Postado em 3 de julho de 2018 por Lu Bento

O leituras maternas de hoje é pra trazer polêmica. Sim, falaremos sobre mães arrependidas. Será é que possível se arrepender da maternidade? Se é possível, será é adequado falar sobre isso? Confira minhas impressões da leitura do livro da antropóloga israelense Orna Donath.

 

Mães Arrependidas – uma outra visão da maternidade

Autora: Orna Donath

Editora: Civilização Brasiliera ( Grupo Record)

 

A maternidade envolve uma mudança gigantesca na vida das mulheres. Ela pode ser muito desejada ou pode ter acontecido de repente, mas não faz diferença. O impacto das mudanças é totalmente imprevisível, e pode resultar em sentimentos de arrependimento.  Nessa pesquisa magnífica da antropóloga Orna Donath, diferentes mulheres compartilham seus sentimentos de arrependimento com relação a maternidade, muitas delas mães de vários filhos, outras até avós.

O livro é extremamente provocador e inquietante, principalmente para mães, porque não somos estimuladas a questionar os nossos sentimentos com relação a maternidade. Estamos tão culturalmente condicionadas a compreender a maternidade como uma dádiva na vida das mulheres que nos parece tão ingrato sentir qualquer outra coisa que não felicidade por ter filhos que essa assunto se torna tabu. Por isso esse livro é tão espetacular.  Ele aborda a possibilidade de mulheres se sentirem frustradas por terem seguido pelo caminho da maternidade.

Tendo em vista que o arrependimento marca o ‘o caminho não tomado’, arrepender-se de ser mãe indica que há na verdade caminhos que a sociedade proíbe as mulheres de tomarem, eliminando a priori vias alternativas como a não maternidade.

Mães Arrependidas – orna donath

A liberdade de escolha de ser ou não ser mãe ainda é muito restrita. As mulheres que não desejam ser mães são bombardeadas com a possibilidade de sentirem culpa essa escolha, como se o arrependimento só pudesse ocorrem quando não se tem filhos. A pesquisadora fala que essa “liberdade condicional” em decidir se tornar mãe ou não é ditada pela sociedade que em diferentes instâncias associam a realização feminina à maternidade, deixando claro que crianças nascem porque muitas vezes as mulheres não têm ou não veem um caminho alternativo para si.

Uma das coisas que eu achei mais bacana é que as  mulheres verbalizam e refletem sobre o arrependimento, e é desconcertante como a gente se identifica e compartilha muito dos sentimentos dessas mulheres que se arrependeram da maternidade. Mas, diferente das mães que não nutrem sentimentos de arrependimento, as mães arrependidas compreendem que tornar-se mãe foi um erro. Cada uma delas diz claramente que deixaria de ser mãe se tivesse essa oportunidade. E mesmo amando os filhos, elas sabem que seriam mais felizes se eles não fossem seus filhos ou mesmo não existissem.

 

Esse é um livro  que mexe com questões muito profundas da sociedade e na nossa subjetividade feminina e foi uma leitura que mexeu muito com os meus sentimentos. Desenvolvi uma profunda empatia com essas mulheres e tenho vontade de falar com cada mulher para que pense muito antes de se decidir pela maternidade, mesmo que isso não seja garantia contra o arrependimento.

E como eu ainda tenho muito pra falar sobre o livro e esse post se tornaria quase outro livro de tanto que eu marquei meu exemplar de Mães Arrependidas, então aos poucos vou desenvolvendo minhas impressões sobre esse tema aqui no blog.

Li esse livro em maio e foi interessante o contraste entre as propagandas e as homenagens as mães que tomaram conta da mídia nesse período e a crueza da maternidade pelo ponto de vistas de mães arrependidas de terem embarcado nessa. Mostra que todo pode ter mais de uma percepção.

Recomendo muito essa leitura para mulheres e mulheres-mães como uma forma de nos apropriamos de questões de nos afetam. A maternidade envolve muito mais que os comerciais de tv, os discursos sobre a beleza da maternidade e a nossa impressão como filhos e filhas podem dar conta. Já está na hora de olharmos para a maternidade como uma relação entre pessoas e uma condição que causa um impacto profundo na existência da mulher. E esse livro pode ajudar na desconstrução da maternidade romântica.

Meu amor pelo livro:


Se você gostou e pensa em adquirir esse livro, compre pelo nosso link da Amazon. Assim, além de garantir uma boa leitura, você ajuda na manutenção do AMP.

Postado em 1 de julho de 2018 por Lu Bento

Hoje começamos um novo cantinho aqui no blog para compartilhar a visão de maternidade de outras mães pretas. Nessa estreia, Nanda de Oliveira, criadora de um manual para promover a diversidade e inclusão na educação, compartilha conosco a sua experiência de maternidade.

Acompanhe!

AMP:Quem é Nanda de Oliveira?

Meu nome é Fernanda, Nanda para os amigos. Tenho 37 anos, sou bacharel em direito, funcionária pública, consultora capilar de “Deixa a Madeixa”, corredora amadora (conteúdos relativos à corrida são compartilhados no instablog corredoras cacheadas) e mãe da Inaê, de 3 anos.

AMP: Como foi a sua gravidez?

A gravidez da minha filha foi planejada e desejada. A construção de sua identidade preta começou desde que ela estava na minha barriga, passando pela decoração do quarto, aquisição de livros com protagonismo negro, bonecas e escolha do nome.

AMP: Você ou sua filha já passaram por alguma situação de racismo que você queira relatar? Conte como foi e como vocês reagiram.

Me pergunto qual negro não tenha passado e também poderia ficar relatando várias situações, mas gosto de focar no racismo estrutural. A mais recente foi ser confundida DUAS vezes como funcionária de uma loja de departamento esportivo, onde TODOS os vendedores usam coletes com o nome da loja.

AMP: O que você acha que existe de diferente entre ser uma mãe branca ou negra na sociedade brasileira?

Nossa, várias coisas, que gosto de dizer que são privilégios. Não se preocupar se a escola estará preparada para receber seu filho; que aborde diversidade, que tenha representatividade nos materiais didáticos e no corpo docente. Mãe branca compra roupa pra filha ou filho sem se preocupar se a figura estampada realmente represente seu filho; não precisa instruir seu filho como andar na rua para não ser confundido com ladrão; não se preocupa que seu filho vire estatística. Enfim, elas constantemente têm o privilégio de descansar.

AMP: Com relação a abordagem racial, a relação que você tem com sua filha  é semelhante a que você teve na infância?

Não. Totalmente diferente. Até porque hoje em dia temos mais ferramentas para empoderar nossos filhos. Quando eu era criança, apesar de saber que era negra, nunca foi um hábito da minha família conversar sobre as questões da negritude (racismo, empoderamento, etc).

Educação Antirracista

AMP: Você acredita na importância de uma educação com o recorde racial?

A educação antirracista é o único caminho para uma sociedade mais justa e igualitária.

AMP: A escola da sua filha faz alguma abordagem da lei 10639/03? Você faz alguma coisa para que a escola tenha mais representatividade?

A escola da Inaê possui um quadro de funcionários diverso (desde corpo docente a auxiliares), mas ainda há muito que caminha na questão racial. Não a reconheceria como uma instituição antirracista. A impressão que tenho é que eles nunca foram questionados sobre isso antes de mim. E também se apoiam muito na metodologia montessoriana para se esquivar das responsabilidades. Depois de uma conversa que tive no ano passado notei algumas pequenas mudanças (tô na vibe de comemorar cada uma delas), mas sei que há muito mais que pode e deve ser feito neste quesito.

Nanda de Oliveira

Empoderamento e Autocuidado

 

AMP: O que você faz para elevar a autoestima da sua filha?

Busco referências positivas. Mostro a beleza dos seus traços, do seu cabelo e sempre elogio.

AMP: O que você faz para elevar a sua autoestima?

Gosto de um tempo pra mim. Fazer as coisas que eu gosto. Confesso que depois que tornei mãe e o tempo ficou mais escasso faço uma escala de prioridades. E procuro sempre atender às minhas necessidade de saúde, beleza e bem-estar.

AMP: O que você faz para cuidar de si?

Pratico esporte e faço coisas que me deem prazer, desde a cursos a ficar maratonando séries no Netflix.

Rede de Apoio

AMP: Como é o compartilhamento de responsabilidades sobre a criação da sua filha? O pai dela divide as responsabilidades? Você se sente sobrecarregada de alguma forma?

As responsabilidades são divididas, mas de uma forma ou de outra sempre sobra mais para mãe. O homem não foi educado para ser pai e essa desconstrução e esse aprendizado tem que ser diário. Aqui em casa, meu marido sempre acompanhou tudo desde a gestação, fica com a Inaê na parte da manhã (para que eu possa treinar e trabalhar), dá banho, comida, coloca pra dormir, brinca….efetivamente está presente, mas sempre tenho que estar atenta para que a machonormatividade não se impere.

 

AMP: Existe um provérbio africano que diz “é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança”. Você tem uma rede de apoio que te ajuda na criação dos seus filhos?

Minha mãe e minha irmã (madrinha da Inaê) são verdadeiros anjos e sempre me ajudaram muito.

AMP: Se você tem um relacionamento interracial/multirracial: Quais questões te chamam mais atenção na sua vivência? Como a sua família lida com as situações de preconceito e discriminação que eventualmente acontece com os membros de pele mais escura?

Sou casada com um homem não negro e, apesar de sempre estar envolvido nas questões relacionadas à negritude ele está aprendendo a ser pai de uma criança negra, pois não teve as vivencias do racismo. Esse envolvimento com nossa cultura (música / religião) que, pra nossa relação, foi essencial não é o suficiente para sua paternidade. E neste aspecto, toda família tem aprendido: ele na sua desconstrução, eu no fortalecimento da minha identidade e a Inaê na educação descolonizada que estamos proporcionando a ela através do contato com elementos da nossa cultura.

Nanda de Oliveira

 Maternância

AMP: Eu costumo usar a expressão maternância para falar que a maternidade exercida pela mulher negra é uma espécie de militância na medida em que a gente passa a desenvolver estratégias pra combater o racismo e evitar que nossos filhos sofram os impactos dele. Você acredita em maternância? Se sim, como você vê que exerce a sua maternância?

Acredito e depois que aprendi esse termo com você eu praticamente o incorporei. Rs. A maternidade foi a terceira e mais impactante cortina que se abriu para que pudesse expandir minha consciência racial. Pela minha filha eu senti a necessidade de escrever um manual para promover a diversidade e a inclusão no ambiente escolar. Através da maternância veio a necessidade/desejo de aprender mais sobre a nossa história, sobre a história da Africa e me levou a fazer cursos sobre o tema. O conhecimento liberta e esse manual é um chamado para que nossos filhos e todos os cidadãos tenham acesso à uma educação descolonizada.

AMP:  Cite uma mãe negra que te inspira de alguma forma.

Nossa, são tantas. Vou citar da minha família: minha mãe e minhas saudosas avós. Minhas queridas irmães Lu Bento (conhece? Rs), Clélia Rosa e Egnalda Côrtes.


Essa foi a Nanda de Oliveira. Conheça essa mãe preta e acompanhe seu trabalho nas redes sociais: instagram | facebook

 

 

Postado em por Lu Bento

No LêproErê de hoje uma graphic novel que faz justiça a um personagem tão desvalorizado da Turma da Mônica e ainda traz um menino negro como protagonista retratado de uma forma positiva e inspiradora ( algo raro nos livros com protagonistas masculinos negros).

Jeremias – Pele

LeproEre - Jeremias Autores e ilustradores: Rafael Calça e Jefferson Costa

Editora: Panini  Comics

 

Jeremias é um dos personagens mais antigos de Maurício de Sousa, foi criado em 1960 quando o autor ainda publicava suas histórias em tirinhas dos jornais. Mas Jeremias nunca protagonizou uma revistinhas. As poucas histórias protagonizadas por ele só surgiram a partir de 83, e ele mal aparece ou tem falas nas historinhas de outros personagens.

Digo tudo isso para contextualizar a importância histórica de Jeremias – Pele, graphic novel da  série Graphic MSP que traz releituras de personagens de Mauricio de Sousa escritas e ilustradas por diferentes quadrinistas. Jeremias é a 18ª graphic novel da série, que é voltada para jovens e adultos e  foi criada em 2012.  Estamos em 2018 e só agora Jeremias foi lembrado, inclusive depois de  mais de uma edição protagonizadas pela Mônica, pelo Bidu ou pelo Astronauta. Sinal do total desprezo que o personagem sofre.

Não sei o que fez Jeremias ser lembrado ( dado o histórico de desprezo nos mais de 50 anos do personagem), o importante é que Rafael Calça e Jefferson Costa fizeram a melhor releitura possível do personagem, trazendo a masculinidade negra  para o centro do debate. Por ser escrita por um homem negro, a HQ fala sobre racismo na infância, com enfase para os sentimentos e os mecanismos de defesa que as pessoas negras, e especificamente, os homens negros, desenvolvem para sobreviver.

Meninos negros são constantemente vistos de forma negativa na sociedade, como bandidos em potencial. Jeremias -Pele confere humanidade e sensibilidade à visão do senso comum diante da masculinidade negra. O tema do preconceito racial na infância é fundamental de ser abordado, mas destaco também a importância da relação pai-filho e da afetividade entre homens negros. Como mulher negra, que já está “acostumada” a ver produções que abordem o racismo, me surpreendeu  e emocionou muito encontrar essas relações entre homens negros tão lindamente retratada em múltiplas possibilidades: pai-filho; avô-neto, entre meninos negros.

Jeremias demorou muito para ser valorizado. Mas sua hora chegou. Maurício de Sousa faz sua mea-culpa dizendo que  a partir de agora todos no estúdio estarão “mais atentos à realidade que nos cerca.” Para nós, negros, não vale a pena esperar muita coisa de um estúdio que sempre o tratou como coadjuvante dos coadjuvantes. A maravilhosa releitura do personagem nessa narrativa forte, emocionante e extremamente realista, finalmente honrou um personagem discriminado e mostrou todo o seu potencial.

Como a maioria das HQs, Jeremias -Pele tem um conteúdo extra, com alguns esboços dos desenhos, o histórico do personagem nas obras de Mauricio de Sousa e um conteúdo sobre elementos significativos da história dos negros no Brasil que aparecem ao longo da trama.

Recomendo muito essa HQ para meninos e jovens e homens negros, principalmente pela relação entre gerações. Mas a leitura é maravilhosa para todos os públicos, é um material com um potencial didático enorme para educadores, tanto para atividades com os alunos quanto para repensar práticas e atitudes (os professores têm papel importante na reprodução ou não de atitudes preconceituosas em ambiente escolar, como a HQ demostra com muita presteza).

 

Meu amor pelo livro:

 

 

 

 


Se você gostou dessa dica e quer adquirir o livro, compre pelo nosso link da Amazon. Assim você ajuda a manter o AMP no ar.

Postado em 18 de junho de 2018 por Lu Bento
0 0

No Leituras Maternas de hoje um livro que fala de maternidade de uma maneira muito peculiar. É possível esquecer um filho? E um filho que não chegou a nascer? Confira o que eu achei do livro O que Alice esqueceu?, da autora australiana Liane Moriarty, e como foi a minha experiência de leitura.

 

O que Alice esqueceu?

O que Alice esqueceuAutora: Liane Moriarty

Editora: Intrínseca

Sinopse: Alice tinha certeza de que era feliz: aos 29 anos, casada com Nick, um marido lindo e amoroso, aguardando o nascimento do primeiro filho rodeada pela linda família formada por sua irmã, a mãe atenciosa e a avó. Mas tudo parece ir por água abaixo quando ela acorda no chão da academia. Dez anos depois.Enquanto tenta descobrir o que aconteceu nesse período, Alice percebe que se tornou alguém muito diferente: uma pessoa que não tem quase nada em comum com quem ela era na juventude e, pior, de quem ela não gosta nem um pouco.Ao retratar a vida doméstica moderna provocando no leitor muitas risadas e surpresas, Liane Moriarty constrói uma narrativa ao mesmo tempo ágil e leve sobre recomeços, o que queremos lembrar e o que nos esforçamos para esquecer.

 

Atenção: esse texto contém spoilers

O que Alice esqueceu? é um romance que me arrebatou logo de cara. Com uma linguagem simples e uma narrativa bem montada, Liane Moriarty nos transporta para a vida de Alice sob a perspectiva da própria, que acabara de cair e bater a cabeça. O começo do livro é essa confusão, não dá pra entender direito o que se passa e Alice está tomando consciência  do acidente que sofreu e tentando compreender quem ela é e onde está. Enquanto  isso, nós, leitores, tentamos entender que história confusa é essa. Aos poucos vamos percebendo que Alice parece acreditar que ainda é 1998, quando ela estava grávida pela primeira vez. Mas na realidade já 2008, Alice tem quase 40 anos, 3 filhos e está em meio a um processo complicado de divórcio. E claro, não se lembra de nada que aconteceu nos últimos 10 anos. O que você esqueceria se fosse apagado da sua memória os últimos 10 anos da sua vida?

O livro me atraiu por essa enredo sobre uma mãe que esquece completamente sobre seus filhos. Será o vínculo mãe-e-filho é forte tão forte assim que resiste até a uma perda abrupta de memória? Amamos nossos filhos instintivamente? A história de Liane que mergulha nessas questões com muita delicadeza e nos provoca a refletir sobre tudo isso, principalmente quando já somos mães. É bem provável que quem não vive ou viveu a maternidade não se impacte tanto com essas questões e se interesse pelo livro de uma maneira mais focada no entretenimento: uma história interessante e bem contada. Mas é inegável que este é um livro sobre maternidade, e as outras personagens femininas também têm suas questões  relacionadas à maternidade.

Para manter o ritmo da história e trazer outras perspectivas sobre a situação da Alice, a autora optou por utilizar diferentes formas de narração. Intermeando os trechos narrados sob o ponto de vista de Alice, o livro tras também trechos do diário de Elisabeth, irmã de Alice que faz um tratamento psicológico para lidar com as suas sucessivas perdas gestacionais, e  também trechos do blog da Frannie, avó de Alice e Elisabeth, que mora em um retiro de idosos e mantém um blog no qual compartilha sua vida.  Esse mosaico de pontos de vista torna a leitura bem fluida, não dá tempo de cansar de  nenhuma das narrações e possibilita uma diversidade de olhares sobre o enredo.

O que Alice esqueceu? é um livro focado nas relações familiares. Alice, que esqueceu dos próprios filhos, busca retomar seus vínculos familiares ao tentar reconciliação com o marido e com a irmã. É interessante como a vida segue por caminhos tão imprevisíveis que Alice não consegue acreditar que está se divorciando e que sua relação com a irmã não é mais tão próxima. Ao mesmo tempo, ela precisa lidar com 3 crianças que ela não conhece, não ama e sequer saber o que fazer diante dessas desconhecidas. Essa noção de que o amor é construído na convivência é muito forte no livro.  Frannie é outra personagem que traz muito forte a questão dos laços afetivos. Ela é uma solteirona que não tem vínculo sanguíneo com  netas, mas se tornou próxima ao ajudar a família quando Barb ficou viúva. Barb, por sua vez, deixou de lado alguns cuidados maternos após a morte do marido e é uma personagem mais voltadas para o seu bem-estar, independente das necessidades das filhas. São mulheres totalmente diferentes que compõe esse mosaico materno, nem sempre maternal se romantiza.

 

Elisabeth: infertilidade e determinação

Elisabeth é sem dúvidas a personagem que mais me tocou. Ela passou por sucessivas perdas gestacionais e processos de fertilização in vitro que  a deixaram amarga e desiludida. Ela mesma se descreve como um damasco seco, uma mulher sem capacidade de amar. Quantas vezes eu me senti como ela por não conseguir manter a gravidez. Além da tristeza pelas perdas, Elisabeth personifica as dores das mulheres inférteis, que oscilam entre a esperança de ter um filho biológico e a culpa por ter esperanças.

Confesso que meu carinho pelo livro tem muito a ver com Elisabeth. Ela é aquele tipo de mulher que eu quero abraçar e dizer “tamo junta, amiga. Eu sei o quanto doí e o quanto você se sente culpada por tudo isso.Não é culpa sua!” Maratonei a leitura do livro: li a 414 páginas em 2 dias, algo praticamente impossível para uma mãe de duas crianças que passou o fim de semana sozinha com elas. Não tenho o hábito de ler tão rápido assim e me surpreendi em como a leitura fluiu e me prendeu. Elisabeth me lembrou um pouco a Fig, de Stalker, por esse desequilíbrio emocional diante da perda gestacional e essa supervalorização da maternidade, como se a felicidade  e a razão de ser de uma  mulher estivesse em ter um filho.

Elisabeth me tocou muito por ter uma cuidado especial em manter suas memórias vivias sobre cada gravidez.  Foram muitas perdas, mas ela se preocupava em individualizar os bebês e manter alguma memória sobre cada um deles, reconhecendo para si a existência dos suas filhos mesmo que ninguém mais parecesse sentir a ausência deles.

 

Histórico do livro

As lembranças de Alice
Essa não é uma história nova de Liane e já foi lançada no Brasil pela editora Leya com o título As Lembranças de Alice em 2009. Não sei se na época fez sucesso, mas eu curti muito mais o título e a capa da versão atual.  O relançamento da obra 10 anos depois é interessante e simbólico, pois nos remete a pensar em tudo que vivemos nesses dez anos e que seriam esquecidos se estivéssemos no lugar de Alice.

Coincidência ou não, a TAG inéditos indicou o livro As Lembranças de Alice para quem curte o tipo de literatura enviada pro ela no mês de junho. Mas um motivo para trazer a história de Alice para o cenário literário nacional e aguçar o interesse das leitoras. Não li a versão antiga do livro não sei se houveram alterações significativas nas traduções. Também não creio que essa é uma história que eu leria várias vezes.

Infelizmente, a história é bem previsível no final das contas. Já dá pra saber o que vai acontecer, não tem viradas surpreendentes. Pra quem não se importa com isso, a leitura diverte e distraí. Pra quem tem essa olhar para a maternidade na literatura, o livro é fascinante e nem importa muito o desfecho. De um modo geral, gostei muito da escrita da Liane Moriarty e fiquei muito curiosa em conhecer seus outros livros.

 

Meu amor pelo livro:

 

 

 


Esse livro foi enviado para a nossa leitura como parte da parceria com a editora Intrínseca e esse post faz parte da Semana Especial Liane Moriarty. Ao longo da semana, outros blogs estão produzindo conteúdo sobre a autora e suas obras. Se você gostou e se interessa em adquirir esse livro, compre pelo nosso link da Amazon e ajude a manter o AMP.

Postado em 4 de junho de 2018 por Lu Bento
0 0

Olá Pessoal! Vamos de mais um Leituras Maternas de hoje uma autora que eu estava louca para conhecer e já adianto que curti bastante. Não sabia que esse livro era todo focado em relações mães e filhas e perceber a complexidade das possibilidades de relações narradas pela autora foi bem interessante. Ah, esses são meus comentários sobre a leitura e algumas partes contém spoilers. Chega de enrolação e vamos ao livro!

 

Pequenos incêndios por toda parte

Autora: Celeste Ng

Editora: Intríseca

Uma família perfeita, em um bairro perfeito vivendo uma vida perfeita. Essa seria a família Richardson se não fosse pela filha Izzy, a caçula que incendiou a casa família logo no primeiro capítulo.  Além da família Richardson, conhecemos também a família Warren, mãe e filha andarilhas que vivem com muito pouco e não criam vínculos nas cidades onde moram e acompanhamos a disputa entre os Mac , pais adotivos, e a mãe biológica que é uma imigrante chinesa pela guarda de uma menina de quase 2 anos.

O que Celeste Ng nos mostra nessa narrativa intensa e envolvente que as relações familiares podem ser bem complexas, principalmente as relações entre mães e filhas. Por adotar uma estrutura narrativa invertida, em que o final já é apresentado no primeiro capítulo,  Celeste Ng encara o desafio de desenvolver diferentes micronarrativas sobre questões relacionadas à maternidade: aborto, perda gestacional recorrente, adoção interracial, barriga de aluguel, maternidade super protetora, maternidade negligente… enfim, toda a trama é baseada nessa relação entra as mulheres e a autora sustenta bem o desafio de começar pelo desfecho e construir uma boa história.

Celeste Ng - pequenos incêndios por toda parte

A leitura é muito fluida, com apenas alguns pecados de vício de linguagem. Como as passagens no tempo são constantes, ela vai de um passado recente a passados mais distantes na intenção de esclarecer as motivações das personagens, em algumas partes há a  repetição excessiva de um recurso de fechamento de ideia numa seção do texto que passa a impressão que os personagens são todos muito inteligentes e perspicazes. Ela diz com muita frequência ” e ele saberia que a partir desse momento nada seria como antes” ou algo como ” e ela percebeu que tudo havia mudando para sempre”. Esse exagero me incomodou um pouco nos primeiro capítulos, mas depois ou a leitura me envolveu tanto que eu deixei de notar, ou ela diminuiu a frequência dessas frases. De qualquer forma, não é algo que comprometa o livro, apenas um ponto que poderia ter sido analisado melhor na preparação do texto ou mesmo na tradução para o português.

Uma curiosidade é que a autora é  norteamericana de origem chinesa e viveu durante muitos anos em Shaker Heighs, Ohio, cidade onde se passa a história. A origem étnico-cultural da Celeste Ng provavelmente foi muito importante para a sensibilidade em desenvolver uma narrativa sobre a adoção interracial abortando de forma muito embasada a questão da importância de uma criança crescer com elementos de referência à sua estética, cultura e identidade. Tem uma passagem maravilhosa do julgamento sobre qual família deveria ficar com a menina e o advogado da mãe biológica pergunta se a menina tem acesso a bonecas chinesas ou livros com personagens chineses e questiona a capacidade de pais não-chineses desenvolverem esse olhar para a questão da identidade da menina. Uma passagem maravilhosa e que dialoga muito com as discussões que temos sobre construção da identidade e autoestima de crianças de grupos “minoritários”. A questão da diversidade racial é abordada com frequência. Lexie, a filha mais velha dos Richardson, namora um jovem negro Brian, e esse se dá de uma maneira muito natural, sem problematizações com as diferenças. Pra nós, brasileiros que só estamos acostumados a ler sobre personagens negros associado ao racismo, a abordagem surpreende.

A história se passa em 1998, e Celeste Ng faz referências sobre o caso Bill Clinton e Monica Lewinsky como pano de fundo das descobertas sexuais do núcleo adolescente. Além disso, adorei a referência à The Bill Cosby Show ( apesar de saber o quanto o Bill Cosby é o cara desprezível, um abusador), quando os jovens namorados Brian e Lexie chamam os pais dele de Cliff e Claire. Família preta de classe média: uma realidade frequente no contexto americano e pouca vista por aqui.

Muito ainda poderia ser dito sobre esse livro, ele é muito rico em temas para discussão, a autora me surpreendeu bastante e fiquei muito feliz em finalmente conhecê-la. Adorei a leitura de Pequenos incêndios por toda parte, já estou planejando ler o primeiro livro da Celeste Ng e outros focados em dramas familiares.

Recomendo muito a leitura para quem quer uma leitura de entretenimento que provoque reflexões e trate de temas familiares.

Meu amor pelo livro:

 

 


Esse livro foi enviado para leitura pela editora Íntrinseca, parceira do blog. Se você ficou interessada em adquirir o livro, compre pelo nosso link da Amazon. Assim, você ajuda na manutenção do AMP.

Postado em 30 de maio de 2018 por Lu Bento

Uma das maiores preocupações da vida materna é a educação dos filhos. A gente está sempre em dúvida se está fazendo tudo certo, se é essa o caminho ou se poderíamos fazer melhor. Afinal, na maioria das vezes estamos aprendendo e descobrindo como ser mãe ao longo do processo, não existe “curso preparatório para a maternidade” que nos prepare para as intercorrências da vida.

Mas existem vários livros sobre educação infantil nos quais profissionais como psicólogos, pedagogos, médicos ou mesmo pais e mais mais experientes compartilham o que aprenderam ao longo de suas vidas e carreiras e que podem nos ajudar a iluminar o nosso caminho na criação e educação de filhos.

No Leituras Maternas de hoje eu trago um livro sobre criação de filhos e era digital.  Quais os impactos do usos de telas na vida das crianças? Como pais e mães podem lidar com isso? Acompanhe a minha experiência de leitura e minha opinião sobre o livro.

 

Como criar filhos na era digital

como criar filhos na era digital
Autora: Dra. Elizabeth Kilber

Editora: Fontanar

 

A proposta do livro é orientar mães e pais na criação dos filhos diante da intensa exposição das crianças ao uso de telas. A princípio fiquei muito empolgada com a leitura, porque as minhas meninas já ficam muito tempo diante de telas e eu entendo que é um grande desafio para as famílias dosar o tempo de exposição.

Mas confesso que fiquei decepcionada logo no começo do livro. De cara senti falta de mais densidade de conteúdo. A autora repete muito as suas credenciais para escrever essa obra : “Sou psicóloga infantil há mais de uma década”, “vejo isso todos os dias no meu consultório” e outras expressões do tipo. Claro que é importante ela se apresentar e deixar clara a sua experiência no assunto, mas ela fala tudo isso na introdução e repete ao longo dos capítulos, de uma forma bem chata, pra dizer a verdade. Como se ela não tivesse segurança naquilo que ela traz e precisasse se reafirmar a todo tempo. O próprio modo como ela se apresenta como autora “Dra. Elizabeth Kilbey” já é meio forçado.

Diante dessa minha má- vontade inicial com a autora e como ela se apresenta, a minha experiência de leitura foi um pouco frustrante. Ela traz várias explicações científicas sobre os impactos do uso excessivo de telas na vida das crianças e dados sobre o desenvolvimento ideal para cada idade. Mas eu senti um certo choque de gerações no discurso dela, quando ela fala, por exemplo, que o uso de telas afeta a aprendizagem e educação, porque a aquisição de conhecimento é feita de uma forma passiva, já que as informações estão a um toque de botão. Ela entende que as  respostas podem ser simplesmente pesquisadas no Google e as crianças não questionam o que lêem, sem desenvolver as habilidades de pesquisa e de avaliação crítica.   Para mim, essa opinião desconsidera totalmente que as crianças estão adaptadas às demandas do seu tempo, e que a avaliação crítica e construção dos conhecimentos atualmente se dá a partir de outros parâmetros. Saber qual informação buscar, como buscar, filtrar qual dos milhares de resultados traz o conteúdo que você precisa, reter só o necessário, descartando informações irrelevantes, tudo isso são habilidades que estão sendo desenvolvidas, e não faz sentido  considerar  que antigamente as crianças aprendiam mais e melhor.

E por fim, para acabar com minha série de críticas negativas sobre o livro, em algumas partes a autora fala de características que ajudam os pais a identificarem o uso excessivo de telas e elenca situações como aumento das brigas entre irmãos, dificuldades em fazer amizades e ter dificuldades para dormir.  Aí é forçar a barra, não é mesmo? Tudo bem querer defender um ponto de vista, mas usar sinais de qualquer outro problema com a criança como sinal de alerta para o uso excessivo de telas é um pouco demais.  E foram esses argumentos forçados que me deixaram meio insatisfeita com a leitura.

Mas depois de todas essas dificuldades que eu tive com a escrita narcisística da autora e dessa possível percepção de que “no meu tempo era melhor” e que “defenderei meu argumento a qualquer custo”, comecei a gostar bastante do livro, principalmente quando ela fala sobre a importância de acompanhar o uso que os filhos fazem dos aparelhos digitais e sobre as orientações que podemos dar sobre a presença das crianças na internet. Acho que essas orientações são fundamentais, já que a internet nos parece algo tão inofensivo, mas é um imensa janela para o mundo. Cada palavra, cada foto, tudo que é lançado na internet saí de alguma forma do nosso controle. E as crianças precisam saber de tudo isso e serem orientadas. Questões sobre bulliyng virtual, grooming, vício em internet, jogos violentos, tudo isso é abordado no livro e suscita reflexões importantes sobre educação. Uma das sensações que me deu é que precisamos estar atualizados sobre o que existe na internet para que possamos proteger nossos filhos. Acompanhar a vida digital deles é fundamental.

No final de alguns capítulos, o livro traz alguns sinais de alerta sobre as situações apresentadas no capítulo e algumas soluções para esse problema. Gostei muito dessa estrutura porque funciona como um guia rápido para os pais e pode ser um espaço para consultas rápidas, tornado o livro um bom aliado na educação dos filhos.  O capítulo sobre como impedir que o tempo de tela se torne um campo de batalha também é muito bom. Já estou aplicando algumas das sugestões em meu cotidiano para organizar melhor o uso de telas aqui em casa.

Ao final do livro, ela ainda traz um capítulo sobre os benefícios do uso de telas e equilibra um pouco a situação. O uso de telas é a nossa realidade, não há perspectiva que teremos uma mudança nessa tendência nos próximos anos e precisamos aprender a lidar com isso da melhor maneira possível.

Meu amor pelo livro:

 

 

 


Este livro foi cedido para leitura pelo grupo editorial Companhia das Letras como parte da nossa parceria. Caso tenha interesse em adquirir um exemplar,  compre pelo nosso link da Amazon e ajude o AMP.

Postado em 20 de maio de 2018 por Lu Bento

Dia das mães passou, todos lembramos de nossas mães e de como a maternidade é linda e um grande ato de amor. Na mídia, comerciais e programas dedicados a mostrar as belezas da maternidade. Em contrapartida, temos uma onda de “maternidade real” ganhando cada vez mais espaço e adeptos e não faltaram críticas à falta de isonomia no mercado de trabalho, à romantização da maternidade e a sobrecarga feminina na criação dos filhos.

A realidade é que por mais diversidade que a maternidade real traga para o conceito de maternidade, ainda existem alguns temas que são tabu quando falamos sobre o assunto. E sinto que está na hora de começarmos a visibilizar sentimentos mais profundos relacionados à maternidade. É hora de olharmos para as mães. O que a mulher-mãe sente? Será que a maternidade foi uma escolha ou uma imposição? O que fazer quando  a maternidade se torna opressora? Esses e outras questões pairam os debates maternos mas ainda são pouco exploradas.

 

Maternidade em questão

Tornar-se mãe não é uma escolha totalmente livre. Somos o tempo todo educadas e condicionadas à reproduzir. O mito do instinto materno, a romantização da maternidade, a pressão do “relógio biológico”, a  crença de que precisamos de um filho que cuide de nós na velhice. Tudo isso exerce pressão para que a mulher “opte” por  se reproduzir. Em geral, mulheres não fazem filhos sozinhas. Mas toda a responsabilidade pelo novo ser recai sobre as mulheres, mesmo sobre aquelas que tem um “casamento perfeito, com um companheiro que está junto em todos os sentidos e que divide as tarefas”.

Não temos nossos direitos reprodutivos assegurados. Sabemos muito pouco sobre métodos contraceptivos, naturais ou farmacológicos. Sabemos menos ainda sobre nosso corpo, seus ciclos e seus sinais. Aprendemos a ter vergonha de perguntar sobre sexualidade e contracepção e todas as conversas e orientações que temos acesso nessas áreas são mediadas por valores tradicionais e/ou religiosos. “A mulher foi feita para procriar.” Somos o útero do mundo, corpos condicionados a reproduzir para a manutenção da espécie. E com isso, nosso direito de escolha e nosso poder de decisão não são considerados.

Escolher não ser mãe ainda é motivo de julgamento para as mulheres. Uma mulher sem filhos é vista como fracassada, como alguém que não consegue realizar a tarefa mais básica de uma mulher. Ou como masculinizada, uma mulher que prefere se dedicar mais ao trabalho, à realização individual. Nunca é uma escolha consciente de um ser que tem livre -arbítrio. Porque a idealização da maternidade está no inconsciente da sociedade e uma mulher que escapa a esse modelo idealizado é uma mulher que escapa, de alguma forma, ao controle social.

 

Maternidade 3.0

Com maternidade 3.0 eu quero propor um olhar mais real para a maternidade. Um olhar que compreende a maternidade como uma relação entre pessoas que pode não ser fonte de prazer e realização. E que perceba que essa relação pode ser muito frustrante, opressora e até fonte de um grande arrependimento.

Ser mãe pode ser tão devastador na vida de uma mulher principalmente pela carga de mudanças que a maternidade acarreta. São mudanças muito intensas e permanentes, de incalculáveis proporções e impactos.  Já aceitamos que o amor materno não é um sentimento intrínseco, instintivo e imediado. O amor de uma mãe por seus filhos é construído, e por ser uma construção, ele pode simplesmente não acontecer.

 

Dica de Leitura:

A dica de leitura de hoje é o livro Mães Arrependidas, da antropóloga israelense Orna Donah. O livro é uma pesquisa qualitativa sobre arrependimento materno na qual ela entrevistou algumas mulheres ( muitas delas já avós) que relatam um pouco sobre como é lidar com o arrependimento diante da maternidade e o tabu que é debater esse tema.

Livro maravilhoso para aprofundar nessas questões e vale muito a pena a leitura.

Se você se interessou por essa obra, compre pelo nosso link da Amazon e ajude na manutenção do AMP.

Postado em 4 de maio de 2018 por Lu Bento
0 0

 

Em abril estreou na Neflix a série australiana Turma do Peito ( The Letdown), criada por Sarah Scheller e Allisson Bell e fala sobre maternidade. É tão focada nas mães e suas percepções da maternidade que o título em inglês remete ao que chamamos de apojatura em português, que é a “descida do leite” que ocorre em até 5 dias após o nascimento da criança . Apesar do ridículo título em português ( “turma do peito” remete mais a uma comédia adolescente dos anos 80/90 da sessão da tarde), a série é bem interessante e aborda o tema de uma maneira acidamente cômica. A verdade é que série se pretende cômica, mas dialoga tanto com as transformações da maternidade na vida da mulher que tem horas que dá vontade de chorar de tanta identificação.

E foi por isso que ela me provocou  sentimentos contraditórios. Quando terminei de assistir o primeiro episódio não sabia se chorava ou ria de nervoso. Muitas emoções sobre o meus não-partos e as minhas sensações no puerpério foram evocadas e senti muita empatia e solidariedade pelas personagens. Bateu  realmente aquela vontade de abraçar cada uma delas e dizer “vem cá mana, vai dar tudo certo. Descansa um pouco que eu fico com o bebê enquanto você dorme. Ninguém aqui vai te julgar por isso.”

Cada um dos seis episódios contam a história de Audrey, personagem de uma das criadoras da série, a Alisson Bell, que é uma mãe recém-nascida que busca em  um grupo de mães ajuda para se adaptar a nova rotina.  A roda de mães no primeiro episódio foi especialmente angustiante. Nessa cena, cada mãe falava sobre seus partos, cesárias, as intercorrências e como se sentiam diante do que aconteceu.

turma do peito

Aos poucos a série vai extrapolando a relação mãe-bebê e passa para uma perspectiva de vida social  envolvendo um  bebê, o que torna os episódios mais leves e divertidos. Então já é possível começar a rir sem chorar em seguida. Ganha destaque a importância de uma rede de apoio para as mães e a maior responsabilização das pessoas em volta. Isso enriquece muito a série e  joga luz nas atitudes de pessoas sem filhos que costumam desconsideram as mães  e suas vivências.

Assisti logo na estreia e fiquei muito impactada com a possibilidade de se fazer comédia com sentimentos e vivências tão profundas na vida das mulheres que se tornam mães. Depois de um tempo, percebo a própria dinâmica da série como uma metáfora para a maternidade, na qual o primeiro episódio é o puerpério e aos poucos a vida vai se adaptando à nova realidade e ficando mais leve e  divertida.

 

Confesso que maratonei a série e fique bem contente com o final da temporada e na expectativa de uma nova. Gostei muito da série principalmente por  dar mais visibilidade ao tema e humanizar a maternidade. Sair do esteriótipo da maternidade cor-de-rosa e mostrar que a maternidade não é tão instintiva  quanto nos fazem acreditar.

 

Dica de Leitura:

A dica de leitura de hoje é a matéria do Portal Lunetas sobre a série Turma do Peito. Nela várias blogueiras falam sobre o assunto e eu também dou minha opinião por lá. Confira a matéria Turma do Peito – série da Netflix aborda a maternidade sem máscaras.

Postado em 14 de abril de 2018 por Lu Bento

As meninas estão estudando na escola o Sistema Solar. E isso trouxe o tema para o nosso cotidiano. Todos o dias elas chegam com novidades e contam sobre os planetas e suas novas descobertas. Lógico que o nosso olhar também ficou direcionado a temas que se relacionavam ao novo interesse delas. Hoje eu compartilho com vocês nossas viagens pelo tema Universo.

 

Desevendando o Sistema Solar

Livro: Sistema Solar – uma exploração visual dos planetas, das luas e de outros corpos ceestes que orbitam nosso Sol

Autor: Marcus Chown

Editora: Blucher

Sinopse:

Nunca antes as maravilhas do Sistema Solar – seus planetas, planetas anões, o Sol, as luas, o cinturão de asteroides e o Cinturão de Kuiper – foram tão acessíveis aos leitores de todas as idades.Começando com uma visão geral fascinante e depois em uma organização por planetas ordenados de acordo com a distância do Sol, “Sistema Solar” nos leva em uma viagem pelo tempo e espaço com direito a um lugar na primeira fileira para testemunhar o nascimento explosivo do Sistema Solar, uma viagem em direção (e depois em profundidade) a cada um dos seus oito planetas, e uma exploração igualmente profunda dos asteroides e cometas.

 

Esse livrão não é propriamente para crianças pequenas, mas é um material maravilhoso sobre o sistema solar. Assim que bati os olhos nele na #feiradolivrodaunesp fiquei encantada.
É um livro com muitas fotos, imagens fornecidas pela NASA  que forma captadas por sondas de exploração ou criadas em programas específicos a partir dos conhecimentos científicos que já existem sobre os planetas.
Uma leitura de referência impressionante, que diverte e educa, além de estimular a curiosidade e o gosto pela ciência. Ele consegue equilibrar muito bem informações mais gerais com outras muito específicas e aprofundadas sobre o universo. Gostei muito dessa obra, uma importante referência para quem quer aprender sobre esse tema.
Fiz questão de comprar um livro assim, que fosse bem mais aprofundado do que se espera para crianças da idade das curicas porque eu e meu irmão tivemos um desses em nossa infância. Era um livro de quando a minha mãe era criança ( imaginem o quanto ele estaria defasado agora!) e a gente amava andar com ele pra cima e pra baixo.
Meu irmão viviam com o livro, perguntando pra os meus pais sobre os planetas, explorando as imagens e se divertindo em imaginar o espaço. Meu irmão tinha a idade que a Isha Bentia tem hoje. Me deu uma tristeza lembrar do livro e ter mais ele aqui pra ver com elas, mas lembro que doamos ele pra uma biblioteca numa grande leva de doações de livros que fazíamos de tempos em tempos. Infelizmente nem sei o nome da coleção para tentar achar a foto da capa na internet.
Lembro desse livro com muito carinho, uma das minhas melhores lembranças sobre livros na infância, e do fascínio que o universo me causava. E ainda causa. Ver que somos tão pequenos diante de tudo que está lá no alto, ver como tudo funciona de uma maneira sincronizada e harmônica, ver que a vida é um ciclo, não importa se você é uma estrela, um ser humano ou um micróbio.
Esse livro do Sistema Solar é o nosso queridinho da vez, resgatando memórias afetivas e nos ajudando a construir outros momentos que, espero, fiquem guardados nas lembranças das meninas.

Pra não ficar só no que eu tô falando, vocês podem ver uma amostra do livro ou acessar a navegação online por ele no site da editora. 🙂

 

Uma Viagem pelo Espaço

Livro: Uma viagem pelo espaço

Autor: John Haslam e Steve Parker

Editora: Queen Books

 

Sinopse:

Você já se perguntou o que tem no espaço? Embarque nesta viagem pelo sistema solar e além dele para descobrir os segredos do nosso incrível universo. A sobrecapa vira um lindo pôster!

 

Como eu buscava livros que fossem acessíveis para elas, tratei de arrumar também infantil sobre o espaço. Esse aqui, além de trazer ilustrações fofas, é repleto de curiosidades sobre o espaço, tudo utilizando uma linguagem simples e voltada para crianças.  O tema espaço chegou pra elas através das figuras de afeto da escola, que estavam viajando pelo espaço. Então um livro sobre viagem espacial veio bem a calhar.

Ele também vem com o poster bem bonitinho com os planetas do sistema solar, e foi uma delícia ver a Mini Bentia abraçada com o livro e reconhecendo Vênus, o planeta da turma dela na escola.  Ter uma opção mais adequada à idade delas foi uma forma de manter acessível o conhecimento. A mesmo tempo que eu quero estimular a pesquisa e a curiosidade delas com o livro mais científico, quero também que elas sintam que esse conhecimento é acessível a elas, que esse assunto pode e deve ser explorado por elas a partir dos conhecimentos que elas possuem hoje.

Lemos juntos, conversamos sobre os planetas e vamos compartihando e construindo conhecimentos. Essa aventura espacial tem sido um momento especial em família, e cada vez que elas chegam com um “mamãe, você sabia que…” eu fico encantada com a quantidade de coisas que as minhas meninas estão aprendendo todos os dias.

 

Falar sobre ciência em casa é uma forma de estimular as meninas a se interessarem por temas que ainda são pouco explorados por pessoas negras. Quantos cientistas negros brasileiros conhecemos? Somos de humanas e pra gente é muito mais natural falar sobre outros temas que não envolvam tantos números e cálculos. Então ter a oportunidade de pensar astronomia com elas tem sido maravilhoso para nos tirar da zona de conforto e fornecer a eles outros refereciais, diversificando os estímulos. Além disso, o tema espaço e muito apresentado para meninos, como se desbravar o universo fosse uma atitude masculina. Então a gente aproveita pra romper com essa visão sexista e, quem sabe, plantar a sementinha de novas astronautas por aí…

 

 

 

 

 

 

 

Postado em 10 de abril de 2018 por Lu Bento

mentes diferentes - banner

Hoje foi o lançamento da campanha 30 mentes diferentes, uma inciativa da agência Rae,MP em comemoração aos seus 30 anos. Nós, do AMP, temos o prazer de participar dessa campanha junto com vários outros projetos sociais que se dedicam a pensar e promover transformações no mundo. O evento de lançamento de campanha reuniu várias dessas mentes diferentes e promoveu uma manhã de diálogos entre as experiências sociais e formação de network.

mentes diferentes - lu bento

Sou a 24ª mente diferente e nosso trabalho será divulgado em comerciais em rádio e revistas especializadas em marketing, o que traz visibilidade para as ações que realizamos em prol de uma educação antirracista e nos  ajuda a obter mais parcerias. Agradeço muito ao Marcelo Ponzoni pela oportunidade e a toda a equipe da Rae,MP pelo carinho e acolhida.

Esse foi o video de apresentação do A mãe preta:

O projeto 30 mentes diferentes pode ser acompanhado pelo site próprio e pelo canal no youtube. A cada semana, um projeto é apresentado. Conheçam esses trabalhos extraordinários!

Veja mais em Literatura e Literatura para adultos


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/amaepreta/www/wp-content/themes/AMP/footer.php on line 63