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Postado em 5 de outubro de 2017 por Lu Bento

 

 

 

“Mamãe, o menino falou que não ia brincar comigo porque os amigos dele são brancos e eu sou marrom. Ele disso que não gosta de marrom.”

“E o que você disse filha?”

“Eu disse que eu gosto de marrom, e que às vezes as famílias são marrom. E toda a minha família é marrom e eu sou linda!”

” Ah é filha? E ele?”

” Ele disse que só brinca com os amiguinhos brancos.”

 

Esse foi o meu diálogo desta manhã com a minha filha caçula, de 3 anos. Ela me contou, com muita naturalidade e sem nenhum sinal de mal-estar que um coleguinha da turma falou que não brincaria com ela porque ela é “marrom”. Quando ela começou a conversa e me disse isso, meu sangue gelou. Um desconforto físico tomou conta do meu corpo e eu percebi que minha filha, minha garotinha que mal deixou de ser um bebê, já está enfrentando o racismo.

Mini Bentia é muito sensível e emotiva, então assim que ela me contou isso eu a imaginei chorando e ficando triste essa rejeição com base em sua cor de pele. Em seguida, perguntei qual foi a reação dela e a resposta me surpreendeu e me acalmou. Ela não se deixou abalar pela rejeição e falou de forma positiva da sua cor de pele.  Não tenho como ter certeza que ela agiu dessa maneira. O racismo nos pega de surpresa e nos deixa sem ação, mesmo quando já sabemos várias respostas para o preconceito. Como essa história está sendo contada por ela depois, é claro que essa reação positiva pode ser uma forma idealizada, pode ser uma construção de como ela gostaria de ter agido na hora, mas que não fez de verdade ou pode até mesmo ser uma forma dela me contar que me deixe feliz com ela, porque sempre falamos em casa o quanto gostamos de ser negros.  O final da história é aquele já narrado, o menino manteve a mesma posição e não brincou com ela.

Mesmo que os fatos não tenham acontecido exatamente assim, é pouco provável que a cena toda seja uma invenção da minha pequena. Crianças negras sofrem racismo na escola desde cedo e é até natural que as crianças não saibam lidar com as diferenças.

Na escola da Mini Bentia, a maioria das crianças são brancas. As professoras também. Então pensando no contexto daquele espaço e nas prováveis relações que esse menino estabelece, o contato com pessoas negras deve ser muito pequeno. Somando-se a isso, a ausência de representatividade negras nos desenhos animados, na publicidade e nos espaços de poder fazem com que a criança branca cresça com uma visão distorcida sobre a negritude.  Eu entendo que a criança branca não queira se misturar com crianças de outras etnias, que prefira ficar entre iguais. O que eu não entendo é que adultos não façam nada quanto a isso. Não entendo como professores e pais não desenvolvem um olhar atendo sobre essas questões, não percebem que as crianças brancas estão afastando as crianças negras ou se negando a brincar ou interagir com elas.

Essa atitude de afastamento a partir da diferença é o embrião do racismo. E ele é alimentado pela falta de educação para as relações étnico-raciais, pela falta de uma atitude pró-ativa para o combate à discriminação racial na infância e pela omissão das pessoas não-negras na luta antirracista.

O caso relatado pela Mini Bentia mostra que essa situação precisa de uma intervenção. Não sei se algum adulto acompanhou o diálogo, nem se esse menino convive com outras crianças negras além da minha filha e essa foi uma atitude pontual, uma justificativa naquele momento pra não brincar com ela. Não sei sequer se a família dessa criança a ensina a se afastar de pessoas negras ou se essa foi só uma percepção da criança de que o afastamento é uma postura adequada diante das diferenças. Não tenho essas respostas.

Só sei que o nosso trabalho de formiguinha só vai resolver parte do problema, a parte que nos afeta e nos faz sofre. Minha filha me contou tudo isso com naturalidade, como se fosse mais um fato corriqueiro da escola e sorriu quando me contou a sua resposta para o menino. Eu posso trabalhar para que ela entenda que é o menino que sai perdendo com essa atitude, que a discriminação racial não é culpa dela e que ele é que está agindo de uma forma errada e mal educada. Mas e a outra parte? Quem trabalhar para ensinar o menino a conviver e respeitar as diferenças? Quem ensina pra criança que essa atitude é racismo? Quer percebe logo na primeira infância as raízes dessa atitude racista e procura combatê-la?

Eu marquei uma reunião com a direção da escola para informar o que minha filha contou essa manhã. Mas nada me garante que as pessoas se interessarão verdadeiramente em por essa questão. Nada me garante que as professoras olharão com amis cuidado para as interações entre as crianças e perceberão essas situações a ponto de intervir. Nada me garante que os profissionais da escola estão habilitados para promover uma educação pra diversidade, que valorize as diferenças e que combata o racismo. Nada me garante que a família do menino será informada para também se dedicar a promover uma educação que respeite o outro e que o ensine a conviver com as diferenças.

Não dá pra colocar toda a carga do racismo nas costas das pessoas negras. O racismo contra negros é um problema gerado pelos brancos e precisa ser combatido por todos.

 

Postado em 30 de setembro de 2017 por Lu Bento

Estreou ontem na Netflix um dos meus desenhos favoritos dos anos 90, O ônibus mágico. Esse desenho maravilhoso sobre um grupo escolar que aprende sobre ciência viajando em um ônibus mágico e descobrindo as respostas para suas perguntas através da experiência.  Com qualquer produção que busca tornar a ciência mais atraente para as crianças (e pessoas em geral), o desenho foca muito na prática, na compreensão dos fenômenos naturais através da experiência, bem diferente do que as escolas reais fazem, focando principalmente na teoria.

A versão atual do desenho, produzida e transmitida pela Netflix, mantém  o formato de começar a exploração científica a partir de um questionamento de uma das crianças. A professora Frizzle conduz as crianças em uma aventura de aprendizado, onde várias coisas mágicas acontecem e as crianças vão construindo o conhecimento a partir disso. Com a devida atualização tecnológica ( a versão antiga falava em disquetes nos computadores, por exemplo), a série volta com 13 episódios de 25 minutos, um bom tempo para  desenvolvimento de uma história completa sem perder o foco e a atenção das crianças.

Um dos primeiros desenhos animados preocupados com a diversidade e com a representação positiva das diferenças, o grupo de alunos é composto por meninos e meninas de diferentes origens étnicas e personalidades, formando o equilibrado ecossistema onde todos têm um papel importante. Isso é incrível em termos de identificação, principalmente porque a cada episódio criança se torna protagonista, dando destaque para sua personalidade. É um desenho que não hierarquiza as crianças, onde os pretos não estão lá apenas para ser “o melhor amigo do protagonista branco”.

O desenho original foi inspirado em uma série de livros (livros, sempre eles!) escritos por  Joanna Cole  e ilustrados por Bruce Degen qu chegaram ao Brasil através do selo Rocco para jovens leitores. Infelizmente não conheço os livros, mas o desenho animado é incrível e acho uma boa forma de estimular a curiosidade dos pequenos sobre ciências.

Assisti os dois primeiros episódios com a Mini Bentia, mas pra crianças de 3 anos o desenho não é tão interessante ainda. Agora estou assistindo os demais episódios com a Isha Bentia, de 5 anos, e ela parece bem mais interessada em descobrir como as coisas funcionam. De minha parte, vou aproveitar pra fazer também uma maratona dos episódios da primeira versão, as 4 temporadas também estão disponíveis na Netflix!

Postado em 8 de junho de 2016 por Lu Bento
Faz um pouco mais de um mês  que eu fui em uma feira de livros e vi uns livros que me chamaram a atenção. Era uma coleção da Paulus,  uma editora religiosa, chamada terapia do ser. Comprei o Terapia do ser mãe e na mesma noite já comecei a leitura.
O livrinho é bem naquele estilo de autoajuda mesmo, não vou mentir. Com 36 pensamentos e umas ilustraçõesterapia do ser mãe com uns elfos meio estranhos, o livrinho aparentemente bobo trás um conteúdo importante pra estimular a reflexão sobre algumas questões relacionadas a maternidade.
O impacto da leitura e das reflexões sobre as frases foi grande por aqui que decidi, então, fazer uma série de postagens aprofundando e discutindo um pouco os pensamentos do livro. São 36 pensamento no total, e então serão a princípio um post por pensamento. Mas alguns podem gerar reflexões mais curtas, então eu posso juntar eventualmente uns 3 ou 4  pensamentos em uma postagem só.
 Começo  hoje falando do primeiro pensamento. Vamos lá?

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Vivemos uma eterna cobrança para ser a “melhor mãe”. Como se a maternidade fosse uma competição entre mulheres. E também como se após se tornar mãe a mulher também deve se tornar um exemplo de perfeição, deixando sempre os filhos felizes e bem cuidados segundo os padrões da sociedade patriarcal. Aquela ideia de que a mãe é uma “santa”, sabe?

Opressor demais, né não? 

Essa cobrança de fora acaba sendo internalizada por algumas (muitas) mulheres e a gente fica acabando que qualquer coisa que fuja desse modelo e perfeição é culpa nossa e nos faz menas main ou mãe de merda, como se dia muito nas redes sociais.
Mas ninguém é perfeito né? Não tem como  a gente, como mãe de primeira viagem, saber o motivo exato daquele serzinho que ainda estamos conhecendo.  Nem mesmo se formos mães e segunda,terceira ou quarta viagem. Então não da pra gente entrar na pilha dos outros que insistem em nos perguntar o motivo do choro do bebê. Precisamos sair do lugar da culpa.por não saber, e assumir o nosso papel de busca,de alguém que está conhecendo a cria e procurando descobrir seus desejos e necessidades a cada instante. E esse é só um exemplo.
Quantas vezes mulheres-mães são cobradas a resolver problemas que não  podem ser resolvidos por elas naquele momento, ou mesmo não tem nada a ver com a atuação dela como mãe. Como quando a criança começa a chorar no avião e todos se sentem incomodados com o barulho e olham para a mãe com ares de recriminação; ou quando a criança faz pirraça na rua e a gente não sabe muito bem como lidar com aquele cena vergonhosa; ou quando os nossos adolescentes fazem alguma besteira por aí. Sempre perguntam sobre a mãe, sobre o que a mãe faz ou não faz quando a isso, sobre onde está a mãe que não resolve esse problema. Todos com uma dica super eficiente na ponta da língua pra apontar a incompetência dessa mãe. Da mãe!  Lembrar do pai ninguém quer, muito menos lembrar que a cria é sujeito de direitos e desejos e que algumas atitudes independem dos esforços e das vontades da mãe.

Paciência Materna 

O que mais a gente precisa nessa vida é ser paciente na jornada que é a criação de filhos. E ser paciente nem sempre é fácil.
Esperar, não se culpar,não cair na pilha dos outros e ainda entender que esses pitacos todos “São só pra ajudar”. Não é fácil.  Dá vontade de chutar tudo pro alto e mandar todo mundo se ‘F#@#*. Às vezes é necessário chegar a esse ponto mesmo, não se iniba por isso! A gente também não precisa ser catalisador do mundo. Já é difícil e desafiador demais exercer a função materna. Ainda ter que lidar com todos aqueles acham que sabem mais que você ou que você tem que saber tudo na ponta da língua  já é peso demais para carregamos.
Nem sempre a gente está em um bom dia, aquele dia, sabe, a gente tem paciência pra aturar as pirraças das crianças e todo o julgamento do mundo por você não conseguir contornar a situação imediatamente. Ser paciente consigo mesma e fundamental para que a gente consiga se manter equilibrada nessa loucura toda. E no final das contas, quem tá preocupada mesmo com sanidade mental das mães somos nós mesmas.

A melhor mãe possível 

Fala-se muito no meio materno em ser a melhor mãe possível. É uma forma de tentar amenizar o peso da cobrança por uma maternidade perfeita. Mas para pessoas que são perfeccionista ou competitivas, por exemplo, essa ideia de “melhor mãe possível” também pode ser bem opressora. Queremos sempre ser melhores, sempre aumentar os limites de nossas possibilidades e se a gente sabe que poderia fazer mais a melhor e só consegue ir até um determinado ponto, a sensação de fracasso e cobrança continua rondando o nosso imaginário.  Não se culpe, mulher!  Já tem um mundo inteiro pra te culpar de tudo por aí, você não precisa ser mais uma.
Às vezes a gente não faz o nosso melhor mesmo. E tá tudo bem. Foi o que deu pra fazer naquele momento e pronto. Foi o que você optou fazer naquele momento, mesmo sabendo que você poderia ter se dedicado mais. Tipo quando você opta por dar aquele lanche porcaria pra sua cria em vez de fazer uma comidinha caseira gostosa só pra ficar mais tempo na internet. Você poderia fazer melhor que isso né, você sabe. Mas naquele momento específico você não tava afim e ponto. Sem drama.

Aprendendo com os erros

Gente, criar filhos é algo que a gente aprende na base da tentativa e erro. Não tem jeito, pra todo mundo é assim. E a gente percebe bem isso quando vê, por exemplo, grandes especialistas em educação infantil passando dificuldades na criação de seus próprios filhos.  Então, não adianta: a teoria é linda, mas na prática é a relação que você estabelece com cada criança que vai indicar o caminho. Lógico, a gente aprende com os erros e tenta fazer diferente em outras oportunidades. Se você um dia bateu nas crianças em um momento de descontrole achando que isso ia resolver a situação e não deu certo, você pode optar o outro método pra atingir seu objetivo na próxima vez.
O jeito é aprender com as experiências mesmo. Não tem mistério.

Este post foi inspirado no livro Terapia do ser mãe, de Molly Wingand.  Para saber mais sobre o livro, clique aqui.


E aí, você é muito exigente consigo mesma? Como você lida com as cobranças para ser uma “boa mãe”? Conte pra gente! Compartilhe suas experiências!

Postado em 4 de maio de 2016 por Lu Bento
diversidade ideologica
Esta cena se passou em nossa casa, durante a cobertura das manifestações contra o golpe e afagar da manutenção da presidente eleita democraticamente.  Uma pessoa logo comentou que Isha Bentia era “do contra”. Minha mãe afirmou que ela é igualzinha mim quando pequena, “do contra”. Resolvi refletir um pouco sobre o que é ser do contra.
De fato, quando pequena eu não acompanhava a maioria das decisões dos meus familiares. Sempre busquei ter uma opinião própria. É sempre fui tachada de “do contra”. Lembro de uma vez em que escolhemos a cor do carro que estávamos comprando, todos tinham escolhido a cor mais clara. Eu optei pela mais escura. No final das contas a cor mais clara estava indisponível e acabou sendo a cor que eu havia escolhido. Posteriormente, a cor que eles escolheram deixou de ser fabricada por baixo volume de vendas. O interessante é que a cor que eu escolhi se mostrou muito mais funcional para o carro, melhor para a revenda, acompanhou a tendência de cores mais sóbrias para carros que existe no Brasil… Enfim, foi uma boa escolha. Mas ninguém reconheceu de fato o mérito da minha escolha, só ficou pra história que eu fui – e sou – a do contra.
Minha família nuclear é toda de exatas. Pai engenheiro, mãe química industrial, irmão engenheiro. E eu decidi seguir para humanas. Socióloga. Mais uma vez eu optando em ser do contra. Sou de esquerda e eles de direita. Moro em São Paulo e eles odeiam essa cidade. Se a gente for parar para refletir, em muitas coisas minha família nuclear de origem aponta para um lado e eu para outro.
Não sei se eu era mesmo do contra quando criança. Mas sei que a prática em questionar e discordar da opinião dos meus parentes me fez uma pessoa com opiniões próprias. Me fez uma pessoa que reflete sobre os temas e se posiciona de acordo com suas convicções. E não alguém que tem medo de se posicionar na vida.
Minha filha hoje, aos 3 anos, sente liberdade e segurança pra discordar da opinião política da própria família. Não acho que ela tenha maturidade e informação para ter uma opinião formada sobre a situação política do país, mas ao menos ela tem liberdade para perceber que não precisa seguir os nossos passos se ela não quiser. Eu tive essa liberdade (mesmo sendo tachada de do contra) e ela também tem, dessa vez sem o rótulo.
Isha Bentia já demonstra desde agora que ela quer ter opiniões próprias, que as visões nos pais não a limitam no mundo. E a gente precisa perceber o quanto isso é libertador para a formação da personalidade dela. Porque ela sabe que pode experimentar coisas que nós, os pais, sequer pensamos como alternativas, e todos nós vamos nos adaptar a essa situação, cada um arcando com as consequências dos seus atos, sem culpabilizar os outros por suas próprias escolhas.
E que fique posto que eu não quero dizer que quem concorda com a opinião da maioria é alienado ou pouco inteligente. Nada disso. Só estou dizendo que é muito mais difícil discordar daqueles que amamos e que são nossa primeira referência. O que eu quero dizer, é que em um ambiente que valoriza o diálogo e respeita as opiniões, discordar de quem amamos e ser acolhida e respeitada é fundamental para que ela se sinta segura para discordar de qualquer outra pessoa sem medo de ser recriminada.
Postado em 16 de março de 2016 por Lu Bento
A política brasileira está um caos. A direita articulando um golpe, a esquerda acuada e sem arcabouço moral  pra resistir a tantas denúncias. No meio disso tudo uma população confusa, influenciada pelo ponto de vista das empresas que controlam a  imprensa e vivenciando cada reviravolta política com paixão.  E como nós, famílias pretas, ficamos no meio de tudo isso? Como e o que explicar pros pequenos  esse assunto que dominou os diálogos em todos os lugares?
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Crianças são curiosas por natureza. E na efervescência que vivemos é natural que elas estejam também ansiosas pra entender pelo menos um pouquinho do que está acontecendo no país. É leviano da nossa parte só passar um lado da situação. Nossos filhos não são nossa propriedade  e é tão tendencioso quanto o Jornal Nacional se a gente só explica as reivindicações de um dos lados  com o qual a gente se identifica. Não posso chegar pras minhas crianças e falar que só tem pessoas alienadas pedindo o impeachment  da presidente ou que é uma “idiotice sem fundamento” o que eles reivindicam. Uma criança merece informação de qualidade que a ajude a formar a sua própria opinião dentro da sua maturidade e  seu conhecimento do mundo pra entender os fatos.

O racismo

Como pessoas negras, independente da nosso posicionamento político partidário, precisamos sinalizar pra nossas crianças algumas questões que nos afetam diretamente. Uma delas é a ausência de negros, ou melhor, a pouca quantidade de negros nos protestos pró-impeachment. Isso está diretamente relacionado com divisão racial e econômica da sociedade, na qual os negros são maioria nas classes mais baixas e quase ausentes entre os mais ricos.
manifestacao3A pesquisa do DataFolha no protesto do dia 13 de março mostrou que metade dos entrevistados tinha renda entre 5 e 20 salários mínimos (fonte). Ou seja, essa galera não pode ser chamada de pobre.  Segundo a pesquisa, 4% dos manifestantes se identificaram como pretos, que somados aos que se identificaram como pardo, temos 19% de negros na manifestação.  O número não parece tão pequeno assim, mesmo sabendo que negros compõem mais da metade da população brasileira. Contudo, não podemos esquecer que  essas declarações são voluntárias e há uma tendência atual de pessoas lidas socialmente como brancas se declararem pardas para conseguirem benefícios relacionados a políticas de ações afirmativas (veja: afroconveniência). Eu ouso dizer que esse números podem estar inflados. De qualquer forma, visualmente, pouquíssimos negros foram vistos nas manifestações e isso já rende com as crianças um bom bate-papo sobre que lugares a população negra ocupa na sociedade.
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A imagem e a charge da babá que estava a trabalho na manifestação também podem render bons diálogos com a criançada sobre profissões, posições de prestígio, exploração do trabalhador, tudo isso permeado pela questão racial. Por mais que a mulher negra depois tenha declarado estar lá por vontade própria, é simbólico vermos um casal branco indo protestar segurando o cachorro enquanto uma trabalhadora negra cuida dos filhos do casal, tudo isso em pleno domingo. A gente pode ver a situação pela ótica capitalista  Até porque, se for desse jeito, daqui a pouco estamos achando normal pessoas brancas terem funcionários negros para carregar uma liteira com eles durante o protesto, carregar abanadores, guarda-sol etc, só porque eles estão sendo pagos para isso.
A diferença de postura da atuação das forças policiais nos protestos diferentes protestos também pode ser sinalizada para as crianças e jovens. Enquanto a polícia não fez nenhuma ação violenta para coibir os protestos pró-impeachment, a atuação dela sempre foi marcada pela violência ao coibir protestos pelo passe-livre ou os protestos dos estudantes e professores contra o fechamento das escolas. Essa hierarquização dos cidadãos, essa diferença de tratamento de acordo com a classe social do público que protesta é importante precisa ser discutida nas famílias.
Vemos também casos de pais que incitam seus filhos ao ódio. Pais ensinado seus filhos a xingar e desrespeitar a Presidenta. Ensinando a ofender e agredir quem pensa de forma diferente. Pode parecer inacreditável que em pleno século XXI as pessoas achem normal agir dessa maneira por desavenças políticas. O discurso de ódio tem espaço e caminho para se propagar sem nenhum pudor. Precisamos falar isso pras crianças, mostrar pra elas que não está certo agir assim, mesmo que o coleguinha faça isso, mesmo que tenha sido o pai do coleguinha ou a professora da escola que tenha ensinado.

A discriminação racial e o perigo eminente

Outro aspecto que pode ser explicado e conversado com criançada e, talvez seja o ponto que mais nos afeta diretamente,  é a emergência de movimentos racistas neste contexto de maniferacismo_mackenziestações políticas. Muitas pessoas se sentem livres pra destilar todo seu ódio e recalque com as conquistas sociais que os governos petistas nos trouxeram. Críticas ao bolsa-família, às cotas raciais, ao FIES e ao PROUNI facilmente se transformam em atos racistas, como a manifestação de ódio escrita em um banheiro na faculdade Mackenzie, em São Paulo.
Isso é muito grave. É grave porque nós negros estamos em eminente risco ao andar nas ruas numa situação em que grupos racistas circulam com liberdade sob o pretexto de estarem protestando contra o governo e podem simplesmente nos atacar em qualquer esquina. Pra quem tem crianças/adolescentes que circulam sozinhos pelas ruas, é importantíssimo destacar isso, porque estamos em posição de vulnerabilidade. A nossa sociedade racista sempre resiste em perceber situações de racismo mesmo que explícitas. Esse grupos radicais podem, a qualquer momento, atacar pessoas negras sem qualquer coerção. De vítima, a pessoa negra será colocada na posição de acusada, será lida como bandida ou como qualquer outra coisa que “justifique” a agressão.
 Alguns grupos já estão agredindo pessoas pelo simples fato de estarem vestidas de vermelho. São consideradas, pela cor da vestimenta, petitas. Já agrediram e hostilizaram idosos, mulheres e crianças por esse motivo fútil. Agora imagine o que esse tipo de gente pode fazer com uma criança negra que esteja sozinha só por ela estar usando vermelho próximo a uma manifestação contra o governo?
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Não estou dizendo com tudo isso que a população negra e a população pobre não podem estar ao lado dos que apoiam a derrubada do governo. Claro que não! Nossas convicções políticas envolvem outros fatores além da nossa negritude.O importante é conversamos com nossos pequenos,  tentar sanar a curiosidade deles na medida do possível e também mostrar que o racismo se explicita nesses momentos de crise.
É preciso estarmos atentos! Assim como determinadas pessoas se sentem livres para segurar cartazes criticando a presença de negros, se sentem livres para fazer saudações nazistas durante os protestos, outros se sentem livres para nos agredir verbal e fisicamente. Somos o alvo desse ódio contido da sociedade branca que se vê perdendo privilégios a cada instante devido às nossas conquistas. Não podemos, principalmente nesse momento, cair no conto da democracia racial.
Pode parecer exagero pra quem não é preto, mas existem muitas interseções entre a situação política brasileira e  as manifestações de racismo e as crianças precisam também entrar nesse diálogo.
Postado em 6 de abril de 2015 por Lu Bento

Hoje temos um desenho que é um sucesso entre os pequenos e o grandes. Foi um dos posts mais comentados e compartilhados na nossa página do facebook. Todo mundo adora esse herói.

O desenho é… Super Choque

Super choque

Gente, super-herói negro? Super-herói adolescente? Sério, isso é uma superdose de autoestima pra qualquer menino. Eu digo menino porque eles se identificam imediatamente com a figura do Virgil Hawkins, mas um super-herói negro é pra elevar a autoestima de todos nós né!

Eu assistia direto no SBT, não me cansava de ver, se bobear já tinha decorado as falas e tudo. As meninas ainda não assistem, ele é mais indicado pra crianças maiores que conseguem acompanhar melhor a trama.

Nem tem necessidade de falar da trama porque todos conhecem, mas basicamente é a história de um menino negro que vive com o pai e a irmã que se torna super-herói ao ser exposto a um gás desconhecido e se tornar um meta-humano com superpoderes eletrostáticos. O desenho basicamente fala da luta do Super Choque e seu amigo Gear para proteger a cidade dos meta-humanos que desejam destruí-la.

Uma coisa que eu acho bem bacana no desenho é que o Super Choque não gosta de armassuper choque de fogo. Acho meio desnecessária essa valorização das armas de fogo para solucionar problemas. A versão oficial da história diz que o Virgil não gosta de armas de fogo porque a sua mãe foi morta por uma bala perdida em um guerra de gangues rivais. Alguns blogueiros contam uma outra versão, bem mais pesada para um desenho infantil, na qual ela era vítima de violência doméstica e foi assassinada pelo marido. Parece que essa foi a versão do piloto, que não agradou muito o pessoal da Tv e foi adaptado para algo mais leve pra o público infanto-juvenil.

Outra coisa que me chama atenção é o Virgil ser apaixonado por uma menina preta da escola, a Dayse. Tudo bem que na realidade americana é comum escolas na qual a maioria dos alunos são pretos e tal. Mas pros nossos adolescentes aqui, é um grande estímulo para que eles enxerguem a beleza das meninas pretas. A tv brasileira ainda tem sérias dificuldade de mostrar casais pretos, quando mostram personagens pretos com interesse amoroso acabam falando também sobre relações interraciais.

A personasheron - superchoquegem que eu mais gosto, sem dúvida é a irmã do Virgil, a Sharon. Ela tem um lado meio maternal com o irmão, a mãe deles já é falecida e ela meio que ocupa esse lugar. Ela parece meio bolada, mas no fundo tem um coração bom. E é cheia de personalidade!

Tem muita coisa pra se falar, o desenho é bom demais e quem não viu, vale a pena ver!

Postado em 30 de março de 2015 por Lu Bento

O desenho é… Yo Gabba Gabba

yogabagabba

O programa de hoje, que também não é beeeem um desenho, é o Yo Gabba Gabba. Um cara (DJ Lance) e cinco personagens (Muno, Fofa, Barriga, Gatinha e Plex) protagonizam esse programa educativo voltado para crianças pequenas.

SYDNEY, AUSTRALIA - JUNE 02: DJ Lance and the Yo Gabba Gabba gang pose during a photo call promoting their appareance at Vivid LIVE, at the Sydney Opera House on June 2, 2011 in Sydney, Australia. Vivid LIVE at the Opera House will run from May 27 to June 5 as part of Vivid Sydney, the city's annual festival of light, music and ideas. (Photo by Cameron Spencer/Getty Images)

Gostei de cara por ser um programa infantil protagonizado por um homem negro. Já é raro ver programa infantil protagonizado por negros, por homens então, nem se fala. Lógico que quem descobriu esse programa no Netflix foi o papai, e ele logo se empolgou e colocou pras curicas assistirem. Isha Bentia gostou também e ele acabou se tornando um dos programas favoritos da família.

Além do apresentador negro, o programa preza muito pela diversidade e com desenhos, músicas e brincadeiras vai ensinando pequenas coisinhas pras crianças: respeito às diferenças, boas maneiras, hora de dormir, a não ter medo de tudo, a ser perseverante…

MartianRobotGirlAo longo do programa passa algumas esquetes com mini desenhos animados, e o que a gente gosta mais por aqui é o da Super Robô Marciana. Aqui em casa ela virou Super Mamãe Marciana, ou seja, associaram a personagem a minha pessoa e eu virei super-heroí! Não é em todo episódio do YO Gabba Gabba que ela passa, mais quando passa é aquela gritaria “mamãe, você! Olha você lá!”

Outra parte que eu gosto bastante é que em um dos quadros eles colocam um rappebiz-yo-gabbar pra ensinar batidas de rap com a boca, beatbox. Mais uma vez é uma quebra de estereótipo colocar um homem negro, rapper, enorme num programa infantil ensinando crianças. E é uma delícia ver Isha Bentia tentando fazer os sons. É diversão pra família toda. Já deu da figura da moça loira de roupa curta “animando” a criançada.

Yo Gabba Gabba a gente assiste no Netflix, mas é uma produção da Disney Jr e pode ser encontrado também no YouTube. Esse é um dos vídeos que Isha Bentia mais gosta, mesmo sendo em inglês ela sempre pede pra repetir!

Muita música, cores e bons ensinamentos. Perfeito pros pequenos, sucesso entre as curicas!

Postado em 23 de fevereiro de 2015 por Lu Bento

O desenho é  Kiriku

Kiriku

Eu não ia falar dos desenho do Kiriku agora, muitos já conhecem e eu tava planejando falar sobre ele depois que eu visse por mais vezes o novo Kiriku e os homens e as mulheres. Mas nesse carnaval aconteceu uma coisa linda, e eu estou frustradíssima por só descoberto antes: uma escola de samba de São Paulo desfilou com o enredo “Karabá e o menino do coração de ouro”. Então, pra aliviar a minha frustração, vamos falar de Kiriku!

Kiriku é o desenho favorito de Isha Bentia no momento. Ela fala em Kiriku o tempo todo! Ela morre de medo da Karabá (rainha), mas também morre de amores. Sabe aquela sensação de fascínio e medo que as crianças pequenas costumam sentir por alguma coisa? Isha Bentia sente pelas histórias do Kiriku. É bom saber que um história tão fofa como essa vai ficar nas nossas lembranças da infância dela.

Isha Bentia assistiu Kiriku e a feiticeira com o pai, e ficou vidradinha durante todo o filme. Acho que foi o primeiro longa que ela assistiu e ela fez tantas perguntas que deu pra perceber que estava bem interessada. Ficou com medo da feiticeira e seus feitiços e isso nos rendeu algumas horas de explicações para que ela entendesse que a feiticeira não quer fazer mal a ela.

kiriku1

Eu gostei mais da seqüência Kiriku e os Animais Selvagens. As histórias são curtinhas, é mais prático pra Isha ver no dia-a-dia e é melhor para as crianças pequenas.

O último, Kiriku e os homens e as mulheres, eu descobri há pouco tempo e achei bem diferente dos demais. Outros personagens entram na história, me pareceu meio confuso. Mas como Isha Bentia não curtiu muito ainda, eu não tenho muito o que dizer sobre ele.

Kiriku é tão querido aqui em casa que já virou brincadeira entre as meninas, Isha Bentia diz que é a Karabá, a feiticeira e corre atras de todo mundo. Mini Bentia é Kiriku e salva as pessoas. Qualquer brinquedo vira um Feitiço da Karabá e pode pegar a gente. Já dá ora imaginar o quanto eu já corri por essa casa fugindo da Karabá né? E o quanto já tive que ficar com a Kiriku no colo pra não se presa por um Feitiço!

Identidade, cultura, representatividade, ancestralidade…tudo isso encontramos em Kiriku.

Postado em 20 de fevereiro de 2015 por Lu Bento

O desenho é:  Rastarato

“Dê um alô, dê um alô, dê um alô pra turma do bem. Desvendar muitos mistérios, tocar reggae e ajudar também!”

Que desenho maneiro! Conhecemos no Netflix e confesso que nós, os pais, curtimos mais que Isha Bentia. O desenho conta as aventuras do Rastarato e seus amigos desvendando mistérios. 

rastarato
Além de ser toda cheia de gírias, de tocar ska e ter tudo a ver com a cultura negra, a animação tem algo que eu acho super inovadora: quando o Rastarato e seus amigos descobrem algo de errado que o outro rato fez, conversam com o outro pra saber os motivos do erro e o ajudam a resolver o problema. Não tem vencedor, não tem vencido, não tem magoa, não tem nada disso!Resolvem os problemas juntos e vão todos curtir um reggae! É ou não é legal isso?

 

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