Postado em 24 de junho de 2017 por Lu Bento

Olá pessoal!

Existe uma variada literatura voltada pra mães, não é mesmo? São livros e mais livros que nos “ensinam” ou orientam, pra ser mais suave, a educar nossos filhos. A verdade é que pedagogos, médicos, psicólogos, todos querem compartilhar conosco seus anos e anos de estudo e experiencia. Fora a infinidade de livros de mães compartilhando suas experiências pessoais e desabafos sobre a maternidade real.

Esse é o nosso espaço de diálogo sobre esses livros. No leituras maternas desse mês quero falar de 2 livros que li há pouco tempo sobre o assunto, um voltado pera a educação dos filhos e outro de compartilhamento de vivências maternas. Porque entre uma fralda e o apoio à tarefa de casa,  mãe lê e produz literatura!

 

Vamos brincar? Atividades para ensinar bons hábitos para crianças

capa - Vamos brincar

Autores: Eduard Estivill e Yolanda Saenz Tejada

Editora: WMF Martins Fontes

Tenho passado por muitos problemas Não que elas sejam propriamente mal-educadas. As pessoas de fora até as elogiam e falam que são meninas bem educadas. Mas em casa é um terror. Mini Bentia não guarda absolutamente nada do que ela usa e Isha Bentia parece ter uma surdez seletiva que só faz as coisas que pedimos depois de que a gente perde a paciência. Sei que a origem desses comportamentos está muito mais em nós, pais, e em como lidamos com a nossa própria bagunça e desatenção com as demandas delas. Mas também sei que precisamos de ajuda para mudar esses comportamentos em nós e ajudá-las nesse processo educacional. E esse livro entra como uma das ferramentas que têm nos ajudado a melhorar nossa comunicação intrafamiliar.

Eu confesso que fiquei com o pé atrás com relação a essa obra porque o autor, o médico espanhol Eduard Estivill também é autor de um livro bem criticado, Nana Nenê, que “ensina” a estabelecer rotinas de sono para bebês com métodos, no mínimo, polêmicos que estimulam os pais a deixarem as crianças chorando sozinhas por longos minutos. Mas como o livro tava bem baratinho em um saldão da Martins Fontes e, como eu tava bem desesperada em aprender métodos eficientes para lidar com minhas dificuldades na criação das meninas, que eu decidi me aventurar nesse leitura.

A leitura é bem rápida, esse é um livro de consulta porque traz várias atividades para serem feitas com as crianças em diferentes situações e, com isso, ensiná-las bons hábitos. Gostei muito das atividades propostas, algumas já estou começando a por em prática, mas preciso de um tempo para avaliar o quanto elas funcionam pra minha realidade.

De qualquer forma, curti a leitura, fiquei com algumas ideias e com muitas esperanças de que as coisas melhores mor aqui.

Livro nota 3

Mamãe é rock

 

Mamãe é rock

Autora: Ana Cardoso

Editora: BelasLetras

Esse é aquele típico livro de maternidade real. Ana Cardoso trás relatos bem intensos sobre o cotidiano de uma família e a criação de filhos, de forma bem humorada. Sabe aquela sensação de rir da própria desgraça? Não que as situações que passamos no dia-a-dia cheguem a ser uma desgraça, mas algumas são bem frustrantes e sem um pouco de graça não dá pra passar por tudo isso sem ficar maluca.

A leitura é leve e divertida. Aquela típica leitura de relaxamento, sabe? E ideal para quem não tem muito o hábito de ler. A diagramação é bem irreverente, ele lembra muito aqueles livros pra pré-adolescentes sabe, me veio logo na memória aquele antiguinho “Coisas que toda garota deve saber”. Mas é essa identidade visual jovial e irreverente que facilita a conexão com o livro e tem tudo a ver com o próprio conteúdo.

Adorei ler, me identifiquei em muitas partes dele, principalmente porque também sou mãe de duas meninas. E lendo algumas coisas lá fiquei imaginando que provavelmente passarei por situações bem parecidas em alguns anos.

Livro nota 3


E aí, já leram esses livros? Conta pra gente! Até a próxima.

Postado em 18 de junho de 2017 por Lu Bento

Eu sempre escuto comentários impressionados sobre como as curicas são independentes. E elas realmente são. Fazem muitas coisas sozinhas, e não têm aquele medo exagerado de ficar longe da gente. Essas meninas sabem se virar.  Mas…como educar nossos filhos pra serem independentes? Não é tão fácil quanto parece. Encontrar a medida certa entre independência e obediência não é fácil.

Student reading aloud in class

Quem me acompanha há mais tempo já sabe que não foi fácil ter as meninas. Perdi dois bebês antes delas, tive que passar por um repouso intenso durante as gravidezes pra que elas chegassem, então não foi molezinha. O medo era o meu companheiro durante toda a gravidez. Não só o medo de perdê-las, mas também o medo de me tornar uma mãe superprotetora. Sempre tive medo de me tornar uma daquelas mães que não deixam os filhos fazerem nada. Mesmo eu sendo uma pessoa super desencanada, temia não conseguir desapegar das minhas filhas e deixar que elas tivesse suas própria experiêncas, que errassem e acertassem por conta própria. Afinal, de nada adianta tentar transformar a vida delas em uma versão melhorada da minha própria vida. Elas precisam tentar, errar, acertar, descobrir coisas, experimentar a vida da forma delas porque o aprendizado a partir das nossas próprias viviências é muito mais significativo e marcante.

Então, minha meta de vida era deixar elas experimentarem o  mundo e permitir que elas tivessem a proteção e segurança necessárias, sem exageros.Pra isso, tava valendo andar descalça pra sentir que o chão tava realmente frio, comer sozinha mesmo que fosse mais comida para o chão que para boca ou escolher as próprias roupas mesmo que a combinação tivesse totalmente inadequada para o tempo.  Cabe a mim, como mãe, providenciar recursos para que elas, ao perceberem falhas em suas escolhas, possam voltar atrás e aprender com isso. Então o chinelo tava lá disponível pra proteger o pé, a comida passou a ser colocada no garfo pra diminuir a quantidade que caia no chão e  uma roupa mais adequada ao clima estava preparada caso elas sentissem frio ou calor. E é assim que a gente faz no dia-a-dia.

Da mesma forma, eu e o pai delas sempre incentivamos elas a buscarem soluções para os  problemas. Quer uma colher no restaurante, peça você mesma ao garçom! Quer comprar um biscoito, pergunte o preço você mesma! E assim por diante, sempre atenta às atividades compatíveis com a idade e o desenvolvimento delas.

Nós fazemos tudo isso por dois motivos principais: primeiro porque somos só nós 4 aqui em SP, tem horas que eu e meu marido estamos bem atarefados e as meninas precisam fazer coisas simples sozinhas, como pegar um brinquedo no quarto ou uma roupa na gaveta; e segundo porque a gente acredita que elas precisam ter coragem para fazer coisas por conta própria e a nossa casa, o nosso espaço,  é o melhor laboratório pra que elas experimentem isso.

Pessoas negras são constantemente desestimuladas a se expor. Não é algo explicito, verbalizado. É a aquela velha história do racismo estrutural, sabe, que nos exclui sistematicamente dos espaços de poder e visibilidade. Ser independente, correr atrás do que você deseja, é fundamental para que o sistema racista não te oprima. Então é importante que nossas crianças negras cresçam sabendo que elas tem voz e vez de se expressar. E que suas vontades são levadas em conta, são respeitadas ou, ao menos, ouvidas.

Oferecendo ferramentas para a independência

Como a preocupação com a independência delas veio antes do nascimento, a gente sempre procurou fornecer ferramentas para que elas desenvolvessem a autonomia. Uma delas, foi adotar a concepção montessoriana na decoração do quarto. Tanto Isha Bentia, como Mini Bentia tiveram a liberdade de dormir fora de berços. Assim, elas acordavam e iam para onde nós estávamos. Não precisavam ficar presas, dependendo da ação de adultos pra se locomover. Seus pratos e copos ficam em locais acessíveis na cozinha, assim elas mesmas podem pegar um prato ou copo quando precisam. Elas mesmas jogavam a fralda no lixo e pegam outra para ser trocada. Isso aos poucos vai desenvolvendo a autonomia da criança.

Uma coisa que o Leo faz muito e eu preciso me monitorar para fazer mais e conversar com elas sobre algo que elas fizeram e nós consideramos errado. Ele pergunta porque elas fizeram aquilo, ele explica porque aquilo não pode ser feito e orienta como fazer corretamente, ou de uma maneira segura.  Isso é muito bacana, porque isso as fazem perceber que nós as enxergamos  como sujeitos. Quantos de nós fomos criados na base do “era só meu pai olhar, que eu gelava, que eu sabia que estava errado” ou “o pai não sabia porque tava batendo, mas a criança sabia porque tava apanhando”. Cara, isso é cultura do medo. Nem dá pra chamar de pedagogia, por que não tem nada de pedagógico nisso. É opressor mesmo. Claro que esse tipo de postura  contribuiu para uma geração que atualmente tem medo de tentar coisas novas, tem medo de se expressar, tem medo de fazer algo que não foi mandado.

Encontrando o limite

Saímos muito com as meninas, tanto por causa do nosso trabalho, quanto a passeio. E elas se adaptaram bem a essa rotina de estar em diferentes lugares, sempre cercadas de pessoas novas. No começo elas sentem o ambiente e depois já se soltam e começam a circular com uma certa liberdade. Nesse aspecto é preciso encontrar um limite. Uma coisa que me incomoda bastante é que as curicas resolvem por conta própria ir explorar novos lugares.  Esse é um limite que temos trabalhado constantemente com elas. Crianças (e adultos também!) precisam dar satisfação de onde vão. Não dá pra simplesmente sumir enquanto as pessoas que estão contigo não sabem de nada.  E aí, a gente enfatiza isso para elas principalmente pela questão da segurança e pela falta de percepção das maldades do mundo, mas sempre com um olhar respeitoso pra tomada de iniciativa delas. Em geral a gente fala coisas do tipo “eu entendo que você quer ir lá fazer tal coisa, mas antes é preciso pedir permissão pra mamãe e por papai, pra gente saber onde você está, com que está e se não é perigoso pra você.”

A gente sempre evita aquele discurso do “não pode fazer porque eu não quero” porque não cabe a minha como mãe querer ou não querer algo pra vida da minha filha. Os meus quereres pessoais podem até ser externados, mas não podem servir como baliza para as minhas decisões com relação a elas. Eu, como mãe, preciso preservar o direito delas de escolha, ressalvados os todos os meus deveres de cuidado e proteção delas. Mas cada vez que eu extrapolo meus deveres de proteção e tomo atitudes que limitam minhas filhas de forma que elas ficam mais dependentes de mim eu estou ensinando a elas que elas precisam de mim pra realizar aquilo, eu estou vinculando aquele ato a minha pessoa e com isso, eu estou limitando as minhas próprias filhas.

Lógico que nem sempre é seguro e saudável deixar as crianças soltas fazendo o que querem. Por isso mesmo que não fácil criar filhos independentes. Porque a gente precisa o tempo todo recalcular os limites entre cultivar a independência e o descaso, a falta de atenção e cuidado.

Algumas vezes eu vejo mães com crianças da idade de Mini Bentia no colo e bate aquela dúvida se eu não deveria estar carregando a minha no colo também. Mas depois, quando eu vejo a curica correndo de um lado para outro durante longos minutos, eu vejo que ela tem plena capacidade de andar esse percurso, então não tem necessidade de estar no colo o tempo todo. É um processo de avaliação e reavaliação constante. E também, quando elas começam a perceber que podem fazer coisas sozinhas e a vontade de fazer por conta própria cresce mais ainda.

E como elas já fazem muitas coisas sozinhas, como escolher a roupa, calçar os sapatos, ou pegar o suco no armário, elas se sentem aptas a fazer outras coisas também, como ficar longe dos pais por uns dias ( na casa dos avós), ou sair sem a gente com pessoas do nosso convívio.

Superando barreiras

O que eu falo aqui vale para todas as crianças, mas quando a gente pensa em crianças negras, crescer sem autonomia é ainda mais danoso, porque reforça o racismo estrutural que diz silenciosamente que negros não podem ocupar determinados espaços. Com a autonomia que a gente procura oferecer para as meninas estamos mostrando a elas que elas podem ocupar espaços e realizar coisas que são da vontade delas, sem que precise de uma ordem expressa para fazer. Nossa intenção é que isso contribua para que no futuro, barreiras como “não tem nenhum negro aqui” ou “isso não parece ser uma coisa adequada para uma pessoa negra” nem sequer sejam consideradas por elas. Que elas não se percebam limitadas por percepções que nos condicionam a determinados espaços.

Young girl smiling, holding white sheet

Não é um processo fácil e mexe com muitas das nossas noções de como criar filhos e com as nossas próprias memórias sobre como fomos criados. Mas educar é um processo e uma sucessão de escolhas. Escolhemos esse caminho, provavelmente o mais difícil. Mas também incrivelmente prazeroso vê-las escolhendo seus caminhos, questionando o limites e buscando compreender a lógica do mundo e das relações interpessoais.

Postado em 24 de maio de 2017 por Lu Bento

Olá pessoal! Vamos falar sobre livros? Existe um ampla bibliografia voltada para mães e no Leituras Maternas compartilho com vocês minha impressões sobre esses livros. O universo materno é abordado de diferentes maneiras nas publicações impressas. Nesse edição, trago pra vocês um livro de exaltação a figura materna e um livro de poesias que ampliam nossos sentidos sobre o maternar.

Leituras

 

 

As mães que mudaram o mundo

Histórias inspiradoras de mulheres que fizeram a diferença para seus filhos e para  mundo

 

mães que mudaram o mundoAutor:Billy Graham

Editora: Habacuc

Comprei esse livro por pura compulsão por livros em uma dessas feiras de saldão. Li esse livro por plena necessidade de estímulo e motivação nessa jornada materna. Sem dúvidas, é um livro cativante. A história e o empenho dessas mulheres em fazer o que elas consideraram melhor para seus filhos é reconfortante. E é exatamente o que se espera quando se pega um livro com forte viés religioso: conforto.

O livro conta a história das mães de grandes personalidades do mundo, mostrando como essas mulheres aturam para que essas pessoas (em geral, homens) se destacassem ou aprimorassem características que foram marcantes para história do mundo. Fiquei um pouco chateada porque essa mulheres são definidas a partir de seus filhos famosos, a mãe de Luther King, a mãe de Condoleeza Rice. Mas entendo que essas mulheres se tornaram interessantes para o grande público devido aos seus filhos famosos. Ah, falando nisso, um dos motivos que me fizeram comprar esse livro foi a curiosidade de conhecer essas mães pretas aí…

No meio da leitura fiquei meio saturada pelo viés religioso do livro, sempre ressaltando a fé dessa mulheres como decisiva no poder de influencia delas ou citando mulheres bíblicas. Pra quem não é religioso, pode ser chato tudo isso. Mas pra quem acredita, pode ser uma mais uma forma de fortalecer a maternidade também na dimensão religiosa.

A escrita é bem simples, a leitura é super acessível para as pessoas que não tem o hábito de leitura e, como são histórias individuais, é perfeito pra mães que nem sempre tem tempo para ler um livro. Dá pra ler fora da ordem dos capítulos e ir buscando as histórias que mais te interessam ou se conectam com o momento que você está vivendo. É aquele tipo de publicação feito pra dar de presente, tem até um espaço de dedicatória na primeira página. E funciona bem como presente viu?

Não foi um livro que eu amei, mas valeu a pena ter lido. E ele continua com espaço na minha estante.

Livro nota 2

Cria Jubal

 

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Autora: Adriana Rolim

Editora: Metanóia

Gente, filho é poesia. E praquelas pessoas mais próximas das palavras, só a poesia pra conseguir expressar os sentimentos da gravidez e da maternidade. É isso que a Adriana Rolin faz nesse lindo livro. Esse livro faz você se sentir entrando na intimidade de uma família a cada poesia, conto, relato, fotografia. Amor que transpassa as páginas do livro  nos fazem perceber o quanto essa obra deve ser importante pra essa família.

Além da maternidade, Cria Jubal articula diferentes dimensões do nosso ser, a mulher-companheira, a mulher-ativista, a mulher-amiga, a mulher-artista… todas elas juntas, com essas nuances se sobrepondo. Acaba servido de estímulo para nos vermos completas, perspectiva que muitas vezes é esquecida quando nos tornarmos.

A leitura de Cria Jubal, além de enternecer meu coração, me fez olhar com outros olhos pra mima vivência cotidiana, me vez ver com olhos de poeta o amor que nutrimos uns pelos outros em casa e me estimulou a escrever um pouco mais sobre isso.

Esse é aquele livro pra dar de presente para amiga quando nasce o bebê ou ela descobre que está grávida. Leitura e espera e de conforto.

Onde encontrar: InaLivros

Livros nota 4


E aí, gostaram do Leituras Maternas desse mês? Conta pra gente nos comentários! Tem dicas de livros sobre maternidade? Bora conversar! Até a próxima.

Postado em 17 de março de 2016 por Lu Bento

Hoje resolvi listar algumas coisinhas que a gente vive  e faz que estão relacionados a maternidade preta. Costumo pensar a minha maternidade, e a maternidade das mulheres negras em geral, como uma maternância.  Porque tudo que a gente faz no processo de criar filhos nessa sociedade racista, de modo que nossas crias saibam o seu valor e saibam se posicionar no mundo são também atos de militância, por mais anti-militante que a mãe seja.

Ser mãe preta é…

…saber que sua cria sofrerá racismo em algum momento da vida, e você nada pode fazer pra evitar que isso aconteça.

…ouvir por aí que é uma bênção que sua cria tenha nascido com o “cabelo bom“.

…saber que, mesmo que determinadas doenças preexistentes sejam mais recorrentes na população negra como a hipertensão, ninguém tem o direito de dizer que você não deve ter filhos por causa disso sem prévia avaliação médica.

…ser considerada a babá se sua cria nasce com uma tonalidade de pele mais clara.

…estar mais vulnerável a sofrer violência obstétrica porque os médicos acham que você é naturalmente “forte”, não deve ficar reclamando de dor.

…recomendar sempre ao seu filho sair com a carteira de identidade, mesmo se for logo ali na esquina, e se possível, com alguma outra carteirinha de escola, de clube, de qualquer outra coisa que ele frequente que  possa sinalizar pra polícia em caso de dura que ele não é bandido.

 

… Ouvir questionamentos sobre quando você vai passar química no cabelo a suas crias: “é uma maldade deixar a criança com os cabelos assim desse jeito!”

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…saber que seu menino deixa de ser visto como uma criança  pela sociedade por volta dos 5 anos e passa a ser visto como uma ameaça, um criminoso em potencial.

 

…saber que é preciso ensinar a sua cria a se amar com mais dedicação que outras mães não-negras, porque a sociedade estará o tempo todo ensinado suas crias a se odiarem.

 

… ensinar seus filhos a evitar falar com mulheres brancas na rua, inclusive para pedir informações, porque podem ser imediatamente considerados bandidos, sem sequer uma chance de provar que não é.

 

… ter que ouvir de um médico em plena ultrassonografia de uma gravidez de risco que você deveria fazer um planejamento familiar, sem que essa pessoa sequer saiba nada da sua vida e do seu planejamento familiar.

 

…ouvir inúmeros comentários sexistas e racistas se você engravida “cedo”.

 

…precisar ensinar pras crias a “parecer inocente” mesmo sendo inocente.

 

 

…sentir uma felicidade enorme quando sua filha se reconhece em alguém na TV, numa revista, num outdoor: “olha mamãe, ela é pretinha igual a gente!”

 

… precisar explicar pras crias que nem tudo que seus amiguinho brancos fazem, ela deve fazer também. Explicar que a culpa sempre cai em cima dos negros, que a punição para os negros é sempre mais rigorosa e cruel.

 

…saber que a professora demonstrará mais afeto pelas crianças brancas da turma e que sua cria vai precisar de uma atenção a mais pra lidar com essa sutil rejeição.

 

… empoderar cotidianamente nossas crias para que elas possam enfrentar o mundo.

 

…saber que qualquer falha de seu filho negro será lido como um crime que deve ser punido, e que se fosse um jovem branco seria algo que precisa ser tratado, educado.

 

… saber que você vai passar por louca e não terá o apoio da maioria quando você denunciar alguma situação de discriminação na escola das crias.

 

…buscar referências em todos os lugares possíveis para que suas crias se inspirem e vejam que podem alcançar todos os seus sonhos.

…é receber dicas de “como deixar o nariz das suas crias mais fininho”.

 

… Ouvir de suas crias questionamentos do tipo “porque eu sou negro?” ” porque as pessoas não gostam de negros?” “Porque meu cabelo é crespo? ” e saber que tudo isso está embutido de um sofrimento enorme, não são só curiosidades infantis, são verdadeiros desabafos.

 

…correr meio mundo pra achar um livro que tenha um personagem negra ou negro para que sua cria se identifique, porque não são tão fáceis de achar nas grandes livrarias.

 

…acolher suas crias que sofrem discriminação por seguirem uma religiosidade de matriz africana.

 

…consolar as crias que foram preteridas na formação de parzinho da festa junina.

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…saber a diferença que faz para sua filha ganhar uma  boneca negra de presente.

…saber que se seu filho adolescente curte funk, ele será automaticamente lido pela sociedade como bandido, diferente do que acontece com um adolescente branco.

 

…saber que se sua filha negra adolescente engravida ela terá ainda menos oportunidades que uma adolescente branca grávida. E sofrerá ainda mais julgamentos e preconceitos.

 

… saber que seu filho sempre será visto como marginal e como o culpado em alguma situação, mesmo que o contexto deixe explícito a pouca probabilidade de envolvimento da sua cria na situação.

 

… ser alvo de racismo em consulta pre-natais por aqueles que deveriam nos acolhe e nos dar suporte.

 

…ter que aturar sempre alguém sugerindo prender o black da sua filha, mesmo sabendo que ela e você acham que o cabelo fica muito mais bonito solto. “Porque assim ela fica mais bonitinha, arrumadinha

 

… receber a sugestão de esterilização definitiva após o segundo filho. “Depois desse vamos ligar né?

 

…ser lida como invariavelmente como promíscua se seus filhos têm país diferentes.

…ensinar seu filho negro a observar, quando está na rua, onde estão os policiais e a movimentação deles, para que ele não fique muito perto nem demonstre medo exagerado. Qualquer contato visual um pouco mais prolongado ou temeroso e seu menino leva uma dura.

 

… ensinar sua filha a se defender em transportes públicos lotados daqueles abusadores que acabam que “não pega nada dar uma roçadinha nessa negrinha

 

… saber que redução da maioridade penal é um ação que visa atingir diretamente os jovens negros.

 

…saber que suas crias podem ser as únicas pessoas negras nos espaços que elas frequentam e que isso pode resultar em  uma invisibilidade nesses espaços.  É a professora que não escuta especificamente a pergunta deles, é a diretora que ignora as denúncias de racismo, são os colegas que os excluem das brincadeiras, das tarefas em grupo…

 

…preparar seus filhos  adolescentes a agirem com serenidade quando a polícia parar um ônibus e só revistar as pessoas negras, os homens negros.

 

… ensinar quando é prudente reagir ao racismo e quando pode ser um risco concreto a sua vida.

 

…não encontrar nas grandes lojas uma mochila sequer que tenha um personagem negro par que suas crias se identifiquem.

 

…trocar um sorriso cúmplice  felicidade quando encontramos outras mães pretas em ambiente predominantemente brancos.

 

… ser espelho para suas crias. Nosso visual, nossa postura diante da vida, nossa relação com a nossa negritude são observadas e aprendidas pelas crias.

 

… ensinar, em pleno século XXI, que é preciso ser duas (três, dez…) vezes melhor que os outros para que o nosso talento prevaleça ao preconceito.

 

…saber que a maioria das crianças disponibilizadas para adoção são crianças negras como as suas crias, e por esse motivo são rejeitadas pela maioria dos pretendentes à adoção.

 

… sentir um aperto no peito cada vez que uma criança negra como as suas para no sinal para pedir esmolas ou vender coisas para sobreviver.charge- risco de morte

 

…saber que o índice de mortalidade de jovens negros é muito maior que de jovens brancos.

…saber que a gente nunca está suficientemente preparada quando uma situação de discriminação racial acontece, por mais que a gente tente antever e se prevenir.

 

…saber que todos esses desafios se somam aos desafios da maternidade em geral.


Postado em 16 de março de 2016 por Lu Bento
A política brasileira está um caos. A direita articulando um golpe, a esquerda acuada e sem arcabouço moral  pra resistir a tantas denúncias. No meio disso tudo uma população confusa, influenciada pelo ponto de vista das empresas que controlam a  imprensa e vivenciando cada reviravolta política com paixão.  E como nós, famílias pretas, ficamos no meio de tudo isso? Como e o que explicar pros pequenos  esse assunto que dominou os diálogos em todos os lugares?
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Crianças são curiosas por natureza. E na efervescência que vivemos é natural que elas estejam também ansiosas pra entender pelo menos um pouquinho do que está acontecendo no país. É leviano da nossa parte só passar um lado da situação. Nossos filhos não são nossa propriedade  e é tão tendencioso quanto o Jornal Nacional se a gente só explica as reivindicações de um dos lados  com o qual a gente se identifica. Não posso chegar pras minhas crianças e falar que só tem pessoas alienadas pedindo o impeachment  da presidente ou que é uma “idiotice sem fundamento” o que eles reivindicam. Uma criança merece informação de qualidade que a ajude a formar a sua própria opinião dentro da sua maturidade e  seu conhecimento do mundo pra entender os fatos.

O racismo

Como pessoas negras, independente da nosso posicionamento político partidário, precisamos sinalizar pra nossas crianças algumas questões que nos afetam diretamente. Uma delas é a ausência de negros, ou melhor, a pouca quantidade de negros nos protestos pró-impeachment. Isso está diretamente relacionado com divisão racial e econômica da sociedade, na qual os negros são maioria nas classes mais baixas e quase ausentes entre os mais ricos.
manifestacao3A pesquisa do DataFolha no protesto do dia 13 de março mostrou que metade dos entrevistados tinha renda entre 5 e 20 salários mínimos (fonte). Ou seja, essa galera não pode ser chamada de pobre.  Segundo a pesquisa, 4% dos manifestantes se identificaram como pretos, que somados aos que se identificaram como pardo, temos 19% de negros na manifestação.  O número não parece tão pequeno assim, mesmo sabendo que negros compõem mais da metade da população brasileira. Contudo, não podemos esquecer que  essas declarações são voluntárias e há uma tendência atual de pessoas lidas socialmente como brancas se declararem pardas para conseguirem benefícios relacionados a políticas de ações afirmativas (veja: afroconveniência). Eu ouso dizer que esse números podem estar inflados. De qualquer forma, visualmente, pouquíssimos negros foram vistos nas manifestações e isso já rende com as crianças um bom bate-papo sobre que lugares a população negra ocupa na sociedade.
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A imagem e a charge da babá que estava a trabalho na manifestação também podem render bons diálogos com a criançada sobre profissões, posições de prestígio, exploração do trabalhador, tudo isso permeado pela questão racial. Por mais que a mulher negra depois tenha declarado estar lá por vontade própria, é simbólico vermos um casal branco indo protestar segurando o cachorro enquanto uma trabalhadora negra cuida dos filhos do casal, tudo isso em pleno domingo. A gente pode ver a situação pela ótica capitalista  Até porque, se for desse jeito, daqui a pouco estamos achando normal pessoas brancas terem funcionários negros para carregar uma liteira com eles durante o protesto, carregar abanadores, guarda-sol etc, só porque eles estão sendo pagos para isso.
A diferença de postura da atuação das forças policiais nos protestos diferentes protestos também pode ser sinalizada para as crianças e jovens. Enquanto a polícia não fez nenhuma ação violenta para coibir os protestos pró-impeachment, a atuação dela sempre foi marcada pela violência ao coibir protestos pelo passe-livre ou os protestos dos estudantes e professores contra o fechamento das escolas. Essa hierarquização dos cidadãos, essa diferença de tratamento de acordo com a classe social do público que protesta é importante precisa ser discutida nas famílias.
Vemos também casos de pais que incitam seus filhos ao ódio. Pais ensinado seus filhos a xingar e desrespeitar a Presidenta. Ensinando a ofender e agredir quem pensa de forma diferente. Pode parecer inacreditável que em pleno século XXI as pessoas achem normal agir dessa maneira por desavenças políticas. O discurso de ódio tem espaço e caminho para se propagar sem nenhum pudor. Precisamos falar isso pras crianças, mostrar pra elas que não está certo agir assim, mesmo que o coleguinha faça isso, mesmo que tenha sido o pai do coleguinha ou a professora da escola que tenha ensinado.

A discriminação racial e o perigo eminente

Outro aspecto que pode ser explicado e conversado com criançada e, talvez seja o ponto que mais nos afeta diretamente,  é a emergência de movimentos racistas neste contexto de maniferacismo_mackenziestações políticas. Muitas pessoas se sentem livres pra destilar todo seu ódio e recalque com as conquistas sociais que os governos petistas nos trouxeram. Críticas ao bolsa-família, às cotas raciais, ao FIES e ao PROUNI facilmente se transformam em atos racistas, como a manifestação de ódio escrita em um banheiro na faculdade Mackenzie, em São Paulo.
Isso é muito grave. É grave porque nós negros estamos em eminente risco ao andar nas ruas numa situação em que grupos racistas circulam com liberdade sob o pretexto de estarem protestando contra o governo e podem simplesmente nos atacar em qualquer esquina. Pra quem tem crianças/adolescentes que circulam sozinhos pelas ruas, é importantíssimo destacar isso, porque estamos em posição de vulnerabilidade. A nossa sociedade racista sempre resiste em perceber situações de racismo mesmo que explícitas. Esse grupos radicais podem, a qualquer momento, atacar pessoas negras sem qualquer coerção. De vítima, a pessoa negra será colocada na posição de acusada, será lida como bandida ou como qualquer outra coisa que “justifique” a agressão.
 Alguns grupos já estão agredindo pessoas pelo simples fato de estarem vestidas de vermelho. São consideradas, pela cor da vestimenta, petitas. Já agrediram e hostilizaram idosos, mulheres e crianças por esse motivo fútil. Agora imagine o que esse tipo de gente pode fazer com uma criança negra que esteja sozinha só por ela estar usando vermelho próximo a uma manifestação contra o governo?
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Não estou dizendo com tudo isso que a população negra e a população pobre não podem estar ao lado dos que apoiam a derrubada do governo. Claro que não! Nossas convicções políticas envolvem outros fatores além da nossa negritude.O importante é conversamos com nossos pequenos,  tentar sanar a curiosidade deles na medida do possível e também mostrar que o racismo se explicita nesses momentos de crise.
É preciso estarmos atentos! Assim como determinadas pessoas se sentem livres para segurar cartazes criticando a presença de negros, se sentem livres para fazer saudações nazistas durante os protestos, outros se sentem livres para nos agredir verbal e fisicamente. Somos o alvo desse ódio contido da sociedade branca que se vê perdendo privilégios a cada instante devido às nossas conquistas. Não podemos, principalmente nesse momento, cair no conto da democracia racial.
Pode parecer exagero pra quem não é preto, mas existem muitas interseções entre a situação política brasileira e  as manifestações de racismo e as crianças precisam também entrar nesse diálogo.

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