Postado em 1 de outubro de 2018 por Lu Bento

Em setembro estreou na Netflix o filme Felicidade por um fio (Nappyli ever after), uma produção original com direção da saudita Haifaa al-Mansour  baseado em uma novela produzida pela Trisha Thomas.  O filme fala sobre um assunto que é fundamental para as mulheres negras: cabelo.  E só de pensar em um filme que fala sobre cabelos e sobre mulheres negras já me vem várias referências de dores, de processos de negação da própria natureza e  de processos intensos de transformação.

Cabelo não é brincadeira para as mulheres negras. Cabelo é um assunto seríssimo, talvez uma dos elementos estéticos com maior impacto em nossa subjetividade. Um dia de cabelo ruim  – bad hair day – é um dia com tendência a ser ruim como um todo e com impactos por vários outros dias.  E não coisa de mulher fresca não. Mulheres negras gastam muito mais tempo para cuidando de seus cabelos, independente se  ela usa cabelo natural ou com algum tipo de tratamento químico. 

Felicidade por um fio entra com propriedade nesse tema. Primeiro por ter sido baseado em uma novela escrita por uma mulher negra, uma entendedora do assunto. Além disso, o filme aborda diferentes aspectos da relação com o cabelo, mostrando o quão complexa é a relação das mulheres negras com seus cabelos. E pra finalizar, a direção primorosa de Haifaa al-Mansour, uma das primeiras diretoras de cinema da Arábia Saudita, conseguiu manter o tom leve durante tudo o filme, mesmo nas cenas mais duras. Como mulher negra, pude observar diferentes aspectos da nossa relação com o cabelo, me identificar com algumas situações vividas sem terminar o filme emocionalmente desgastada. 

Se você não conhece o filme ou não tem Netflix, veja o trailler

Atenção: Esse post CONTÉM SPOILLERS. Falarei em detalhes sobre o filme, inclusive sobre o final, então é por sua conta e risco continuar ok? 

Liso e longo – mulher negra e padrões de beleza

O filme começa com a personagem principal, Violet Jones ( interpretada pela maravilhosa Sanaa Lathan), se preparando para acordar linda e lisa ao lado de seu namorado. Violet super cedo, recebe sua mãe em casa e enquanto a mãe faz escova no cabelo da filha, Violet conta pra mãe que provavelmente ela será pedida em casamento em breve. 

A cena é tão estranha que a gente só entende direito que a mãe foi até a casa da filha pra fazer escova no cabelo dela antes do namorado acordar porque Violet volta pra cama, finge estar dormindo e quando o rapaz acorda ela está linda na cama com os cabelos escovadíssimos. 

A fixação de Violet por um cabelo liso e longo foi fomentada desde cedo pela própria mãe. É interessante como o filme trabalha o impacto das referências maternas na autopercepção das meninas. A mãe da Violet traz consigo um trauma relacionado à aparência: ela tinha sido obrigada por sua própria mãe a usar o cabelo natural crespo em uma época em que se tornou moda o uso de cabelos alisados. 

Então, fica bem explícito no filme que as ações da mãe, exageradas no sentido de garantir que a filha mantenha um cabelo sempre liso e “perfeito”, têm raízes em profundas dores na construção da autoimagem dessa mulher, que impõe à filha uma rotina rígida de manutenção de uma determinado padrão estético.

No filme a mãe da Violet parece uma megera, uma mulher que obriga a filha a manter um determinado tipo de cabelo, mas é perceptível como essa opressão é uma derivação da proteção que essa mãe tenta dedicar à filha.  É uma relação tão complexa, com tantas nuances, que a gente só vai percebendo ao longo do filme, quando a mãe expressa sua história e o motivo de tanta ênfase no cabelo liso e na manutenção de um determinado modo de agir e percebendo a humanidade dessa mulher e a construção de uma autoestima solidificada em dores de racismos sofridos na infância. 

Voltando ao enredo do filme, a expectativa de um noivado não se concretiza, o rapaz alega não conhecer bem Violet e, apesar dela parecer uma futura esposa perfeita, ele não sabe quem ela verdadeiramente é.  Isso foi um choque para a nossa mocinha a fez pensar sobre coisas que ela nunca havia questionado. 

A busca por si própria, seus gostos, sua beleza e sua essência, assume um papel importante na vida da protagonista e é o principal motivador para todo o desenvolvimento do enredo. 

Ser loira – uma escolha ou um escudo?

Violet, na busca por si mesma,  decide pintar o cabelo de loiro. Nada contra a mulheres que pintam o cabelo de loiro, mas essa é uma etapa frequente na jornada feminina negra de autoconhecimento. Ser loira remete a uma sensualidade e uma liberdade idealizada tanto por homens quanto por mulheres. 

Violet se aventura na loirice, adota um visual totalmente contrário à sua personalidade e objetivos de vida. Essa etapa loira foi o ápice da busca pessoal da protagonista por sua essência, por sua identidade. E foi quando ela menos se reconheceu como uma pessoa, a relação que ela estabeleceu foi totalmente objetificada a ponto dela se expor a situações extremamente desconfortáveis. 

Não é minha intenção atribuir ao cabelo loiro a total falta de conexão consigo mesma, mas no contexto de Felicidade por um fio, Violet loira e crespa foi uma grande ruptura com a imagem que Violet faz de si, e acaba simbolizando o momento que ela toma consciência do quanto a sua vida e identidade gira em torno do cabelo. 

Cabelo – tê-los ou não tê-los

A fase de Violet careca é a mais reveladora. Como se sem os cabelos, ela finalmente tivesse a oportunidade de se enxergar de verdade.  Nessa fase ela desabrocha, descobre seus próprios interesses e percebe que sua beleza não está restrita a determinados padrões. Ela se sente livre para romper com o emprego que também reforça esteriótipos de gênero ao esperar que ela produza campanhas publicitárias focadas em um modelo machista de mulher. 

Essa associação entre não ter cabelos e ter liberdade de ser e existir é um dos pontos mais fortes do filme, porque provoca uma reação imediata em qualquer mulher negra, seja ela alisada, ou com cabelos naturais. Não ter cabelos e abdicar da possibilidade de ser definida pelos cabelos, é superar esse marcador e colocá-lo no mesmo patamar de qualquer outro aspecto corporal ( cor dos olhos, altura, peso… ), exercendo influencia em nossa autoestima  sem, contudo, assumir um aspecto dominante. 

Sem cabelo, Violet se viu livre para ser ela mesma, expressar sua essência, romper com padrões e buscar sua felicidade.  Foi sem cabelo que ela se permitiu viver um relacionamento com o cara que representa o oposto de tudo que ela sempre esperou de um homem.  E ser feliz. 

As amarras da menina livre

Toda a transformação da protagonista é provocada pela relação com a menina Zoe, filha de um cabeleireiro dono do próprio salão e criador de produtos específicos para cabelos crespos. 

Zoe representa a liberdade que a protagonista tanto almeja. Quando ela ainda usava o cabelo liso, a menina troca os produtos do salão para provocar um dano no cabelo de Violet. Essa atitude, além de molecagem e rebeldia, demonstra uma frustração de Zoe em não poder ter o cabelo alisado como Violet. 

Violet, por sua vez, se sempre profundamente incomodada em encontrar essa menina que aparenta ser tão livre, usando cabelo natural e roupas largas, vivendo sem se importar em se adequar a determinados padrões. Zoe incomoda a menina interior de Violet, que cresceu frustrada por precisar se esforçar tanto para ser um determinado tipo de mulher esperado pela sociedade e, principalmente pela mãe. 

Aí, cabe destacar que Zoe é uma menina criada unicamente pelo pai, colocando essa liberdade de não seguir um padrão esperado de feminino um exemplo de como os homens educam “melhor” as crianças e conseguem criar meninas com autoestima mais elevada. 

Mas Zoe não é tão bem resolvida consigo mesma quanto parece. A menina tem um desejo de adotar um cabelo alisado e um visual mais “feminino”, mas se sente perdida no reconhecimento da própria beleza e na construção da autoimagem. A menina sente falta de uma referência feminina e a ausência da mãe, que simplesmente decidiu que a maternidade não era para ela e decidiu abandonar a família, tem um forte  impacto em sua vida. 

Violet e Zoe começam com uma relação conflituosa que aos poucos se transforma em amizade, cada uma fascinada pela aparente liberdade  da outra de ser quem se é.  Vejo a relação delas como um encontro no espelho do tempo, a Zoe ansiando para ser como a Violet e a Violet vendo na Zoe a menina que ela gostaria de ter sido. 

Esse é um lindo pedaço do filme que mostra o quanto essa pressão por uma determinada estética já afeta a subjetividade das meninas negras muito cedo e que é uma questão importante na infância negra. Meninas negras já são tocadas desde muito cedo por questões relacionadas à aparência, questões extremamente opressoras e racistas. 

Crescimento capilar

O crescimento do cabelo de Violet representou muito bem o crescimento da própria personagem, que se permitiu voltar a se relacionar com Clint (que homem, senhoras!) e experimentar coisas que ela não fazia devido  o tempo que ela precisa costuma dedicar aos cuidados com o cabelo e as restrições que ela se autoimpunha.

Foi também com os cabelos curtos que ela se permitiu se relacionar com Will, experimentar uma novo tipo de relação baseado na parceria e no companheiros, sem que preocupar em ser a parceira ideal para um homem e com liberdade para se expressar. 

Violet rompe com o seu trabalho na publicidade, sempre com projetos voltados para a manutenção de um esteriótipo de feminilidade. É a mulher crescendo e se libertando junto com os seus cabelos. Sem dúvidas, essa é a parte mais emociante do filme. 

E os homens nessa história toda?

Um dos aspectos que eu menos gostei no filme foi como os homens foram retratados como pessoas sem problemas, com autoestima elevada e total segurança em suas ações. 

O pai de Violet decide seguir a carreira de modelo, e mesmo com a esposa sendo fortemente contra, ele investe no sonho já na meia-idade e segue fazendo sucesso pelo seu físico com mulheres de todas as idades. 

O ex-namorado, tão logo terminou já engatou uma paquera com uma médica do seu trabalho, uma mulher negra com o cabelo alisado do mesmo perfil que a Violet. 

O terceiro rapaz, um cabeleireiro que cria a filha sozinho, assumiu a profissão pouco  valorizada para homens heterossexuais sem nenhum preconceito, tem a casa repleta de plantas e muita autoconfiança. Diante da falta de confiança de Violet em apresentá-lo como namorado para a mãe, falando exatamente quem ele é,  Will não teve dúvidas em romper o relacionamento e priorizar um ambiente seguro e saudável para a filha.  Eu sei que ele é um personagem secundário, e que não era o foco do filme mostra as reações e sentimentos dele diante das situações, mas  mostrar apenas o pragmatismo da decisão do término da relação, passa a impressão de não houve um impacto emocional com o término, contrastando com os sentimentos demonstrados pelas mulheres. São três representações masculinas que passam a ideia de que os homens não tem problemas de autoestima, os problemas estão com as mulheres. E isso é tão cruel e machista que me fez sentir raiva do filme. Por que homens tão perfeitos e mulheres tão perturbadas por padrões externos?


Dica da AMP: 

Tem muita gente boa falando sobre Felicidade por um fio. Eu recomendo o vídeo da Gabi Oliveira. Ela fala da importância em se discutir temas como representatividade, estética, machismo e o quanto o filme contribui para essas discussões. 

Recomendo também, para quem quer se aprofundar das discussões sobre mulheres negras e cabelo, o documentário do Chris Rock ( sim, ele faz mais que palhaçadas!) Good Hair. 

O livro infantil Histórias de ninar para garotas rebeldes também traz algo interessante sobre o tema. Lá podemos ler sobre a madame C.J. Walker, uma mulher negra que enriqueceu através de uma fórmula capilar pra cabelos crespos. Também é possível ouvir essa história lida por Mafoane Odara no podcast que leva o nome do livro. 

E como um assunto puxa o outro, finalizo minhas indicações com o livro Beleza Natural, que conta a história da rede de salões criados pela Zica Assis, uma mulher negra que desenvolveu sua própria formula de relaxamento capilar e se tornou referencia em cuidados com cabelos crespos. 


Felicidade por um fio é um filme que mostra que ainda há muita coisa para ser discutida e estudada sobre a relação das mulheres negras e seus cabelos.  E o quanto esse assunto rende entre nós. O filme está disponível na Netflix e vale a pena ser assistido como  uma produção que apresenta algumas chaves de análise e reflexão sobre autoestima de mulheres negras. 

Veja mais em Empoderamento


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/amaepreta/www/wp-content/themes/AMP/footer.php on line 63