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Postado em 4 de abril de 2018 por Lu Bento

4 de abril é uma data meio dolorosa pra mim. Em 4 de abril de 2010, um domingo de Páscoa, perdi meu segundo bebê. Um dia marcado por sentimentos de renascimento e esperança que pra mim ficou marcado como um dia de dor e perdas profundas. Quem já perdeu um bebê sabe o quanto essa experiência pode ser devastadora. Neste dia, perdi também a fé em mim mesma e a vontade de viver.

Isso foi em 2010. Já se passaram 8 anos. Durante muitos desses anos, o período entre os dias 04/04 e 29/05 era de recolhimento e luto pra mim. Vocês já devem ter imaginado o motivo da minha data limite: a minha primeira perda.

Esse era um período do ano em que eu me sentia bem vazia e incapaz. Me lembrava dos meus fracassos na maternidade e me culpava por tudo que tinha acontecido, principalmente porque as perdas eram relacionadas a uma questão específica do meu corpo e sua dificuldade em “segurar uma gravidez”, a IIC. Eu me fechava para o mundo e cultivava a minha dor, tirando as casquinhas das minhas feridas quase cicatrizadas e deixava doer, como se eu não merecesse felicidade nenhuma nesse período do meu ano.

Ano passado, quando completou 10 anos da minha primeira perda, deixei meu coração cicatrizar. Me perdoei e me permitir só sentir saudades das poucas semanas que tivemos juntos e do sonho de uma vida em comum. Encerrei meu período anual de luto com a segurança que eu não precisava mais chorar por eles, muito menos por mim. Tinha chegado a minha hora de viver.

Viver duas experiencias de perda seguidas sempre  foi muito estranho para mim. Com esse meu segundo filho, sempre sentia que a minha dor era mais calejada, como se eu sofresse menos por ele não ter chagado a nascer e mais por mim, por ter fracassado novamente. E dá-lhe mais ciclos de culpa e dor.Me sentia egoísta por não ter demonstrado meus sentimentos com a mesma intensidade que na primeira perda.  Por ter perdido ele com apenas 15 semanas de gestação, não cheguei a ter fotos com a barriga. Muitas pessoas não sabiam que eu estava grávida, o que às vezes dá uma sensação de que ele sequer existiu. Demorou bastante para que eu entendesse que, no final das contas, é tudo um dor só, uma imensa sensação de vazio por não ter conseguido levar a gravidez adiante e por perder aquele ser específico em formação. Além disso, a experiência anterior e a possibilidade de uma despedida interna me auxiliaram a lidar melhor com a sua morte.

Do luto à nova perspectiva

Mas, como eu já disse, encerrei meu longo luto ano passado. Esse ano pude enxergar o dia 4 de abril com outras cores. Descobri que 4 de abril era o dia de aniversário de Maya Angelou, grande poeta e ativista negra norte-americana. Em 2010, ano em que eu estava sofrendo, ela recebeu do presidente Barack Obama um grande reconhecimento em vida pela sua obra. E este ano o Google fez um maravilhoso doodle homenageando Maya, com participações de artistas como Alicia Keys e Oprah Winfrey recitando seu belíssimo poema Still I rise. (veja a tradução do poema)

Coincidentemente, ou não porque as coisas misteriosas seguem uma própria lógica que nem sempre conseguimos alcançar, o poema de Maya Angelou destacado no doodle dialogou muito com meus sentimentos. Essa ideia de me levantar de um lugar quem que fui colocada me anima e me ajuda a perceber o 4 de abril como uma data de renascimento. “Eu me levanto”, diz Maya Angelou contra o racismo. “Eu ainda me levanto”, eu digo aos meus sentimentos de impotência e culpa por não ter conseguido levar a gravidez até o fim e dar a luz ao meu filho.

Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me levanto
Em uma madrugada que é maravilhosamente clara
Eu me levanto
Trazendo os dons que meus ancestrais deram

MAYA ANGELOU

 

Outro fato interessante que descobri antes de escrever esse texto foi que 4 de abril também foi o dia da morte do Reverendo Martin Luther King Jr., um importante ativista negro e que então é um dia pra lembrar a sua memória e legado. Luther King Jr. pregava como ferramenta de transformação social a não violência e o amor ao próximo e suas palavras tocam de tal maneira as pessoas que ele conseguia mobilizar multidões para luta antirracista nos Estados Unidos. Foi a pessoa mais jovem a receber o Nobel da Paz. Saber que meu filho se recolheu ao Orum no mesma data que King Jr. é um reconforto.

Pra finalizar as ressignificações do 4 de abril em minha vida, hoje uma colega de trabalho acaba de ter seu filho. Uma vida nova. Uma nova história que começa no 4 de abril e tem um longo caminho adiante.

Diante de tantas novas perspectivas, vejo que finalmente transformei meu luto em saudade e ressignifiquei o impacto do dia 4 de abril em minha vida. Esse ano, pude finalmente vivenciar um 4 de abril de Páscoa, de renovação e renascimento.

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