Postado em 18 de julho de 2016 por Lu Bento

Sabe quando você vai em algum lugar que suas energias se renovam? Assim foi na Gira das Mães Pretas. A Gira foi um encontro presencial da roda da mãe preta para falar sobre temas que nos afetam diretamente.  Já falei da roda da mãe preta aqui quando falei sobre maternância, depois é só voltar no texto “Maternância preta, o que é isso?” Mas a Roda, que era um espaço lindo de empoderamento e apoio materno virtual, se materializou em um evento presencial com uma energia muito forte.

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O encontro rolou no Aparelha Luzia, uma casa que abre espaço para eventos afrocentrados e que tem se configurado com um dos maiores espaços de incentivo  fortalecimentos de atividades pretas. Um ambiente que acolhe diferentes linguagens e propostas de empoderamento preto. Vale muito a pena conhecer o espaço.

Fiquei muito feliz em conhecer pessoalmente tantas mulheres com histórias de vida diferentes e poder compartilhar com elas a minha experiência com a maternidade. Precisamos de mais espaços de fortalecimento da nossa maternidade.

O fina do evento foi uma alegria à parte. Rolou uma mega balada, daquelas em que mães e crianças curtem juntos, dançam se divertem… a casa abriu para o público regular e foi uma mistura de gentes superinteressante e necessária. Achei bem legal poder vivenciar tudo isso com as minhas meninas.

Quem ficou curiosa e quer conhecer mais sobre a Roda da mãe preta, me escreva e eu posso passar para as moderadoras do grupo.

 

Postado em 6 de junho de 2016 por Lu Bento

Tenho pensado muito sobre a importância da representatividade para crianças negras e sobre a importância promoção da diversidade e da pluralidade cultural para todas as crianças. E nesse movimento de reflexão, me sinto cada dia mais motivada e impulsionada para a ação. É daí que nasce o trabalho na InaLivros, nascem as listas de dicas de livros, nasce minha participação no Iyá Maternância e outros grupos sobre maternância preta e a lista 100 meninas negras. Mas principalmente, nasce uma consciência de que precisamos de um passo a mais. Precisamos sair o mundo virtual e das iniciativas individuais de busca por referenciais afrocentrados para nossos filhos. Precisamos  ocupar um espaço público e  coletivo de vivência negra.

Não é minha intenção desconstruir  totalmente o meu próprio discurso da importância da leitura e da representatividade na mídia, mas sim reforçar  a importância de uma comunidade negra para a formação da identidade das crianças negras e das pessoas negras em geral.  Muitas vezes vivemos e frequentamos lugares em que somos, de fato, minoria. Olhamos para os lados e não vemos outras pessoas negras em nosso local de trabalho, da mesma forma que nossas crianças não reconhecem semelhanças entre suas características físicas e a de seus pares.

Quando nossas crianças começam a perceber que existem diferenças entre as pessoas e que pessoas com a pele negra com a delas não frequentam todos os lugares, chaga a hora de nós, como pais, explicarmos algumas coisinhas sobre esse mundo que vivemos.  Não é nada fácil, até porque nós mesmos fingimos cotidianamente que está tudo bem, mas a sociedade brasileira o tempo todo tenta nos fazer acreditar que existe um lugar para a população negra e esse lugar não é nos pontos mais valorizados.

O lugar do negro

familia negra 1O problema disso tudo é que nossas crianças crescem acreditando que existe um lugar específico para a população negra. Nos filmes e novelas somos minoria.  Sempre nos representam com um ou dois personagem, vivendo em uma cultura e sociedade que privilegia as origens europeias da população, na qual as pessoas negras seguem um certo patrão de beleza que determina que homens negros devem ter cabelos raspados e que mulheres negras devem ter cabelos alisados.

É muito mais difícil nos enxergarmos como negros e entendermos a importância da valorização de nossas características fenotípicas  quando vivemos em um meio ambiente majoritariamente branco. O padrão de beleza é o cabelo liso, o nariz fino,  o quadril estreito. As mulheres negras, pra tentar se aproximar desse padrão, passam por uma série de procedimentos estéticos, desde alisamento capilar até mesmo intervenções cirúrgicas. Tudo isso para ser aceita, para não ser um ponto desviante do padrão.  Mas veja bem, vale a pena ficar mais próxima do padrão de beleza branco – uma pessoa negra nunca conseguirá atingir esse padrão, por mais que se modifique – mas ficar cada dia mais afastada a sua essência, da sua real identidade? Porque ter o cabelo liso mas não poder deixar uma gota d’água cair com medo que o cabelo volte ao normal ou ter a necessidade de retocar o cabelo a cada semana para  não demonstrar o cabelo crespo escondido sobre camadas de químicas não são formas de valorizar e reconhecer a própria identidade. É uma autoestima e uma autoimagem calcada em uma ficção.

Mas tudo isso pode ser melhor falado em outra oportunidade. O que eu quero destacar aqui é que para a população negra ser aceita em determinados lugares sociais é preciso que ela  se adapte física e culturalmente à uma estética branca.  E quando você não se encaixa nesse padrão, a sensação de desconforto em determinados lugares é latende. E as crianças percebem isso! família bento

Aqui em casa meu cabelo é black power, das minhas curicas também e meu marido usa dread. Então já viu né, não estamos no padrãozinho branco-europeu dos nossos colegas de trabalho e de escola ou dos nossos vizinhos. A gente anda por aí com nossas roupas afro,  nossas filhas andam com suas bonecas pretas e suas bonecas de orixás e, quando a gente circula por esses espaços, somos os únicos negros.

Ainda não rolou a frase título dessa postagem aqui em casa, e talvez nem role de fato, porque a gente tem uma preocupação e necessidade de frequentar muitos espaços voltados para a cultura negra. Mas a percepção de sermos minoria já está chegando por aqui, e já se manifesta na felicidade que Isha Bentia demonstrou outro dia ao encontrar uma menina com o cabelo como o dela na escola.

A importância dos grupos de sociabilidade

Entendo que grupos de sociabilidade de pessoas negras existem em maior número em grandes cidades e que as vezes pode ser difícil encontrar eventos culturais, feiras e rodas de conversas voltadas para a cultura negra. Mas somos a maioria da população desse país. Onde quer que você, leitora, esteja, com certeza existem outras pessoas negras. Pode não ser na mesma classe social, pode não ser na mesma escola, condomínio, bairro… mas têm. Basta pensar um pouco. E você precisa estar próxima a esses pessoas de alguma forma.

Quantas pessoas negras se formaram junto com você? 

formandos brancosSe você tem uma situação econômica mais favorável que a maioria da população negra, você passa por isso. E a sua noção de espaços de sociabilidade é perpassada por essa visão de classe. Você quer frequentar os lugares que  seu dinheiro pode pagar, e isso é um direito legítimo. Tem que ocupar mesmo esse lugares! Mas esses lugares não contemplam a nossa identidade e estética. Sempre fica um vazio quando chegamos num local e não tem nenhuma cara preta como a nossa se divertindo ou consumindo por lá. A gente sabe bem o que é isso, e talvez já estejamos até calejados. Quem fez faculdade provavelmente estudou com pouquíssimos colegas negros.  Penso, então, que esse lado da nossa sociabilidade precisa ser valorizada também. Ainda mais quando tem criança no meio!

“Mas como nos aproximar de outras pessoas negras se elas não são muitas (ou não existem) em nosso convívio?” 

Gente, não tô falando de fazer uma doação de roupas para pessoas pobres, por exemplo. Estou dizendo que você, pessoa de classe média ou classe média alta,  pode fazer uma doação de roupas e uma tarde de brincadeiras entre crianças negras, “ricas” e pobres. Pode colocar suas crianças pra conviver de verdade com outras crianças negras, independe da situação financeira de cada um delas. Haverá em um primeiro momento uma barreira de classe entre elas, mas a barreira logo será quebrada porque criança é muito mais flexível  e despida de preconceitos que adultos.

Quando a gente se aproxima e interage com mais pessoas negras temos a oportunidade de conviver com pessoas que passam pro situações parecidas com a nossas. Há uma maior identificação e reconhecimento pois estamos entre pares. baile dos crespinhos

Outra forma é também frequentar outros bairros. Se no seu bairro só tem gente branca, porque não ir almoçar um dia em um bairro com mais pessoas negras? A chance de encontrar outros negros no restaurante aumenta consideravelmente. Mesmo que você não vá conversar diretamente com essas pessoas, só a troca de olhares e sorrisos, e as crianças brincando ou vendo outras crianças negras já é super importante.

Precisamos conviver com pessoas negras. Precisamos nos cercar de pessoas negras. Precisamos que nossos filhos tenham amigos negros.


Então, o que você faz pra proporcionar aos seus filhos a convivência com mais pessoas negras?  Eles tem muitos amigos negros na escola e nos lugares que frequenta?  Já rolou a pergunta do título aí na sua casa? Conta pra gente!

 

Postado em 30 de abril de 2016 por Lu Bento

Gente, existe vida virtual além do Facebook! Esse mês divido com vocês algumas coisinhas que eu curti muito nessas navegâncias na web. As dicas da mãe preta de abril estão quentinhas! Bora lá?

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YOUTUBE – Canal da Egnalda Côrtes

capa-egnalda-vs-2Estreou esse mês um canal no youtube sobre maternidade e educação de crianças pretas. Coisa linda demais gente! A Egnalda têm dois filhos maravilhosos, uma menina com a autoestima maravilhosa e uma consciência contagiante de suas capacidades e qualidades, um pequena feminista que encanta e influencia pessoas por onde passa e um menino que já é uma celebridade da internet, que também tem um canal no youtube e fala sobre heróis negros brasileiros. Se você lembrou logo do PHCôrtes, é ele mesmo que eu já indiquei aqui e que está fazendo um sucesso enorme por aí. Então, já deu pra ver que essa mãe não está de bobeira  né? O canal dela está lindo, com vídeos informativos e divertidos, do jeitinho que a gente gosta. Esse super canal de maternância negra precisa chegar a muitas mães negras pelo Brasil!

Onde: Canal Egnalda Côrtes


PODCAST – Conversas pra Casal

conversas pra casalUm podcast lindo, feito para falar sobre relacionamentos de um forma leve, romântica e muito assertiva, tocando em questões fundamentais para a satisfação na vida a dois. Começou a pouco tempo, eu já me apaixonei por ele e quero muito apresentar esse cast para o marido e ouvir juntinho com ele. A Lilian Flores é uma locutora maravilhosa, com uma voz que nos deixa com mais vontade ainda de ouvir todo o conteúdo e pra fechar, é uma mulher negra. E quando o trabalho é feito por uma mulher negra a gente se sente ainda mais motivada em acompanhar né?

Onde: Conversas pra casal


SITE – Rede Nacional da Primeira Infância

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O site  é uma articulação nacional de organizações que atum, direita ou indiretamente, na promoção e garantia dos direitos da Primeira Infância, com a preocupação em não haver discriminações étnico-raciais, de genêro, de região, religiosa, ideológica, partidária, econômica, de orientação sexual ou de qualquer outra natureza. Ou seja, uma iniciativa de promoção da liberdade individual e proteção da primeira infância. Proposta mais que necessária de ser acompanhada por pais, educadores e pessoas comprometidas com a infância.

Gostei muito de conhecer esse site e com certeza já entrará na minha lista de favoritos.

 Onde: www.primeirainfancia.org.br

 


BLOG – Preta ‘dotora’ na primeira pessoa

Um blog escrito por uma mulher preta, mãe e doutora em história sobre diversos temas, entre eles feminismo e maternidade. Vale muito conhecer! Tem um texto maravilhoso sobre a moda do #belarecatadaedolar e outro sobre crianças negras em escolas majoritariamente brancas que eu recomendo muito a leitura.

Onde : Preta “dotora”


Bom gente, essas foram as dicas de abril. Espero que vocês tenham gostado.  🙂

 

 

 

Postado em 17 de abril de 2016 por Lu Bento

Maternância preta é um termo recente usado para falar do ativismo de mulheres-mães negras. A palavra maternância é um neologismo usado para designar a militância motivada pela maternidade, e isso é algo que acontece com a maioria das mães, principalmente mães pretas.

 

Se antes de ter filhos a mulher pouco se empanhava em lutar por causas e bandeiras coletivas,ou buscar grupos de apoio, se reunir a outras pessoas por uma causa, após a maternidade esse desejo vem a tona. Nem nem é preciso esperar o bebê nascer para que isso acontece. Basta saber que está grávida e  muitas mulheres já sentem necessidade de buscas um grupo de gestantes para falar sobre a mudanças que vivemos durante a gravidez. E tem uma variedade de grupos e correntes de pensamento sobre a gravidez. Tem quem defenda parto humanizado e quem defenda a cesária eletiva com data marcada. O universo materno é grande demais para andarmos sozinhas!

Qumaternância preta - mulher grávidaando a gente agrega a questão racial, a questão da maternância torna-se ainda mais importante. Colocar uma criança negra no mundo é colocar uma pessoa que será algo de racismo em algum momento de sua vida. E saber disso é extremamente angustiante. Nenhuma mãe preta quer que sua cria passe pelas situações de racismo que ela passou na infância e ao longo de toda vida. Então, pode ser entendida como maternância preta todas as iniciativas que tomamos para minimizar os impactos do racismo na vida dos nossos filhos.

Por que por mais que muitas pessoas tenham resistência a uma prática de militância, quando uma mãe negra procura referenciais positivos para seus filhos, seja comprando bonecas negras, seja preferindo aquele produto que tem uma criança negra no rótulo, seja curtindo um episódio do Super Choque com suas crias, tudo isso faz parte de uma atitude política. Além de ser uma forma de fazer suas crias se verem nos produtos que consomem, é uma atitude de fortalecimento de iniciativas que valorizam a população negra. E isso é militância.

A maternidade da mulher negra envolve um monte de questões e esteriótipos de gênero e raça que nos oprimem. O mito de que  mulher negra é mais forte, por isso não precisa de tanta atenção e cuidado durante o parto; as mães-pretas que amamentavam crianças brancas e o impacto que as nossa dificuldades com a amamentação tem sobre nossas emoções; o desamor com que as nossas crianças negras são tratadas por cuidadoras de creches e pré-escolas em comparação com o tratamento destinado às crianças brancas. Como nossas meninas negras já tem seus cabelos julgados e discriminados desde pequenas, como nosso meninos negros são hiperssexualizados desde pequenos. Tudo isso e muito mais perpassa a nossa vivência materna. E nós reagimos a isso. Nós resistimos e enfrentamos, na medida do possível, cada preconceito contra as nossas crias. Isso é marternância preta!

E quando exercitamos a nossa maternância preta juntas, ficamos ainda mais fortalecidas. Por isso, convido vocês a conhecerem algumas iniciativas de maternância que já  vem acontecendo pelas redes sociais e pelo mundo real.

Espaços de maternância preta

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A inciativa que adota explicitamente o conceito de maternância preta é o Iyá Maternância, uma organização que surgiu da união de 4 mulheres-mães-pretas. Eu, Xan Ravelli, Sá Ollebar e Pri Silva nos juntamos e começamos a preparar ações de promoção e apoio à mães pretas. As meninas são grandes blogueiras negras que falam sobre diversos assuntos e a maternidade é  O Iyá Maternância já conta com uma página no facebook e já tem um evento presencial agendado, o Aquecimento Iyá Maternância. Nele falaremos sobre o projeto e iniciaremos rodas de conversas com mães sobre temas que nos afetam diretamente. Para saber um pouco sobre o que falaremos, e conhecer mais as coordenadoras do Iyá Maternância, assistam o vídeo da nossa participação do Conversa com Cachaça do canal Soul Vaidosa, da Xan.

E o nosso encontro é essa semana, a inscrição é até dia 20, então se você está em São Paulo, ainda dá tempo de se inscrever e participar do Aquecimento Iyá Maternância! Esse é um evento restrito pra 30 mulheres, mas o planejamento inclui um evento maior ainda esse ano.  Não percam!


 

Outra iniciativa que eu gostaria de destacar como espaço de maternância preta é o grupo do facebook Roda da Mãe Preta. É um grupo de mães pretas que conversam  e se apoiam mutuamente. Um espaço de trocas afetivas e de fortalecimento político. É um grupo fechado e para participar é preciso ser convidada por umas das mulheres-mães que já são membros do grupo, pra não virar bagunça.

Neste formato de grupos, tem também o grupo Mãe Negra, Criança Negra, formado principalmente por mulheres-mães negras  do Rio de Janeiro.  E também há o Maternagem e negritude, que também pode ser compreendido como um espaço de maternância preta. E devem existir muitos outros que eu sequer conheço! E isso é lindo demais!

Nessa onda de canais de youtube, a Sá Ollebar já faz um super trabalho no Preta Pariu falando sobre maternância preta entre outras coisas.  E tem também o novíssimo canal da Egnalda Côrtes, onde ela falará sobre maternidade e educação de crianças pretas, ou seja, tem muita maternância preta nesse conteúdo!

Cada vez mais mulheres-mães-pretas estão se expressando e se organizando. E cada vez mais o conceito de maternância preta vai se espalhando.

Você, mulher-mãe preta que está aí lendo tudo isso, está na hora de transformar toda sua maternância preta solitária em uma maternância coletiva! Vamos juntas?

Postado em 17 de março de 2016 por Lu Bento

Hoje resolvi listar algumas coisinhas que a gente vive  e faz que estão relacionados a maternidade preta. Costumo pensar a minha maternidade, e a maternidade das mulheres negras em geral, como uma maternância.  Porque tudo que a gente faz no processo de criar filhos nessa sociedade racista, de modo que nosas crias saibam o seu valor e saibam se posicionar no mundo são também atos de militância, por mais anti-militante que a mãe seja.

Ser mãe preta é…

…saber que sua cria sofrerá racismo em algum momento da vida, e você nada pode fazer pra evitar que isso aconteça.

…ouvir por aí que é uma bênção que sua cria tenha nascido com o “cabelo bom“.

…saber que, mesmo que determinadas doenças preexistentes sejam mais recorrentes na população negra como a hipertensão, ninguém tem o direito de dizer que você não deve ter filhos por causa disso sem prévia avaliação médica.

…ser considerada a babá se sua cria nasce com uma tonalidade de pele mais clara.

…estar mais vulnerável a sofrer violência obstétrica porque os médicos acham que você é naturalmente “forte”, não deve ficar reclamando de dor.

…recomendar sempre ao seu filho sair com a carteira de identidade, mesmo se for logo ali na esquina, e se possível, com alguma outra carteirinha de escola, de clube, de qualquer outra coisa que ele frequente que  possa sinalizar pra polícia em caso de dura que ele não é bandido.

 

… Ouvir questionamentos sobre quando você vai passar química no cabelo a suas crias: “é uma maldade deixar a criança com os cabelos assim desse jeito!”

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…saber que seu menino deixa de ser visto como uma criança  pela sociedade por volta dos 5 anos e passa a ser visto como uma ameaça, um criminoso em potencial.

 

…saber que é preciso ensinar a sua cria a se amar com mais dedicação que outras mães não-negras, porque a sociedade estará o tempo todo ensinado suas crias a se odiarem.

 

… ensinar seus filhos a evitar falar com mulheres brancas na rua, inclusive para pedir informações, porque podem ser imediatamente considerados bandidos, sem sequer uma chance de provar que não é.

 

… ter que ouvir de um médico em plena ultrassonografia de uma gravidez de risco que você deveria fazer um planejamento familiar, sem que essa pessoa sequer saiba nada da sua vida e do seu planejamento familiar.

 

…ouvir inúmeros comentários sexistas e racistas se você engravida “cedo”.

 

…precisar ensinar pras crias a “parecer inocente” mesmo sendo inocente.

 

 

…sentir uma felicidade enorme quando sua filha se reconhece em alguém na TV, numa revista, num outdoor: “olha mamãe, ela é pretinha igual a gente!”

 

… precisar explicar pras crias que nem tudo que seus amiguinho brancos fazem, ela deve fazer também. Explicar que a culpa sempre cai em cima dos negros, que a punição para os negros é sempre mais rigorosa e cruel.

 

…saber que a professora demonstrará mais afeto pelas crianças brancas da turma e que sua cria vai precisar de uma atenção a mais pra lidar com essa sutil rejeição.

 

… empoderar cotidianamente nossas crias para que elas possam enfrentar o mundo.

 

…saber que qualquer falha de seu filho negro será lido como um crime que deve ser punido, e que se fosse um jovem branco seria algo que precisa ser tratado, educado.

 

… saber que você vai passar por louca e não terá o apoio da maioria quando você denunciar alguma situação de discriminação na escola das crias.

 

…buscar referências em todos os lugares possíveis para que suas crias se inspirem e vejam que podem alcançar todos os seus sonhos.

…é receber dicas de “como deixar o nariz das suas crias mais fininho”.

 

… Ouvir de suas crias questionamentos do tipo “porque eu sou negro?” ” porque as pessoas não gostam de negros?” “Porque meu cabelo é crespo? ” e saber que tudo isso está embutido de um sofrimento enorme, não são só curiosidades infantis, são verdadeiros desabafos.

 

…correr meio mundo pra achar um livro que tenha um personagem negra ou negro para que sua cria se identifique, porque não são tão fáceis de achar nas grandes livrarias.

 

…acolher suas crias que sofrem discriminação por seguirem uma religiosidade de matriz africana.

 

…consolar as crias que foram preteridas na formação de parzinho da festa junina.

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…saber a diferença que faz para sua filha ganhar uma  boneca negra de presente.

…saber que se seu filho adolescente curte funk, ele será automaticamente lido pela sociedade como bandido, diferente do que acontece com um adolescente branco.

 

…saber que se sua filha negra adolescente engravida ela terá ainda menos oportunidades que uma adolescente branca grávida. E sofrerá ainda mais julgamentos e preconceitos.

 

… saber que seu filho sempre será visto como marginal e como o culpado em alguma situação, mesmo que o contexto deixe explícito a pouca probabilidade de envolvimento da sua cria na situação.

 

… ser alvo de racismo em consulta pre-natais por aqueles que deveriam nos acolhe e nos dar suporte.

 

…ter que aturar sempre alguém sugerindo prender o black da sua filha, mesmo sabendo que ela e você acham que o cabelo fica muito mais bonito solto. “Porque assim ela fica mais bonitinha, arrumadinha

 

… receber a sugestão de esterilização definitiva após o segundo filho. “Depois desse vamos ligar né?

 

…ser lida como invariavelmente como promíscua se seus filhos têm país diferentes.

…ensinar seu filho negro a observar, quando está na rua, onde estão os policiais e a movimentação deles, para que ele não fique muito perto nem demonstre medo exagerado. Qualquer contato visual um pouco mais prolongado ou temeroso e seu menino leva uma dura.

 

… ensinar sua filha a se defender em transportes públicos lotados daqueles abusadores que acabam que “não pega nada dar uma roçadinha nessa negrinha

 

… saber que redução da maioridade penal é um ação que visa atingir diretamente os jovens negros.

 

…saber que suas crias podem ser as únicas pessoas negras nos espaços que elas frequentam e que isso pode resultar em  uma invisibilidade nesses espaços.  É a professora que não escuta especificamente a pergunta deles, é a diretora que ignora as denúncias de racismo, são os colegas que os excluem das brincadeiras, das tarefas em grupo…

 

…preparar seus filhos  adolescentes a agirem com serenidade quando a polícia parar um ônibus e só revistar as pessoas negras, os homens negros.

 

… ensinar quando é prudente reagir ao racismo e quando pode ser um risco concreto a sua vida.

 

…não encontrar nas grandes lojas uma mochila sequer que tenha um personagem negro par que suas crias se identifiquem.

 

…trocar um sorriso cúmplice  felicidade quando encontramos outras mães pretas em ambiente predominantemente brancos.

 

… ser espelho para suas crias. Nosso visual, nossa postura diante da vida, nossa relação com a nossa negritude são observadas e aprendidas pelas crias.

 

… ensinar, em pleno século XXI, que é preciso ser duas (três, dez…) vezes melhor que os outros para que o nosso talento prevaleça ao preconceito.

 

…saber que a maioria das crianças disponibilizadas para adoção são crianças negras como as suas crias, e por esse motivo são rejeitadas pela maioria dos pretendentes à adoção.

 

… sentir um aperto no peito cada vez que uma criança negra como as suas para no sinal para pedir esmolas ou vender coisas para sobreviver.charge- risco de morte

 

…saber que o índice de mortalidade de jovens negros é muito maior que de jovens brancos.

…saber que a gente nunca está suficientemente preparada quando uma situação de discriminação racial acontece, por mais que a gente tente antever e se prevenir.

 

…saber que todos esses desafios se somam aos desafios da maternidade em geral.


Postado em 7 de janeiro de 2016 por Lu Bento

No LêproErê de hoje um livro maravilho que foi lançado no final do ano passado e uma surpresinha pra vocês que acompanham o blog (e a página!) da mãe preta. Bora começar os trabalhos de 2016 porque esse ano promete muita novidades e coisas boas!

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Livro: Quando me descobri negra

descobri-negra4Autora: Bianca Santana

Editora: SESI-SP

 

Gente, que livro lindo!  Quando me descobri negra é uma coletânea de cronicas e relatos sobre negritude e identidade que toca o coração. Então, esse livro é assim.

Eu tive o imenso prazer de ler alguns textos do livro antes mesmo de sua publicação por fazer parte junto com a autora do Círculo de Mulheres Negras da Casa de Lua, uma casa feminista de São Paulo. E desde a primeira leitura fiquei encantada com a cadência da escrita de Bianca. Não é (só) porque ela é minha amiga não, mas Quando me descobri negra trás alguns recortes do cotidiano que com os quais nos identificamos e que nos faz perceber que a sutileza do racismo e do preconceito em alguns momentos não deixa marcas tão sutis em que é alvo. Pelo contrário, faz com que a pessoa passe por uma negação da sua própria negritude e  o processo de resgate dessa identidade é também um processo de curas e reconhecimento das suas características físicas e ancestrais.

A leitura é rápida e super fluida, não é nem de longe um livro cansativo de se ler. Excelente leitura inclusive para quem não tem tanto o hábito de ler e uma boa indicação de livro para jovens que estão na efervescência do processo de construção da própria identidade.

Tive o prazer de participar do lançamento do livro com a InaLivros e posso dizer que ele é um dos nossos campeões de vendas nesse fim de ano. E todo mundo tem dado um retorno super positivo, dizendo que gostou muito do livro e se emocionou com ele.

Onde encontrar: InaLivros | site do livro

Por esses motivos, Quando me descobri negra foi escolhido como o primeiro brinde dos nossos sorteios do blog, e como a Bianca é uma pessoa linda, consegui um exemplar com um autografo lindo para a ganhadora. Corre lá na página do sorteio e e participe!

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