Todos os posts sobre Mães Pretas
Postado em 26 de fevereiro de 2016 por Lu Bento
Ano passado falei como foi difícil encontrar uma mochila adequada pra Isha Bentia. Se quiser relembrar a saga é só clicar aqui.  Esse ano precisei buscar uma mochila nova pras meninas, já que Mini Bentia já está crescidinha e não vai mais usar bolsa de bebê. E não foi fácil encontrar algo que não tivesse princesas ou personagens brancas.
Eu já tinha uma ideia bem definida: vou procurar a mochila de rodinhas da Qui Qui Biscuit, a Mini Bentia passa a usar a mochila da irmã, e Isha Bentia ganha uma mochila de rodinhas como ela tanto quer. Fica todo mundo com a mesma estampa da Bom Bom, personagem negra da marca, e fica tudo certo.
O plano tava lindo, mas colocá-lo em prática foi mais difícil que eu esperava. Fui para o Brás, aquele mundo do consumismo, e andei pelas lojas de bolsas certas que só encontraria o que buscava na mesma loja que comprei a mochila. E de fato não encontrei nada diferente das mochilas com personagens da Disney ou com personagens brancas na maioria das lojas.
Após enfrentar a resistência das vendedora que invarialvente tentam te forçar a falar se é mochila pra menino ou pra menina, elas sempre me mostravam só modelos com personagens brancas. Quando eu optei por iniciar a abortarem falando que eu procurava uma mochila infantil sem personagens famosos, no máximo com alguns bichinhos, elas logo falavam que não havia nada neste estilo. Minhas esperanças de sair do Brás já estavam esgotando quando finalmente cheguei na loja onde havia comprado a mochila da Isha Bentia.
logo dei de cara com uma mochila com uma outra personagem da coleção que eu procurava e perguntei se não tinha a mochila de rodinha da BomBom. Não tinha. E a sem rodinhas, a de cargas nas costas mesmo? Não tinha. Tenha previsão de nova remessa? Não, aquele era o último modelo disponível. Decepção era o meu nome.
Fiquei arrasada com a possibilidade de não conseguir uma mochila pras minhas meninas. Não estava disposta a pagar quase 500 reais por um kit de mochila e lancheira. Também não queria comprar uma mochila sem graça e ficar ouvindo o ano inteiro como a mochila da Sofia e maravilhosa, a da Vitória é um espetáculo e a da Sabrina que tem um monte de bolsos.  Isso não é uma competição, mas sempre  dá aquela sensação de #menasmain quando a gente não consegue agradar as crias.mochila1
Por sorte encontrei a lancheira e o estojo e já separei pra minha compra. A lancheira, que em lojas virtuais custava 50 reais, e estava sempre em falta, na loja física estava por menos da metade do preço. E comecei a pensar em alternativa pra mochila da Isha Bentia.
A minha primeira opção foi me render às personagens famosas da Disney. Vi a mochila da Dra. Brinquedos e pensei que seria uma boa ideia optar por ela. Custava mais de 200 reais só a mochila de rodinhas. Ainda faltaria a lancheira. Além do mais, Isha Bentia não curte o desenho da Dra. Brinquedos, por mais que eu coloque de vez enquanto na Tv. Não ia rolar.
Já estava decidida a ir pra casa e tentar novamente outro dia, quando um vendedor me mostrou uma mochila de rodinhas, sem imagem de personagem. Ela era lilás e rosa,  tinha um bordado escrito princesa em inglês (nem tudo é perfeito nesse mundo sexista) e, tinha uma rodinha que acendia ao girar. Foi o suficiente pra agradar a minha curica. E o custo de menos de 100 reais foi  decisivo pra agradar meu bolso.
mochila 2Comprei a mochila, certa de que foi o melhor negócio que eu poderia fazer nesse contexto, mas continuei com essa questão na cabeça. Como proporcionar às curicas um material escolar mais representativo, que não corrobore essa indústria capitalista que quer nos obrigar a adotar determinados padrões. E comecei a ver também outras mães pretas preocupadas com tudo isso.
Então eu percebi que não adianta esperar que as grandes empresas façam produtos que nos representem. Precisamos exigir representatividade, mas precisamos também dar valor as iniciativas de pequenos empreendedores que já estão produzindo artigo voltados para a população negra. Já existe uma variedade de pequenas marcas que vendem cadernos com estampas afro e com bonecas negras. Assim como mochilas, capas para livros, estojos…
O jeito é pesquisar. Garimpar mesmo esses produtos e valorizar os empresários negros que estão se esforçando pra ocupar essa lacuna. Demanda existe. Produto também! Basta a gente conseguir conectar esse dois pontos.  Precisamos começar a praticar o consumo consciente. Um consumo que vai além do desejo de obter o produto. Precisamos consumir de forma que possamos fortalecer iniciativas que corroboram a nossa visão de mundo.
Espero que ano que vem seja mais fácil encontrar um material escolar que realmente seja representativo para as minhas filhas.
Postado em 12 de julho de 2015 por Lu Bento

Na minha página pessoal do facebook e na página do blog eu posto algumas frases das meninas (frases de Isha Bentia, porque Mini Bentia ainda não fala) e situações cotidianas. Hoje resolvi trazer um pouco disso pra cá também, então reproduzo aqui frases que já foram postadas lá.

Postado em 24 de março de 2015 por Lu Bento

O desfralde é um momento crítico na criação dos filhos. É um processo que demanda tempo, energia e paciência. Aqui em casa não foi diferente. Quem fala de filhos sempre acaba em algum momento entrando nesse tema. Aí vamos nós!

Postado em 12 de março de 2015 por Lu Bento

Mini Bentia completou 1 ano. E que ano! Ela chegou abalando nossas estruturas e eu não poderia deixar de escrever o quanto essa menina é especial pra todos nós.

Postado em 9 de março de 2015 por Lu Bento

Antes mesmo do filho nascer precisamos tomar uma decisão que vai ter impacto por toda a vida deste novo ser: definir o nome pelo qual ele será registrado e chamado pelo resto da vida. Hoje vamos falar um pouco sobre a escolha do nome do bebê e com eu escolhi nos nomes das curicas.

Postado em 6 de março de 2015 por Lu Bento

autoestima como empoderamento feminino

Um dia entrei no meu facebook e vi uma imagem na minha linha do tempo com a seguinte frase: “Uma mãe que irradia amor próprio  e autoconfiança, na verdade, vacina sua filha contra baixa autoestima.“* Aquilo me marcou. Sou mãe de duas meninas e minha autoestima ia ladeira abaixo desde que perdi meu primeiro bebê. Percebi que era hora de fazer alguma coisa concreta ou minhas filhas cresceriam tendo um péssimo exemplo em casa.

Me olhei no espelho demoradamente e refleti sobre o que eu vinha fazendo por mim mesma nos últimos 7 anos. Logo depois que perdi o primeiro bebê (ainda espero conseguir parir um relato de aborto e da violência obstétrica que sofri na ocasião), comecei a estudar pra concursos públicos. Não demorou muito e passei em alguns e foi bem elogiada pelas pessoas com quem convivo. Todos reconheciam o quão difícil é passar em um concurso e que eu tinha conseguido até relativamente rápido resultados pelos meus esforços. Para mim, eu simplesmente não tinha feito mais que a minha obrigação, afinal, era para isso que eu estudava. Me concentrava mas nos concursos que eu não passei e vivia remoendo o fato de ter errado várias coisas bobas nas provas. Nos concursos que eu passei me comparava com os primeiros colocados e me achava burra por não ter conseguido melhores posições.

Na faculdade, não procurava um grupo de pesquisa porque não me achava boa o suficiente. Fazer a prova do mestrado então, nem pensar! Da menina que falava bem nas aulas e não tinha problemas em se expressar em público quando criança pouco restou. Expressava minhas opiniões cada vez menos e com isso ia me anulando.

A verdade é que eu me culpava enormemente pelo aborto. Se eu não era capaz de segurar um bebê na barriga, o que eu poderia fazer direito? Nada né! Uma baixa autoestima que inicialmente pode ter sido motivada por um fato que me trouxe enorme tristeza foi se perpetuando ao longo do tempo e afetando todos os setores da minha vida. Quando engravidei de Isha Bentia, eu já sabia que precisaria ficar de repouso durante toda a gravidez. A sensação de estar mais doente do que grávida permeou os nove meses e reforçou em mim mais uma sensação de  “fracasso”. Nem uma gestante normal eu poderia ser! A amamentação exclusiva que também não rolou (meu relato de amamentação pode ser visto aqui) foi outro marco nesse meu processo de autodepreciação.

Quando Mini Bentia chegou, achei que conseguiria parir naturalmente. Não consegui. Precisei de uma cesárea no meio do trabalho de parto e acabei com mais um motivo pra me autossabotar emocionalmente. Então eu me tornei aquela que não consegue segurar um bebê no útero sem ajuda externa, não consegue ter uma gestação normal, não consegue parir e não consegue amamentar. Que porcaria de mãe que eu sou? Que porcaria de mulher/mamífera eu sou?

A terapia sempre ajuda neste lado mais deprê da coisa, mas nem sempre consegue nos fazer lidar com essas pequenas autossabotagens cotidianas. A falta de tempo e duas crianças pequenas pra criar me davam passe livre pra priorizar as necessidades das meninas, da casa, do marido, do trabalho e deixar as minhas demandas para último plano. Quero comprar uma roupa nova? Não posso, tenho que comprar isso pras curicas. Preciso me exercitar? Não posso, não tenho tempo livre. Quero voltar a estudar? Não posso, deixa o marido primeiro. Gostaria de fazer tal coisa? Não posso, tenho que cuidar da casa.

Nunca fui das mais vaidosas, mas percebo que nos últimos anos tenho ficado cada vez mais largada. Com a chegada das filhas então, meu tempo pra cuidar de mim mesma foi reduzido a zero e eu não fazia nada pra mudar isso. E nem me lamentava muito quanto a isso, a falta de tempo era a minha justificativa pra andar por aí toda largada.

Então, quando eu vi essa imagem com a frase eu percebi que se não começasse a fazer algo por mim minhas filhas teriam como exemplo uma mãe/mulher que não se cuida, que não se ama.

Por isso decidi começar a cuidar de mim. Claro que começar a se cuidar é um processo e escrever o blog faz parte disso. Precisei começar a escrever pra encontrar uma forma de me expressar, de expressar minhas opiniões e sentimentos e sair da letargia do “tá tudo bem.” o tempo todo. E me expressando consegui me enxergar.

Não estou ainda fazendo nem um terço do que eu gostaria de fazer por mim mesma, mas já tenho tempo pra me exercitar, já cuido melhor da minha pele, do meu cabelo, da minha saúde. Estou me organizando pra voltar a estudar. Já consigo gastar meu dinheiro com algo pra mim sem culpa. Consigo ir ao médico e ao dentista quando preciso e comecei a tirar algumas selfies quando gosto do meu visual. São pequenos passos mas são fundamentais. Isso tudo é empoderamento. Cuidar de si é um processo que não pode ser colocado como um item menos importante na lista de prioridades. Estou cuidando de mim, e assim cuido delas.

Que essa minha mudança de atitude comece a vacinar minhas meninas desde pequenas.

* Pesquisando na internet, as informações indicam que a frase é de Naomi Wolf. Não consegui encontrar uma fonte realmente confiável que me confirmasse essa informação. Quem souber confirmar a autoria, por favor, me ajude.

Postado em 30 de dezembro de 2014 por Lu Bento

Fim de ano e sempre vem aquela vontade de fazer um balanço do como foi o ano que está acabando. Quanto a isso, eu não passo vontade! Sempre faço minha retrospectiva, e  compartilho a de 2014 com vocês.

Quando eu me dedico a lembrar o que foi marcante pra mim esse ano, a primeira coisa que vem a mente foi o período que a Mini Bentia passou internada. Mas é lógico que esse não foi o momento mais importante, muito menos determinante para que 2014 seja classificado como um ano ruim.

92620d2c538feb4c559d167e9acbc164Comecei 2014 imensamente feliz por ter segurado minha filha na barriga. Pra quem tem pressão alta e IIC, uma combinação ótima pra aumentar o risco de parto prematuro, cada semana de gravidez é uma vitória. Acompanhando as ultras, a curica crescendo bem devagar, mais devagar que o “normal”. Mas tava crescendo no ritmo dela, bem, saudável. Venci também o medo e me permiti curtir um pouco a gravidez de uma maneira mais normal, repousando menos e vivendo mais.

Com a viagem do marido, Mini Bentia que seria nossa paulistana, acabou indo nascer no Rio. Foi uma reviravolta em nossos planos e eu tive a oportunidade de fazer uma das escolhas mais importantes da minha vida: procurar uma equipe humanizada pra me ajudar a trazer Mini Bentia ao mundo.

Eu, que sempre tive um certo distanciamento de médicos, conheci uma equipe maravilhosa e aprendi que é possível ter muito amor na relação médico-paciente. Não que eu não tenha sido bem tratada pelas minhas obstetras fofas anteriores, não tenho dúvidas que a Dra. Luciana e a Dra. Rosana foram excelentes pra mim, me passaram segurança e confiança pra encarar uma gravidez de risco, nunca me botaram medo e sempre me passaram tranquilidade. Só não estavam preparadas pra sair do esquema cirurgia-agendada-para-trazer-bebê-ao-mundo. Tive a sorte de conseguir me informar e escolher uma forma mais calorosa de receber minha filha nesse mundo com uma equipe que me fez ver o mundo de outra maneira, me fez valorizar ainda mais esse momento. Como eu sou grata a essas pessoas!!

E antes de Mini Bentia chega, ainda deu tempo de pular carnaval, ver o mar, passear com a Isha Bentia, com o marido…

Mini Bentia chegou um meio a um turbilhão de emoções, chegou de uma maneira um pouco conturbada, mas a confiança na equipe e a serenidade que tem tomado conta de mim nesses momentos difíceis só me fizeram ter certeza que ao amanhecer Mini Bentia estaria nos meus braços!

A amamentação foi difícil? Foi. Rolou uma deprê pós-parto? Sim. O ritmo de viagens do marido tava pesado demais pra gente sustentar a situação? Estava. As meninas ficaram doentes? Muitas vezes. Cuidar de duas não é tão fácil quanto eu esperava? Não é. Mas esse ano eu aprendi que os problemas têm a dimensão e a importância que a gente dá.

Esse ano, mais uma vez, pude ver e viver o quanto somos amados pelas pessoas que nós cercam. Uma carona oferecida, uma oferta pra cuidar de Isha Bentia enquanto a Mini Bentia estava no hospital, uma oferta pra cuidar de Mini Bentia enquanto Isha Bentia estava no hospital, um abraço apertado, uma mensagem perguntando por notícias, uma presente sem um motivo especial, uma visita que lava a louça, uma companhia para um passeio no parque, uma oferta pra levar a gente na rodoviária pra ir viajar, visitas lindas e generosas pra conhecer Mini Bentia, uma mensagem pra saber se está tudo bem… Tantos e tão diversos gestos de carinho vindo de todos os lados. Quanto amor recebemos esse ano!! Espero conseguir ao longo da minha vida retribuir e distribuir tanto amor quanto o que eu tenho recebido.

Isha Bentia esteve internada por 5 dias. Um susto. Um fim de semana doente, melhora e vai pra creche. De lá uma ligação, a mãe sai desesperada pra encontrar a filha, uma ambulância, hospital, internação. Foi duro ver uma menina cheia de energia presa no hospital, sem poder sair pra brincar. Mais duro ainda foi descobrir que uma mãe não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. A pequenininha teve que se adaptar na creche (graças as pessoas maravilhosas de lá, ela ficou super bem, se sentiu em casa!) e a grandinha teve a atenção exclusiva que precisava. Não era nada. Saiu de lá prontinha pra sua festa de aniversário no dia seguinte. Um presentão pra família!

Mas foi a internação de Mini Bentia que leva sem contestação o título de “o susto do ano”. De manhã a menina brincando de roda com os pais e a irmã. De noite, internada na UTI, sedada, com respirador. Tudo tão rápido e tão intenso que me fez refletir sobre a vida e a morte. E me fez ver que a morte não deve ser um medo, mesmo nos momentos mais difíceis. A morte faz parte da vida, e cada um tem o seu tempominibentia no hospital e sua missão por aqui. Essa forma de ver o mundo me deu a serenidade necessária pra encarar ao lado dela todo esse processo de internação. E me fez não temer tanto vida dela. Mais uma vez, encontrei amor num hospital. Conheci mães com filhos na UTI transbordavam felicidade e aprendi que a felicidade é uma escolha. E dúvidas, a força delas despertou a minha força interior pra lidar com as dificuldades. Aprendi que mãe não se divide, se multiplica ao passar o dia todo na UTI com Mini Bentia e chegar em casa a noite e brincar com Isha Bentia, dar banho, comida…

Nesse ano que a maternidade foi o carro-chefe, não posso esquecer o quanto sou grata a generosidade dos meus colegas de trabalho. Tanto tempo ausente e sempre bem recebida. Sou muito feliz em trabalhar com pessoas e num ambiente que se tem prazer em estar.

No relacionamento, completamos 5 anos de casados com a certeza de que queremos estar juntos cada vez mais, mesmo não sendo tão fácil quanto possa parecer. Não conseguimos comemorar com gostaríamos, mas conseguimos fazer nossa primeira viagem em família, o que foi muito especial. A lua-de-mel ainda está no papel como um plano futuro, e espero que 2015 a traga pra realidade.

Pensando mais especificamente sobre mim, foi o ano dos meus 30. Foi um ano de busca pela a minha essência, pelas minhas crenças, meus objetivos e expectativas nessa vida. O que eu gosto, o que eu não gosto, o que eu tolero, o que eu não suporto. Foi um ano de autoconhecimento . Foi um ano de profunda reflexão. Me permiti experimentar coisas novas, como uma massagem relaxante, um jantar num restaurante japonês ou falar mais em público. Até topei participar de um programa de televisão mostrando o nascimento de Mini Bentia!  Comecei um blog e uma página no Facebook.

Começo 2015 cheia de planos, sonhos, metas. Muitos ficarão pelo caminho, afinal, imprevistos acontecem sejam eles bons ou ruins. Quero voltar a estudar, me exercitar, cuidar melhor da minha saúde. Quero ser menos bagunceira, me alimentar melhor, quero ser mais ativa na defesa das questões que eu acredito. Quero conviver mais com meus afilhados, quero ver menos televisão, quero viver bons momentos com meus familiares e amigos. Quero produzir menos lixo, quero fazer boas ações, quero ter tempo pra cuidar de mim. Enfim, são tantos quereres que 2015 será, no que depender de mim, um ano muito rico em experiências. É o que eu desejo pra mim é e pra todos.

Feliz 2015!

Postado em 9 de dezembro de 2014 por Lu Bento
Amamentação tandem

Sempre soube que eu ia amamentar. Desde quando meus seios cresceram, aos 9 anos. Menstruei cedo, me desenvolvi cedo, então aos 9 pra 10 anos já tinha seio. Muito maior que as meninas da minha idade. Maior que os das meninas mais velhas.

Cresci achando meus seios lindos e morrendo de orgulho pois iria meus filhos teriam amamentação materna exclusiva e em livre demanda pelo menos até o 6º mês e obviamente nós seguiríamos com a amamentação até os 2 anos ou mais. E eu ainda seria doadora de leite!!!

Um dos primeiros sintomas de gravidez que eu notava eram os seios maiores e mais sensíveis.  Todos falavam que eu ia ter muito leite. Minha mãe, minhas avós, todas amamentaram. Ninguém teve dificuldade nenhuma. Meus seios nunca chegaram a vazar durante a gravidez, mas eu sabia que isso não era um problema, meu peito tinha sido feito pra amamentar,  a mulher tem a capacidade de amamentar e a criança tem o reflexo de aprender a mamar,  então é a ordem natural da coisa.  A criança nasce, mama na primeira hora de vida, e logo o colostro vem e tudo vai se ajeitando. É um pouco difícil, tem que acertar a pega, o peito pode empedrar, o bico rachar, mas tudo se acerta com paciência, esforço e dedicação. E muito amor.

Na vida real, quando Isha Bentia nasceu numa cesárea “de emergência” às 38 semanas e 1 dia eu ainda não tinha leite. Nem colostro. Nem uma gotinha de nada se me apertasse o seio. Tudo bem, não precisa sair quando aperta, a sucção do bebê é muito mais eficiente.  Ela nasceu quase de madrugada, depois de eu ter passado um dia inteiro na emergência do hospital fazendo exames, observando, em jejum, cansada, com sono. Sem nenhuma experiência com bebês e me sentindo totalmente incapaz de ficar com uma recém-nascida sem a supervisão de alguém experiente,  eu inocentemente aceitei que ela passasse a noite toda no berçário. Lógico que lá ela tomou fórmula na chuquinha pelo menos umas 3 vezes.  Quando veio pro quarto pra mim, ela tinha acabado de tomar uma chuquinha com fórmula (eu pedi pra ela vir as 6h da manhã e ela só chegou as 7h porque estavam dando fórmula antes de mandar pra mãe!!!!).  Praticamente não orientavam como colocar para mamar. Às vezes que eu pedia ajuda e  a equipe chegava, tentava colocar meu seio na boca da bebê por alguns minutos, não saía nada. Então eles falavam pra dar a chuquinha e depois tentar de novo na próxima mamada dali a 3 horas.

Resumo da história: a menina tomou fórmula desde a maternidade. Tentei tirar no primeiro mês e para isso fui a banco de leite, acertei a pega, a pediatra deu todas a orientações para ficar só amamentando, deixava ela mamar em livre demanda mesmo que isso significasse ficar o dia inteiro com ela no peito. Fazia a massagem que eu aprendi antes de amamentar, tentava ficar em um ambiente tranquilo e relaxada. Não acreditava nessas coisa de que tinha que comer isso ou beber aquilo, mas seguia firme a recomendação de comer bem e beber muito líquido. Porém, ao final do primeiro mês ela não teve o ganho esperado de peso, mal recuperou o peso de nascida então bateu o desespero e passamos a complementar de rotina.  Foi um baque pra mim. Fiquei arrasada, destruída, todas as minhas fantasias sobre a amamentação ruíam e eu fiquei sem chão. Pra mim era 8 ou 80. Se era o complemento que alimentava ela, ela não precisava ficar no meu peito. Colocá-la pra mamar só me deixava deprimida. Me sentia traída cada vez que alguém se oferecia para dar mamadeira pra ela, como se aquela pessoa desejasse secretamente que eu falhasse na amamentação para que ela pudesse alimentar minha filha. O marido se tornou o principal culpado de tudo isso. Além de ter me falado de brincadeira antes da filha nascer que precisava comprar NAN pra ela ficar forte, foi a primeira pessoa que eu vi dando chuquinha pra ela. Me senti desnecessária.

Depois de muito sofrer, percebi que a amamentação não era só o alimento. Tinha também a parte dos anticorpos, do vínculo que se construía quando aquele serzinho ficava te olhando nos olhos com os seios na boca. Tentei reverter a situação, fizemos a técnica da relactação para estimular a produção do leite, aluguei uma bomba e nos horários que ela não estava mamando eu tentava tirar um pouco de leite pra estimular o seio e pra fazer a translactação com o meu próprio leite. Quando não utilizava a técnica da relactação, dava os fórmula com colherzinha ou no copinho, para que ela não se acostumasse com o bico da mamadeira. Não dava chupeta por não achar necessário e para não haver confusão de bicos.

Com o tempo, tudo foi ficando cada vez mais difícil e acabamos optando pela praticidade de deixar ela um pouco no peito e depois dar a mamadeira. E assim foi até os 7 meses, quando Isha Bentia mordeu meu seio, eu reclamei com ela e ela nunca mais quis mamar.

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Com Mini Bentia eu tava certa de que tudo seria diferente. Não deixaria que dessem fórmula na maternidade. Já sabia que eles nascem com uma reserva e que as poucas gotinhas de colostro que saíssem eram suficientes para o que ela precisava no hospital. Não deixaria ela ficar um segundo sequer fora da minha vista e ninguém daria fórmula pra ela escondido de mim. Levaria a gravidez até o máximo possível para que ela nascesse quando nós já estivéssemos prontas e o leite viesse com mais faculdade. Estava me preparando para um parto natural humanizado, mas sabia que talvez não fosse rolar. Tudo bem, o importante é que eu ia amamentar numa boa depois, e com uma equipe legal, com certeza ela iria imediatamente para o meu seio após nascer.

Mini Bentia nasceu uma cesariana intra-parto com 39 semanas e 5 dias. Nasceu de madrugada e foi direto pro peito. Eu parecia uma zumbi de tanto sono mas não deixei ela ficar no berçário. Colocava ela no peito a todo instante, e quando apertava logo via umas gotinhas de colostro. A equipe do hospital sempre vinha me orientar em como amamentar, como acertar a pega. Não sei porque isso aconteceu, mas a glicose de Mini Bentia baixou mais que o esperado. Vieram com um copinho de fórmula infantil pra que eu desse pra ela. Não dei. Deixei ela no peito torcendo pra ser o suficiente e foi. Por pouco tempo. Na outra medição a glicose estava normal, e eu fiquei mais tranquila. Achei que tivesse evitado que ela tomasse fórmulas já no hospital. No dia seguinte, levaram Mini Bentia ao berçário pra fazer algum exame e quando voltaram com ela me avisaram que tinham dado fórmula pra ela. Surtei. Falei q não eram pra ter feito isso sem a minha autorização. Chorei horrores, alto, berrando. Muito. Um escândalo mesmo.  A técnica de enfermagem que fez isso nunca mais apareceu na minha frente. O marido ficou preocupadíssimo e começou a procurar um banco de leite, pra ver se complementando com leite humano caso fosse necessário eu ficaria mais calma. Veio um enfermeira especialista em amamentação ficar comigo em todas as mamadas me ajudando (obrigada Paloma!). A pediatra me ligou pedindo desculpas por não ter me avisado que isso poderia acontecer, ficou um tempão no celular só me ouvindo chorar. E olha que eu fiquei um tempão chorando mesmo, sem dizer uma palavra sequer!!! Te amo Fabíola!

A via crucis com Mini Bentia foi: amamentação em livre demanda com pega correta, retirar leite na bombinha e dar na colher ou no copinho e depois passamos pra translactação, 3 pediatras  e todas falando que eu tinha condições de amamentar sem precisar complementar, família me mandando descansar, consultora em amamentação, grupo virtual de apoio a amamentação,  banco de leite, vídeos no youtube, remédio pra ansiedade, vasta bibliografia sobre amamentação, terapia de casal, oscilações entre a vontade de continuar e a decisão de não amamentar mais pra não ficar nesse estresse todo e Mini Bentia sempre ganhando menos peso que o esperado, com dificuldades pra recuperar o peso do nascimento. Tudo isso temperado com crises de choro da mãe, vontade de desistir de tudo, medo, estresse, frustração por precisar fazer outra cesárea, por não amamentar exclusivamente… Ou seja, sintomas da depressão pós-parto.

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Nada disso me dava paz, me senti a mais fracassada das mulheres, algo deveria ser muito errado em mim por eu não conseguir amamentar minhas crias sem precisar de complemento.  O marido, na tentativa de entender porque aquilo tudo me perturbava dessa maneira, me disse “Lu, porque você fica desse jeito? As meninas estão bem, você está amamentado, só precisa de ajuda!” Argumentei que eu não podia nem nutrir as minhas filhas, se  fosse antigamente e não houvesse fórmula elas iriam morrer de fome (dramática!) por minha culpa. Ele logo complementou “você não é a mãe preta do leite.“.

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Essa frase foi pra mim a revelação de tudo. Me fez realmente refletir sobre toda a expectativa que eu mesma coloco sobre mim. Sim, eu me sentia a mãe preta do leite. Aquela que amamenta todo mundo com seus seios fartos que estão sempre jorrando leite. Aquela que faz os bebês ficarem roliços, cheios de dobrinhas só com o seu leite. Não, eu não sou esta. E não, minhas bebê nãos são do tipo roliças. Não, seios grandes não é garantia de ter muito leite. Mas não vazar e não empedrar também não é garantia de que não tenha leite suficiente. E leite materno nunca é fraco.

Tenho certeza de que pra Mini Bentia eu tive leite suficiente para seguir com amamentação exclusiva. Mas não tive condições psicológicas pra seguir sem complementar. Com Isha Bentia provavelmente também, mas não tive tanto suporte quanto eu precisava.

Quem sabe numa próxima (o marido pira quando eu venho com essas ideias!) eu consiga mais paz de espírito pra lidar com essa situação e até consiga finalmente amamentar exclusivamente?

Ps: Eu estou me prometendo escrever um relato de amamentação há tempos. Hoje ele nasceu em plena madrugada, depois da felicidade imensa de poder pegar Mini Bentia no colo e colocá-la novamente no peito depois de 10 dias. Mini Bentia segue internada, mas já se alimenta e já mama. E como mama essa pequenininha!

PS2: Este texto foi publicado inicialmente no blogspot no dia 17/11/2014

 

 

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