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Postado em 23 de fevereiro de 2018 por Lu Bento

Uma das fases mais difíceis da vida de uma mulher é quando ela perde um bebê. Não importa se ela tinha descoberto a gravidez há 1 dia, se já estava sentido o movimento do bebê ou que já está preste a dar a luz. Toda perda é um luto. É um vazio de uma expectativa não realizada. É uma sensação de fracasso e incompetência que toma conta da gente e que não é fácil de superar.

mental e do modo como estamos lidando com a perda.
Quando a perda envolve então uma gravidez recente, que não apresenta ainda sinais visíveis para as outras pessoas, é ainda mais sofrido. Mesmo sabendo que há controvérsias entre um embrião ser considerado vida ou não, para aquela família e especialmente para aquela mãe que desejou a gravidez, um embrião é um filho em formação. E não importante a fase de desenvolvimento que ele se encontre, para ela é uma vida.

Depois da perda temos que buscar um novo significado para a nossa existência. Deixamos de ser uma gestante, uma futura mamãe e passamos a ser só uma mulher. Mas é impossível voltarmos a ser a mulher de antes.  Depois que passa a parte do luto coletivo, ninguém mais de te vê como mãe e nem mesmo alguém que perdeu um ente querido próximo.  Você é só mais uma mulher.

Deixar de ser mãe

Em nossa sociedade, uma pessoa que perde os pais é considerada órfã. Quem perde o companheiro ou a companheira é chamada viúva/viúvo. Mas, e quem perde um filho? Talvez essa inversão da ordem natural do fluxo da vida seja tão traumático que a gente não saiba lidar tão bem como isso. Não há um nome para uma mãe que perde um filho. Não há um protocolo social para lidar com essas coisas e é bem natural que ninguém saiba muito bem como lidar.

O que eu sei, pela minha experiência de perdas gestacionais, é que a dor aos poucos é substituida pela saudade e pela lembrança da gravidez, mesmo que breve. Sei também que deixar de lembrar a todo momento do bebê que se foi é totalmente diferente de esquecer. A lembrança se torna menos presente na vida porque a gente saí do estado de dor profunda e passar a admirar as coisas boas que nos acontecem também. E a lembrança vem como uma saudade do que vivemos, e principalmente, como uma saudade do que poderíamos ter vivido.

Ah, que você não deixa de ser mãe. Mesmo que a sociedade não reconheça a sua maternidade, ela nasceu em seu íntimo no momento em que você descobriu ( e desejou) a gestação. O seu

sentimento materno pode ser aproveitado em muitas coisas na sua vida, compartilhado e desenvolvido no seu cotidiano.

Uma coisa que seu sempre faço é dedicar um tempo a lembrar dos meus meninos nos dias que marcam a perda deles. Paro e tento lembrar da gravidez, dos meus sentimentos na época, minha alegria quando soube da gravidez, meus planos… gosto muito de imaginar como seria a minha vida se eles estivessem aqui, se eles voltaram pra mim na forma das meninas ( perdi dois meninos antes de tê-las), se eles cumpriram seu propósito nesse mundo tão rápido que nem precisaram chegar a nascer. Sei lá, várias coisas passam pela minha cabeça como forma de tentar compreender porque essa probabilidade matemático-biológica aconteceu exatamente comigo e desse forma e como isso foi recebido por mim e transformou a minha história.

A religiosidade e a espiritualidade,  de modo mais amplo, também são ferramentas para lidarmos com essas situações. Sei que nem todo mundo acredita em algo que traga uma explicação para a perda gestacional, e tudo bem lidar com tudo isso só no plano concreto também. Mas é certo que amor e acolhimento são os sentimentos mais benéficos para mães que perderam seus filhos.

 

Grupos de apoio

Saiba que você não está sozinha. Existem muitas mães sem filhos por aí, convivendo com sentimentos bem semelhantes aos seus. Se estiver sendo difícil demais lidar com tudo isso sozinha, existem grupos de apoio à mães que sofreram perda gestacional ou neonatal. Esses grupos são excelentes espaços de acolhimento e validação dos nossos sentimentos.

Infelizmente não conhecia nenhum desses na época das minhas perdas, mas reconheço a importância deles e a necessidade de ter pessoas com quem compartilhar nossos sentimentos. Eu mesma já acolhi várias mulheres que tiveram suas perdas depois de mim e sempre estou disponível para conversar sobre isso com quem me procura.

Já que você chegou até aqui, indico esses grupos de apoio para mães em processo de luto por perda gestacional e neonatal que realizam encontros presenciais em diferentes estados:

 

 

Como esse é um blog de uma mãe preta, preciso destacar que ainda não conheço nenhum grupo desses que lide também com a questão racial. Para nós, mulheres negras, a perda gestacional muitas vezes está relacionada à violência obstétrica e outras violências decorrentes do racismo. Nossas histórias de perdas tem um componente a mais de dor e sofrimento, negligência médica, pouco ou nenhum tempo de licença do trabalho pós-perda, falta de apoio familiar e comunitário.  Não estou aqui querendo medir o sofrimento de ninguém, mas sei o quanto esses outros aspectos se adicionam à nossa dor e tornam ainda mais complexos nossos sentimentos.

 

Dica de Livro:

Sobre esse tema indico o livro Ele se foi, e agora? – Como superar a perda gestacional, de Patrícia BellasEla fala sobre perda gestacional e dá algumas dicas para famílias que estão enfrentando esse momento.

 

 

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