Postado em 19 de julho de 2016 por Lu Bento

Mães de UTI

A médica chegou e disse:

– Mãe, vamos ter que entubar essa gatinha.

Na hora eu pensei: “Entubar?  Que merda! Isso é colocar a menina em coma induzido! Isso não pode ser tão grave assim!” Mas respondi prontamente:

– Tudo bem doutora. Se isso é o melhor pra ela se recuperar, faça isso!

– Certo. Faremos o procedimento amanhã pela manhã se a saturação dela não melhorar nesta noite.

Saí do quartinho dela na UTI e fui para a copa, local onde os pais se reuniam e comiam alguma coisa nos poucos minutos que saiam do lado de filhos. Queria chorar, mas as lágrimas não viam. Me achei um pouco insensível, por nem conseguir chorar pela minha filha. Logo chegaram duas mães e me perguntaram como a minha pequena estava. Eu logo falei da entubação. Precisava compartilhar aquilo com que tinha mais experiência nessa vida de mãe de UTI.

– É melhor assim. Sedados eles deixam fazer  medicação direto e melhoram mais rápido. Bronquiolite é assim mesmo, assusta bastante mas eles logo se recuperam. Vira e mexe tem criança com bronquiolite por aqui, e logo eles tem alta. – Falou uma delas.

Na hora o meu receio foi embora. Se era o que precisava ser feito pra ela melhora, que fosse feito! No dia anterior eu tinha me impressionado bastante com a força daquelas mulheres. Uma tinha um filho com câncer em estado terminal. O menino estava lá fazendo um tratamento experimental há mais de 3 meses, na expectativa de aumentar a sua sobrevida.  A outra tinha uma bebê da idade da minha. A menina nunca tinha saído do hospital. Havia nascido prematura, não entendi direito o caso dela, mas a mãe estava bem animada com a possibilidade de ir para casa com uma estrutura de homecare nos próximos meses. maes de uti

Aquela conversa me encheu de força. Voltei no quartinho da Naíma e ela dormia calmamente, apesar da respiração ofegante e cansada. Efeito da medicação da noite. Falei pra ela que ela seria entubada, que ficaria dormindo sem se preocupar em respirar, porque uma maquinhinha faria isso por ela. Esse soninho duraria alguns dias, mas eu estaria lá com ela o tempo todo. E quando ela acordasse, ela voltaria pra casa, respirando direitinho, pra gente brincar de roda com a Aisha e o papai como no dia em que tudo isso começou.

Foi aí que eu percebi porque eu não chorava. Não existia espaço para choros e lamentações. Minha filha precisava de mim. E naquela noite, percebi de onde vinha a força daquelas mulheres que eu tanto admirava desde entrei na UTI.

 

Vivido em: Novembro de 2014

Escrito em: Julho de 2016

 

 

Postado em 24 de julho de 2015 por Lu Bento

tempo1A vida está corrida e não tenho passado muito por aqui. É a velha desculpa da falta de tempo. Mas a página do Facebook esteve bem ativa durante todo esse tempo e já temos mais de 3 mil pessoas acompanhando as públicações dA mãe preta. A partir de hoje pretendo voltar a postar com uma certa regularidade, mas essa vida de ser mulher-preta-mãe, estudante, trabalhadora, brogueira, dona de casa, esposa, e bla, bla bla… não é fácil pra ninguém. O dia só tem 24 horas e é com isso que a gente tem que se virar. Então, bora lá pra um resumão dos últimos acontecimentos.

Postado em 12 de julho de 2015 por Lu Bento

Na minha página pessoal do facebook e na página do blog eu posto algumas frases das meninas (frases de Isha Bentia, porque Mini Bentia ainda não fala) e situações cotidianas. Hoje resolvi trazer um pouco disso pra cá também, então reproduzo aqui frases que já foram postadas lá.

Postado em 27 de maio de 2015 por Lu Bento

Mini Bentia tem  olhos claros. Não claros de verdade, talvez cor de mel. Um pouco mais claro em  comparação com os meus olhos e os olhos da irmã. Infinitamente longe de serem “olhos claros”. Mas ainda sim essa é uma característica de chama a atenção de algumas pessoas.

Postado em 12 de março de 2015 por Lu Bento

Mini Bentia completou 1 ano. E que ano! Ela chegou abalando nossas estruturas e eu não poderia deixar de escrever o quanto essa menina é especial pra todos nós.

Postado em 9 de março de 2015 por Lu Bento

Antes mesmo do filho nascer precisamos tomar uma decisão que vai ter impacto por toda a vida deste novo ser: definir o nome pelo qual ele será registrado e chamado pelo resto da vida. Hoje vamos falar um pouco sobre a escolha do nome do bebê e com eu escolhi nos nomes das curicas.

Postado em 9 de dezembro de 2014 por Lu Bento
Amamentação tandem

Sempre soube que eu ia amamentar. Desde quando meus seios cresceram, aos 9 anos. Menstruei cedo, me desenvolvi cedo, então aos 9 pra 10 anos já tinha seio. Muito maior que as meninas da minha idade. Maior que os das meninas mais velhas.

Cresci achando meus seios lindos e morrendo de orgulho pois iria meus filhos teriam amamentação materna exclusiva e em livre demanda pelo menos até o 6º mês e obviamente nós seguiríamos com a amamentação até os 2 anos ou mais. E eu ainda seria doadora de leite!!!

Um dos primeiros sintomas de gravidez que eu notava eram os seios maiores e mais sensíveis.  Todos falavam que eu ia ter muito leite. Minha mãe, minhas avós, todas amamentaram. Ninguém teve dificuldade nenhuma. Meus seios nunca chegaram a vazar durante a gravidez, mas eu sabia que isso não era um problema, meu peito tinha sido feito pra amamentar,  a mulher tem a capacidade de amamentar e a criança tem o reflexo de aprender a mamar,  então é a ordem natural da coisa.  A criança nasce, mama na primeira hora de vida, e logo o colostro vem e tudo vai se ajeitando. É um pouco difícil, tem que acertar a pega, o peito pode empedrar, o bico rachar, mas tudo se acerta com paciência, esforço e dedicação. E muito amor.

Na vida real, quando Isha Bentia nasceu numa cesárea “de emergência” às 38 semanas e 1 dia eu ainda não tinha leite. Nem colostro. Nem uma gotinha de nada se me apertasse o seio. Tudo bem, não precisa sair quando aperta, a sucção do bebê é muito mais eficiente.  Ela nasceu quase de madrugada, depois de eu ter passado um dia inteiro na emergência do hospital fazendo exames, observando, em jejum, cansada, com sono. Sem nenhuma experiência com bebês e me sentindo totalmente incapaz de ficar com uma recém-nascida sem a supervisão de alguém experiente,  eu inocentemente aceitei que ela passasse a noite toda no berçário. Lógico que lá ela tomou fórmula na chuquinha pelo menos umas 3 vezes.  Quando veio pro quarto pra mim, ela tinha acabado de tomar uma chuquinha com fórmula (eu pedi pra ela vir as 6h da manhã e ela só chegou as 7h porque estavam dando fórmula antes de mandar pra mãe!!!!).  Praticamente não orientavam como colocar para mamar. Às vezes que eu pedia ajuda e  a equipe chegava, tentava colocar meu seio na boca da bebê por alguns minutos, não saía nada. Então eles falavam pra dar a chuquinha e depois tentar de novo na próxima mamada dali a 3 horas.

Resumo da história: a menina tomou fórmula desde a maternidade. Tentei tirar no primeiro mês e para isso fui a banco de leite, acertei a pega, a pediatra deu todas a orientações para ficar só amamentando, deixava ela mamar em livre demanda mesmo que isso significasse ficar o dia inteiro com ela no peito. Fazia a massagem que eu aprendi antes de amamentar, tentava ficar em um ambiente tranquilo e relaxada. Não acreditava nessas coisa de que tinha que comer isso ou beber aquilo, mas seguia firme a recomendação de comer bem e beber muito líquido. Porém, ao final do primeiro mês ela não teve o ganho esperado de peso, mal recuperou o peso de nascida então bateu o desespero e passamos a complementar de rotina.  Foi um baque pra mim. Fiquei arrasada, destruída, todas as minhas fantasias sobre a amamentação ruíam e eu fiquei sem chão. Pra mim era 8 ou 80. Se era o complemento que alimentava ela, ela não precisava ficar no meu peito. Colocá-la pra mamar só me deixava deprimida. Me sentia traída cada vez que alguém se oferecia para dar mamadeira pra ela, como se aquela pessoa desejasse secretamente que eu falhasse na amamentação para que ela pudesse alimentar minha filha. O marido se tornou o principal culpado de tudo isso. Além de ter me falado de brincadeira antes da filha nascer que precisava comprar NAN pra ela ficar forte, foi a primeira pessoa que eu vi dando chuquinha pra ela. Me senti desnecessária.

Depois de muito sofrer, percebi que a amamentação não era só o alimento. Tinha também a parte dos anticorpos, do vínculo que se construía quando aquele serzinho ficava te olhando nos olhos com os seios na boca. Tentei reverter a situação, fizemos a técnica da relactação para estimular a produção do leite, aluguei uma bomba e nos horários que ela não estava mamando eu tentava tirar um pouco de leite pra estimular o seio e pra fazer a translactação com o meu próprio leite. Quando não utilizava a técnica da relactação, dava os fórmula com colherzinha ou no copinho, para que ela não se acostumasse com o bico da mamadeira. Não dava chupeta por não achar necessário e para não haver confusão de bicos.

Com o tempo, tudo foi ficando cada vez mais difícil e acabamos optando pela praticidade de deixar ela um pouco no peito e depois dar a mamadeira. E assim foi até os 7 meses, quando Isha Bentia mordeu meu seio, eu reclamei com ela e ela nunca mais quis mamar.

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Com Mini Bentia eu tava certa de que tudo seria diferente. Não deixaria que dessem fórmula na maternidade. Já sabia que eles nascem com uma reserva e que as poucas gotinhas de colostro que saíssem eram suficientes para o que ela precisava no hospital. Não deixaria ela ficar um segundo sequer fora da minha vista e ninguém daria fórmula pra ela escondido de mim. Levaria a gravidez até o máximo possível para que ela nascesse quando nós já estivéssemos prontas e o leite viesse com mais faculdade. Estava me preparando para um parto natural humanizado, mas sabia que talvez não fosse rolar. Tudo bem, o importante é que eu ia amamentar numa boa depois, e com uma equipe legal, com certeza ela iria imediatamente para o meu seio após nascer.

Mini Bentia nasceu uma cesariana intra-parto com 39 semanas e 5 dias. Nasceu de madrugada e foi direto pro peito. Eu parecia uma zumbi de tanto sono mas não deixei ela ficar no berçário. Colocava ela no peito a todo instante, e quando apertava logo via umas gotinhas de colostro. A equipe do hospital sempre vinha me orientar em como amamentar, como acertar a pega. Não sei porque isso aconteceu, mas a glicose de Mini Bentia baixou mais que o esperado. Vieram com um copinho de fórmula infantil pra que eu desse pra ela. Não dei. Deixei ela no peito torcendo pra ser o suficiente e foi. Por pouco tempo. Na outra medição a glicose estava normal, e eu fiquei mais tranquila. Achei que tivesse evitado que ela tomasse fórmulas já no hospital. No dia seguinte, levaram Mini Bentia ao berçário pra fazer algum exame e quando voltaram com ela me avisaram que tinham dado fórmula pra ela. Surtei. Falei q não eram pra ter feito isso sem a minha autorização. Chorei horrores, alto, berrando. Muito. Um escândalo mesmo.  A técnica de enfermagem que fez isso nunca mais apareceu na minha frente. O marido ficou preocupadíssimo e começou a procurar um banco de leite, pra ver se complementando com leite humano caso fosse necessário eu ficaria mais calma. Veio um enfermeira especialista em amamentação ficar comigo em todas as mamadas me ajudando (obrigada Paloma!). A pediatra me ligou pedindo desculpas por não ter me avisado que isso poderia acontecer, ficou um tempão no celular só me ouvindo chorar. E olha que eu fiquei um tempão chorando mesmo, sem dizer uma palavra sequer!!! Te amo Fabíola!

A via crucis com Mini Bentia foi: amamentação em livre demanda com pega correta, retirar leite na bombinha e dar na colher ou no copinho e depois passamos pra translactação, 3 pediatras  e todas falando que eu tinha condições de amamentar sem precisar complementar, família me mandando descansar, consultora em amamentação, grupo virtual de apoio a amamentação,  banco de leite, vídeos no youtube, remédio pra ansiedade, vasta bibliografia sobre amamentação, terapia de casal, oscilações entre a vontade de continuar e a decisão de não amamentar mais pra não ficar nesse estresse todo e Mini Bentia sempre ganhando menos peso que o esperado, com dificuldades pra recuperar o peso do nascimento. Tudo isso temperado com crises de choro da mãe, vontade de desistir de tudo, medo, estresse, frustração por precisar fazer outra cesárea, por não amamentar exclusivamente… Ou seja, sintomas da depressão pós-parto.

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Nada disso me dava paz, me senti a mais fracassada das mulheres, algo deveria ser muito errado em mim por eu não conseguir amamentar minhas crias sem precisar de complemento.  O marido, na tentativa de entender porque aquilo tudo me perturbava dessa maneira, me disse “Lu, porque você fica desse jeito? As meninas estão bem, você está amamentado, só precisa de ajuda!” Argumentei que eu não podia nem nutrir as minhas filhas, se  fosse antigamente e não houvesse fórmula elas iriam morrer de fome (dramática!) por minha culpa. Ele logo complementou “você não é a mãe preta do leite.“.

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Essa frase foi pra mim a revelação de tudo. Me fez realmente refletir sobre toda a expectativa que eu mesma coloco sobre mim. Sim, eu me sentia a mãe preta do leite. Aquela que amamenta todo mundo com seus seios fartos que estão sempre jorrando leite. Aquela que faz os bebês ficarem roliços, cheios de dobrinhas só com o seu leite. Não, eu não sou esta. E não, minhas bebê nãos são do tipo roliças. Não, seios grandes não é garantia de ter muito leite. Mas não vazar e não empedrar também não é garantia de que não tenha leite suficiente. E leite materno nunca é fraco.

Tenho certeza de que pra Mini Bentia eu tive leite suficiente para seguir com amamentação exclusiva. Mas não tive condições psicológicas pra seguir sem complementar. Com Isha Bentia provavelmente também, mas não tive tanto suporte quanto eu precisava.

Quem sabe numa próxima (o marido pira quando eu venho com essas ideias!) eu consiga mais paz de espírito pra lidar com essa situação e até consiga finalmente amamentar exclusivamente?

Ps: Eu estou me prometendo escrever um relato de amamentação há tempos. Hoje ele nasceu em plena madrugada, depois da felicidade imensa de poder pegar Mini Bentia no colo e colocá-la novamente no peito depois de 10 dias. Mini Bentia segue internada, mas já se alimenta e já mama. E como mama essa pequenininha!

PS2: Este texto foi publicado inicialmente no blogspot no dia 17/11/2014

 

 

Postado em por Lu Bento

Bombonzinho

Mini Bentia está internada com bronquiolite. Estamos em um hospital particular, em uma região valorizada da cidade. Não é uma região rica, mas é uma região de uma classe média bem de vida.

Postado em por Lu Bento

Depois de muito pensar, relutar, ponderar e adiar finalmente decidi iniciar um blog. Cheguei àquele ponto na vida no qual precisamos parar um pouco, refletir sobre nossos caminhos e escolhas, avaliar os rumos que a nossa vida toma é realinhar o prumo se preciso for. E nesse processo de autoaceitação e autoconhecimento eu vi no blog uma maneira de externar as palavras que vivem presas dentro de mim.

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