o campo da política e adentra o campo dos valores, refletindo posicionamentos que afetam severamente as relações estabelecidas. Não é mais sobre Haddad e Bolsonaro e quem será o novo presidente.  É um embate muito mais profundo que está sendo jogado no campo das  fake news, da intolerância e do medo. 

Eu, que sou mãe de duas meninas negras, tenho vivido dias de desesperança. Qualquer que seja o resultado final das eleições, a poeira debaixo do tapete da sociedade brasileira veio a tona e esta sufocando todo mundo. Como eu explico essa situação para as minhas meninas? Como eu falo com ela que seus avós e seu tio apoiam um candidato que acredita que as mulheres são inferiores, merecem ganhar menos, são frutos de uma “fraquejada”? Como explicar os casos de pessoas negras como nós, homossexuais como nossos amigos e amigas, militantes como todos que convivem conosco que estão sendo agredidos todos os dias por eleitores e apoiadores do candidato apoiado por seus avós?

desesperança

Não é nada fácil. Eu sei que a nossa visão de mundo não é absoluta, que minha família se posiciona ao lado do que acreditamos e que o certo é relativo de acordo com os olhos de quem vê. Mas a forma como educamos e ensinamos nossos filhos tem a ver com a nossa filosofia de vida. Tenho plena consciência de que minhas filhas devem crescer como suas próprias opiniões, mas também sei que a função dos pais e educar com valores e para que as crianças se tornem boas pessoas, e não vejo como isso é possível se eu fecho os olhos para as crescente sensação de insegurança que algumas pessoas vivenciam neste momento por simplesmente existirem. 

Desesperança no futuro

O sentimento que domina é a desesperança. Temos a tendência a acreditar que o futuro será sempre melhor. Mas quando a gente está imerso em uma situação em que um projeto de sociedade opressor ganha cada dia mais força, a sensação é que tempos sombrios virão. 

Como lidar com a perspectiva de que a infância de nossas crianças se dará , em grande parte, em tempos nos quais as diversidades estarão todas ameaçadas?  Como imaginar uma infância livre, em um cenário em que grupos extremistas e racista agridem pessoas por usarem vermelho, por serem negros, por se relacionarem com pessoas do mesmo sexo, por simplesmente discordarem deles e se manifestarem? Como imaginar uma infância segura se muitas pessoas anseiam pelo uso de armas e estimulam as crianças a fingir que estão atirando. 

E como retomar um relacionamento tranquilo com o parentes que o apoiam caso o candidato que estimula tudo isso ganhe e esse cenário de violências se agrave ainda mais? Como não atribuir a eles uma parcela de culpa por colaborarem com tudo isso? E como lidar com um sentimento de frustração com os parentes que é meu, de adulta, sem transferi-lo para as crianças?

No momento atual, o futuro parece ainda mais desafiador. Todas as conquistas sociais e identitárias de grande para da sociedade estão ameaçadas: respeito à orientação sexual e identidade de gênero dos sujeitos, mecanismos de busca da equidade racial, mecanismos de proteção às mulheres do feminicídio, direitos trabalhistas, autonomia dos espaços escolares, liberdade religiosa… 

O que fazer?

Hoje eu não tenho respostas nem sugestões sobre qual caminho seguir. Estou em uma espiral de desilusão. Penso no futuro das minhas filhas em um mundo em que elas não poderão ser o que quiserem, que elas precisarão adotar posturas de autopreservação ainda mais rígidas por serem negras. Penso em possibilidades para tentar garantir uma infância segura, na qual não precisem temer atiradores com ódio racial . Mas hoje eu estou dominada por sentimentos de medo e angustia. Tenho perguntas sem resposta, que também não serão respondidas após o segundo turno, independente do resultado das urnas. A poeira do ódio está no ar, e não sabemos ainda onde estão as máscaras que nos protegerão. 

Postado em 17 de outubro de 2018 por Lu Bento
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Olá aldeia! No Leituras Maternas de hoje um livro que um abraço para mães de primeira viagem: Mãe fora da caixa, de Thais Vilarinho. Vamos juntas?

Mãe fora da caixa

 Autora: Thais Vilarinho

Editora: Buzz

Sinopse:Talvez você ache que esse livro não seja para você. Ele de fato não é uma via de mão única. Você não vai encontrar regras, certo ou errado. Mas a vontade de criar algo novo: o começo de um nós, a construção de um conjunto de experiências e novas formas de enxergar a maternidade. Percebo que ser mãe é algo muito particular, mas ao mesmo tempo universal. Por isso decidi compartilhar aqui meus sentimentos mais íntimos: medos, angústias, dúvidas, alegrias, conflitos e aprendizados.

Mãe fora da caixa é uma coletânea de textos sobre maternidade escritos pela Thais em um blog com o mesmo nome. Os textos são simples e curtos, bem no estilo de texto da internet mesmo, o que deixa a leitura super fluida e gostosa. Além disso, a sinceridade dos relatos é envolvente, e cativante, é possível perceber ela escrita dela o quanto a maternidade é importante em sua vida. 

Gostei do livro. Pra mim, que já sou mãe há bastante tempo e de mais de uma viagem, o livro remete às lembranças do começo da maternidade, os medos, os anseios, as expectativas de como seria esse processo de descoberta da relação mãe/mulher e da relação mãe/filha. 

Gosto de como o livro acolhe as mais que estão descobrindo a realidade da maternidade, que em geral passa bem longe das representações romantizadas da mídia, aquela amamentação natural e sem dor, aquela mãe linda e arrumada cuidando de um bebê que dorme um sono tranquilo… Quando a gente descobre que não é bem assim, tudo que se quer  é ter certeza de que toda a confusão do puerpério não algo só nosso, que acontece com todas as mulheres e famílias e que isso é normal.

O livro traz ainda histórias de outras mulheres-mães, complementam a voz de Thais e nos mostram que nossas dúvidas e anseios nos primeiros passos da maternidade são parecidos do que imaginamos. 


Esse foi o Leituras Maternas da semana. Se você se interessou por ele livro e quer ajudar o AMP a se manter, compre pelo nosso link da Amazon.

Postado em 13 de outubro de 2018 por Lu Bento
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Comprei uma Barbie preta. Nunca fui fã de bonecas Barbie nem estava com intenção de comprar uma boneca no momento. Mas encontrar uma Barbie preta de cabelo crespo sendo vendida em um supermercado comum foi demais para mim. Não resisti. Sem pensar duas vezes, fiz uma compra por impulso para agradar a minha menina interior. “Toma Luluzinha, uma Barbie preta como você. Agora vai brincar com as suas amiguinhas, vai…”.

barbie preta - close do rosto.

Estava com as minhas filhas no mercado e elas não entenderam bem o tamanho da minha empolgação em encontrar tão fácil assim uma boneca Barbie preta e crespa. Para elas, que já possuem uma maioria de bonecas pretas em casa, e também não são grandes fãs de barbies, era só mais uma boneca.

Elas já estão crescendo com outros parâmetros. Mesmo que muito pouca coisa tenha mudado de fato, como mãe eu me esforço muito para que elas não se sintam sub-representadas em suas próprias brincadeiras. Ser preto não é raro ou diferente. Ser preto é normal e a maioria em nossa casa, a casa de uma família preta.  Temos muitas bonecas artesanais e algumas outras manufaturadas. Variedade é que não falta.

Mas faltava ela, a Barbie. Já falei que não sou fã e continuo não sendo. Vejo crianças com 4, 5 anos e coleções com mais de 100 dessas bonecas. Tá aí um monte de vídeos de meninas no youtube pra provar que eu não tô mentido. Aquele corpo idealizado, desfigurado, impossível de ser alcançado por mulheres reais. Aquele ideal de beleza sendo fomentado desde a primeira infância, uma expectativa de um futuro corpo sem defeitos, plastificado.

barbie preta

A Barbie, mas que uma representação de um tipo de feminino, é um símbolo da opressão sofrida pelas mulheres, que crescem desejando a vida perfeita e cor-de-rosa da boneca.

Mesmo assim comprei uma Barbie. Comprei uma Barbie preta e crespa que estava sendo vendida em um supermercado comum. Uma Barbie preta e crespa que estava lá, pronta para ser comprada por qualquer um, sem ser exótica, rara, trazida do exterior naquela viagem do amigo do tio. Uma Barbie com a minha cara.

Como pode o fato de eu ter comprado uma boneca ser tão marcante em minha trajetória. Efeitos do racismo que eu não pude perceber nos anos 80/90 enquanto brincava com minhas Barbies brancas, loiras e de olhos azuis como se fosse totalmente natural pra mim desejar ser representada de maneira tão diferente de mim no mundo do faz de conta onde tudo é perfeito.  Não, o defeito não estava comigo por ser preta. O defeito era da indústria de brinquedos que não disponibilizava bonecas pretas, que nos fazia acreditar que para ser bonita era preciso ser branca-loira-de-olhos-azuis. E ainda alegavam que “boneca preta não vende.”.

Finalmente eu tenho uma Barbie preta e crespa como eu. Uma Barbie comprada exatamente da mesma forma de todas as outras que tive: num supermercado, como parte das compras de mês. Aquela aquisição corriqueira, natural, sem data especial ou preparação específica. Foi só ir ao mercado e ela estava lá.

Que as minhas filhas possam crescer encontrando com naturalidade brinquedos representativos. Que cada vez mais lojas disponibilizem bonecas pretas sem que a gente precise garimpar para achar o que queremos; “Ah, pretinha assim só se você encomendar, a gente não deixar na loja não…”. Que as minhas meninas e as  pretinhas que virão depois delas não pensem sequer por um instante que não existem bonecas pretas porque elas não são bonitas.

Minha Barbie preta segue em destaque em minha estante. A minha menina interior agradece a várias meninas crescidas que há anos lutam para que as meninas de hoje se vejam representadas em seus brinquedos.

Postado em 1 de outubro de 2018 por Lu Bento

Em setembro estreou na Netflix o filme Felicidade por um fio (Nappyli ever after), uma produção original com direção da saudita Haifaa al-Mansour  baseado em uma novela produzida pela Trisha Thomas.  O filme fala sobre um assunto que é fundamental para as mulheres negras: cabelo.  E só de pensar em um filme que fala sobre cabelos e sobre mulheres negras já me vem várias referências de dores, de processos de negação da própria natureza e  de processos intensos de transformação.

Cabelo não é brincadeira para as mulheres negras. Cabelo é um assunto seríssimo, talvez uma dos elementos estéticos com maior impacto em nossa subjetividade. Um dia de cabelo ruim  – bad hair day – é um dia com tendência a ser ruim como um todo e com impactos por vários outros dias.  E não coisa de mulher fresca não. Mulheres negras gastam muito mais tempo para cuidando de seus cabelos, independente se  ela usa cabelo natural ou com algum tipo de tratamento químico. 

Felicidade por um fio entra com propriedade nesse tema. Primeiro por ter sido baseado em uma novela escrita por uma mulher negra, uma entendedora do assunto. Além disso, o filme aborda diferentes aspectos da relação com o cabelo, mostrando o quão complexa é a relação das mulheres negras com seus cabelos. E pra finalizar, a direção primorosa de Haifaa al-Mansour, uma das primeiras diretoras de cinema da Arábia Saudita, conseguiu manter o tom leve durante tudo o filme, mesmo nas cenas mais duras. Como mulher negra, pude observar diferentes aspectos da nossa relação com o cabelo, me identificar com algumas situações vividas sem terminar o filme emocionalmente desgastada. 

Se você não conhece o filme ou não tem Netflix, veja o trailler

Atenção: Esse post CONTÉM SPOILLERS. Falarei em detalhes sobre o filme, inclusive sobre o final, então é por sua conta e risco continuar ok? 

Liso e longo – mulher negra e padrões de beleza

O filme começa com a personagem principal, Violet Jones ( interpretada pela maravilhosa Sanaa Lathan), se preparando para acordar linda e lisa ao lado de seu namorado. Violet super cedo, recebe sua mãe em casa e enquanto a mãe faz escova no cabelo da filha, Violet conta pra mãe que provavelmente ela será pedida em casamento em breve. 

A cena é tão estranha que a gente só entende direito que a mãe foi até a casa da filha pra fazer escova no cabelo dela antes do namorado acordar porque Violet volta pra cama, finge estar dormindo e quando o rapaz acorda ela está linda na cama com os cabelos escovadíssimos. 

A fixação de Violet por um cabelo liso e longo foi fomentada desde cedo pela própria mãe. É interessante como o filme trabalha o impacto das referências maternas na autopercepção das meninas. A mãe da Violet traz consigo um trauma relacionado à aparência: ela tinha sido obrigada por sua própria mãe a usar o cabelo natural crespo em uma época em que se tornou moda o uso de cabelos alisados. 

Então, fica bem explícito no filme que as ações da mãe, exageradas no sentido de garantir que a filha mantenha um cabelo sempre liso e “perfeito”, têm raízes em profundas dores na construção da autoimagem dessa mulher, que impõe à filha uma rotina rígida de manutenção de uma determinado padrão estético.

No filme a mãe da Violet parece uma megera, uma mulher que obriga a filha a manter um determinado tipo de cabelo, mas é perceptível como essa opressão é uma derivação da proteção que essa mãe tenta dedicar à filha.  É uma relação tão complexa, com tantas nuances, que a gente só vai percebendo ao longo do filme, quando a mãe expressa sua história e o motivo de tanta ênfase no cabelo liso e na manutenção de um determinado modo de agir e percebendo a humanidade dessa mulher e a construção de uma autoestima solidificada em dores de racismos sofridos na infância. 

Voltando ao enredo do filme, a expectativa de um noivado não se concretiza, o rapaz alega não conhecer bem Violet e, apesar dela parecer uma futura esposa perfeita, ele não sabe quem ela verdadeiramente é.  Isso foi um choque para a nossa mocinha a fez pensar sobre coisas que ela nunca havia questionado. 

A busca por si própria, seus gostos, sua beleza e sua essência, assume um papel importante na vida da protagonista e é o principal motivador para todo o desenvolvimento do enredo. 

Ser loira – uma escolha ou um escudo?

Violet, na busca por si mesma,  decide pintar o cabelo de loiro. Nada contra a mulheres que pintam o cabelo de loiro, mas essa é uma etapa frequente na jornada feminina negra de autoconhecimento. Ser loira remete a uma sensualidade e uma liberdade idealizada tanto por homens quanto por mulheres. 

Violet se aventura na loirice, adota um visual totalmente contrário à sua personalidade e objetivos de vida. Essa etapa loira foi o ápice da busca pessoal da protagonista por sua essência, por sua identidade. E foi quando ela menos se reconheceu como uma pessoa, a relação que ela estabeleceu foi totalmente objetificada a ponto dela se expor a situações extremamente desconfortáveis. 

Não é minha intenção atribuir ao cabelo loiro a total falta de conexão consigo mesma, mas no contexto de Felicidade por um fio, Violet loira e crespa foi uma grande ruptura com a imagem que Violet faz de si, e acaba simbolizando o momento que ela toma consciência do quanto a sua vida e identidade gira em torno do cabelo. 

Cabelo – tê-los ou não tê-los

A fase de Violet careca é a mais reveladora. Como se sem os cabelos, ela finalmente tivesse a oportunidade de se enxergar de verdade.  Nessa fase ela desabrocha, descobre seus próprios interesses e percebe que sua beleza não está restrita a determinados padrões. Ela se sente livre para romper com o emprego que também reforça esteriótipos de gênero ao esperar que ela produza campanhas publicitárias focadas em um modelo machista de mulher. 

Essa associação entre não ter cabelos e ter liberdade de ser e existir é um dos pontos mais fortes do filme, porque provoca uma reação imediata em qualquer mulher negra, seja ela alisada, ou com cabelos naturais. Não ter cabelos e abdicar da possibilidade de ser definida pelos cabelos, é superar esse marcador e colocá-lo no mesmo patamar de qualquer outro aspecto corporal ( cor dos olhos, altura, peso… ), exercendo influencia em nossa autoestima  sem, contudo, assumir um aspecto dominante. 

Sem cabelo, Violet se viu livre para ser ela mesma, expressar sua essência, romper com padrões e buscar sua felicidade.  Foi sem cabelo que ela se permitiu viver um relacionamento com o cara que representa o oposto de tudo que ela sempre esperou de um homem.  E ser feliz. 

As amarras da menina livre

Toda a transformação da protagonista é provocada pela relação com a menina Zoe, filha de um cabeleireiro dono do próprio salão e criador de produtos específicos para cabelos crespos. 

Zoe representa a liberdade que a protagonista tanto almeja. Quando ela ainda usava o cabelo liso, a menina troca os produtos do salão para provocar um dano no cabelo de Violet. Essa atitude, além de molecagem e rebeldia, demonstra uma frustração de Zoe em não poder ter o cabelo alisado como Violet. 

Violet, por sua vez, se sempre profundamente incomodada em encontrar essa menina que aparenta ser tão livre, usando cabelo natural e roupas largas, vivendo sem se importar em se adequar a determinados padrões. Zoe incomoda a menina interior de Violet, que cresceu frustrada por precisar se esforçar tanto para ser um determinado tipo de mulher esperado pela sociedade e, principalmente pela mãe. 

Aí, cabe destacar que Zoe é uma menina criada unicamente pelo pai, colocando essa liberdade de não seguir um padrão esperado de feminino um exemplo de como os homens educam “melhor” as crianças e conseguem criar meninas com autoestima mais elevada. 

Mas Zoe não é tão bem resolvida consigo mesma quanto parece. A menina tem um desejo de adotar um cabelo alisado e um visual mais “feminino”, mas se sente perdida no reconhecimento da própria beleza e na construção da autoimagem. A menina sente falta de uma referência feminina e a ausência da mãe, que simplesmente decidiu que a maternidade não era para ela e decidiu abandonar a família, tem um forte  impacto em sua vida. 

Violet e Zoe começam com uma relação conflituosa que aos poucos se transforma em amizade, cada uma fascinada pela aparente liberdade  da outra de ser quem se é.  Vejo a relação delas como um encontro no espelho do tempo, a Zoe ansiando para ser como a Violet e a Violet vendo na Zoe a menina que ela gostaria de ter sido. 

Esse é um lindo pedaço do filme que mostra o quanto essa pressão por uma determinada estética já afeta a subjetividade das meninas negras muito cedo e que é uma questão importante na infância negra. Meninas negras já são tocadas desde muito cedo por questões relacionadas à aparência, questões extremamente opressoras e racistas. 

Crescimento capilar

O crescimento do cabelo de Violet representou muito bem o crescimento da própria personagem, que se permitiu voltar a se relacionar com Clint (que homem, senhoras!) e experimentar coisas que ela não fazia devido  o tempo que ela precisa costuma dedicar aos cuidados com o cabelo e as restrições que ela se autoimpunha.

Foi também com os cabelos curtos que ela se permitiu se relacionar com Will, experimentar uma novo tipo de relação baseado na parceria e no companheiros, sem que preocupar em ser a parceira ideal para um homem e com liberdade para se expressar. 

Violet rompe com o seu trabalho na publicidade, sempre com projetos voltados para a manutenção de um esteriótipo de feminilidade. É a mulher crescendo e se libertando junto com os seus cabelos. Sem dúvidas, essa é a parte mais emociante do filme. 

E os homens nessa história toda?

Um dos aspectos que eu menos gostei no filme foi como os homens foram retratados como pessoas sem problemas, com autoestima elevada e total segurança em suas ações. 

O pai de Violet decide seguir a carreira de modelo, e mesmo com a esposa sendo fortemente contra, ele investe no sonho já na meia-idade e segue fazendo sucesso pelo seu físico com mulheres de todas as idades. 

O ex-namorado, tão logo terminou já engatou uma paquera com uma médica do seu trabalho, uma mulher negra com o cabelo alisado do mesmo perfil que a Violet. 

O terceiro rapaz, um cabeleireiro que cria a filha sozinho, assumiu a profissão pouco  valorizada para homens heterossexuais sem nenhum preconceito, tem a casa repleta de plantas e muita autoconfiança. Diante da falta de confiança de Violet em apresentá-lo como namorado para a mãe, falando exatamente quem ele é,  Will não teve dúvidas em romper o relacionamento e priorizar um ambiente seguro e saudável para a filha.  Eu sei que ele é um personagem secundário, e que não era o foco do filme mostra as reações e sentimentos dele diante das situações, mas  mostrar apenas o pragmatismo da decisão do término da relação, passa a impressão de não houve um impacto emocional com o término, contrastando com os sentimentos demonstrados pelas mulheres. São três representações masculinas que passam a ideia de que os homens não tem problemas de autoestima, os problemas estão com as mulheres. E isso é tão cruel e machista que me fez sentir raiva do filme. Por que homens tão perfeitos e mulheres tão perturbadas por padrões externos?


Dica da AMP: 

Tem muita gente boa falando sobre Felicidade por um fio. Eu recomendo o vídeo da Gabi Oliveira. Ela fala da importância em se discutir temas como representatividade, estética, machismo e o quanto o filme contribui para essas discussões. 

Recomendo também, para quem quer se aprofundar das discussões sobre mulheres negras e cabelo, o documentário do Chris Rock ( sim, ele faz mais que palhaçadas!) Good Hair. 

O livro infantil Histórias de ninar para garotas rebeldes também traz algo interessante sobre o tema. Lá podemos ler sobre a madame C.J. Walker, uma mulher negra que enriqueceu através de uma fórmula capilar pra cabelos crespos. Também é possível ouvir essa história lida por Mafoane Odara no podcast que leva o nome do livro. 

E como um assunto puxa o outro, finalizo minhas indicações com o livro Beleza Natural, que conta a história da rede de salões criados pela Zica Assis, uma mulher negra que desenvolveu sua própria formula de relaxamento capilar e se tornou referencia em cuidados com cabelos crespos. 


Felicidade por um fio é um filme que mostra que ainda há muita coisa para ser discutida e estudada sobre a relação das mulheres negras e seus cabelos.  E o quanto esse assunto rende entre nós. O filme está disponível na Netflix e vale a pena ser assistido como  uma produção que apresenta algumas chaves de análise e reflexão sobre autoestima de mulheres negras. 

Postado em 30 de setembro de 2018 por Lu Bento
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Fim do mês e chegou a hora de compartilhar aqueles achados bacaninhas setembro. Teve podcast, teve canal no youtube e teve também série da netflix.  Bora lá?

Youtube – Min e as mãozinhas

Não se se vocês sabem, mas eu estou estudando Libras. Sim, estou fazendo um curso de Libras no trabalho e tem sido maravilhoso. Além de aprender um novo idioma, estudar Libras está me fazendo conhecer mais uma parcela da população que ainda necessita de muitos recursos de inclusão em nossa sociedade. É chocante o quanto a nossa sociedade é excludente e a gente não faz nada quanto a isso. 

Então, a partir desse mergulho na cultura surda eu conheci em setembro o  desenho animado Min e as mãozinhas, um desenho em Libras. Para crianças surdas, essa é uma grande conquista. E para nós, ouvintes, uma oportunidade de consumirmos uma produção cultural que não foi pensada prioritariamente para nós.


Podcast – Sinuca de Bicos

Um podcast de mães para mães. Vocês sabem o quanto eu sou fã da mídia podcast, e sempre que posso estou investigando novas produções para ocupar meu tempo de deslocamento pela cidade. 

Um podcast que tem me acompanhado em setembro é o sinuca de bicos, um podcast que surgiu a partir do grupo de apoiadores do  Tricô de pais, um podcast sobre paternidade criado pelo Thiago Queiroz do Paizinho Vírgula. Só pela origem dele já dá pra saber que é produzido por uma galera que tem um interesse genuíno em pensar a maternidade e a paternidade de uma maneira mais empática e afetuosa. 


Netflix – …When love happens

Aquele filminho gostoso e romântico pra aquecer o nosso coração. Pra quem curte um romance gostosinho e previsível, esse filme é uma excelente opção. E ainda é uma produção nigeriana, então temos uma contexto com todas as personagens negras, o que para nós é uma representatividade enorme e extremamente prazeroso. Poder ver uma história protagonizada por negros, sem falar de racismo, pobreza e demais mazelas da vida é algo muito raro para nós negros brasileiros e só por isso já vale prestigiar esse produção africana.


Essas foram as dicas de setembro.  Até outubro com mais novidades!

Postado em 5 de agosto de 2018 por Lu Bento

Hoje no LêproErê um livro para jovens de todas as idades. Muitas pessoas me perguntam sobre livros com protagonismo negro para jovens, e eu conheço muito poucos. E em se tratando de livros com autoria africana então, menos ainda. Mas nem tudo está perdido, não é mesmo? Conheça o livro do LêproErê de hoje.

 

Esperança para Voar

Esperança para voar

Autora: Rutendo Tavengerwei

Editora: Kapulana

Tradução: Carolina Fachin

Onde encontrar: Amazon| Kapulana

SinopseEsperança para voar, de Rutendo Tavengerwei, jovem escritora do Zimbábue, é a história de superação e amizade de duas adolescentes, Shamiso e Tanyaradzwa. Shamiso retorna com a mãe do Reino Unido para o Zimbábue, após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. Tanyaradzwa, sua grande amiga, luta contra o câncer. O cenário é o Zimbábue, em 2008, ano de grave crise política nesse país africano. A narrativa é emocionante e mostra como duas jovens procuram compreender uma realidade tão brutal, e como aprendem a lutar contra adversidades sem perder a sensibilidade.

 

Você já parou pra pensar como é ser adolescente na África? A África é diversa demais para que possamos ter uma representação geral de adolescência no continente. Então, que tal tentar lembrar o que você sabe sobre o modo de vida dos jovens no Zimbábue? Difícil né? É porque ainda temos uma visão muito estereotipada e exotificada dos países africanos que esse livro é uma excelente opção para adolescentes. A partir de uma premissa comum dos romances Young Adults (adaptação a grande  mudanças na vida, enfrentamento de uma doença grave), Rutendo traz a vida cotidiana do Zimbábue, mostrando com sensibilidade e muita assertividade o impacto das questões políticas na vida dos jovens.

Esperança para Voar é uma história que me arrebatou e que me faz olhar com novos olhos para a literatura voltada para o público jovem. Mais que um festival de clichês e de situações que de forte apelo emocional, essa literatura pode introduzir vários elementos para o universo jovem que, talvez, sejam pouco atraente em um primeiro momento. Rutendo fala em seu livro sobre a situação política do Zimbábue em 2008, que vive o ápice de uma crise política, econômica e social que até hoje causa impactos no país. O assunto, que passou batido por mim nos noticiários da época, é pano de fundo da história e tem grande impacto na vida das personagens. Lendo o livro agora em 2018 eu me interessei em compreender o que se passava e fui pesquisar mais sobre a história e a política do país. Sei que esse meu movimento não foi só motivado pelo meu amadurecimento ao longo desses 10 anos. Foi o contexto da narrativa e as implicações da política na vida das personagens que me fizeram pesquisar sobre tudo que aconteceu por lá. O livro denuncia uma situação em meio a uma bem construida história, e hoje eu acredito que essa seja uma das melhores formas de gerar interesse e empatia de quem não vive a situação.

Eu escrevi a orelha de apresentação da edição brasileira do  livro e uma resenha que vocês podem ler lá no site da editora. Além disso, está rolando um sorteio lá nosso instagram de dois exemplares do livro, então aproveitem! A Rutendo está no Brasil esta semana para conversar com os leitores brasileiros. Dia 7/08 ela estará no Sesc Avenida Paulista  às 19h conversando comigo e com a Bianca Gonçalves do Leia Mulheres Negras. E dia 9/09 ela estará na Bahia, na FLIPELÔ, conversando com a historiadora Luiza Reis às 18h no Teatro Sesc-Senac.

 

 

Dica de Série

Se você se interessa por esse tema de adolescentes superando o câncer e o poder da amizade nesse processo, assista a série Alexa e Katie, na Netflix. Alexa é uma menina que está enfrentando um câncer, mas não quer se deixar abater pela doença e tenta levar uma vida normal na escola. Sua amiga Katie faz de tudo pra ajudar Alexa nesse processo, sempre apoiando a amiga. Apesar do tema denso, a série é muito divertida e rende boas risadas, além de ter passagens muito emocionantes.


Se você gostou desse livro e quer adquirir, compre pelo nosso link da Amazon e ajude na manutenção do AMP.

 

 

Postado em 12 de julho de 2018 por Lu Bento

No Leituras Maternas de hoje, um livro de uso diário  que é uma ferramenta para conhecer uma pouco mais na nossa relação com nossos filhos.

 

Uma pergunta por dia (para mães)

leituras maternas - uma pergunta por dia para mãesAutores: Vários

Tradutora: Marina Vargas

Editora: Intrínseca

SinopseUma pergunta por dia, o livro-diário que já vendeu no Brasil mais de 100 mil exemplares, ganha agora uma edição especial exclusiva para as mães. Mais do que um álbum de fotos, mais do que um tradicional livro do bebê, Uma pergunta por dia para mães é o instrumento perfeito para registrar cada acontecimento não só do crescimento dos filhos, mas da intensa experiência de aprendizado, descobertas e autoconhecimento na qual a mulher embarca ao ser mãe.

Funciona assim: são 365 perguntas diferentes, uma para cada dia do ano. Você começa qualquer dia e, percorridos doze meses, volta para o início. E é aí que reside o ponto alto do diário, porque cada novo ano é um convite a rever as respostas anteriores, revisitar as mais diversas lembranças e refletir sobre como tudo já mudou e se transformou.

 

Eu já gostava da ideia do Uma pergunta por dia como uma forma de registrar os acontecimentos diários. Eu tenho uma quedinha por registrar o que acontece em minha vida, principalmente pelo prazer de reler no futuro e ver o quanto eu mudei e me transformei ao longo do tempo. Então quando eu soube do Uma pergunta por dia para mães, fiquei bem interessada em ter um, para acompanhar minha relação com as curicas. O livro-diário foi lançando para o dia das mães de 2017, e por algum motivo não consegui comprar na época, mas fiquei com aquele desejo na cabeça.

Com a parceria com a Intrínseca, finalmente consegui ter o livro e posso dizer que estou amando essa ferramenta. Todos os dias antes de dormir respondo a pergunta do dia e deixo registrado algum momento com as meninas, seguindo a pergunta do dia do livro.

Já faz 1 mês que estou preenchendo e estou gostando muito da experiência. Fico imaginando as mudanças que perceberei nas respostas ao longo do tempo, já que o livro tem previsão de ser respondido diariamente nos próximos 5 anos, quando as meninas já terão 10 e 9 anos.

Sinto que essa pode ser uma boa lembrança da dos meus sentimentos e impressões sobre a infância delas, além de ser uma forma de perceber minhas mudanças de perspectiva ao longo dos anos.

Uma pergunta por dia para mães é um livro lindo, onde você mesma registra a sua história, sendo autora e protagonista da sua vivência de maternidade.

 


Se você gostou desse livro e tem interesse em adquirir, compre pelo nosso link da Amazon e ajude o AMP a se manter no ar. Recebemos esse livro como parte da parceria com a editora Intrínseca.

 

Postado em 11 de julho de 2018 por Lu Bento

Vamos falar de literatura e esportes? No LêproErê  dessa semana, dois livrinhos que batem um bolão! As vibrações da Copa do Mundo já vão se dissipando, mas o espírito esportivo continua vivo por aqui. Esporte e infância tem tudo a ver. Confira as dicas de literatura infantil de hoje.

 

A turma do Elias em O bullying não tem vez

esporte - a turma do eliasAutor: Elias Mendes Trindade

Ilustrador: Alessandro Almeida

Editora: Uirapuru

Sinopse: Elias e seu irmãozinho Davi se prepararam para ingressar numa escola nova, mas logo no primeiro dia Elias presencia uma cena de bullying contra Vinícius, um garoto que a turma do Pedrão insiste em maltratar. Somente um desafio poderá dar solução a esse problema: uma partida de futebol. Acompanhe esse confronto em que inteligência, planejamento e força-bruta são colocados em jogo.

 

O livro foi escrito pelo jogador de futebol  do Atlético Mineiro, Elias Trindade, que aborda um tema frequente nas relações infantis, o bullying. A utilização do esporte como pano de fundo torna lúdica a aboradagem desse tema e ajuda a promover uma aprendizado mais orgânico. Me incomoda um pouco a abordagem do racismo enquanto bullying, e esse ponto merece atenção e cuidado. Bullying e racismo não são a mesma coisa. Mas apesar disso, acho o livro uma boa pedida para se trabalhar esses temas com as crianças.

Elias é criador do Projeto Elias, uma iniciativa social de apoio e incentivo ao esporte para crianças da região do Parque Novo Mundo, em SP, onde o jogador cresceu.

Maira- a alegre campeã

esporte - maira a alegra campeãAutora: Maíra Brochado Ranzeiro

Ilustrações: J. Rafael

Editora: autopublicado

Sinopse: Maira é uma menina muito alegre com olhos de jabuticaba e pele negra que se encantou pelo mundo dos esportes em especial por esse criativo jogo de bolinhas e raquete, o tênis de mesa, e brincando aprendeu a ter disciplina,foco, concentração e persistência .
Contudo a alegre menina ao saber que estava chegando o dia do seu primeiro campeonato ficou ansiosa e com medo, mas com o amor e apoio de sua família recuperou sua confiança e decidiu se divertir e jogar com alegria.O livro é baseado em fatos reais e conta a trajetória da autora Maira Ranzeiro, primeira negra campeã brasileira de tênis de mesa, e revela um papel social muito importante, pois apesar do Brasil ser constituído em sua maioria pela população negra (54%), ainda se fala muito pouco da presença negra em diferente setores da sociedade.

Cada vez que eu vejo uma menina negra se destacando em um área pouco falada, a primeira coisa que eu penso é “menina negra pode tudo”. Esse é o meu mantra para reconhecer as nossas potencialidades em todas as áreas, por mais improvável que possa parecer. Repeti esse mantra assim que soube da maravilhosa história de Maíra Ranzeiro, mesa-tenista campeã brasileira ao 15 anos.  E Maíra segui acumulando conquistas: bicampeã Latino-Americana, primeira colocada no Ranking Nacional de Tenis de Mesa e Melhor Atleta do Ano de 2017.  Mas o mais importante de tudo isso é que Maíra nutriu a vontade de compartilhar suas conquistas no esporte com outras crianças através da literatura infantil, e hoje temos a oportunidade de incentivar nossos pequenos e pequenas com esse livro maravilhoso.

Maira, a alegre campeã traz essa representatividade que a gente tanto fala e busca, e também tem o potencial de inspirar muitas pessoas através das conquistas da menina Maira. A autora está com uma campanha de financiamento para uma nova edição do livro, e se você quiser saber mais e colaborar, acesse o site e siga seu perfil no instagram.

 

 

 

 

Postado em 9 de julho de 2018 por Lu Bento

Uma das coisas mais legais de ser blogueira é a oportunidade de conhecer e compartilhar coisas interessantes com vocês. Esses dias conheci um programa online gratuito para pais que compartilham sabers afetivos e medicinais sobre saúde integral dos bebês. Quando ainda não somos mães e pais, parece muito natural cuidar de um bebê. Tipo, aquela coisa de instinto animal, é natural cuidar de um filhote, certo?higiene do bebê

Mais ou menos. São tantas as mudanças quando esperamos um bebê que ninguém está realmente preparado para tudo isso.  A rotina se torna diferente, são inúmeras descobertas diárias, tudo isso com aquele tempero de desafios e fortes emoções. É gente, bebê em casa não é só passeio no parque e soneca da tarde não!

A chegada do bebê – precisamos de ajuda

Bebê não vem com manual (infelizmente). E hoje em dia as nossas redes de apoio estão cada vez mais esporádidas. São cada vez mais raros os casos de que mães recém-nascidas tem aquele monte de avós, tias ou amigas com mais experiência que dão aquele apoio no comecinho da vida daquela família. Ficamos imersos em dúvidas e inseguranças que são fruto de uma pressão social que ignora as diferentes formas possíveis de cuidado e afeto. Será que tô fazendo certo? Aprendi desse jeito, mas estão falando que é daquele outro jeito, e agora?

A internet está aí pra preencher aquele vazio de informação e de apoio moral que fica quando estamos higiene do bebê - imagem de divulgação Sikanacom um bebezinho e não temos a menor ideia se estamos cuidado direito ou não. A internet é uma ferramenta para que pais e mães recém-nascidos troquem experiências com outras famílias, encontrem apoio e aprendam a lidar com as expectativas, dúvidas e medos, que são totalmente naturais nesse período de adaptação ( e durante toda a vida, porque nosso estado de espírito não muda muito com o passar do tempo, viu…). E aos poucos vamos fortalecendo a nossa confiança e construindo o conhecimento sobre os processos que envolvem os cuidados nos primeiros dias.

Eu tive ajuda da família na chegada das curicas, mas tenho vontade de ter mais um bebê e sei que vai ser bem difícil ter alguém além do meu marido para dar um suporte. Moramos longe da família, e dessa vez, nossa vida já está muito estruturada aqui, não podemos ir pra perto dos parentes para termos um suporte. Então, tenho pensado muito em alternativas para me ajudar a relembrar o que fazer e como fazer, porque cada bebê é um novo ser, e precisamos aprender a melhor forma de lidar com essa relação específica. Pensando nisso, fiquei muto empolgada quando soube do projeto Cuidado e Higiene do Bebê e não poderia deixar de compartilhar isso com vocês!

Projeto Cuidado e  Higiene do Bebê

A Sikana, uma organização que produz e distribui conteúdo audiovisual com o objetivo de acelerar a transmissão de conhecimentos educativos, lançou em junho um programa online sobre Cuidado e Higiene do Bebê, em parceria com o projeto Saúde da Criança e a marca Granado, além de vários apoiadores que dão um sinal da qualidade do trabalho.

Gente, são uns vídeos lindos sobre diferentes temas que podem nos auxiliar nos cuidados nos primeiros dias.  São 19 vídeos bem curtinhos, de cerca de 3 minutos, que falam sobre cuidados com bebês de uma forma bem carinhosa e delicada, em perder o embasamento teórico necessários, nem o respeito à diversidade das famílias.higiene do bebe - imagem de divulgação Sikana

Uma das coisas que eu mais gostei dos vídeos foi a diversidade de perfis familiares, incluindo aí muitas famílias negras. Que delícia ver um conteúdo que nos contempla não só como público-alvo, mas como produtores de saberes também.  Os vídeos são divididos em categorias como Relações Afetivas entre pais e bebê, Higiene e bebê e Cuidados com o bebê.

Pra vocês sentirem o gostinho desses vídeos lindos sobre os cuidados com o bebê, acompanhe esse vídeo sobre higiene íntima no qual um pai preto fala dos cuidados com os bebês meninos e meninas.

Lindo demais não é? Se você se interessou por esse conteúdo e quer ter acesso aos outros vídeos direto no site do Sikana para download, e também no YouTube. Vale muito a pena conhecer esse trabalho e acompanhar toda a série de vídeos, tanto para aprender sobre cuidados com os bebês, quanto pra encher seu dia de fofura e boas notícias.

Postado em 8 de julho de 2018 por Lu Bento

Cuidar do próprio corpo é um aprendizado básico de qualquer ser humano. Às vezes é bem complicado saber quando e como falar sobre isso com as crianças, principalmente para que a relação com o próprio corpo não seja permeada por traumas e medos.

É natural que nesse periodo de descoberta, crianças perguntem e façam coisas que consideramos constrangedoras. Nós, adultos, já estamos condicionados a pensar que alguns coisas são inadequadas de serrem faladas  na frente de outras pessoas e esse condicionamento acaba se refletindo na educação de nossos filhos quando cortamos determinados assuntos e os tratamos como tabu.

Nosso trabalho, como pais e educadores, é ensinar a autoproteção aos nossos filhos, ou seja, é fornecer ferramentas para que as crianças conheçam seus corpos e saibam como se cuidar e se proteger. Essa dimensão da educação sexual na infância é fundamental para que a criança cresça conhecendo seu corpo, sabendo se cuidar e se proteger.

É natural a percepção das diferenças pelas crianças e, em geral, tudo isso é reflexo de uma curiosidade natural, uma vontade de compreender o mundo. Muitos dos adultos de não tiveram a oportunidade de aprender sobre o próprio corpo de maneira franca e direta com os pais. Por isso, é tão difícil estabelecermos essa diálogo com os filhos. Quando é uma mãe conversando com um filho ou um pai conversando com uma filha então, a situação fica ainda mais complicada. Ainda somos permeados por tabus e valores que nos impedem de estabelecer uma relação sincera com o nosso corpo. Não pode ver, não pode tocar, não pode falar sobre o assunto. O proibido e o imoral rondam esse tema e nos silencia sobre tudo isso.

Já pararam pra pensam que até mesmo os brinquedos assexuados são sinais desse silenciamento? Bonecas sem vagina, bonecos sem pênis, seios sem mamilos. Nosso corpos são mutilados nos brinquedos numa tentativa de omitir as partes íntimas e uma identificação das crianças. Como se a naturalidade dos nossos corpos fossem nocivas à infância.

Que corpo é esse?

 

Esses dias descobrir uma ferramenta maravilhosa para auxiliar os pais no diálogo sobre questões relacionadas ao corpo. O canal Futura  exibe uma série chamada Que corpo é esse? no qual uma família interracial vive situações  relacionada ao corpo e traz um conteúdo maravilhoso para ajudar nos diálogos sobre diferenças físicas entre meninos e meninas, cuidados com o corpo, higiene e masturbação, entre vários outros temas. O interessante é que a série mostra as crianças realmente peladas quando estão falando das partes íntimas, fomentando um diálogo franco sobre o assunto.

A série é totalmente voltada para famílias, com linguagem acessível para crianças e com uma curadoria de conteúdo excelente.  Por isso, a série aborda os direitos sexuais e autoproteção destinada à três faixas etárias de público: 0 a 6 anos; 7 a 13 anos; e 14 a 18 anos. Ariel e Dandara são as crianças mais novas, e quando eles são os protagonistas da história, utilizam termos como pipi e pepeka que é como as crianças menores conhecem as partes íntimas. Quando fala de puberdade, os protagonistas são Cauã e Tainá e são utilizados termos como pênis e vagina, mostrando para as crianças mais velhas a nomenclatura das partes íntimas de maneira natural. Pra quem tem adolescentes, a série aborda questões de identidade de gênero, relações sexuais e assédio, por exemplo. Tudo isso sem moralismos.

A série é produção do Canal Futura em parceria com a Childhood Brasil e o Unicef, é foi criada com muito cuidado por profissionais dedicados a pensar os processos psicológicos e físicos relacionados à consciência corporal, respeitando as necessidades de carinho e de aceitação das crianças e dos jovens e as diferentes dimensões das trocas afetivas.

Os episódios passam no canal Futura nos intervalos da programação, mas é possível assistir direto no YouTube ou no Futuraplay.

 

Primeira infância e sexualidade

 

Aqui em casa ainda vivo as experiências da primeira infância. Por ser mãe de duas meninas, a preocupação em não tornar a sexualidade delas um tabu é ainda mais latente. Como deixar que elas descubram o corpo com liberdade e sem repressões, mas também auxiliá-las na autopreservação? Como é difícil saber até como falar sobre isso, sem tolher as experiências e sensações das meninas se a minha própria visão está condicionada por valores e regras internalizados ao longo de toda a minha vida?

Sexualidade não é sexo. Então o melhor mesmo é não se assustar com as manifestações curiosidade das crianças e tentar responder da melhor maneira possível as perguntas que surgem nesse período, além de orientar para que práticas naturais, como a masturbação infantil,  não sejam proibidas ou demonizadas.

Como mãe de meninas negras, não posso simplesmente ignorar tudo isso e deixar que elas aprendam com a vida. Mulheres negras tendem a ser hipersexualizadas e estarem mais vulneráveis a situações de abuso. A gente nunca pode perder de vista as estatísticas quando pensa educação de crianças negras. Por isso, é preciso adotar uma postura ativa, se antecipar os problemas e se dedicar à prevenção.

Esse processo de descoberta é inerente e natural do ser humano. Quanto mais a gente trata esse tema com subterfúgios e melindres, mais complicada é a forma como as crianças internalizam essas questões na relação com o próprio corpo. Quantos de nós, adultos, temos hoje inúmeras questões com o nosso próprio corpo, sexualidade e expressão do prazer porque que internalizamos diversos tabus?

Não tenho respostas definitivas sobre como agir nessa período de descobertas. Sei que não vale a pena reprimir as descobertas do corpo e que as crianças precisam saber cada vez mais sobre autocuidado e autoproteção. E que cada vez mais existem ferramentas para nos ajudar a lidar com essa questão, que não deve ser jogada para debaixo do tapete.

 

 

 

 

 

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