Postado em 1 de outubro de 2018 por Lu Bento

Em setembro estreou na Netflix o filme Felicidade por um fio (Nappyli ever after), uma produção original com direção da saudita Haifaa al-Mansour  baseado em uma novela produzida pela Trisha Thomas.  O filme fala sobre um assunto que é fundamental para as mulheres negras: cabelo.  E só de pensar em um filme que fala sobre cabelos e sobre mulheres negras já me vem várias referências de dores, de processos de negação da própria natureza e  de processos intensos de transformação.

Cabelo não é brincadeira para as mulheres negras. Cabelo é um assunto seríssimo, talvez uma dos elementos estéticos com maior impacto em nossa subjetividade. Um dia de cabelo ruim  – bad hair day – é um dia com tendência a ser ruim como um todo e com impactos por vários outros dias.  E não coisa de mulher fresca não. Mulheres negras gastam muito mais tempo para cuidando de seus cabelos, independente se  ela usa cabelo natural ou com algum tipo de tratamento químico. 

Felicidade por um fio entra com propriedade nesse tema. Primeiro por ter sido baseado em uma novela escrita por uma mulher negra, uma entendedora do assunto. Além disso, o filme aborda diferentes aspectos da relação com o cabelo, mostrando o quão complexa é a relação das mulheres negras com seus cabelos. E pra finalizar, a direção primorosa de Haifaa al-Mansour, uma das primeiras diretoras de cinema da Arábia Saudita, conseguiu manter o tom leve durante tudo o filme, mesmo nas cenas mais duras. Como mulher negra, pude observar diferentes aspectos da nossa relação com o cabelo, me identificar com algumas situações vividas sem terminar o filme emocionalmente desgastada. 

Se você não conhece o filme ou não tem Netflix, veja o trailler

Atenção: Esse post CONTÉM SPOILLERS. Falarei em detalhes sobre o filme, inclusive sobre o final, então é por sua conta e risco continuar ok? 

Liso e longo – mulher negra e padrões de beleza

O filme começa com a personagem principal, Violet Jones ( interpretada pela maravilhosa Sanaa Lathan), se preparando para acordar linda e lisa ao lado de seu namorado. Violet super cedo, recebe sua mãe em casa e enquanto a mãe faz escova no cabelo da filha, Violet conta pra mãe que provavelmente ela será pedida em casamento em breve. 

A cena é tão estranha que a gente só entende direito que a mãe foi até a casa da filha pra fazer escova no cabelo dela antes do namorado acordar porque Violet volta pra cama, finge estar dormindo e quando o rapaz acorda ela está linda na cama com os cabelos escovadíssimos. 

A fixação de Violet por um cabelo liso e longo foi fomentada desde cedo pela própria mãe. É interessante como o filme trabalha o impacto das referências maternas na autopercepção das meninas. A mãe da Violet traz consigo um trauma relacionado à aparência: ela tinha sido obrigada por sua própria mãe a usar o cabelo natural crespo em uma época em que se tornou moda o uso de cabelos alisados. 

Então, fica bem explícito no filme que as ações da mãe, exageradas no sentido de garantir que a filha mantenha um cabelo sempre liso e “perfeito”, têm raízes em profundas dores na construção da autoimagem dessa mulher, que impõe à filha uma rotina rígida de manutenção de uma determinado padrão estético.

No filme a mãe da Violet parece uma megera, uma mulher que obriga a filha a manter um determinado tipo de cabelo, mas é perceptível como essa opressão é uma derivação da proteção que essa mãe tenta dedicar à filha.  É uma relação tão complexa, com tantas nuances, que a gente só vai percebendo ao longo do filme, quando a mãe expressa sua história e o motivo de tanta ênfase no cabelo liso e na manutenção de um determinado modo de agir e percebendo a humanidade dessa mulher e a construção de uma autoestima solidificada em dores de racismos sofridos na infância. 

Voltando ao enredo do filme, a expectativa de um noivado não se concretiza, o rapaz alega não conhecer bem Violet e, apesar dela parecer uma futura esposa perfeita, ele não sabe quem ela verdadeiramente é.  Isso foi um choque para a nossa mocinha a fez pensar sobre coisas que ela nunca havia questionado. 

A busca por si própria, seus gostos, sua beleza e sua essência, assume um papel importante na vida da protagonista e é o principal motivador para todo o desenvolvimento do enredo. 

Ser loira – uma escolha ou um escudo?

Violet, na busca por si mesma,  decide pintar o cabelo de loiro. Nada contra a mulheres que pintam o cabelo de loiro, mas essa é uma etapa frequente na jornada feminina negra de autoconhecimento. Ser loira remete a uma sensualidade e uma liberdade idealizada tanto por homens quanto por mulheres. 

Violet se aventura na loirice, adota um visual totalmente contrário à sua personalidade e objetivos de vida. Essa etapa loira foi o ápice da busca pessoal da protagonista por sua essência, por sua identidade. E foi quando ela menos se reconheceu como uma pessoa, a relação que ela estabeleceu foi totalmente objetificada a ponto dela se expor a situações extremamente desconfortáveis. 

Não é minha intenção atribuir ao cabelo loiro a total falta de conexão consigo mesma, mas no contexto de Felicidade por um fio, Violet loira e crespa foi uma grande ruptura com a imagem que Violet faz de si, e acaba simbolizando o momento que ela toma consciência do quanto a sua vida e identidade gira em torno do cabelo. 

Cabelo – tê-los ou não tê-los

A fase de Violet careca é a mais reveladora. Como se sem os cabelos, ela finalmente tivesse a oportunidade de se enxergar de verdade.  Nessa fase ela desabrocha, descobre seus próprios interesses e percebe que sua beleza não está restrita a determinados padrões. Ela se sente livre para romper com o emprego que também reforça esteriótipos de gênero ao esperar que ela produza campanhas publicitárias focadas em um modelo machista de mulher. 

Essa associação entre não ter cabelos e ter liberdade de ser e existir é um dos pontos mais fortes do filme, porque provoca uma reação imediata em qualquer mulher negra, seja ela alisada, ou com cabelos naturais. Não ter cabelos e abdicar da possibilidade de ser definida pelos cabelos, é superar esse marcador e colocá-lo no mesmo patamar de qualquer outro aspecto corporal ( cor dos olhos, altura, peso… ), exercendo influencia em nossa autoestima  sem, contudo, assumir um aspecto dominante. 

Sem cabelo, Violet se viu livre para ser ela mesma, expressar sua essência, romper com padrões e buscar sua felicidade.  Foi sem cabelo que ela se permitiu viver um relacionamento com o cara que representa o oposto de tudo que ela sempre esperou de um homem.  E ser feliz. 

As amarras da menina livre

Toda a transformação da protagonista é provocada pela relação com a menina Zoe, filha de um cabeleireiro dono do próprio salão e criador de produtos específicos para cabelos crespos. 

Zoe representa a liberdade que a protagonista tanto almeja. Quando ela ainda usava o cabelo liso, a menina troca os produtos do salão para provocar um dano no cabelo de Violet. Essa atitude, além de molecagem e rebeldia, demonstra uma frustração de Zoe em não poder ter o cabelo alisado como Violet. 

Violet, por sua vez, se sempre profundamente incomodada em encontrar essa menina que aparenta ser tão livre, usando cabelo natural e roupas largas, vivendo sem se importar em se adequar a determinados padrões. Zoe incomoda a menina interior de Violet, que cresceu frustrada por precisar se esforçar tanto para ser um determinado tipo de mulher esperado pela sociedade e, principalmente pela mãe. 

Aí, cabe destacar que Zoe é uma menina criada unicamente pelo pai, colocando essa liberdade de não seguir um padrão esperado de feminino um exemplo de como os homens educam “melhor” as crianças e conseguem criar meninas com autoestima mais elevada. 

Mas Zoe não é tão bem resolvida consigo mesma quanto parece. A menina tem um desejo de adotar um cabelo alisado e um visual mais “feminino”, mas se sente perdida no reconhecimento da própria beleza e na construção da autoimagem. A menina sente falta de uma referência feminina e a ausência da mãe, que simplesmente decidiu que a maternidade não era para ela e decidiu abandonar a família, tem um forte  impacto em sua vida. 

Violet e Zoe começam com uma relação conflituosa que aos poucos se transforma em amizade, cada uma fascinada pela aparente liberdade  da outra de ser quem se é.  Vejo a relação delas como um encontro no espelho do tempo, a Zoe ansiando para ser como a Violet e a Violet vendo na Zoe a menina que ela gostaria de ter sido. 

Esse é um lindo pedaço do filme que mostra o quanto essa pressão por uma determinada estética já afeta a subjetividade das meninas negras muito cedo e que é uma questão importante na infância negra. Meninas negras já são tocadas desde muito cedo por questões relacionadas à aparência, questões extremamente opressoras e racistas. 

Crescimento capilar

O crescimento do cabelo de Violet representou muito bem o crescimento da própria personagem, que se permitiu voltar a se relacionar com Clint (que homem, senhoras!) e experimentar coisas que ela não fazia devido  o tempo que ela precisa costuma dedicar aos cuidados com o cabelo e as restrições que ela se autoimpunha.

Foi também com os cabelos curtos que ela se permitiu se relacionar com Will, experimentar uma novo tipo de relação baseado na parceria e no companheiros, sem que preocupar em ser a parceira ideal para um homem e com liberdade para se expressar. 

Violet rompe com o seu trabalho na publicidade, sempre com projetos voltados para a manutenção de um esteriótipo de feminilidade. É a mulher crescendo e se libertando junto com os seus cabelos. Sem dúvidas, essa é a parte mais emociante do filme. 

E os homens nessa história toda?

Um dos aspectos que eu menos gostei no filme foi como os homens foram retratados como pessoas sem problemas, com autoestima elevada e total segurança em suas ações. 

O pai de Violet decide seguir a carreira de modelo, e mesmo com a esposa sendo fortemente contra, ele investe no sonho já na meia-idade e segue fazendo sucesso pelo seu físico com mulheres de todas as idades. 

O ex-namorado, tão logo terminou já engatou uma paquera com uma médica do seu trabalho, uma mulher negra com o cabelo alisado do mesmo perfil que a Violet. 

O terceiro rapaz, um cabeleireiro que cria a filha sozinho, assumiu a profissão pouco  valorizada para homens heterossexuais sem nenhum preconceito, tem a casa repleta de plantas e muita autoconfiança. Diante da falta de confiança de Violet em apresentá-lo como namorado para a mãe, falando exatamente quem ele é,  Will não teve dúvidas em romper o relacionamento e priorizar um ambiente seguro e saudável para a filha.  Eu sei que ele é um personagem secundário, e que não era o foco do filme mostra as reações e sentimentos dele diante das situações, mas  mostrar apenas o pragmatismo da decisão do término da relação, passa a impressão de não houve um impacto emocional com o término, contrastando com os sentimentos demonstrados pelas mulheres. São três representações masculinas que passam a ideia de que os homens não tem problemas de autoestima, os problemas estão com as mulheres. E isso é tão cruel e machista que me fez sentir raiva do filme. Por que homens tão perfeitos e mulheres tão perturbadas por padrões externos?


Dica da AMP: 

Tem muita gente boa falando sobre Felicidade por um fio. Eu recomendo o vídeo da Gabi Oliveira. Ela fala da importância em se discutir temas como representatividade, estética, machismo e o quanto o filme contribui para essas discussões. 

Recomendo também, para quem quer se aprofundar das discussões sobre mulheres negras e cabelo, o documentário do Chris Rock ( sim, ele faz mais que palhaçadas!) Good Hair. 

O livro infantil Histórias de ninar para garotas rebeldes também traz algo interessante sobre o tema. Lá podemos ler sobre a madame C.J. Walker, uma mulher negra que enriqueceu através de uma fórmula capilar pra cabelos crespos. Também é possível ouvir essa história lida por Mafoane Odara no podcast que leva o nome do livro. 

E como um assunto puxa o outro, finalizo minhas indicações com o livro Beleza Natural, que conta a história da rede de salões criados pela Zica Assis, uma mulher negra que desenvolveu sua própria formula de relaxamento capilar e se tornou referencia em cuidados com cabelos crespos. 


Felicidade por um fio é um filme que mostra que ainda há muita coisa para ser discutida e estudada sobre a relação das mulheres negras e seus cabelos.  E o quanto esse assunto rende entre nós. O filme está disponível na Netflix e vale a pena ser assistido como  uma produção que apresenta algumas chaves de análise e reflexão sobre autoestima de mulheres negras. 

Postado em 1 de julho de 2018 por Lu Bento

Hoje começamos um novo cantinho aqui no blog para compartilhar a visão de maternidade de outras mães pretas. Nessa estreia, Nanda de Oliveira, criadora de um manual para promover a diversidade e inclusão na educação, compartilha conosco a sua experiência de maternidade.

Acompanhe!

AMP:Quem é Nanda de Oliveira?

Meu nome é Fernanda, Nanda para os amigos. Tenho 37 anos, sou bacharel em direito, funcionária pública, consultora capilar de “Deixa a Madeixa”, corredora amadora (conteúdos relativos à corrida são compartilhados no instablog corredoras cacheadas) e mãe da Inaê, de 3 anos.

AMP: Como foi a sua gravidez?

A gravidez da minha filha foi planejada e desejada. A construção de sua identidade preta começou desde que ela estava na minha barriga, passando pela decoração do quarto, aquisição de livros com protagonismo negro, bonecas e escolha do nome.

AMP: Você ou sua filha já passaram por alguma situação de racismo que você queira relatar? Conte como foi e como vocês reagiram.

Me pergunto qual negro não tenha passado e também poderia ficar relatando várias situações, mas gosto de focar no racismo estrutural. A mais recente foi ser confundida DUAS vezes como funcionária de uma loja de departamento esportivo, onde TODOS os vendedores usam coletes com o nome da loja.

AMP: O que você acha que existe de diferente entre ser uma mãe branca ou negra na sociedade brasileira?

Nossa, várias coisas, que gosto de dizer que são privilégios. Não se preocupar se a escola estará preparada para receber seu filho; que aborde diversidade, que tenha representatividade nos materiais didáticos e no corpo docente. Mãe branca compra roupa pra filha ou filho sem se preocupar se a figura estampada realmente represente seu filho; não precisa instruir seu filho como andar na rua para não ser confundido com ladrão; não se preocupa que seu filho vire estatística. Enfim, elas constantemente têm o privilégio de descansar.

AMP: Com relação a abordagem racial, a relação que você tem com sua filha  é semelhante a que você teve na infância?

Não. Totalmente diferente. Até porque hoje em dia temos mais ferramentas para empoderar nossos filhos. Quando eu era criança, apesar de saber que era negra, nunca foi um hábito da minha família conversar sobre as questões da negritude (racismo, empoderamento, etc).

Educação Antirracista

AMP: Você acredita na importância de uma educação com o recorde racial?

A educação antirracista é o único caminho para uma sociedade mais justa e igualitária.

AMP: A escola da sua filha faz alguma abordagem da lei 10639/03? Você faz alguma coisa para que a escola tenha mais representatividade?

A escola da Inaê possui um quadro de funcionários diverso (desde corpo docente a auxiliares), mas ainda há muito que caminha na questão racial. Não a reconheceria como uma instituição antirracista. A impressão que tenho é que eles nunca foram questionados sobre isso antes de mim. E também se apoiam muito na metodologia montessoriana para se esquivar das responsabilidades. Depois de uma conversa que tive no ano passado notei algumas pequenas mudanças (tô na vibe de comemorar cada uma delas), mas sei que há muito mais que pode e deve ser feito neste quesito.

Nanda de Oliveira

Empoderamento e Autocuidado

 

AMP: O que você faz para elevar a autoestima da sua filha?

Busco referências positivas. Mostro a beleza dos seus traços, do seu cabelo e sempre elogio.

AMP: O que você faz para elevar a sua autoestima?

Gosto de um tempo pra mim. Fazer as coisas que eu gosto. Confesso que depois que tornei mãe e o tempo ficou mais escasso faço uma escala de prioridades. E procuro sempre atender às minhas necessidade de saúde, beleza e bem-estar.

AMP: O que você faz para cuidar de si?

Pratico esporte e faço coisas que me deem prazer, desde a cursos a ficar maratonando séries no Netflix.

Rede de Apoio

AMP: Como é o compartilhamento de responsabilidades sobre a criação da sua filha? O pai dela divide as responsabilidades? Você se sente sobrecarregada de alguma forma?

As responsabilidades são divididas, mas de uma forma ou de outra sempre sobra mais para mãe. O homem não foi educado para ser pai e essa desconstrução e esse aprendizado tem que ser diário. Aqui em casa, meu marido sempre acompanhou tudo desde a gestação, fica com a Inaê na parte da manhã (para que eu possa treinar e trabalhar), dá banho, comida, coloca pra dormir, brinca….efetivamente está presente, mas sempre tenho que estar atenta para que a machonormatividade não se impere.

 

AMP: Existe um provérbio africano que diz “é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança”. Você tem uma rede de apoio que te ajuda na criação dos seus filhos?

Minha mãe e minha irmã (madrinha da Inaê) são verdadeiros anjos e sempre me ajudaram muito.

AMP: Se você tem um relacionamento interracial/multirracial: Quais questões te chamam mais atenção na sua vivência? Como a sua família lida com as situações de preconceito e discriminação que eventualmente acontece com os membros de pele mais escura?

Sou casada com um homem não negro e, apesar de sempre estar envolvido nas questões relacionadas à negritude ele está aprendendo a ser pai de uma criança negra, pois não teve as vivencias do racismo. Esse envolvimento com nossa cultura (música / religião) que, pra nossa relação, foi essencial não é o suficiente para sua paternidade. E neste aspecto, toda família tem aprendido: ele na sua desconstrução, eu no fortalecimento da minha identidade e a Inaê na educação descolonizada que estamos proporcionando a ela através do contato com elementos da nossa cultura.

Nanda de Oliveira

 Maternância

AMP: Eu costumo usar a expressão maternância para falar que a maternidade exercida pela mulher negra é uma espécie de militância na medida em que a gente passa a desenvolver estratégias pra combater o racismo e evitar que nossos filhos sofram os impactos dele. Você acredita em maternância? Se sim, como você vê que exerce a sua maternância?

Acredito e depois que aprendi esse termo com você eu praticamente o incorporei. Rs. A maternidade foi a terceira e mais impactante cortina que se abriu para que pudesse expandir minha consciência racial. Pela minha filha eu senti a necessidade de escrever um manual para promover a diversidade e a inclusão no ambiente escolar. Através da maternância veio a necessidade/desejo de aprender mais sobre a nossa história, sobre a história da Africa e me levou a fazer cursos sobre o tema. O conhecimento liberta e esse manual é um chamado para que nossos filhos e todos os cidadãos tenham acesso à uma educação descolonizada.

AMP:  Cite uma mãe negra que te inspira de alguma forma.

Nossa, são tantas. Vou citar da minha família: minha mãe e minhas saudosas avós. Minhas queridas irmães Lu Bento (conhece? Rs), Clélia Rosa e Egnalda Côrtes.


Essa foi a Nanda de Oliveira. Conheça essa mãe preta e acompanhe seu trabalho nas redes sociais: instagram | facebook

 

 

Postado em 1 de outubro de 2017 por Lu Bento

Estou prestes a realizar a minha primeira viagem longa sem as meninas. Pra quem viaja sempre, pode não ser nada demais. Mas pra mim, a proximidade dessa experiência está reativando aquele sentimento de culpa que se instala em todas as mães assim que começam a viver a maternidade.

Viajo para Espanha em outubro para participar da Gira por la Infancia, um grande encontro internacional sobre promoção da participação infantil no mundo. A proposta da viagem é incrível e eu fui convidada a participar devido ao meu projeto 100 meninas negras e todas as atividades que realizo em prol de uma infância sem racismo. É uma grande oportunidade pra mim e estou muito feliz em participar desse projeto.

 

Mas com a proximidade da viagem, eu preciso explicar para as meninas sobre esses dias que estarei fora ( 3  longas semanas!) e como será a dinâmica da casa enquanto eu estiver fora. Decidi começar a falar sobre isso com 1 mês de antecedência para que a gente fosse se adaptando aos poucos. Ao meu ver, seria bem traumático só falar com elas sobre isso na semana da viagem. Queria que elas estivessem envolvidas na preparação da viagem, ma arrumação das coisas e entendessem que essa é uma experiência boa para toda a família.

Aqui em casa temos uma parceria incrível no cuidados das meninas e sei que o pai vai dar conta direitinho da missão. Elas sentirão saudades de mim como pessoa, mas não por se sentirem desassistidas ou desamparadas e isso me dá mais segurança e tranquilidade para viajar. Mas também sei que a saudade vai bater de ambos os lados em algum momento e que não vai ser nada fácil lidar com os apelos de “mamãe, volta logo!” que eu vou ouvir.

Isha Bentia, com 5 anos, consegue compreender melhor e costuma lidar de uma forma bem madura com as frustrações. Ela fica calada, meio triste, mas parece entender quando a gente não consegue atender uma demanda dela. Mini Bentia, com 3 anos e psiciana de corpo e alma, chora sempre que se sente triste. Chora, pede pra gente voltar, abre um berreiro. Mesmo sabendo como ela age, sei que isso vi me abalar e reacender a culpa por estar longe. Não sou aquela mãe super apegada às filhas, que não consegue ficar um dia longe, mas o meu complexo de culpa bate exatamente n

a questão de priorizar algo importante pra mim em oposição a algo importante pra elas.  E essa viagem é uma grande oportunidade pra mim. Além disso, decidi ficar mais alguns dias na Espanha após  o encontro pra conhecer mais a fundo Madrid. Aí já viu né, podendo voltar antes pra casa eu vou ficar sozinha curtindo uma viagem enquanto marido e filhas seguram a onda.

Racionalmente a gente sabe tudo que provavelmente acontecerá, como cada um de nós vai reagir e como enfrentar a situação. Mas a verdade é que e bate um medinho de ficar tão longe delas. De não estar aqui para resolver o problemas, para acolher as meninas quando elas precisam.

 

Viajar sem filhos – a culpa da mãe

 

A verdade é que em nossa sociedade, a mulher é quem assume a maior parte (ou mesmo a totalmente) a responsabilidade de cuidados com as crianças. Então, para uma mulher-mãe viajar sem filhos deixando as crianças aos cuidados de outras pessoas é bem pesado. Primeiro porque você se cobra quando a necessidade de se afastar das crianças por um determinado tempo. Depois porque a sociedade te cobra quanto a isso.

Quantas vezes eu falo que estou prestes a viajar e alguém me pergunta ” E as menina, como vão ficar?” O primeiro pensamento de uma mulher-mãe que queira viajar é quem cuidará dos meus filhos. Se você planeja uma viagem, mas não tem essa resposta na ponta da língua será julgada e mal-falada. Como se nossa vida depois de ter filhos se resumisse a cuidar deles, tê-los sempre como prioridade, abdicar da nossa autonomia como ser humano para viver em função deles.

“É preciso uma aldeia para cuidar de uma criança” já diz o provérbio africano. A gente precisa se aproximar desse conceito como uma mantra e começar a responsabilizar os outros integrantes da nossa rede nesses cuidados. Mãe também é gente e precisamos do nosso espaço. Precismos existir para além da maternidade e essa existência deve ser construída na medida em que gente afrouxa as amarras com as crias. Elas precisam de laços fortes com outras pessoas da rede também.

Estou tentado levar numa boa essa minha primeira experiência de desatar os nós com as meninas e deixar que a minha rede cuide delas.

Postado em 13 de agosto de 2017 por Lu Bento

Eu tenho escrito muito pouco nesse espaço. Sempre me culpo bastante por não dar a devida atenção pro meu blog. Eu tenho várias ideias do que eu poderia fazer nesse espaço, planejo várias postagens, escrevo rascunhos mas quando chega a hora de publicar eu simplesmente deixo pra lá, como se algo que viesse de mim não fosse importante. Isso. Eu deixo esse blog de lado porque esse é um projeto meu e eu não tenho o hábito de me tratar como prioridade. Eu ignoro minhas necessidades, minhas demandas pessoais e foco mais no coletivo: as meninas, a família, o trabalho, os projetos em grupo…

Por falta de tempo (na justificativa oficial) e por falta de vontade, deixo de lado a minha escrita e minha ideias. E por mais que eu parece satisfeita fazendo a coisas que todos querem que eu faça, fica um vazio em mim, uma frustração por tantas ideias desperdiçadas, tantas projetos abortados, tantas falas reprimidas e sufocadas em minha própria mente.

Sinto que a escrita pode ser um verdadeiro caminho para que eu priorize as minhas necessidades. Faz muito pouco tempo que eu passei a gostar de escrever. A gostar do que eu escrevo. E esse gostar tem muito a ver com deixar de ser tão crítica e me permitir aprender coisas novas.

Estou gostando muito desse processo. Esse ano estou fazendo um curso de escrita e autoconhecimento parra mulheres. É um curso grande, cm aulas todas as semanas, onde a gente é estimulada a escrever de forma intercalada a práticas de meditação, relaxamento, autocuidado. A escrita é quase uma ferramenta terapêutica de expressão dos nossos sentimentos, mesmo que nem sempre sejam propostos textos autobiográficos. É um espaço sem julgamentos, sem pressões por determinada forma. Saio de lá mais leve para encarar a semana e mais confortável com a minha própria escrita.

Percebi que eu tinha um grande bloqueio com a escrita. Tenho dificuldade de se lida, de aceitar que as pessoas podem ser e gostar do que eu escrevo. Óbvio que isso tem relação com a minha autoestima, não é? Eu sempre sinto que o que eu tenho a dizer não é uma prioridade, posso fazer outras coisas antes, posso ouvir as outras pessoas, dar voz ao que elas querem dizer.

Mas e eu? Eu venho sempre por último.

Tomar consciência disso e um primeiro passo pra buscar a mudança. Estou tentando me sentir mais confortável em postar aqui, em escrever meus poemas e em mostrar pras pessoas. Em me posicionar como escritora.  O curso tá na metade, tenho uma boa caminhada até o final do ano. Espero que ao longo desse semestre a minha escrita vá subindo alguns degraus na estada das prioridades em minha vida.

Postado em 20 de abril de 2017 por Lu Bento

Ontem saiu um texto da Patrícia Froes no blog #AgoraÉQueSãoElas, da Folha,  intitulado “Filho, o mundo não é seu”, falando da sua experiência em ser mãe de um menino branco e abonado e da necessidade de ensinar ao filho que o mundo não é dele.  O texto é bem interessante e o título me provocou a ponto de pensar que ela falava em termos mais gerais, fazendo uma contraposição a noção que a nossa geração Y teve de que somos o centro do mundo. Comecei a ler o texto bem de boa, pensado nessas coisas mas logo percebi que ela falava de um ponto bem específico e necessário. O que Patrícia traz é uma reflexão sobre a posição do homem branco e rico na sociedade brasileira. Ressalto que Patrícia não usa o termo rico, e eu o uso sem nenhuma conotação ofensiva,  apenas para que a gente possa realmente colocar as ideias às claras.

Muitas ideias me vem sobre as reflexões trazidas por Patrícia e pela ausência de problematização da questão racial na desconstrução dos privilégios.  E obviamente, fiquei tentada a escrever sobre isso. Rascunhei um texto, pensei muito sobre o assunto e em como expressar a necessidade das pessoas brancas se posicionaram diante do racismo de forma assertiva e combativa,  mas no final das meninanegrapulando1contas, pra mim,  é muito mais importante gastar minhas energias reafirmando pras nossas pretinhas que o mundo é delas. Que o mundo é nosso!

Porque essa mesma sociedade que  passa o tempo todo reforçando que o mundo é dos homens brancos e ricos, também reforça que o mundo não é das mulheres negras. E aí a questão de classe se torna menos relevante, porque basta ser negra para a mulher seja discriminada, não importa o quão recheada é a sua conta bancária. A sociedade grita o tempo todo que o mundo não é nosso. Tão alto que muitas vezes não conseguimos ouvir nossa voz interna nos dizendo para ocupar nosso lugar no mundo. Como mulher e mãe negra, se eu tenho forças pra lutar, que minha luta seja para que essas meninas negras não sejam empurradas para a subserviência e baixa autoestima pela enxurrada racista que recebemos todos os dias. Porque eu desejo que nós, mães e pais de pretos, sejamos a barreira de contenção que não deixa a autoestima das nossas novas gerações cair barranco abaixo. E mais que isso, que nós sejamos molas propulsoras, colocando nossas crianças para voarem futuros ainda mais altos do que o sistema racista espera de nós.

Reafirmando a negritude

Eu tenho filhas pretas. Eu poderia dizer simplesmente estimular minhas filhas dizendo “filha, o mundo é seu”. Mas não colocar a nossa negritude nessa frase de motivação e incentivo das meninas negras é uma forma de cair no mito da democracia racial que nos invisibiliza e nos desumaniza, como negros tivessem que se sentir contemplados pelo padrão branco e o discurso de que “não importa a cor”. A cor da pele importa sim! Muito. Uma mulher branca alcançando um posto de destaque em uma grande empresa não é o suficiente para que eu e minhas filhas nos vejamos nessa posição pelo simples fato de que quase nunca vemos uma mulher negra nessa posição de destaque e sucesso como uma representação de conquista de todas as mulheres. Quando uma mulher negra ascende ela é vista e lembrada como uma referência para as mulheres negras e só.

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Eu não estou com isso querendo incitar uma divisão racial, uma segregação. Até porque essa divisão racial já existe na sociedade em que vivemos. Raramente uma pessoa branca escolherá uma pessoa negra como referência universal para qualquer coisa porque simplesmente pessoas brancas não se conectam com referenciais negros.  Uma revista com uma modelo negra na capa vende menos que uma revista com uma modelo branca. Por que isso acontece? Porque o público da revista, majoritariamente branco, quando vê uma mulher negra na capa entende que aquela matéria não é pra ele, não é do interesse dele. Como reação a isso,  as revistas colocam menos negras nas capas e alegam que “negro não vende”.

O ciclo é perverso, é cruel e contínuo. Ele se retroalimenta quando a vendedora diz pra menina branca que ela não deve comprar uma boneca negra porque a boneca bonita é a loira de olhos azuis ou quando a professora dá um lápis rosa chamado “cor de pele” para que a criança negra pinte o desenho. O tempo todo nossas crianças “aprendem” que nossa cor de pele não é valorizada e que a gente “precisa” se sentir contemplado por representações brancas.

Então, ao falar pras minhas filhas que o mundo é delas, eu reforço e valorizo nosso lugar de mulher preta, coloco o Pretinha como um vocativo afetivo e com isso, reforço o olhar positivo para a nossa negritude.

Fortalecendo a autoestima

World map (globe) in an African school

Nossa missão é romper com esse ciclo, ocupar os espaços, abrir portas, chutá-las se for preciso. Pretinha, o mundo é seu! Não aceite quando falarem que você não tem o perfil. Não ceda quando falarem que seu cabelo ficaria melhor se você fizesse uma escova. Não desista quando falarem que seria melhor você cursar pedagogia ou invés de engenharia porque existem engenheiras negras. Pretinha, o mundo é seu! Ocupe-o! Tome posse do seu espaço, questione os privilégios, afronte os privilegiados. Porque, na realidade, não podemos esperar que ninguém ceda seus privilégios e nos dê acesso ao nosso espaço de direito. Precisamos ir lá e ocupar. E mostrar que a gente tem plenas condições de ocupar esses lugares tão bem ou até mesmo melhor que todos esses que hoje têm acesso a eles por serem privilegiados. E não é porque nosso acesso foi garantido por ações afirmativas que nosso direito e nossa capacidade de estar lá devem ser questionadas ou diminuídas.

 

Pretinha, o mundo é seu! Não precisa esconder ou se envergonhar de ter feito algo incrível e ter seu talento reconhecido. Não precisa baixar a cabeça e se desculpar por tudo que deu errado, quando você não tepretinha, o mundo é seunha culpa nenhuma nesse processo. Não precisa desistir antes mesmo de tentar com medo de ser barrada. Não precisa ter medo de romper com os lugares que o sistema racista destina para as mulheres negras.

Ser mulher e negra não é essa molezinha de ter tudo esperando por você. É um remar contra a maré racista que insiste e nos levar pro fundo. Quando a gente repete pra uma menina negra que o mundo é dela, estamos também repetindo pra nós mesmas. O mundo é nosso, pretinhas!  A construção da nossa autoestima é um processo constante, porque a desconstrução racista também é.  Então repita em voz alta pra si mesma e pra todas nós: pretinha, o mundo é seu! Somos resistência e não tem sistema racista e machista que vai nos fazer parar. O mundo é seu, pretinha. Não tenha medo de ocupar o seu lugar.

Postado em 8 de abril de 2017 por Lu Bento

Olá Pessoal!

Estou de volta. Sim, dei uma sumida bem louca e bem mais intensa que o normal. Precisava de um respiro.  Eu não queria mais escrever nem pensar sobre a maternidade, queria dar um tempo nisso de blog, de facebook, de qualquer coisa que me colocasse de alguma forma em evidência.

P_20161107_150242_BFO motivo oficial da ausência foi a reestruturação do blog. De fato alterar a cara do blog dá um trabalhão e leva um certo tempo. Mas eu estava tão saturada de tudo isso que nem motivação pra atualizar as informações eu tinha. Acabei deixando tudo paradão mesmo pra descansar a mente. Tirei férias, assisti um monte de séries, saí com o marido e as filhas, trabalhei na InaLivros, minha livraria, e preguicei muito. Muito mesmo. Foi um período de relaxamento total.

Uma das coisas que contribuiu muito para a minha ausência durante esse temo foi que eu participei, no final do anologo_ame passado, um curso incrível sobre empreendedorismo materno com a querida Melodia Moreno. A Academia de Mães Empreendedoras me deu um monte de insigths para melhorar aqui no blog e nos trabalhos que realizo na vida. E foi  a partir da A.ME. descobri que quero muito falar mais sobre gravidez de risco e perda gestacional.   Sim,  esses temas fazem parte da minha vida há 10 anos e eu preciso compartilhar isso com outras mulheres. Tem muita coisa que eu aprendi com meus abortos e com as minhas gravidezes de risco,minha experiência de vida pode ajudar muitas mulheres e eu sei da importância de compartilhar tudo isso. Mas ao mesmo tempo, são assuntos que ainda me doem muito. Que mexem comigo, que me desestabilizam emocionalmente e que eu evito entrar em contato verdadeiro e consciente. Como falar sobre isso, incentivar e apoiar outras mulheres se eu mesma ainda não lido bem com meus sentimentos? Precisava de uma busca interior para reconhecer os pontos de ainda me doem em minha história de vida para ressignificá-los.

Então, a partir do que eu descobri sobre o que eu quero fazer no curso da Mel,  decidi me permitir tocar mais nesses Lu Bento - foto Bianca Santanaassuntos e refletir sobre meus sentimentos e história de vida. Alem da terapia, que eu já tinha iniciado no começo de 2016, busquei formas alternativas de me entender e me expressar. Esse ano comecei a fazer um curso incrível de escrita e autoconhecimento com a maravilhosa Bianca Santana que está me tirando da minha zona de conforto. Além de exercitar a minha expressão escrita, que é fundamental pra quem se propõe a escrever para que outras pessoas leiam, o curso está me fazendo pensar sobre várias coisas na minha vida e descobrir outas formas de me ver e ver o mundo. É um curso só pra mulheres e tem uma vibração toda especial de apoio e irmandade que tem me fortalecido demais nesse propósito de busca interior. Quando olhamos pra dentro vemos todas aquelas coisas que tentamos por muito esconder de nós mesmos. Então, estou diariamente diante desse meu espelho interno, olhando pras minhas feridas e cuidando delas para que finalmente cicatrizem, deixando aquelas marcas de quem tem histórias pra contar.

9d41f7b342496988897d004af87fe87aNo final do ano passado também dei algumas entrevistas sobre maternidade e negritude que me fizeram refletir ainda mais sobre tudo que  blog e os espaços de maternância negra representam pra mim. E o quanto a gente precisa de mais espaços assim. Com isso, eu também parei pra analisar o conteúdo eu tenho compartilhado com vocês, quais questões eu tenho abordado aqui e como eu tenho feito tudo isso. Percebi que agora esse não é mais só um espaço de desabafo, já ganhou outra dimensão de existência: este é um espaço coletivo de fortalecimento de mães negras e de informação para as pessoas que buscam uma atitude antirracista. E eu preciso aprender a lidar com isso. Não é tão fácil e nem natural pra mim me ver nesse lugar, mas sei que esse lugar  é fruto de uma construção que  tenho feito ao longo dos anos e esse blog já nem é tão novinho assim. O AMP já está em seu 3º ano no ar.

Outro passo que dei e que fico muito feliz em ter começado a me moyoga1vimentar nesse sentido foi que decidi estudar tarô.  Com o apoio da Marcela Alves, tenho  mergulhado nas cartas para desvendar suas mensagens e significados  e esse movimento rumo ao não explicado cientifica
mente têm me ajudado a perceber outras dimensões da vida, que se me afastam desse ceticismo todo que geralmente domina a vida ateia. Também comecei um curso sobre chakras com a querida Debora Pivotto e tem sido surpreendentemente incrível. Só a oportunidade de viver a experiência de leitura de aura já vale muito a pena. Como essas leituras têm sido importantes pra destravar em mim falas que eram muito contidas nas seções de terapia. Sem dúvidas todo esse movimento complementar de autoconhecimento melhorou  muito minha interação nas sessões de terapia e me sinto muito bem.

Paralelo a tudo isso, meu marido agora trabalha em casa e assumiu muitas das responsabilidades com as meninas, o que me permite fazer todo esse movimento de olhar pra mim. Vocês  sabem o quanto é importante temos a possibilidade de ter um tempo pra si dentro da nossa rotina caótica de mãe/esposa/trabalhadora. Só para que vocês tenham uma ideia da importância desse tempo, hoe eu tomo banho sozinha, eu passo cremes no rosto, no corpo e no cabelo antes de dormir, eu assisto minhas séries favoritas. Eu existo para além das minhas funções de mãe, esposa, dona de casa e trabalhadora. E eu repito muito o “eu” simplesmente porque depois de tanto tempo falando e pensado o nós, poder falar e pensar o eu é fascinante!

Estou em uma verdadeira jornada em busca do meu autoconhecimento e minhas potencialidades  e esse caminho tem várias etapas e desafios. Falarei melhor sobre a minha jornada em outra postagem,  agora eu só queria ressaltar que estou vivendo um processo de transformação intenso e dolorido, que cutuca minhas feridas e destrói crenças que eu cultivei para me esconder em minha dor.

Então a volta ao blog exprime um pouco disso tudo que estou vivendo e que ainda vou viver esse ano. É provável que tenhamos mais textos sobre autoconhecimento, autocuidado e autoestima por aqui na categoria Empoderamento, bem como alguns textos literários autorais na categoria Escrevivências. As categorias agora estão melhor divididas. Continuo falando de Maternância e Literatura, minhas maiores paixões. Coloquei em categorias específicas os textos mais voltados para Educação e Combate ao Racismo, já que muitas pessoas chegam aqui a partir desse temas. Outra categoria nova é a de Inspirações, onde eu indico outras trabalhos incríveis nas redes sociais sobre os temas do blog e compartilho um pouco do que curto por aí.  E, a que sinto ser a categoria mais especial de todas, é a Mães Pretas, onde eu publico textos de outras mulheres e mães que querem compartilhar também suas histórias. Precisamos de espaço nas nos expressar e nos ouvir. Alguns vezes serão textos próprios dessas mulheres, outras vezes serão entrevistas. O formato não é o mais importante no momento e sim o conteúdo e a cura coletiva que ele proporciona. Sintam-se convidadas a colaborar com esse espaço.

AMP - Capa para faebook

Não poderia deixar de agradecer ao Célio Campos, Mutanóide, o artista incrível que fez a ilustração do blog e maravilhosa Ella Jardim que fez todo o design e deixou o blog com essa cara bem mais moderna e funcional.Muito obrigada! O trabalho deles ficou muito legal, amei o resultado e gostaria de ouvir as opiniões de vocês.

A verdade é que voltei pro blog cheia de projetos e desejos, uma energia que percorre meu corpo e transborda em vontade de compartilhar com vocês  meus pensamentos e experiências.

Bem-vindos de volta! Bora ocupar esse espaço que existe pra gente!

 

Postado em 17 de outubro de 2016 por Lu Bento

Nesse final de semana aconteceu o 1º Encontro Iyá Maternância. Já tínhamos feito um aquecimento em abril deste ano pra sentir como as mulheres-mães-negras receberiam o nosso projeto. Nesse encontro de aquecimento foi possível vivenciar na prática o quanto precisamos de espaços de fortalecimento de nossa autoestima e da nossa coletividade.  O Iyá Maternância nasceu de um modo tão intenso e significativo que nós, as organizadoras,  precisamos de um tempo pra entender a potência desse projeto e aceitarmos o quanto ele é necessário para todas nós.  Do grupo inicial, algumas perceberam que precisavam priorizar outros  caminhos antes de seguir com essa missão. Outras maravilhosas mães pretas se juntaram ao projeto e trouxeram uma nova energia. Uma energia de ação e transformação que nos possibilitou colocar o projeto em prática.

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No sábado passado finalmente conseguimos realizar o nosso primeiro encontro oficial. E foi muito especial! Parece clichê falar da lindeza que foi esse encontro, mas a beleza de existirmos e resistirmos juntas precisa ser exaltada. Foi uma tarde de união de mulheres negras e mães, de brincadeiras entre crianças negras, de vivência comunitária nos cuidados das nossas crias, que naquele encontro não deixaram de ser apenas uma responsabilidade só da mãe biológica,passou a ser de todas. Sabe aquele provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia para criar uma criança? Estávamos vivendo a nossa aldeia! E descobrimos juntas o quanto a aldeia pode também fortalecer uma mãe.

Descobrimos juntas que o Iyá nasceu para ser uma rede de apoio às mães negras. E faremos o possível para conseguir atingir um número cada vez maior de mulheres-mães.

O encontro deste sábado nos mostrou que precisamos estar unidas. Que nossas histórias de vida e nossas angustias são muito parecidas. E que precisamos nos fortalecer para fortalecermos nossos filhos e filhas. Não podemos dar aquilo que não temos. Então um espaço de troca afetiva e de apoio sincero precisa ser construído entre nós. Ainda não sabemos todos os caminhos para a construção desse espaço. Mas já estamos trabalhando nos alicerces desse projeto em nós e nas mulheres que nos acompanham.

E as crianças? Ah, as crianças tiveram uma tarde maravilhosa de brincadeiras. Crianças de diferentes idades brincados juntas, se integrando e se  reconhecendo no outro. Bebês e pequeninos tendo as crianças maiores como referência. Um espaço em que nos nossos filhos não são minoria, não são exceção, não são exóticos. Isso não tem preço. Minha filha poder falar que quando crescer quer o cabelo como o da coleguinha negra, um black power poderoso, lindo. Meninos e meninas brincando juntos, sem limitações de gênero, com as bonecas  ou de corrida.

Como uma das coordenadoras do Iyá eu sinto uma felicidade enorme em fazer parte dessa rede de apoio às mães e crianças negras e poder construir tudo isso com mulheres incríveis ao meu lado. Parceiras de vida. A maternância é uma das melhores dimensões da minha vida, uma das coisas que me dá mais prazer e um sentimento de estar contribuindo para a felicidade das pessoas ao meu redor.

iya maternancia 4 - foto em grupoAinda estou em êxtase pela experiência de sábado. Ainda estou encantada com tanta lindeza que vivemos. Agradeço a cada uma que esteve lá e a todas pelos abraços, beijos, carinhos, escutas atentas e acolhedoras. Só consigo pensar naquela expressão namaste-cult-bacaninha do momento: gratidão! E com o coração cheio de gratidão quero convidá-las a acompanhar o Iyá Maternância. Venham formar essa aldeia com a gente.

Conectando Mães Negras

Eu sei que muitas das pessoas que me leem estão em outros estados. Não se preocupem. Podemos conversar com vocês e ajudá-las a formar suas próprias redes presenciais. Podemos também viver um pouco dessa energia nos grupos virtuais. Não desanime por não conhecer um rede deste tipo na rua região. Construa uma!

O Iyá Maternância tem já conta com diversos canais de comunicação e fortalecimento de mães pelas redes sociais. Faça parte de um deles ( ou de todos!) e venha construir a sua maternância com a gente!

Iyá Maternância (página) –  facebook

Grupo virtual de apoio a Mãe Negra – gestante e tentante (grupo de facebook)  – grupo de apoio

Iyá Maternância –  instagram

Canal Iyá Maternânccia – canal no youtube

Fiquem atentas, nossa rede está crescendo e queremos alcançar cada vez mais mulheres-mães-negras!

Postado em 6 de setembro de 2016 por Lu Bento
Hoje é dia do sexo e resolvi retomar as postagens do blog falando sobre a vida sexual da mulher-mãe. Será possível continuar a ter uma vida sexual ativa e saudável depois de termos filhos? Ou depois que as crias nascem a gente entra para aquela categoria do “minha mãe não faz essas coisas?”
Postado em 20 de agosto de 2016 por Lu Bento

Sinônimo de mulher

Puta que pariu

Não aceites de volta

O filho que saiu de teu ventre

Já pariu, já criou

Não é tua a responsabilidade

pelo o que ele fez

 

Puta que pariu

Não é tua culpa

Se teu filho fez merda

E o outro tenta ofender

Teu trabalho foi já foi feito

Se ele não anda direito

Cabe a ele responder

 

Puta que pariu

Siga a tua vida

leve, tranquila, sem culpa

Nessa sociedade machista

Em que puta é sinônimo

de mulher

 

Escrito em: Outubro de 2015.

Postado em 24 de julho de 2016 por Lu Bento

Águas de Mulher

tumblr_o2k6klsA6x1t5geuno1_500Encharcada de desejos
Entro no mundo da literatura
Leio mulheres e me vejo
Preta, crespa e nua
Escrita nas palavras
Que brotam das minhas iguais
Mulheres plenamente pretas
Que transbordam palavras no papel
E vertem versos, contos, pontos em comum
De trajetórias nossas e reais
Leio Olhos D’água de Conceição Evaristo
Águas da Cabaça, de Elizandra Souza 
Correntezas e Outras Águas de Lívia Natália
Oxum molha minha vida com palavras
E eu desaguo em poesias
Vivido e escrito em: Setembro de 2015.

Veja mais em Empoderamento


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