Postado em 1 de setembro de 2015 por Lu Bento

Como vocês sabem, comecei esse ano uma livraria itinerante com o meu marido, a InaLivros. E como empreendedora, acho importante me qualificar e aprender ao máximo sobre isso que eu estou se disponibilizando a fazer. Pois bem, resolvi me inscrever e participar do 4º Fórum de Mulheres Empreededoras, organizado pela Rede Mulher Empreededora e patrocinado e apoiado por uma série de empresas grandes, dentre elas a AVON e o Itaú.  Até aí, beleza. Lindo demais fortalecer iniciativas de empreendedorismo protagonizadas por mulheres. Mas… e as mulheres negras?

20150902_170519

No evento, eram umas 10 mulheres negras na parte da manhã, num universo de mais de 500 mulheres.  Sendo que dessas 10 que eu contei, provavelmente algumas não se reconheçam, ou se autoafirmem como negras. Na parte da tarde o número subiu um pouco, erámos cerca de 20 (sim, não faz diferença nenhuma num universo de mais de 500 brancas, mas faz com que a gente já possa trocar algumas ideias!) No começo, na minha inocência de quem está envolvida em um monte de eventos afros, e está em contato com outras empreendedoras negras todos os finais de semana em eventos e todos os dias no facebook e no whatsapp, eu tinha certeza que chegaria lá e encontraria uma série de rostinhos conhecidos, mulheres que estão empreendendo e consolidando seus negócios na área de moda e produtos artesanais e esperava também mulheres que trabalham no ramo alimentícios e de serviços, já que somos muitas nessas áreas também. Esperava trocar muitos cartões, conhecer melhor alguns trabalhos e até mesmo estabelecer parcerias…

20150902_170553

A imagem do cartaz do evento não era essa. Essa é a imagem do folheto e tem uma mão preta ultra escondida.

Mas não foi bem assim. Todas as palestrantes eram brancas, as participantes também, até o cartaz do evento só tinha mãoszinhas brancas, pra deixar bem claro com quem elas pretendiam falar naquele espaço. De cara me senti desconfortável e foi ao banheiro caprichar em um turbante pra mostrar que eu estava ali mesmo, preta e diva, participando do fórum, das mentorias, trocando cartões como qualquer uma delas. Apesar disso, da minha saia estampada e da minha blusa vermelha totalmente diferente do uniforme pretinho básico das recepcionistas,  ainda fui alvo de perguntas inconvenientes  por parte de uma participante sobre onde é o banheiro, ou sobre como ela poderia conseguir um copo de água e sobre alguma outra coisa que foi ignorada por mim pra que ela percebesse que eu não estava ali pra responder a todas as suas perguntas sobre questões operacionais do evento.  Também não escapei de ser ignorada pela moça que estava entregando revistas na saída do auditório pras participantes que saiam, mesmo estando mais próxima a ela que outras mulheres, ela passou direto por mim e foi entregar às mulheres brancas.

Nas falas das palestrantes, destaco a total desconexão do mundo que algumas vivem com a nossa realidade. Uma se tornou CEO de uma empresa ao 26 anos, dando continuidade aos negócios da família. Outra gostava do trabalho, a empresa ia fechar, e ela pediu a empresa como presente de aniversário de casamento e o marido deu. Outra foi instigada por um cliente a comprar  uma outra empresa que estava prestes a fechar e ela comprou, mesmo “sem ter o dinheiro pra pagar”. Ou seja,  não são realidades de pessoas que trabalham pra garantir a sua subsistência, que empreendem e que precisam viver disso imediatamente, pois tem contas pra pagar, bocas pra alimentar…

mulher exportação empreendedorasOutro ponto que me chamou atenção é que a imagem da mulher negra ainda é utilizada como um recurso pra determinadas empresas. Uma empresa de exportação, fez uma divulgação em parceria com a própria Rede Mulher Empreendedora explorando a imagem da mulher negra e o estereótipo de “mulata tipo exportação”, em uma referencia não só sexista como racista também. Porque um evento que só coloca imagens de mulheres brancas em suas divulgações, só tem mulheres brancas palestrantes, resolve colocar uma imagem de mulher negra justamente na propaganda de algo para exportação? É coincidência demais pro meu gosto.

Cadê as mulheres negras empreendedoras?

Mulheres negras são empreendedoras desde que chegaram no Brasil. Lavadeiras, cozinheiras, quituteiras, diaristas, artesãs… estamos no mercado de trabalho informal ou autônomo há muito mais tempo que às recentes demandas feministas da década de 60 e 70 do século passado. Temos expertise na área de empreendedorismo, pois foi com criatividade e trabalho que muitas mulheres negras sustentaram suas famílias ao longo dos anos  e sustentam até hoje.

Ao mesmo tempo, a cada dia cresce mais o número de mulheres negras empreendendo, seja por trabalhar autonomamente na sua área de formação profissional, com consultoria e prestação de serviços,  seja por comercializarem roupas, brinquedos, acessórios, alimentos e diversos outros produtos em feiras e eventos por toda a cidade.

As mulheres negras empreendedoras existem e estão por aí trabalhando duro, consolidando novos negócios, inovando, diversificando seus pontos de atuação  e precisam ser fortalecidas em suasmulher negra empreendedora trajetórias e experiências. Espero que em breve possamos ter um espaço tão adequado quanto este para nossas trocas de experiências, networking, parcerias, mentorias e fortalecimento coletivo de nossos negócios.

Pesquisando na internet, vi que na Bahia, ano passado, rolou um Seminário Mulher Negra Empreededora, uma iniciativa do Sebrae e da Secretaria de Políticas das Mulheres do Estado da Bahia (SPM-BA). É muito gratificante saber que já existem iniciativas nesse sentido. Não sei sobre esse tipo de evento em outras cidades, mas espero que já estejam construindo algo nesse sentido.

Foi bom pra você?

De um modo geral, o evento foi bom. Com certeza farei o possível para participar da próxima edição porque acredito que precisamos nos apropriar desses espaços que também são nossos. Mulheres negras empreendem desde sempre neste país, temos experiência e vivência nessa área que vem de antes da emancipação feminina e isso precisa ser valorizado.   Fora isso, o evento trouxe informações importantes pra quem decide empreender. Conheci um pouco sobre o projeto 10 mil mulheres e pude ouvir sobre experiências em diversos setores que contribuem para que a gente busque melhorias para o nosso próprio trabalho. Além disso, soube do Prêmio Mulheres Tech em Sampa e achei a iniciativa muito interessante por estimular mulheres a conhecer mais sobre tecnologia, empreendedorismo digital, programação…

Além disso fiz contatos interessantes, conheci algumas experiências  bem sucedidas de gestão de negócios que podem nos inspirar com o trabalho na InaLivros.

Veja mais em Combate ao Racismo e Empoderamento


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/amaepreta/www/wp-content/themes/AMP/footer.php on line 63