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Postado em 1 de julho de 2018 por Lu Bento

Hoje começamos um novo cantinho aqui no blog para compartilhar a visão de maternidade de outras mães pretas. Nessa estreia, Nanda de Oliveira, criadora de um manual para promover a diversidade e inclusão na educação, compartilha conosco a sua experiência de maternidade.

Acompanhe!

AMP:Quem é Nanda de Oliveira?

Meu nome é Fernanda, Nanda para os amigos. Tenho 37 anos, sou bacharel em direito, funcionária pública, consultora capilar de “Deixa a Madeixa”, corredora amadora (conteúdos relativos à corrida são compartilhados no instablog corredoras cacheadas) e mãe da Inaê, de 3 anos.

AMP: Como foi a sua gravidez?

A gravidez da minha filha foi planejada e desejada. A construção de sua identidade preta começou desde que ela estava na minha barriga, passando pela decoração do quarto, aquisição de livros com protagonismo negro, bonecas e escolha do nome.

AMP: Você ou sua filha já passaram por alguma situação de racismo que você queira relatar? Conte como foi e como vocês reagiram.

Me pergunto qual negro não tenha passado e também poderia ficar relatando várias situações, mas gosto de focar no racismo estrutural. A mais recente foi ser confundida DUAS vezes como funcionária de uma loja de departamento esportivo, onde TODOS os vendedores usam coletes com o nome da loja.

AMP: O que você acha que existe de diferente entre ser uma mãe branca ou negra na sociedade brasileira?

Nossa, várias coisas, que gosto de dizer que são privilégios. Não se preocupar se a escola estará preparada para receber seu filho; que aborde diversidade, que tenha representatividade nos materiais didáticos e no corpo docente. Mãe branca compra roupa pra filha ou filho sem se preocupar se a figura estampada realmente represente seu filho; não precisa instruir seu filho como andar na rua para não ser confundido com ladrão; não se preocupa que seu filho vire estatística. Enfim, elas constantemente têm o privilégio de descansar.

AMP: Com relação a abordagem racial, a relação que você tem com sua filha  é semelhante a que você teve na infância?

Não. Totalmente diferente. Até porque hoje em dia temos mais ferramentas para empoderar nossos filhos. Quando eu era criança, apesar de saber que era negra, nunca foi um hábito da minha família conversar sobre as questões da negritude (racismo, empoderamento, etc).

Educação Antirracista

AMP: Você acredita na importância de uma educação com o recorde racial?

A educação antirracista é o único caminho para uma sociedade mais justa e igualitária.

AMP: A escola da sua filha faz alguma abordagem da lei 10639/03? Você faz alguma coisa para que a escola tenha mais representatividade?

A escola da Inaê possui um quadro de funcionários diverso (desde corpo docente a auxiliares), mas ainda há muito que caminha na questão racial. Não a reconheceria como uma instituição antirracista. A impressão que tenho é que eles nunca foram questionados sobre isso antes de mim. E também se apoiam muito na metodologia montessoriana para se esquivar das responsabilidades. Depois de uma conversa que tive no ano passado notei algumas pequenas mudanças (tô na vibe de comemorar cada uma delas), mas sei que há muito mais que pode e deve ser feito neste quesito.

Nanda de Oliveira

Empoderamento e Autocuidado

 

AMP: O que você faz para elevar a autoestima da sua filha?

Busco referências positivas. Mostro a beleza dos seus traços, do seu cabelo e sempre elogio.

AMP: O que você faz para elevar a sua autoestima?

Gosto de um tempo pra mim. Fazer as coisas que eu gosto. Confesso que depois que tornei mãe e o tempo ficou mais escasso faço uma escala de prioridades. E procuro sempre atender às minhas necessidade de saúde, beleza e bem-estar.

AMP: O que você faz para cuidar de si?

Pratico esporte e faço coisas que me deem prazer, desde a cursos a ficar maratonando séries no Netflix.

Rede de Apoio

AMP: Como é o compartilhamento de responsabilidades sobre a criação da sua filha? O pai dela divide as responsabilidades? Você se sente sobrecarregada de alguma forma?

As responsabilidades são divididas, mas de uma forma ou de outra sempre sobra mais para mãe. O homem não foi educado para ser pai e essa desconstrução e esse aprendizado tem que ser diário. Aqui em casa, meu marido sempre acompanhou tudo desde a gestação, fica com a Inaê na parte da manhã (para que eu possa treinar e trabalhar), dá banho, comida, coloca pra dormir, brinca….efetivamente está presente, mas sempre tenho que estar atenta para que a machonormatividade não se impere.

 

AMP: Existe um provérbio africano que diz “é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança”. Você tem uma rede de apoio que te ajuda na criação dos seus filhos?

Minha mãe e minha irmã (madrinha da Inaê) são verdadeiros anjos e sempre me ajudaram muito.

AMP: Se você tem um relacionamento interracial/multirracial: Quais questões te chamam mais atenção na sua vivência? Como a sua família lida com as situações de preconceito e discriminação que eventualmente acontece com os membros de pele mais escura?

Sou casada com um homem não negro e, apesar de sempre estar envolvido nas questões relacionadas à negritude ele está aprendendo a ser pai de uma criança negra, pois não teve as vivencias do racismo. Esse envolvimento com nossa cultura (música / religião) que, pra nossa relação, foi essencial não é o suficiente para sua paternidade. E neste aspecto, toda família tem aprendido: ele na sua desconstrução, eu no fortalecimento da minha identidade e a Inaê na educação descolonizada que estamos proporcionando a ela através do contato com elementos da nossa cultura.

Nanda de Oliveira

 Maternância

AMP: Eu costumo usar a expressão maternância para falar que a maternidade exercida pela mulher negra é uma espécie de militância na medida em que a gente passa a desenvolver estratégias pra combater o racismo e evitar que nossos filhos sofram os impactos dele. Você acredita em maternância? Se sim, como você vê que exerce a sua maternância?

Acredito e depois que aprendi esse termo com você eu praticamente o incorporei. Rs. A maternidade foi a terceira e mais impactante cortina que se abriu para que pudesse expandir minha consciência racial. Pela minha filha eu senti a necessidade de escrever um manual para promover a diversidade e a inclusão no ambiente escolar. Através da maternância veio a necessidade/desejo de aprender mais sobre a nossa história, sobre a história da Africa e me levou a fazer cursos sobre o tema. O conhecimento liberta e esse manual é um chamado para que nossos filhos e todos os cidadãos tenham acesso à uma educação descolonizada.

AMP:  Cite uma mãe negra que te inspira de alguma forma.

Nossa, são tantas. Vou citar da minha família: minha mãe e minhas saudosas avós. Minhas queridas irmães Lu Bento (conhece? Rs), Clélia Rosa e Egnalda Côrtes.


Essa foi a Nanda de Oliveira. Conheça essa mãe preta e acompanhe seu trabalho nas redes sociais: instagram | facebook

 

 

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