Todos os posts sobre Maternância
Postado em 13 de outubro de 2018 por Lu Bento
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Comprei uma Barbie preta. Nunca fui fã de bonecas Barbie nem estava com intenção de comprar uma boneca no momento. Mas encontrar uma Barbie preta de cabelo crespo sendo vendida em um supermercado comum foi demais para mim. Não resisti. Sem pensar duas vezes, fiz uma compra por impulso para agradar a minha menina interior. “Toma Luluzinha, uma Barbie preta como você. Agora vai brincar com as suas amiguinhas, vai…”.

barbie preta - close do rosto.

Estava com as minhas filhas no mercado e elas não entenderam bem o tamanho da minha empolgação em encontrar tão fácil assim uma boneca Barbie preta e crespa. Para elas, que já possuem uma maioria de bonecas pretas em casa, e também não são grandes fãs de barbies, era só mais uma boneca.

Elas já estão crescendo com outros parâmetros. Mesmo que muito pouca coisa tenha mudado de fato, como mãe eu me esforço muito para que elas não se sintam sub-representadas em suas próprias brincadeiras. Ser preto não é raro ou diferente. Ser preto é normal e a maioria em nossa casa, a casa de uma família preta.  Temos muitas bonecas artesanais e algumas outras manufaturadas. Variedade é que não falta.

Mas faltava ela, a Barbie. Já falei que não sou fã e continuo não sendo. Vejo crianças com 4, 5 anos e coleções com mais de 100 dessas bonecas. Tá aí um monte de vídeos de meninas no youtube pra provar que eu não tô mentido. Aquele corpo idealizado, desfigurado, impossível de ser alcançado por mulheres reais. Aquele ideal de beleza sendo fomentado desde a primeira infância, uma expectativa de um futuro corpo sem defeitos, plastificado.

barbie preta

A Barbie, mas que uma representação de um tipo de feminino, é um símbolo da opressão sofrida pelas mulheres, que crescem desejando a vida perfeita e cor-de-rosa da boneca.

Mesmo assim comprei uma Barbie. Comprei uma Barbie preta e crespa que estava sendo vendida em um supermercado comum. Uma Barbie preta e crespa que estava lá, pronta para ser comprada por qualquer um, sem ser exótica, rara, trazida do exterior naquela viagem do amigo do tio. Uma Barbie com a minha cara.

Como pode o fato de eu ter comprado uma boneca ser tão marcante em minha trajetória. Efeitos do racismo que eu não pude perceber nos anos 80/90 enquanto brincava com minhas Barbies brancas, loiras e de olhos azuis como se fosse totalmente natural pra mim desejar ser representada de maneira tão diferente de mim no mundo do faz de conta onde tudo é perfeito.  Não, o defeito não estava comigo por ser preta. O defeito era da indústria de brinquedos que não disponibilizava bonecas pretas, que nos fazia acreditar que para ser bonita era preciso ser branca-loira-de-olhos-azuis. E ainda alegavam que “boneca preta não vende.”.

Finalmente eu tenho uma Barbie preta e crespa como eu. Uma Barbie comprada exatamente da mesma forma de todas as outras que tive: num supermercado, como parte das compras de mês. Aquela aquisição corriqueira, natural, sem data especial ou preparação específica. Foi só ir ao mercado e ela estava lá.

Que as minhas filhas possam crescer encontrando com naturalidade brinquedos representativos. Que cada vez mais lojas disponibilizem bonecas pretas sem que a gente precise garimpar para achar o que queremos; “Ah, pretinha assim só se você encomendar, a gente não deixar na loja não…”. Que as minhas meninas e as  pretinhas que virão depois delas não pensem sequer por um instante que não existem bonecas pretas porque elas não são bonitas.

Minha Barbie preta segue em destaque em minha estante. A minha menina interior agradece a várias meninas crescidas que há anos lutam para que as meninas de hoje se vejam representadas em seus brinquedos.

Postado em 9 de julho de 2018 por Lu Bento

Uma das coisas mais legais de ser blogueira é a oportunidade de conhecer e compartilhar coisas interessantes com vocês. Esses dias conheci um programa online gratuito para pais que compartilham sabers afetivos e medicinais sobre saúde integral dos bebês. Quando ainda não somos mães e pais, parece muito natural cuidar de um bebê. Tipo, aquela coisa de instinto animal, é natural cuidar de um filhote, certo?higiene do bebê

Mais ou menos. São tantas as mudanças quando esperamos um bebê que ninguém está realmente preparado para tudo isso.  A rotina se torna diferente, são inúmeras descobertas diárias, tudo isso com aquele tempero de desafios e fortes emoções. É gente, bebê em casa não é só passeio no parque e soneca da tarde não!

A chegada do bebê – precisamos de ajuda

Bebê não vem com manual (infelizmente). E hoje em dia as nossas redes de apoio estão cada vez mais esporádidas. São cada vez mais raros os casos de que mães recém-nascidas tem aquele monte de avós, tias ou amigas com mais experiência que dão aquele apoio no comecinho da vida daquela família. Ficamos imersos em dúvidas e inseguranças que são fruto de uma pressão social que ignora as diferentes formas possíveis de cuidado e afeto. Será que tô fazendo certo? Aprendi desse jeito, mas estão falando que é daquele outro jeito, e agora?

A internet está aí pra preencher aquele vazio de informação e de apoio moral que fica quando estamos higiene do bebê - imagem de divulgação Sikanacom um bebezinho e não temos a menor ideia se estamos cuidado direito ou não. A internet é uma ferramenta para que pais e mães recém-nascidos troquem experiências com outras famílias, encontrem apoio e aprendam a lidar com as expectativas, dúvidas e medos, que são totalmente naturais nesse período de adaptação ( e durante toda a vida, porque nosso estado de espírito não muda muito com o passar do tempo, viu…). E aos poucos vamos fortalecendo a nossa confiança e construindo o conhecimento sobre os processos que envolvem os cuidados nos primeiros dias.

Eu tive ajuda da família na chegada das curicas, mas tenho vontade de ter mais um bebê e sei que vai ser bem difícil ter alguém além do meu marido para dar um suporte. Moramos longe da família, e dessa vez, nossa vida já está muito estruturada aqui, não podemos ir pra perto dos parentes para termos um suporte. Então, tenho pensado muito em alternativas para me ajudar a relembrar o que fazer e como fazer, porque cada bebê é um novo ser, e precisamos aprender a melhor forma de lidar com essa relação específica. Pensando nisso, fiquei muto empolgada quando soube do projeto Cuidado e Higiene do Bebê e não poderia deixar de compartilhar isso com vocês!

Projeto Cuidado e  Higiene do Bebê

A Sikana, uma organização que produz e distribui conteúdo audiovisual com o objetivo de acelerar a transmissão de conhecimentos educativos, lançou em junho um programa online sobre Cuidado e Higiene do Bebê, em parceria com o projeto Saúde da Criança e a marca Granado, além de vários apoiadores que dão um sinal da qualidade do trabalho.

Gente, são uns vídeos lindos sobre diferentes temas que podem nos auxiliar nos cuidados nos primeiros dias.  São 19 vídeos bem curtinhos, de cerca de 3 minutos, que falam sobre cuidados com bebês de uma forma bem carinhosa e delicada, em perder o embasamento teórico necessários, nem o respeito à diversidade das famílias.higiene do bebe - imagem de divulgação Sikana

Uma das coisas que eu mais gostei dos vídeos foi a diversidade de perfis familiares, incluindo aí muitas famílias negras. Que delícia ver um conteúdo que nos contempla não só como público-alvo, mas como produtores de saberes também.  Os vídeos são divididos em categorias como Relações Afetivas entre pais e bebê, Higiene e bebê e Cuidados com o bebê.

Pra vocês sentirem o gostinho desses vídeos lindos sobre os cuidados com o bebê, acompanhe esse vídeo sobre higiene íntima no qual um pai preto fala dos cuidados com os bebês meninos e meninas.

Lindo demais não é? Se você se interessou por esse conteúdo e quer ter acesso aos outros vídeos direto no site do Sikana para download, e também no YouTube. Vale muito a pena conhecer esse trabalho e acompanhar toda a série de vídeos, tanto para aprender sobre cuidados com os bebês, quanto pra encher seu dia de fofura e boas notícias.

Postado em 20 de maio de 2018 por Lu Bento

Dia das mães passou, todos lembramos de nossas mães e de como a maternidade é linda e um grande ato de amor. Na mídia, comerciais e programas dedicados a mostrar as belezas da maternidade. Em contrapartida, temos uma onda de “maternidade real” ganhando cada vez mais espaço e adeptos e não faltaram críticas à falta de isonomia no mercado de trabalho, à romantização da maternidade e a sobrecarga feminina na criação dos filhos.

A realidade é que por mais diversidade que a maternidade real traga para o conceito de maternidade, ainda existem alguns temas que são tabu quando falamos sobre o assunto. E sinto que está na hora de começarmos a visibilizar sentimentos mais profundos relacionados à maternidade. É hora de olharmos para as mães. O que a mulher-mãe sente? Será que a maternidade foi uma escolha ou uma imposição? O que fazer quando  a maternidade se torna opressora? Esses e outras questões pairam os debates maternos mas ainda são pouco exploradas.

 

Maternidade em questão

Tornar-se mãe não é uma escolha totalmente livre. Somos o tempo todo educadas e condicionadas à reproduzir. O mito do instinto materno, a romantização da maternidade, a pressão do “relógio biológico”, a  crença de que precisamos de um filho que cuide de nós na velhice. Tudo isso exerce pressão para que a mulher “opte” por  se reproduzir. Em geral, mulheres não fazem filhos sozinhas. Mas toda a responsabilidade pelo novo ser recai sobre as mulheres, mesmo sobre aquelas que tem um “casamento perfeito, com um companheiro que está junto em todos os sentidos e que divide as tarefas”.

Não temos nossos direitos reprodutivos assegurados. Sabemos muito pouco sobre métodos contraceptivos, naturais ou farmacológicos. Sabemos menos ainda sobre nosso corpo, seus ciclos e seus sinais. Aprendemos a ter vergonha de perguntar sobre sexualidade e contracepção e todas as conversas e orientações que temos acesso nessas áreas são mediadas por valores tradicionais e/ou religiosos. “A mulher foi feita para procriar.” Somos o útero do mundo, corpos condicionados a reproduzir para a manutenção da espécie. E com isso, nosso direito de escolha e nosso poder de decisão não são considerados.

Escolher não ser mãe ainda é motivo de julgamento para as mulheres. Uma mulher sem filhos é vista como fracassada, como alguém que não consegue realizar a tarefa mais básica de uma mulher. Ou como masculinizada, uma mulher que prefere se dedicar mais ao trabalho, à realização individual. Nunca é uma escolha consciente de um ser que tem livre -arbítrio. Porque a idealização da maternidade está no inconsciente da sociedade e uma mulher que escapa a esse modelo idealizado é uma mulher que escapa, de alguma forma, ao controle social.

 

Maternidade 3.0

Com maternidade 3.0 eu quero propor um olhar mais real para a maternidade. Um olhar que compreende a maternidade como uma relação entre pessoas que pode não ser fonte de prazer e realização. E que perceba que essa relação pode ser muito frustrante, opressora e até fonte de um grande arrependimento.

Ser mãe pode ser tão devastador na vida de uma mulher principalmente pela carga de mudanças que a maternidade acarreta. São mudanças muito intensas e permanentes, de incalculáveis proporções e impactos.  Já aceitamos que o amor materno não é um sentimento intrínseco, instintivo e imediado. O amor de uma mãe por seus filhos é construído, e por ser uma construção, ele pode simplesmente não acontecer.

 

Dica de Leitura:

A dica de leitura de hoje é o livro Mães Arrependidas, da antropóloga israelense Orna Donah. O livro é uma pesquisa qualitativa sobre arrependimento materno na qual ela entrevistou algumas mulheres ( muitas delas já avós) que relatam um pouco sobre como é lidar com o arrependimento diante da maternidade e o tabu que é debater esse tema.

Livro maravilhoso para aprofundar nessas questões e vale muito a pena a leitura.

Se você se interessou por essa obra, compre pelo nosso link da Amazon e ajude na manutenção do AMP.

Postado em 4 de maio de 2018 por Lu Bento
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Em abril estreou na Neflix a série australiana Turma do Peito ( The Letdown), criada por Sarah Scheller e Allisson Bell e fala sobre maternidade. É tão focada nas mães e suas percepções da maternidade que o título em inglês remete ao que chamamos de apojatura em português, que é a “descida do leite” que ocorre em até 5 dias após o nascimento da criança . Apesar do ridículo título em português ( “turma do peito” remete mais a uma comédia adolescente dos anos 80/90 da sessão da tarde), a série é bem interessante e aborda o tema de uma maneira acidamente cômica. A verdade é que série se pretende cômica, mas dialoga tanto com as transformações da maternidade na vida da mulher que tem horas que dá vontade de chorar de tanta identificação.

E foi por isso que ela me provocou  sentimentos contraditórios. Quando terminei de assistir o primeiro episódio não sabia se chorava ou ria de nervoso. Muitas emoções sobre o meus não-partos e as minhas sensações no puerpério foram evocadas e senti muita empatia e solidariedade pelas personagens. Bateu  realmente aquela vontade de abraçar cada uma delas e dizer “vem cá mana, vai dar tudo certo. Descansa um pouco que eu fico com o bebê enquanto você dorme. Ninguém aqui vai te julgar por isso.”

Cada um dos seis episódios contam a história de Audrey, personagem de uma das criadoras da série, a Alisson Bell, que é uma mãe recém-nascida que busca em  um grupo de mães ajuda para se adaptar a nova rotina.  A roda de mães no primeiro episódio foi especialmente angustiante. Nessa cena, cada mãe falava sobre seus partos, cesárias, as intercorrências e como se sentiam diante do que aconteceu.

turma do peito

Aos poucos a série vai extrapolando a relação mãe-bebê e passa para uma perspectiva de vida social  envolvendo um  bebê, o que torna os episódios mais leves e divertidos. Então já é possível começar a rir sem chorar em seguida. Ganha destaque a importância de uma rede de apoio para as mães e a maior responsabilização das pessoas em volta. Isso enriquece muito a série e  joga luz nas atitudes de pessoas sem filhos que costumam desconsideram as mães  e suas vivências.

Assisti logo na estreia e fiquei muito impactada com a possibilidade de se fazer comédia com sentimentos e vivências tão profundas na vida das mulheres que se tornam mães. Depois de um tempo, percebo a própria dinâmica da série como uma metáfora para a maternidade, na qual o primeiro episódio é o puerpério e aos poucos a vida vai se adaptando à nova realidade e ficando mais leve e  divertida.

 

Confesso que maratonei a série e fique bem contente com o final da temporada e na expectativa de uma nova. Gostei muito da série principalmente por  dar mais visibilidade ao tema e humanizar a maternidade. Sair do esteriótipo da maternidade cor-de-rosa e mostrar que a maternidade não é tão instintiva  quanto nos fazem acreditar.

 

Dica de Leitura:

A dica de leitura de hoje é a matéria do Portal Lunetas sobre a série Turma do Peito. Nela várias blogueiras falam sobre o assunto e eu também dou minha opinião por lá. Confira a matéria Turma do Peito – série da Netflix aborda a maternidade sem máscaras.

Postado em 1 de outubro de 2017 por Lu Bento

Estou prestes a realizar a minha primeira viagem longa sem as meninas. Pra quem viaja sempre, pode não ser nada demais. Mas pra mim, a proximidade dessa experiência está reativando aquele sentimento de culpa que se instala em todas as mães assim que começam a viver a maternidade.

Viajo para Espanha em outubro para participar da Gira por la Infancia, um grande encontro internacional sobre promoção da participação infantil no mundo. A proposta da viagem é incrível e eu fui convidada a participar devido ao meu projeto 100 meninas negras e todas as atividades que realizo em prol de uma infância sem racismo. É uma grande oportunidade pra mim e estou muito feliz em participar desse projeto.

 

Mas com a proximidade da viagem, eu preciso explicar para as meninas sobre esses dias que estarei fora ( 3  longas semanas!) e como será a dinâmica da casa enquanto eu estiver fora. Decidi começar a falar sobre isso com 1 mês de antecedência para que a gente fosse se adaptando aos poucos. Ao meu ver, seria bem traumático só falar com elas sobre isso na semana da viagem. Queria que elas estivessem envolvidas na preparação da viagem, ma arrumação das coisas e entendessem que essa é uma experiência boa para toda a família.

Aqui em casa temos uma parceria incrível no cuidados das meninas e sei que o pai vai dar conta direitinho da missão. Elas sentirão saudades de mim como pessoa, mas não por se sentirem desassistidas ou desamparadas e isso me dá mais segurança e tranquilidade para viajar. Mas também sei que a saudade vai bater de ambos os lados em algum momento e que não vai ser nada fácil lidar com os apelos de “mamãe, volta logo!” que eu vou ouvir.

Isha Bentia, com 5 anos, consegue compreender melhor e costuma lidar de uma forma bem madura com as frustrações. Ela fica calada, meio triste, mas parece entender quando a gente não consegue atender uma demanda dela. Mini Bentia, com 3 anos e psiciana de corpo e alma, chora sempre que se sente triste. Chora, pede pra gente voltar, abre um berreiro. Mesmo sabendo como ela age, sei que isso vi me abalar e reacender a culpa por estar longe. Não sou aquela mãe super apegada às filhas, que não consegue ficar um dia longe, mas o meu complexo de culpa bate exatamente n

a questão de priorizar algo importante pra mim em oposição a algo importante pra elas.  E essa viagem é uma grande oportunidade pra mim. Além disso, decidi ficar mais alguns dias na Espanha após  o encontro pra conhecer mais a fundo Madrid. Aí já viu né, podendo voltar antes pra casa eu vou ficar sozinha curtindo uma viagem enquanto marido e filhas seguram a onda.

Racionalmente a gente sabe tudo que provavelmente acontecerá, como cada um de nós vai reagir e como enfrentar a situação. Mas a verdade é que e bate um medinho de ficar tão longe delas. De não estar aqui para resolver o problemas, para acolher as meninas quando elas precisam.

 

Viajar sem filhos – a culpa da mãe

 

A verdade é que em nossa sociedade, a mulher é quem assume a maior parte (ou mesmo a totalmente) a responsabilidade de cuidados com as crianças. Então, para uma mulher-mãe viajar sem filhos deixando as crianças aos cuidados de outras pessoas é bem pesado. Primeiro porque você se cobra quando a necessidade de se afastar das crianças por um determinado tempo. Depois porque a sociedade te cobra quanto a isso.

Quantas vezes eu falo que estou prestes a viajar e alguém me pergunta ” E as menina, como vão ficar?” O primeiro pensamento de uma mulher-mãe que queira viajar é quem cuidará dos meus filhos. Se você planeja uma viagem, mas não tem essa resposta na ponta da língua será julgada e mal-falada. Como se nossa vida depois de ter filhos se resumisse a cuidar deles, tê-los sempre como prioridade, abdicar da nossa autonomia como ser humano para viver em função deles.

“É preciso uma aldeia para cuidar de uma criança” já diz o provérbio africano. A gente precisa se aproximar desse conceito como uma mantra e começar a responsabilizar os outros integrantes da nossa rede nesses cuidados. Mãe também é gente e precisamos do nosso espaço. Precismos existir para além da maternidade e essa existência deve ser construída na medida em que gente afrouxa as amarras com as crias. Elas precisam de laços fortes com outras pessoas da rede também.

Estou tentado levar numa boa essa minha primeira experiência de desatar os nós com as meninas e deixar que a minha rede cuide delas.

Postado em 10 de agosto de 2017 por Lu Bento

No último sábado estive presente no 2º encontro de mães leitoras.  Já tinha participado da primeira edição em uma casa de festas, que foi interessante em termos de diversão em com as meninas, mais foi bem fraquinho em termo de programação voltada para formação de leitores ou para famílias leitoras. Mesmo assim resolvi dar uma chance para a segunda edição do encontro.

O encontro foi… mais um encontro de mães brancas. Sim, não teve nada especial realmente voltado para a literatura e a formação de leitores, tiveram vários brindes de fraldas, cremes pra assaduras e outras coisas de bebês. E a distribuição de alguns livros em sorteios. Nada de novo com relação ao encontro anterior, mas pelo menos foi em um espaço bem mais agradável, voltado para a alimentação saudável e diversão livre de aparatos tecnológicos.

Fiquei bem feliz em conhecer o espaço Brincando no Pé. Acho que essa foi a melhor parte do encontro, pois o espaço é bem alinhado com uma perspectiva de infância mais natural e artística, com brincadeiras tradicionais, brinquedos construídos através de objetos reciclados e muito espaço para as artes em geral. Pena que fica bem longe de casa, moramos na Zona Norte e o espaço fica na Zona Sul.

As falas foram bem “mais do mesmo”, sem uma real preocupação com  formação de leitores e sequer tinham livros infantis disponibilizados para a criançada. Uma decepção, no final das contas.

Eu confesso que desisti. Não tinha ficado satisfeita com o primeiro encontro, fiquei menos ainda com o segundo. Não é o meu perfil. As frequentadoras não fazem parte do meu círculo de relacionamento, não temos interesses em comum apesar de todas nós falarmos sobre maternidade.  A maternidade, no final das contas, não aproxima tanto as pessoas assim, principalmente quando temos perspectivas de vida tão divergentes.

 

Percebi que esses encontros são só uma forma de aproximar as blogueiras maternas que falam das mesmas coisas, sem uma real preocupação coma  qualidade de leitura e da literatura infantil apresentada às crianças. Uma perda de tempo ( e dinheiro) pra  participar de um evento em que as pessoas mal estão dispostas em interagir e conhecer umas às outras.

Me despertou a ideia, e a necessidade de fazermos nossos próprios encontros de mães – famílias, porque não? -leitoras. Quem sabe no ano que vem…

Postado em 4 de agosto de 2017 por Lu Bento

Esse ano finalmente fomos pra Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.  Eu sempre paquerei o evento, mas nunca tínhamos nos organizado pra ir. Esse ano, logo em janeiro eu comecei a pesquisar casas pra alugar  e curtir Paraty com toda a família. Mas logo meu plano miou, meus pais não poderiam ir, talvez meus sogros também não fossem e eu achei que talvez não fosse a hora de gastarmos uma grana. Já estava ficando frustrada por mais um plano fracassado, quando eu me dei conta que passarei grande parte das minhas férias viajando sozinha e que eu precisava desse momento de descanso e lazer com eles.

Encontrei uma pousada próxima ao centro histórico, fiz a reserva por impulso e pronto: comuniquei ao marido que nós íamos passar uma semana em Paraty e curtir a Flip. Ele topou, na hora não parecia tão interessado em curtir a programação do evento, mas já tínhamos feito uma viagem de férias em família pra lá em 2014 e provavelmente ele achou uma boa ideia voltarmos pra cidade.

O plano era chegar em Paraty na quarta, fazer um passeio de barco com as meninas e depois ficar por conta da programação da Flip. Me preparei pra assistir todas as atividades possíveis, tanto na programação oficial, quanto na diversas programações paralelas. Estava tudo planejado. E obviamente, deu tudo errado. Que bom!

Acabamos indo pra região de Paraty dois dias antes, já que estávamos interessados em conhecer também a vila de Trindade e eu não abria mão de nenhum dia da programação da Flip.  Demos uma passada rápida no Rio pra ver os parentes e de lá partimos pra estrada rumo a Trindade. A ideia inicial era ficarmos em uma pousada mais simples, mas na hora de fechar e reserva eu já tinha chutado o balde das preocupações e estava disposta de ter férias de verdade, e acabamos ficando em uma pousada de frente pro mar.  Que lugar lindo! Não poderíamos ter feito escolha melhor.

Dias 1 e 2 – Trindade

A primeira reação de Mini Bentia foi perguntar à moça da pousada que nos recebeu se a praia ela dela e se ela ia P_20170724_153802emprestar pra gente. A moça, muito simpática, disse que a praia era de todo mundo e que a gente poderia usar quando quisesse. Mini Bentia ficou louca de alegria. Aquela liberdade era tudo que ela mais queria e mas me preocupava. Por alguns minutos me arrependi de ter escolhido esse lugar. Mas aos poucos ela entendeu que não poderia ficar indo pra praia sozinha e eu pude relaxar um pouco. Também, com aquela vista e o barulho do vai e vem do mar  não tem como ficar estressada.

Os dias em Trindade foram de praia, boa comidade e pura curtição em família. Tudo que a gente precisava. Fizemos um breve passeio de barco até as piscinas naturais do Cachadaço  e, pra  nossa sorte, e maré tava muito baixa e a região estava bem rasinha, perfeita pra curtição com crianças. Elas se acabaram de tanto brincar  na praia! Se a viagem terminasse ai já tinha valido a pena pra todos nós. Trindade tem aquele clima gostoso de vila de pescadores bem pequena, onde todo mundo se conhece e nos passa a sensação de que não precisamos de muita coisa pra viver. Não conseguimos fazer os passeios mais adultos, como conhecer as cachoeiras ou fazer algumas trilhas, mas valeu pela tranquilidade do lugar e pela oportunidade de estarmos juntos, nos curtindo.

No último dia em Trindade ficamos curtindo nossa praia particular. Aproveitei pra ver o nascer do sol e fazer minha meditação na praia. Que vontade de largar tudo e ficar morando lá sempre. Aliás, cada vez que eu vou pra um lugar onde o ritmo de vida é mais tranquilo fico morrendo de vontade de mudar pra lá de vez. Sinal que o agito da vida em São Paulo já não está tão interessante pra mim, tenho desejado cada vez mais um ritmo de vida mais lendo, onde posso curtir mais o momento presente. A vibe tava tão gostosa em Trindade que acabei escrevendo algumas poesias e reacendeu minha vontade de escrever que andava meio abandonada.

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Dias 3, 4 e 5 – FLIP

Depois de 2 dias nesse paraíso, fomos pra Paraty com o coração  mas também empolgados com a nova etapa das nossas férias. Ficamos em um hostel bem ruinzinho e essa queda no padrão nos deixou um pouco chateados. Mas as pessoas do lugar eram muito simpáticas e a gente mal ficava no quarto, então acabou valendo a pena. Passeamos por Paraty relembrando os locais conhecidos na primeira vez e conhecendo os espaços onde aconteceriam as atividades que gostaríamos de acompanhar.

P_20170726_154626Quando a Flip começou pra valer a minha ficha caiu: seria impossível acompanhar a programação com duas crianças loucas pra se divertir. No começo fiquei decepcionada, porque eu queria muito assistir várias da mesas programadas. Mas estávamos em clima de férias né? E férias em família tem que ser legal pra toda a família. Então mudei meus planos e foquei na programação infantil. Fiquei bem decepcionada com a programação oficial, que se resumia em uma grande tenda com livros infantis para os pais lerem com a crianças. Bem sem-graça. Com a grana envolvida dava pra fazer atividades bem melhores pra crianças. A maioria das casas do circuito paralelo também não contemplava a infância. E olha que tinha muita criança por lá.

Acabamos curtindo muito a programação do SESC, que tinha contação de histórias todos os dias e uma intensaP_20170730_104750_BF programação infantil. Todo o dia a gente dava uma passadinha por lá e as meninas ficam um tempão lendo e brincado com as educadoras de lá. Uma das atividades, a contação de histórias da Cia Alcina da Palavra, foi um bálsamo de africanidade em meio a tantas atividades que não pensavam em representatividade e diversidade na infância. A Flipinha tava cheia de livros de Monteiro Lobato disponíveis pra leitura, como se o grande mestre da literatura infantil não fosse um grande racista. Além de Lobato, alguns livros de qualidade duvidosa também estavam expostos lá.

Outro espaço que vale a pena destacar foi a Casa do Papel. Lá as meninas fizeram uma oficina de encadernação super bacana, e  Isha Bentia ficou concentradíssima produzindo seu cartão flag card. Mini Bentia dispersou bastante, normal pra uma criança de 3 anos que não gosta muito de atividades calmas, mas o pessoal de lá foi bem bacana e me ajudou a acompanhar as duas na atividade. Saímos de lá com dois lindos cartões e duas crianças felizes e orgulhosas dos seus feitos.

Pra não dizer que eu não fiz nada por mim na Flip. participei de uma gincana bem louca da Publishnews, fiquei em segundo lugar  e acabei ganhando uns 15 livros. Foi bem divertido e uma oportunidade de conhecer mais sobre o mercado editoral, possibilidades de publicação e várias pessoas incríveis na Casa da Publishnews. E as meninas, que não são bobas nem nada, fizeram amizade com a representante do SESI-SP editora e ganharam 2 livros maravilhosos (falarei sobre eles no instagram, corre lá!).

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Dias 6 e 7 – Paraty

P_20170730_080159Nos últimos dias decidimos trocar do hostel por uma pousada e fomos pra um lugar mais confortável. Quarto com espaço, banheiro sem janelão pra rua e diversões pras curicas. A gente merecia um descanso antes de voltar pra rotina.  Mais uma vez, pudemos diminuir o ritmo e simplesmente curtir o dia. As meninas estavam loucas por um hotel com piscina, e mesmo com a água super gelada criam coragem pra entrar. Até Mini Bentia, a rainha do banho quente, topou entrar na piscina gelada.

Pra fechar a viagem, almoço à beira mar, caminhada de despedida pela cidade e muitas fotos. Paraty continua sendo nosso destino favorito de férias e  já estamos sonhando com a volta em 2018.

Voltamos pra São Paulo felizes por dias incríveis que vivemos juntos, por tantas alegrias e experiências gostosas durante a Flip.

Postado em 18 de junho de 2017 por Lu Bento

Eu sempre escuto comentários impressionados sobre como as curicas são independentes. E elas realmente são. Fazem muitas coisas sozinhas, e não têm aquele medo exagerado de ficar longe da gente. Essas meninas sabem se virar.  Mas…como educar nossos filhos pra serem independentes? Não é tão fácil quanto parece. Encontrar a medida certa entre independência e obediência não é fácil.

Student reading aloud in class

Quem me acompanha há mais tempo já sabe que não foi fácil ter as meninas. Perdi dois bebês antes delas, tive que passar por um repouso intenso durante as gravidezes pra que elas chegassem, então não foi molezinha. O medo era o meu companheiro durante toda a gravidez. Não só o medo de perdê-las, mas também o medo de me tornar uma mãe superprotetora. Sempre tive medo de me tornar uma daquelas mães que não deixam os filhos fazerem nada. Mesmo eu sendo uma pessoa super desencanada, temia não conseguir desapegar das minhas filhas e deixar que elas tivesse suas própria experiêncas, que errassem e acertassem por conta própria. Afinal, de nada adianta tentar transformar a vida delas em uma versão melhorada da minha própria vida. Elas precisam tentar, errar, acertar, descobrir coisas, experimentar a vida da forma delas porque o aprendizado a partir das nossas próprias viviências é muito mais significativo e marcante.

Então, minha meta de vida era deixar elas experimentarem o  mundo e permitir que elas tivessem a proteção e segurança necessárias, sem exageros.Pra isso, tava valendo andar descalça pra sentir que o chão tava realmente frio, comer sozinha mesmo que fosse mais comida para o chão que para boca ou escolher as próprias roupas mesmo que a combinação tivesse totalmente inadequada para o tempo.  Cabe a mim, como mãe, providenciar recursos para que elas, ao perceberem falhas em suas escolhas, possam voltar atrás e aprender com isso. Então o chinelo tava lá disponível pra proteger o pé, a comida passou a ser colocada no garfo pra diminuir a quantidade que caia no chão e  uma roupa mais adequada ao clima estava preparada caso elas sentissem frio ou calor. E é assim que a gente faz no dia-a-dia.

Da mesma forma, eu e o pai delas sempre incentivamos elas a buscarem soluções para os  problemas. Quer uma colher no restaurante, peça você mesma ao garçom! Quer comprar um biscoito, pergunte o preço você mesma! E assim por diante, sempre atenta às atividades compatíveis com a idade e o desenvolvimento delas.

Nós fazemos tudo isso por dois motivos principais: primeiro porque somos só nós 4 aqui em SP, tem horas que eu e meu marido estamos bem atarefados e as meninas precisam fazer coisas simples sozinhas, como pegar um brinquedo no quarto ou uma roupa na gaveta; e segundo porque a gente acredita que elas precisam ter coragem para fazer coisas por conta própria e a nossa casa, o nosso espaço,  é o melhor laboratório pra que elas experimentem isso.

Pessoas negras são constantemente desestimuladas a se expor. Não é algo explicito, verbalizado. É a aquela velha história do racismo estrutural, sabe, que nos exclui sistematicamente dos espaços de poder e visibilidade. Ser independente, correr atrás do que você deseja, é fundamental para que o sistema racista não te oprima. Então é importante que nossas crianças negras cresçam sabendo que elas tem voz e vez de se expressar. E que suas vontades são levadas em conta, são respeitadas ou, ao menos, ouvidas.

Oferecendo ferramentas para a independência

Como a preocupação com a independência delas veio antes do nascimento, a gente sempre procurou fornecer ferramentas para que elas desenvolvessem a autonomia. Uma delas, foi adotar a concepção montessoriana na decoração do quarto. Tanto Isha Bentia, como Mini Bentia tiveram a liberdade de dormir fora de berços. Assim, elas acordavam e iam para onde nós estávamos. Não precisavam ficar presas, dependendo da ação de adultos pra se locomover. Seus pratos e copos ficam em locais acessíveis na cozinha, assim elas mesmas podem pegar um prato ou copo quando precisam. Elas mesmas jogavam a fralda no lixo e pegam outra para ser trocada. Isso aos poucos vai desenvolvendo a autonomia da criança.

Uma coisa que o Leo faz muito e eu preciso me monitorar para fazer mais e conversar com elas sobre algo que elas fizeram e nós consideramos errado. Ele pergunta porque elas fizeram aquilo, ele explica porque aquilo não pode ser feito e orienta como fazer corretamente, ou de uma maneira segura.  Isso é muito bacana, porque isso as fazem perceber que nós as enxergamos  como sujeitos. Quantos de nós fomos criados na base do “era só meu pai olhar, que eu gelava, que eu sabia que estava errado” ou “o pai não sabia porque tava batendo, mas a criança sabia porque tava apanhando”. Cara, isso é cultura do medo. Nem dá pra chamar de pedagogia, por que não tem nada de pedagógico nisso. É opressor mesmo. Claro que esse tipo de postura  contribuiu para uma geração que atualmente tem medo de tentar coisas novas, tem medo de se expressar, tem medo de fazer algo que não foi mandado.

Encontrando o limite

Saímos muito com as meninas, tanto por causa do nosso trabalho, quanto a passeio. E elas se adaptaram bem a essa rotina de estar em diferentes lugares, sempre cercadas de pessoas novas. No começo elas sentem o ambiente e depois já se soltam e começam a circular com uma certa liberdade. Nesse aspecto é preciso encontrar um limite. Uma coisa que me incomoda bastante é que as curicas resolvem por conta própria ir explorar novos lugares.  Esse é um limite que temos trabalhado constantemente com elas. Crianças (e adultos também!) precisam dar satisfação de onde vão. Não dá pra simplesmente sumir enquanto as pessoas que estão contigo não sabem de nada.  E aí, a gente enfatiza isso para elas principalmente pela questão da segurança e pela falta de percepção das maldades do mundo, mas sempre com um olhar respeitoso pra tomada de iniciativa delas. Em geral a gente fala coisas do tipo “eu entendo que você quer ir lá fazer tal coisa, mas antes é preciso pedir permissão pra mamãe e por papai, pra gente saber onde você está, com que está e se não é perigoso pra você.”

A gente sempre evita aquele discurso do “não pode fazer porque eu não quero” porque não cabe a minha como mãe querer ou não querer algo pra vida da minha filha. Os meus quereres pessoais podem até ser externados, mas não podem servir como baliza para as minhas decisões com relação a elas. Eu, como mãe, preciso preservar o direito delas de escolha, ressalvados os todos os meus deveres de cuidado e proteção delas. Mas cada vez que eu extrapolo meus deveres de proteção e tomo atitudes que limitam minhas filhas de forma que elas ficam mais dependentes de mim eu estou ensinando a elas que elas precisam de mim pra realizar aquilo, eu estou vinculando aquele ato a minha pessoa e com isso, eu estou limitando as minhas próprias filhas.

Lógico que nem sempre é seguro e saudável deixar as crianças soltas fazendo o que querem. Por isso mesmo que não fácil criar filhos independentes. Porque a gente precisa o tempo todo recalcular os limites entre cultivar a independência e o descaso, a falta de atenção e cuidado.

Algumas vezes eu vejo mães com crianças da idade de Mini Bentia no colo e bate aquela dúvida se eu não deveria estar carregando a minha no colo também. Mas depois, quando eu vejo a curica correndo de um lado para outro durante longos minutos, eu vejo que ela tem plena capacidade de andar esse percurso, então não tem necessidade de estar no colo o tempo todo. É um processo de avaliação e reavaliação constante. E também, quando elas começam a perceber que podem fazer coisas sozinhas e a vontade de fazer por conta própria cresce mais ainda.

E como elas já fazem muitas coisas sozinhas, como escolher a roupa, calçar os sapatos, ou pegar o suco no armário, elas se sentem aptas a fazer outras coisas também, como ficar longe dos pais por uns dias ( na casa dos avós), ou sair sem a gente com pessoas do nosso convívio.

Superando barreiras

O que eu falo aqui vale para todas as crianças, mas quando a gente pensa em crianças negras, crescer sem autonomia é ainda mais danoso, porque reforça o racismo estrutural que diz silenciosamente que negros não podem ocupar determinados espaços. Com a autonomia que a gente procura oferecer para as meninas estamos mostrando a elas que elas podem ocupar espaços e realizar coisas que são da vontade delas, sem que precise de uma ordem expressa para fazer. Nossa intenção é que isso contribua para que no futuro, barreiras como “não tem nenhum negro aqui” ou “isso não parece ser uma coisa adequada para uma pessoa negra” nem sequer sejam consideradas por elas. Que elas não se percebam limitadas por percepções que nos condicionam a determinados espaços.

Young girl smiling, holding white sheet

Não é um processo fácil e mexe com muitas das nossas noções de como criar filhos e com as nossas próprias memórias sobre como fomos criados. Mas educar é um processo e uma sucessão de escolhas. Escolhemos esse caminho, provavelmente o mais difícil. Mas também incrivelmente prazeroso vê-las escolhendo seus caminhos, questionando o limites e buscando compreender a lógica do mundo e das relações interpessoais.

Postado em 25 de outubro de 2016 por Lu Bento

TSM 3 (2)

Fala galera! Hoje é dia de terapia do ser mãe aqui no blog! Vamos conversar um pouco sobre maternidade?

 

Se comparar com os outros é um ato natural e humano. A gente faz isso o tempo todo, e isso é uma tentativa de avaliar e se perceber parte de um grupo. Por isso mesmo é tão difícil deixar de se comparar. Nos comparamos a outras pessoas para descobrir semelhanças e diferenças com essas pessoas que funcionam como parâmetros. O problema é o julgamento que vem logo em seguida, embutido no ato de se comparar que nos faz estabelecer uma hierarquização entre os elementos comparados. Este é o certo, aquele é o errado. Este comportamento é superior e aquele, inferior. Este é jeito criar os filhos é o melhor e aquele é o pior. As comparações acabam tomando um viés competitivo e rotulador, e isso não é bom pra ninguém.

TSM 3 (4)

O primeiro ponto desse pensamento é a importância de evitarmos comparações com as práticas e vivências de outras mães. E a gente esquece disso o tempo todo, principalmente quando vemos uma mãe com a casa arrumada, filhos felizes e vida organizada enquanto  a nossa vida está um caos, tudo bagunçado e crianças totalmente fora de controle. A primeira coisa que a gente pensa é o quanto aquela mulher é “melhor” mãe, não é? Então, isso é nocivo pra caramba, porque desconsidera todo o nosso esforço e toda a especificidade da nossa própria família. A gente não sabe o que passa naquela casa pra ela conseguir este nível de organização, e mesmo quando a gente sabe, nem sempre as técnicas empregadas lá funcionam de fato na nossa família. Porque as pessoas são diferentes! Não em jeito!

Se comparar a outras mães é inútil, ineficaz e ineficiente! A gente só se desgasta com essas comparações e se deprecia. Toda família tem suas dificuldades e desafios. E a maternidade não é uma competição entre mulheres-mães.

Esta é a sua família

O livrinho, como eu já disse, tem uma pegada bem religiosa e pra quem acredita em Deus, essa frase já é determinante pra enfraquecer o desejo de se comparar a outras mães. Mas mesmo sem uma explicação espiritual pra isso, o fato de que esta é a sua família não muda. É com estas pessoas que você, como mãe, precisará interagir e construir um consenso, então não há porque se comparar. São pessoas com personalidades diferentes, que valorizam coisas diferentes, assim como você não é exatamente igual às outras mães. Então não tem como acreditar que um mesmo método cristalizado de educação e de negociação familiar funcionará para as duas famílias.

Aceitar que somos diferentes e que reagimos de forma diversa a cada ação, é o primeiro passo para resistir à tentação TSM 3 (5)da comparação. A mãe da sua família é você e a criação de filhos não é uma competição entre mulheres, não custa repetir.  Tudo que você precisa fazer é buscar o melhor para você individualmente e para seus filhos e sua família como um todo. O melhor é o que pode ser feito. Não adianta colocar as práticas de outras famílias em um pedestal se nada daquilo é aplicável à sua realidade.
Esta é a sua família e você tem todas as ferramentas pra fazer funcionar da melhor maneira para vocês. Não adianta se comparar com outras dinâmicas e realidades quando essa comparação gera frustração e sentimentos de inferioridade e impotência. Aprender com outras práticas familiares, se inspirar em atitudes de outras mães é maravilhoso e ajuda bastante, mas sem essa carga emocional negativa que a comparação trás.

A rivalidade entre mulheres e a mãe negra

Essa prática de comparação entre mães é reflexo de uma cultura machista que estimula a rivalidade entre mulheres. Cada vez que a gente entra nesse jogo perverso, estamos fortalecendo estruturas machistas. Estamos fortalecendo a crença de que mulheres ~naturalmente ~não se dão bem. A gente não precisa disso. Precisamos nos fortalecer mutuamente, precisamos nos apoiar. Quando a gente não se compara a outra mulher a gente sai da lógica de competição entre mulheres e entre na lógica da sororidade.

Quando a gente pensa especificamente a situação das mães negras,  cenário de competição é ainda mais cruel. Somos a maioria dentre as mulheres que criam e educam seus filhos sozinhas. Somos a maioria dentre as mulheres que trabalham para garantir o sustento dos filhos. Somos a maioria dentre as mulheres que estão em situação de  vulnerabilidade social. Então, se comparar com outras mães chega a ser uma crueldade com nós mesmas. É humanamente impossível que a gente siga todas as dicas que vemos em blogs maternos ou ser aquela mãe da propaganda de tv. Não dá! A realidade é outra e muito mais dura para as mães negras.  Por isso, não se cobre por não conseguir implementar todas as dicas daquele livro de referência.

Deixar de se comparar às outras mães torna o exercício da maternidade mais leve, além de te dar mais confiança para realizar as coisas à sua maneira.


Bom pessoal, esse foi o terapia do ser mãe desta semana. Pra quem está chegando agora, eu explico direitinho a proposta dessa série  de postagens aqui.

E aí, vocês se comparam muito a outras mães? Deixem os comentários aí embaixo ou em nosso facebook!

Até a próxima semana!

Postado em 19 de outubro de 2016 por Lu Bento

Depois de uma eternidade, finalmente consegui retomar a regularidade (que nunca existiu) de postagem aqui no blog e retomo também a proposta do terapia de ser mãe. Confesso que fiquei bem chateada quando roubaram meu celular que tinha os áudios de tudo que meio a mente quando eu li o livrinho. Aí fiquei chateada, frustrada e deixei de lado. Mas agora já superei essa adversidade e resolvi parar com essa sofrência de lamentar o material perdido. Bora pra mais uma edição do Terapia do Ser Mãe? Hoje vamos falar do conselho número 3 do livrinho. Preparadas? Então acompanhem aqui:

tsm-3 - pensamento - conselhos repreensivos

Gente, dar pitaco todo mundo quer né? Ainda mais em se tratado de criação de filhos. Não é a toa que dizem por aí que todo mundo é ótima mãe até ter filhos. Porque quando é à vera, a coisa muda de figura. Seu filho idealizado não age da forma que você previu. Você não é tão convincente  e capaz de fazer tudo acontecer da forma que você quer só com um olhar. Você percebe que na prática, toda aquela teoria de como criar filhos não se aplica, simplesmente não dá pra você fazer aquilo daquela forma que você pensou que faria. Enfim, na vida real, você lida com situações reais, e  tudo é imprevisível.

Se você, como mãe, consegue perceber tudo isso, então já deu pra sacar que não adianta tentar dar fórmulas mágicas pra ninguém né? Funcionou na sua casa? Que lindo! Compartilhe a sua experiência e inspire e ajude outras famílias. Mas não venha ditar regras né? Não precisa criar um manual de como ser uma mãe perfeita como você porque todas as suas técnicas podem não servir de nada para outras mães, em outras famílias, outros contextos.

De boa intenção o inferno está cheio

 

Quantas vezes pessoas estranhas já vieram repreender você pela forma como você estava cuidando das suas crianças? Isso é super comum né? Mas como isso é opressor! Ainda mais quando parte de uma mulher mais velha, ou mais experiente com crianças.  Já ouvi várias vezes ” você não pode deixar essa menina assim, sem casaco. Tá frio!” E a menina fica derretendo de calor assim que eu cedo às pressões e coloco um casaco.  Minha filha tava sem casado porque eu sei como se comporta o corpo dela. Eu sei que ela não está sentido frio, mesmo que esteja um pouco frio para as outras pessoas.  O meu instinto e a minha experiência diante da minha família balizam as minhas decisões. E aí, chega uma pessoa estranha, que não nos conhece e me aconselha, em tom de reprovação, a fazer algo?  Isso não ajuda nenhuma mãe! Como já falamos e já sabemos, a maternidade é uma eterna fonte de culpas. E não ajuda em nada certas pessoas interferirem de forma tão hostil em nossos procedimentos e decisões cotidianas.

Algumas pessoas estão sempre prontas para dar pitacos na vida dos outros. Sabe, aquele discurso do “se fosse meu filho não faria isso”. Nem sempre no sentido de nos diminuir ou humilhar, muitas vezes essas pessoas acham mesmo que tem algo ~ revolucionário ~ para ensinar. Como se nós, mães, estivéssemos o tempo todo em busca de alguém para nos ensinar a cuidar dos nossos filhos. Nem sempre a gente está precisando de ajuda e nem sempre essa intervenção em tom de ~ ajuda~ é oferecida para nos ajudar de verdade.

Sobre a nossa necessidade de se empoderar

A maternidade é marcada pela insegurança e pelo desejo constante de fazer o melhor para nossas crias. Umtsm3 - conselhos repreensivosa das primeiras coisas que uma mãe precisa é aprender a confiar em si mesma. Confiar em suas próprias e não comprar esse discurso da culpa que a sociedade tenta nos vender. Você provavelmente conhece várias pessoas que falam em “culpa materna”. Mas toda essa culpa que a gente às vezes carrega só serve pra tornar ainda mais difícil o nosso cotidiano. A gente não precisa disso! A gente não precisa internalizar esse discurso de que somos culpadas por tudo que foge do padrão na nossa maternidade.

Todo mundo erra e ser mãe não nos faz imune a isso. Pense na sua mãe: quantas vezes você não pensou que a decisão tomada por ela não era a melhor no momento? Quantas vezes ela mesma reconheceu isso? A gente tenta sempre fazer o melhor, mas nunca será perfeito. Nunca será! Então o melhor mesmo é confiar em si mesma, confiar em suas escolhas e decisões e seguir em frente. Errou? Tenta consertar. Não dá mais pra fazer diferente? Mude a partir de agora e aprenda com o passado.

Aceitar as nossas limitações é um caminho para o nosso empoderamento e para que a gente possa lidar melhor com a enxurrada de conselhos repreensivos que recebemos.


E aí, o que você achou desse pensamento? Concorda, discorda… já recebeu muitos “conselhos repreensivos”? Conta aí…

E se você não sabe que livro é esse que eu estou usando como base para essas postagens, dê uma olhadinha neste texto onde eu explico a proposta deste projeto.

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