Postado em 4 de agosto de 2017 por Lu Bento

Esse ano finalmente fomos pra Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.  Eu sempre paquerei o evento, mas nunca tínhamos nos organizado pra ir. Esse ano, logo em janeiro eu comecei a pesquisar casas pra alugar  e curtir Paraty com toda a família. Mas logo meu plano miou, meus pais não poderiam ir, talvez meus sogros também não fossem e eu achei que talvez não fosse a hora de gastarmos uma grana. Já estava ficando frustrada por mais um plano fracassado, quando eu me dei conta que passarei grande parte das minhas férias viajando sozinha e que eu precisava desse momento de descanso e lazer com eles.

Encontrei uma pousada próxima ao centro histórico, fiz a reserva por impulso e pronto: comuniquei ao marido que nós íamos passar uma semana em Paraty e curtir a Flip. Ele topou, na hora não parecia tão interessado em curtir a programação do evento, mas já tínhamos feito uma viagem de férias em família pra lá em 2014 e provavelmente ele achou uma boa ideia voltarmos pra cidade.

O plano era chegar em Paraty na quarta, fazer um passeio de barco com as meninas e depois ficar por conta da programação da Flip. Me preparei pra assistir todas as atividades possíveis, tanto na programação oficial, quanto na diversas programações paralelas. Estava tudo planejado. E obviamente, deu tudo errado. Que bom!

Acabamos indo pra região de Paraty dois dias antes, já que estávamos interessados em conhecer também a vila de Trindade e eu não abria mão de nenhum dia da programação da Flip.  Demos uma passada rápida no Rio pra ver os parentes e de lá partimos pra estrada rumo a Trindade. A ideia inicial era ficarmos em uma pousada mais simples, mas na hora de fechar e reserva eu já tinha chutado o balde das preocupações e estava disposta de ter férias de verdade, e acabamos ficando em uma pousada de frente pro mar.  Que lugar lindo! Não poderíamos ter feito escolha melhor.

Dias 1 e 2 – Trindade

A primeira reação de Mini Bentia foi perguntar à moça da pousada que nos recebeu se a praia ela dela e se ela ia P_20170724_153802emprestar pra gente. A moça, muito simpática, disse que a praia era de todo mundo e que a gente poderia usar quando quisesse. Mini Bentia ficou louca de alegria. Aquela liberdade era tudo que ela mais queria e mas me preocupava. Por alguns minutos me arrependi de ter escolhido esse lugar. Mas aos poucos ela entendeu que não poderia ficar indo pra praia sozinha e eu pude relaxar um pouco. Também, com aquela vista e o barulho do vai e vem do mar  não tem como ficar estressada.

Os dias em Trindade foram de praia, boa comidade e pura curtição em família. Tudo que a gente precisava. Fizemos um breve passeio de barco até as piscinas naturais do Cachadaço  e, pra  nossa sorte, e maré tava muito baixa e a região estava bem rasinha, perfeita pra curtição com crianças. Elas se acabaram de tanto brincar  na praia! Se a viagem terminasse ai já tinha valido a pena pra todos nós. Trindade tem aquele clima gostoso de vila de pescadores bem pequena, onde todo mundo se conhece e nos passa a sensação de que não precisamos de muita coisa pra viver. Não conseguimos fazer os passeios mais adultos, como conhecer as cachoeiras ou fazer algumas trilhas, mas valeu pela tranquilidade do lugar e pela oportunidade de estarmos juntos, nos curtindo.

No último dia em Trindade ficamos curtindo nossa praia particular. Aproveitei pra ver o nascer do sol e fazer minha meditação na praia. Que vontade de largar tudo e ficar morando lá sempre. Aliás, cada vez que eu vou pra um lugar onde o ritmo de vida é mais tranquilo fico morrendo de vontade de mudar pra lá de vez. Sinal que o agito da vida em São Paulo já não está tão interessante pra mim, tenho desejado cada vez mais um ritmo de vida mais lendo, onde posso curtir mais o momento presente. A vibe tava tão gostosa em Trindade que acabei escrevendo algumas poesias e reacendeu minha vontade de escrever que andava meio abandonada.

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Dias 3, 4 e 5 – FLIP

Depois de 2 dias nesse paraíso, fomos pra Paraty com o coração  mas também empolgados com a nova etapa das nossas férias. Ficamos em um hostel bem ruinzinho e essa queda no padrão nos deixou um pouco chateados. Mas as pessoas do lugar eram muito simpáticas e a gente mal ficava no quarto, então acabou valendo a pena. Passeamos por Paraty relembrando os locais conhecidos na primeira vez e conhecendo os espaços onde aconteceriam as atividades que gostaríamos de acompanhar.

P_20170726_154626Quando a Flip começou pra valer a minha ficha caiu: seria impossível acompanhar a programação com duas crianças loucas pra se divertir. No começo fiquei decepcionada, porque eu queria muito assistir várias da mesas programadas. Mas estávamos em clima de férias né? E férias em família tem que ser legal pra toda a família. Então mudei meus planos e foquei na programação infantil. Fiquei bem decepcionada com a programação oficial, que se resumia em uma grande tenda com livros infantis para os pais lerem com a crianças. Bem sem-graça. Com a grana envolvida dava pra fazer atividades bem melhores pra crianças. A maioria das casas do circuito paralelo também não contemplava a infância. E olha que tinha muita criança por lá.

Acabamos curtindo muito a programação do SESC, que tinha contação de histórias todos os dias e uma intensaP_20170730_104750_BF programação infantil. Todo o dia a gente dava uma passadinha por lá e as meninas ficam um tempão lendo e brincado com as educadoras de lá. Uma das atividades, a contação de histórias da Cia Alcina da Palavra, foi um bálsamo de africanidade em meio a tantas atividades que não pensavam em representatividade e diversidade na infância. A Flipinha tava cheia de livros de Monteiro Lobato disponíveis pra leitura, como se o grande mestre da literatura infantil não fosse um grande racista. Além de Lobato, alguns livros de qualidade duvidosa também estavam expostos lá.

Outro espaço que vale a pena destacar foi a Casa do Papel. Lá as meninas fizeram uma oficina de encadernação super bacana, e  Isha Bentia ficou concentradíssima produzindo seu cartão flag card. Mini Bentia dispersou bastante, normal pra uma criança de 3 anos que não gosta muito de atividades calmas, mas o pessoal de lá foi bem bacana e me ajudou a acompanhar as duas na atividade. Saímos de lá com dois lindos cartões e duas crianças felizes e orgulhosas dos seus feitos.

Pra não dizer que eu não fiz nada por mim na Flip. participei de uma gincana bem louca da Publishnews, fiquei em segundo lugar  e acabei ganhando uns 15 livros. Foi bem divertido e uma oportunidade de conhecer mais sobre o mercado editoral, possibilidades de publicação e várias pessoas incríveis na Casa da Publishnews. E as meninas, que não são bobas nem nada, fizeram amizade com a representante do SESI-SP editora e ganharam 2 livros maravilhosos (falarei sobre eles no instagram, corre lá!).

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Dias 6 e 7 – Paraty

P_20170730_080159Nos últimos dias decidimos trocar do hostel por uma pousada e fomos pra um lugar mais confortável. Quarto com espaço, banheiro sem janelão pra rua e diversões pras curicas. A gente merecia um descanso antes de voltar pra rotina.  Mais uma vez, pudemos diminuir o ritmo e simplesmente curtir o dia. As meninas estavam loucas por um hotel com piscina, e mesmo com a água super gelada criam coragem pra entrar. Até Mini Bentia, a rainha do banho quente, topou entrar na piscina gelada.

Pra fechar a viagem, almoço à beira mar, caminhada de despedida pela cidade e muitas fotos. Paraty continua sendo nosso destino favorito de férias e  já estamos sonhando com a volta em 2018.

Voltamos pra São Paulo felizes por dias incríveis que vivemos juntos, por tantas alegrias e experiências gostosas durante a Flip.

Postado em 16 de abril de 2016 por Lu Bento
Quando uma criança nasce em uma família, ainda mais em uma família que já não tem convivência frequente crianças, todos se sentem na obrigação  de “ajudar” ou de “ensinar” os pais a educarem esse novo membro da família. Se essa prática já é invasiva e inconveniente quando parte de pessoas distantes, imagina quando parte de pessoas que teoricamente deveriam tornar tudo mais tranquilo para os novos pais.
Eu sei que nem sempre a família interfere com más intenções. A questão é que as decisões sobre o modo de criação dos filhos cabe primeiramente ao país, e estes precisam de autonomia para exercer essa função de criação e educação de suas crias de acordo com seus valores.  Não adianta um tio tentar impor seu modo de agir diante de uma situação, aquela criança não está sob sua responsabilidade. Um avô ou avó não podem exigir que os filhos imitem exatamente os seus passos. A chegada dos netos não é uma repetição da sua própria história.
Esse limite entre participar e impor o seu modo de vista deve ser observado pelos parentes. Cara criança é uma nova história. Em geral, as pessoas não têm filhos pra simplesmente reproduzir o modo como foram criadas. Avós não conseguirão, interferindo na criação dos netos, corrigir possíveis erros do passado na criação dos próprios filhos. Muito menos “ensinar” seus filhos a educar seus netos da maneira que eles acham ser “o certo”. Educar é um processo relacional e depende de toda a bagagem de conhecimento de cada indivíduo. A minha maneira de educar não será igual à sua por mais que a gente compactue de valores e de experiências de vida.
Avós negros
E é por esse motivo que  nem sempre os progenitores concordam na maneira de conduzir uma determinada situação que envolva os filhos. E aí, ou um deles cede ou rola um longo debate pra que se chegue a um consenso.
Uma das coisa que mais me desafia é saber o momento e a maneira de dar limite aos parentes que insistem em tentar impor seu modo de pensar. Principalmente quando essa opiniões envolvem questões raciais. Nem todos as pessoas da família tem a mesma compreensão sobre a importância de fornecer ferramentas para a formação da autoestima da criança de desde pequena. Muitos ainda tem uma visão romântica do racismo no Brasil, acreditam no mito da democracia racial ou simplesmente não enxergam o quanto pequenos gestos são importantes para a formação de uma criança que sabe e valoriza as suas origens.
Um dos pontos que eu mais encontro resistência na família é sobre a necessidade das meninas terem majoritariamente bonecas negras. Já teve gente dizendo que isso poderia ser racismo inverso, ou levantando a bandeira de que as meninas precisam ter bonecas brancas sim. Outros, sempre insistem em perguntar se a próxima será branca, já que elas já possuem muitas bonecas brancas.  Eu e meu marido acreditamos que elas precisam se enxergar em seus brinquedos e que bonecas brancas elas já ganharão de todas as pessoas brancas com que elas convivem, porque então as pessoas negras precisam ficar tão preocupadas em garantir a presença de bonecas brancas por aqui.
E aquelas sugestões para alisar o cabelo das crias? Quem nunca ouviu isso de alguém próximo? Ou insistindo para sempre prender o cabelo da criança, como se por ser crespo o cabelo da menina não pudesse ficar solto. Ou aquelas indiretas de que o cabelo do menino tá grande, que já pode raspar que não doí nada, que ele fica mais bonito com o cabelo crespo raspado, que cabelo grande parece crianças mal-cuidada. Que atire a primeira pedra quem nunca passou por esse tipo de interferência de parentes, sejam eles próximos ou distantes.
São muitos pontos de divergência que temos  com relação aos nossos parentes e muitas vezes o respeito que temos por nossos pais e avós nos impede de dar uma resposta mais direta e definitiva a algumas questões. Mas de qualquer forma, precisamos desenvolver métodos para que nossas ideias prevaleçam e sejam respeitadas. Um desses métodos é a sintonia entre os pais da criança.
E eu não falo tudo isso no sentido de que os pais estão sempre certos, claro que não. Na realidade estamos errados muitas vezes, mas precisamos desses erros para aprender e ganhar maturidade e segurança. Eu posso tentar combater o racismo impedindo que minhas filhas vejam desenhos animados com as princesas, por exemplo, e minhas filhas ficarem extremamente infelizes  e com raiva dos pais por serem as únicas crianças do círculo de amizade delas que não pode ver Frozen. Isso pode acontecer. E a gente precisa ter consciência que nossas decisões e escolhas tem consequências.

Quando os parentes interferem na educação

Tudo que foi dito antes pode ser contornado relativamente bem, sem grandes comoções familiares. Mas, e quando os parentes interferem de fato na educação das crianças, desautorizando os pais? Aí a coisa fica série, e a gente precisa cortar para que a criança não fique sem referência de autoridade.

Quando um terceiro, por exemplo, impede um dos pais de corrigir a criança quando esta faz algo errado, tentado minimizar a desobediência da criança e evitar a correção, esse tipo de interferência desautoriza dos pais. Se o combinado com a criança é não colocar o sapato na cama, em qualquer cama, isso precisa ser respeitado. Não pode um tio, avô ou primo chegar, falar que não tem problema nenhum nisso e não deixar os pais orientem a criança a fazer o combinado entre eles.

Pior ainda é quando um dos pais corrige a criança, a criança reage com choro e os avós reclamam na frente da criança com o responsável pela bronca. Além de ser uma invasão na dinâmica de educação desta família, é uma forma de fomentar o desrespeito dos netos pelos pais. Se não é bom que nos pais discordem da criação das crianças na frente delas, que dirá se os avós brigam com os pais pela forma de educar na frente das crias.

Quando os pais e as crianças combinam determinadas regras e os parentes deliberadamente às rompem, quando por exemplo há uma proibição em comer doces durante a semana e os parentes fazem questão de dar os alimentos proibidos  naquelas dias para as crianças, deliberadamente rompendo as regras e ainda pedindo segredo para as crianças. Além de ensinar que as crianças não devem respeitar o combinado com os pais, ainda ensinam a fazer coisas escondido.

Existe um ditado que diz “O papel dos pais é educar os filhos, o dos avós é estragar os netos!”. Tem familiares que levam muito a sério essa frase. O estragar deveria ser proporcionar aos netos pequenos atos de rebeldia, escapulidas perdoáveis  e não permitir e estimular os netos a cometerem atos que causem prejuízo à autoridade dos pais. Porque determinadas atitudes acabam forçando os pais a limitar o convívio dos  avós com o netos para que os primeiros não “estraguem” os pequenos.

Tem jeito?

Os psicólogos falam que o jeito é conversar. Uma conversa franca, expondo aos seus parentes seus pontos de vista e permitindo um certa flexibilidade às regras. Se está difícil conversar, ignorar os conselhos não pedidos e fazer do seu jeito pode ser uma opção, mesmo que seja super chato ter que ficar ouvindo um monte de orientações que não lhe interessam. Pequenas indiretas, também pode funcionar com aqueles parentes um pouco mais atentos, que interferem inocentemente na educação, sem sequer perceberem que estão sendo invasivos.

avó negra - parente

Outra dica, para os avós e parentes mais velhos que as pessoas veem como avós, é um site que eu conheci através do projeto 100 meninas negras, o site Avosidade. Lá eles falam sobre a relação entre avós e netos e falam muito sobre qual é o papel dos avós nesse contexto familiar. Importante para que avós repensem suas práticas e seus pais e se vejam mais como parceiros dos pais na educação, sem a obrigação formal de educar os netos, mas como apoio para que os pais busquem conselhos e ajudas em situações pontuais.

Aos outros parentes mais distantes, uma boa conversa pedindo para não interferirem ou reforçando seu ponto de vista pode ser o suficiente. Mas nunca se sabe. O jeito mesmo é tentar reforçar ainda mais com os filhos a importância deles respeitarem o combinado pela família nuclear. Assim, pelo menos, temos a esperança que as próprias crianças rejeitem escapulidas propostas pela família ou entenda que determinada interferência dos parentes em sua vida é inadequada.

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