Postado em 5 de outubro de 2017 por Lu Bento

 

 

 

“Mamãe, o menino falou que não ia brincar comigo porque os amigos dele são brancos e eu sou marrom. Ele disso que não gosta de marrom.”

“E o que você disse filha?”

“Eu disse que eu gosto de marrom, e que às vezes as famílias são marrom. E toda a minha família é marrom e eu sou linda!”

” Ah é filha? E ele?”

” Ele disse que só brinca com os amiguinhos brancos.”

 

Esse foi o meu diálogo desta manhã com a minha filha caçula, de 3 anos. Ela me contou, com muita naturalidade e sem nenhum sinal de mal-estar que um coleguinha da turma falou que não brincaria com ela porque ela é “marrom”. Quando ela começou a conversa e me disse isso, meu sangue gelou. Um desconforto físico tomou conta do meu corpo e eu percebi que minha filha, minha garotinha que mal deixou de ser um bebê, já está enfrentando o racismo.

Mini Bentia é muito sensível e emotiva, então assim que ela me contou isso eu a imaginei chorando e ficando triste essa rejeição com base em sua cor de pele. Em seguida, perguntei qual foi a reação dela e a resposta me surpreendeu e me acalmou. Ela não se deixou abalar pela rejeição e falou de forma positiva da sua cor de pele.  Não tenho como ter certeza que ela agiu dessa maneira. O racismo nos pega de surpresa e nos deixa sem ação, mesmo quando já sabemos várias respostas para o preconceito. Como essa história está sendo contada por ela depois, é claro que essa reação positiva pode ser uma forma idealizada, pode ser uma construção de como ela gostaria de ter agido na hora, mas que não fez de verdade ou pode até mesmo ser uma forma dela me contar que me deixe feliz com ela, porque sempre falamos em casa o quanto gostamos de ser negros.  O final da história é aquele já narrado, o menino manteve a mesma posição e não brincou com ela.

Mesmo que os fatos não tenham acontecido exatamente assim, é pouco provável que a cena toda seja uma invenção da minha pequena. Crianças negras sofrem racismo na escola desde cedo e é até natural que as crianças não saibam lidar com as diferenças.

Na escola da Mini Bentia, a maioria das crianças são brancas. As professoras também. Então pensando no contexto daquele espaço e nas prováveis relações que esse menino estabelece, o contato com pessoas negras deve ser muito pequeno. Somando-se a isso, a ausência de representatividade negras nos desenhos animados, na publicidade e nos espaços de poder fazem com que a criança branca cresça com uma visão distorcida sobre a negritude.  Eu entendo que a criança branca não queira se misturar com crianças de outras etnias, que prefira ficar entre iguais. O que eu não entendo é que adultos não façam nada quanto a isso. Não entendo como professores e pais não desenvolvem um olhar atendo sobre essas questões, não percebem que as crianças brancas estão afastando as crianças negras ou se negando a brincar ou interagir com elas.

Essa atitude de afastamento a partir da diferença é o embrião do racismo. E ele é alimentado pela falta de educação para as relações étnico-raciais, pela falta de uma atitude pró-ativa para o combate à discriminação racial na infância e pela omissão das pessoas não-negras na luta antirracista.

O caso relatado pela Mini Bentia mostra que essa situação precisa de uma intervenção. Não sei se algum adulto acompanhou o diálogo, nem se esse menino convive com outras crianças negras além da minha filha e essa foi uma atitude pontual, uma justificativa naquele momento pra não brincar com ela. Não sei sequer se a família dessa criança a ensina a se afastar de pessoas negras ou se essa foi só uma percepção da criança de que o afastamento é uma postura adequada diante das diferenças. Não tenho essas respostas.

Só sei que o nosso trabalho de formiguinha só vai resolver parte do problema, a parte que nos afeta e nos faz sofre. Minha filha me contou tudo isso com naturalidade, como se fosse mais um fato corriqueiro da escola e sorriu quando me contou a sua resposta para o menino. Eu posso trabalhar para que ela entenda que é o menino que sai perdendo com essa atitude, que a discriminação racial não é culpa dela e que ele é que está agindo de uma forma errada e mal educada. Mas e a outra parte? Quem trabalhar para ensinar o menino a conviver e respeitar as diferenças? Quem ensina pra criança que essa atitude é racismo? Quer percebe logo na primeira infância as raízes dessa atitude racista e procura combatê-la?

Eu marquei uma reunião com a direção da escola para informar o que minha filha contou essa manhã. Mas nada me garante que as pessoas se interessarão verdadeiramente em por essa questão. Nada me garante que as professoras olharão com amis cuidado para as interações entre as crianças e perceberão essas situações a ponto de intervir. Nada me garante que os profissionais da escola estão habilitados para promover uma educação pra diversidade, que valorize as diferenças e que combata o racismo. Nada me garante que a família do menino será informada para também se dedicar a promover uma educação que respeite o outro e que o ensine a conviver com as diferenças.

Não dá pra colocar toda a carga do racismo nas costas das pessoas negras. O racismo contra negros é um problema gerado pelos brancos e precisa ser combatido por todos.

 

Postado em 8 de setembro de 2016 por Lu Bento

Combater o racismo  é um dever todos nós. Não importa se você é branco ou negro, se sente o racismo na pelo ou se acha que o país já é bem menos racista que antigamente. Se você acredita que o racismo deve ser erradicado, é preciso adotar uma postura antirracista.

A Unicef lançou uma cartilha com 10 maneiras de contribuir para uma infância sem racismo. Creio que essa é uma leitura fundamental para educadores, pais e quaisquer interessados em promover uma educação antirracista, por isso reproduzo e compartilho aqui o material produzido pela Unicef.

diversidade1 - infância sem racismo

10 maneiras de contribuir para Uma Infância sem Racismo

1. Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.

2. Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer –contextualize e sensibilize!

3. Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.

4. Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.

5. Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.

6. Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.

7. Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.

8. Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.

9. Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.

10. As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.

Participe desta campanha e contribua para Uma Infância sem Racismo.

Acompanhe o tema da redução do impacto do racismo na infância e na adolescência por meio do www.unicef.org.br ou siga o UNICEF no Twitter: @unicefbrasil.

Divulgue para os seus amigos! Valorizar as diferenças na infância é cultivar igualdades!

Postado em 4 de junho de 2016 por Lu Bento

Olá Pessoal! Estavam  com saudades do LêproErê?  O blog vai passar por uma reformulação em breve, o LêproErê vai virar uma atividade presencial no Quilombo Literário da InaLivros e um quadrinho específico pra crianças aqui no blog, então logo, logo teremos mudanças por aqui e será mais fácil encontrar as dicas de livros infantis. E no novo espaço Leituras Maternas falaremos sobre literatura mais adulta, assim tem espaço pra todo mundo e ainda mais conteúdo literário aqui no blog.

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Mas vamos ao que interessa nesse momento: livros! Hoje vou falar sobre dois livros infantis bem bonitos que eu conheci em maio e um  livro que eu considero leitura obrigatória para pais de crianças negras.

Bora lá?


Diarabi e Mansa

DIARABI-E-MANSA_CAPA-FRONTAL-600x600Autor: Souleymane Mbodj

Ilustração: Judith Gueyfier

Editora: Viajante do Tempo

Onde Encontrar: InaLivros

Sinopse: Há muito, muito tempo, Mansa, um jovem príncipe africano, estava à procura de uma esposa. Mas ele recusava todas as princesas que seu pai lhe apresentava e repetia, sem cessar, que queria compartilhar sua vida com uma pessoa muito especial. Assim começa a história de Mansa, o jovem príncipe de coração puro. Sua generosidade guiará seus passos até a linda Diarabi. O amor que os unirá será único, mágico. Ninguém poderá destruí-lo. Nem mesmo os feitiços e o ciúme de uma bruxa. Nem mesmo a morte…

Que livro lindo! Sério, estou apaixonada pela história e pelas ilustrações dessa obra. É uma história de amor daquelas que superam qualquer obstáculo sabe? Mas com um toque de suspense que prende até mesmo aquelas crianças que não dão bola pra histórias melosas. O autor é um senegalês que vive na França  e tem se dedicado à transmissão da literatura oral africana, então o livro tem uma pegada muito gostosa de história contada oralmente. No final do livro ainda tem uma página linda, com explicações sobre palavras utilizadas ao longo do livro, apresentando um pouco da cultura africana e dos idiomas wolof, do Senegal, e mandiga, de Gâmbia, Guiné, Mali, Burkuna, Senegal e Costa do Marfim.


A Bela Wika Ya Wuwu

a bela wika yawuwuAutora: Neuza Lozano Peres

Ilustradora: Gabriela Guenther

Editora: BestBook

Sinopse: Baseado numa história real, Wika Yawuwu virou Francisca quando aqui chegou. Seus descendentes contam o que ouviam de seus antepassados, que Francisca viera ainda menina para o Brasil como parte do rapto perpetrado por homens que buscavam em várias regiões da África pessoas para escravizar.

É um livro que marca uma resistência africana à escravização, e também nos mostra um resgate de uma ancestralidade que é nossa também. Temos muito poucas referências sobre África e sobre nossa raízes africanas e ter uma história que é contata há gerações pode descendentes dessa mulher é reconfortante e inspirador.


Entre o mundo e eu

Entre o mundo e euAutor: Ta-Nehisi Coates

Editora: Objetiva

Sinopse: Tanehisi Coates é um jornalista americano que trabalha com a questão racial em seu país desde que escolheu sua profissão. Filho de militantes do movimento negro, Coates sempre se questionou sobre o lugar que é relegado ao negro na sociedade. Em 2014, quando o racismo voltou a ser debatido com força nos Estados Unidos, Coates escreveu uma carta ao filho adolescente e compartilha, por meio de uma série de experiências reveladoras, seu despertar para a verdade em relação a seu lugar no mundo e uma série de questionamentos sobre o que é ser negro na América. O que é habitar um corpo negro e encontrar uma maneira de viver dentro dele? Como podemos avaliar de forma honesta a história e, ao mesmo tempo, nos libertar do fardo que ela representa? Em um trabalho profundo que articula grandes questões da história com as preocupações mais íntimas de um pai por um filho, Entre o mundo e eu apresenta uma nova e poderosa forma de compreender o racismo. Um livro universal sobre como a mácula da escravidão ainda está presente nas sociedades em diferentes roupagens e modos de segregação.

Ser uma pessoa negra no Brasil não é tão diferente de ser uma pessoa negra nos Estados Unidos. A proximidade com que determinadas situações são narradas ao longo desse livro e as preocupações de Coates sobre como o racismo afeta diretamente a existência de seu filho são compartilhadas por nós, leitores e pessoas negras brasileiras. É uma leitura muito intensa e poderosa nesse sentido, fundamental para pais de crianças negras e importantíssima para introduzir a conversa sobre racismo com os nossos jovens. O livro aborda questões que não podemos mais fingir que não nos afetam.


Bom pessoal, foi isso!  Semana que vem continuamos com o LêproÊre, e deve sair quinta, como o esperado. Assim que eu tiver um posicionamento quanto as mudanças de layout do site , eu aviso direitinho ok? Enquanto isso, não deixem de ver as dicas de livros que eu publico também no blog da Ina, no site da InaLivros e no nosso projeto #100meninasnegras.

Até semana que vem!


 

Postado em 18 de abril de 2016 por Lu Bento
Hoje é o Dia Nacional do Livro Infantil e nada mais oportuno do que falarmos sobre leitura para os nosso pequenos. A data de hoje foi escolhida em homenagem a Monteiro Lobato, um das maiores personalidades racistas do Brasil, que é considerado o grande patrono da literatura infantil apesar das inúmeras manifestações racistas em suas obras. Mas não quero passar uma data tão significativa para o estímulo da leitura na infância falando desse ser, tão vamos falar de coisa boa, vamos falar de literatura para nossas crianças pretas!
O banco Itaú tem uma campanha maravilhosa de incentivo à leitura, o “Leia para uma criança” na qual eles anualmente distribuem livros e fazem outras ações de incentivo à leitura. A partir desse projeto comecei a refletir sobre a importância de lermos para uma criança negra.  E é sobre isso que quero falar com vocês hoje.
Resolvi fazer uma lista com 10 motivos para lermos para uma criança negra. Espero que você, ao ler esse motivos, se anime a ler mais para suas crianças negras e pra outras crianças negras.

1-Ler para uma criança preta fortalece os laços afetivos e nos aproxima da criança

Ler para alguém gera cumplicidade. A sua entonação, o sentimento que você imprime na voz, na postura, nos silêncios durante a leitura são pessoais. Uma pessoa nunca lê igual a outra.  Ter a oportunidade de dividir isso com crianças é muito especial. Ter a oportunidade de compartilhar as sua impressões de uma leitura com uma criança é maravilhoso. O momento em que lemos para um criança é um momento de trocas de afetos, é um momento de aproximação e intimidade.Leia para uma criança negra 5
Em uma rotina exaustiva, na qual mal temos tempo de ver e falar com as pessoas que moram na mesma casa, e quando temos estamos sempre cercados de aparelhos eletrônicos, ler um livro para uma criança durante alguns minutos é muito importante. É um momento em que nos dedicamos integralmente à ler e a estar junto dessas crianças e isso fortalece os laços afetivos.

Leia para uma criança negra e fortaleças seus laços afetivos.

 

2- Um adulto que lê para uma criança é um espelho

Quando lemos para uma criança negra, além de receber o conteúdo a leitura estará absorvendo  também sua própria paixão pelo ato de ler. Uma criança que vê adultos negros lendo, se inspira e percebe que aquilo também faz parte do universo dela. Somos espelhos para os nossos pequenos. Da mesma forma que uma criança não vai se sentir interessada em comer verduras e legumes se nos adultos a sua não comem, ela não se interessará pela leitura se os adultos a sua volta não lLeia para uma criança negraeem.
Por isso, é fundamental que os adultos se tornem leitores.  Se lemos com prazer, nossas crianças absorvem esse prazer pela leitura e passam a querer reproduzi-lo.

Leia para uma criança com prazer, sem que isso se torne uma tarefa chata e burocrática.

3-  Ler bem  melhora a escrita, a fala e a articulação de ideias.

Quanto mais a gente lê, melhor a gente escreve, melhor a gente fala, melhor a gente exterioriza as nossas ideias. Essas são qualidades importantíssimas em nossa vida adulta. Quantos problemas são evitados quando conseguimos nos expressar com clareza, de forma que facilite a compreensão? Então, leia para uma criança negras a a ajude a falar, escrever e se expressar melhor.
Em um sistema educacional que já desvaloriza nossos saberes e se constitui sob uma lógica que exclui pessoas negras, ler para uma criança negra desde pequeno é fundamental para que essa criança tenha ferramentas para acompanhar o processo de aprendizagem formal.

  Leia para uma criança negra e ajude-a melhorar as suas habilidades.

4- Ler é empoderador

Quanto melhor uma criança negra ler, menos manipulada ela será! E isso já é um motivo e tanto para que nossas crianças leiam bem. Precisamos saber mais que juntar sílabas e formas palavras. Precisamo ler as entrelinhas, o contexto, os silêncios. Essa habilidade só se adquire com a prática. Quanto mais ela ler, mais  ela saberá perceber e combater o racismo, mais ferramentas ela terá para se posicionar no mundo. Ler é empoderador.

Leia para uma criança negra e a ajude a se empoderar.

5- Ler é um dos principais refúgios para os oprimidos

Qualquer pessoa em situação de opressão ou de limitação de suas liberdades individuais pode encontrar na literatura um refúgio e uma possibilidade de viver outras realidades que ela não pode naquele momento. A leitura é o nosso passaporte para viver um sonho.  Pessoas em situação de privação de liberdade que leem, pessoas adoentadas que leem, por exemplo, são pessoas que conseguem vivenciar sensações positivas a partir da história dos livros, e mais ainda, conseguem projetar novas possibilidades de futuro. A leitura nos permite abstrair as dificuldades do momento e imaginar novas formas de perceber e reagir  à nossa realidade.
Por que eu falo isso? Eu falo tudo tudo isso porque o racismo é algo que nos oprime, é algo que tenta a todo instante nos limitar, nos restringir a um determinado espaço de subalternidade na sociedade.
Levando esse pensamento para o universo infantil, percebemos que muitos dos grandes autores foram crianças que sofreram preconceito na infância, e que liam muito e a partir daí, desenvolvem ainda mais sua própria criatividade.  A leitura ocupa um espaço que nem sempre conseguimos suprir na vida real e nos aguça a criatividade e a busca por novas possibilidades de reagir à problemas reais.
Daí a importância de lermos para crianças negras. Se a gente estimula o hábito da leitura desde cedo, nossas crianças já dominarão essa ferramenta, e desde cedo poderão buscar suporte na leitura para resistir a situações de preconceito e, se nos preocuparmos especialmente com o conteúdo da leitura, ela lhes dará suporte para combater o preconceito.

Leia para uma criança negra e deixa que o livro se torne o seu companheiro.

 

6- Ler estimula o senso crítico e desconstrói estereótipos

A leitura estabelece paralelos com a realidade, mesmo nas obras mais fantasiosas. É importante fornecer a nossas crianças acesso a esse repertório para que elas desenvolvam o senso crítico. Quando mais a criança lê, mais ela pode fazer conexões de ideias e formar suas próprias opiniões. E uma criança negra que pensa por si, é uma criança negra que não se prende a estereótipos. É uma criança negra que sabe que  ideias preconceituosas não tem fundamento, que elas não estão fadadas a fazer  aquilo que a sociedade espera que pessoas negras façam.

 Leia para uma criança negra para que ela desenvolva o senso crítico.

7- Ler ajuda a aumentar o foco e concentraçãleia para uma criança negrao

Leitura é uma atividade que precisa de atenção. E saber concentrar a nossa atenção é um recurso fundamental.  Nosso acesso as oportunidades são reduzidos. Precisamos ainda mais de foco e concentração para que o racismo nos impeça de atingir melhores condições de vida. E ler é uma forma de desenvolver essa habilidade. 

Leia para uma criança negra e a ajude a manter o foco e a concentração.

8- Ler é um entretenimento de qualidade e baixo custo

As pessoas em geral costumam achar o livro bem melhor que o filme. Porque no livro, nossa imaginação não é limitada pela visão do diretor do filme, pelos limites da tecnologia ou do orçamento. Nossa imaginação é livre. A diversão que um livro pode proporcionar  é muito mais intensa que um filme.
Sem entrar na discussão do preço do livro no Brasil (já viram o preço do cinema?), ler é um entretenimento de baixo custo. Se não dá pra comprar o livro, existe uma ampla rede de bibliotecas super equipadas que podem oferecer o livro.
Visitar livrarias e bibliotecas pode ser um programa maravilhoso para um fim de semana. Além de vários livros que podemos ler livremente, esses espaços geralmente oferecem atividades relacionadas à leitura, como contação de histórias, leituras mediadas e brincadeiras que podem nos auxiliar bastante na transformação da leitura em um hábito.

 Leia para uma criança negra e se divirta gastando pouco.

9- A leitura é uma forma de acessarmos a nossa história

leia para uma criança negra 9Nossos heróis não estão na tv, não estão nas escolas mas estão na literatura! São muitos livros que falam de Zumbi, de Dandara, da resistência negra à escravidão, das riquezas da cultura africana. Muito  já foi escrito sobre a nossa negritude,  sobre nossos ancestrais,  sobre nossas raízes. Nossas crianças precisam conhecer a nossa verdadeira história e não essa história dos livros didáticos e da grande mídia que não nos representa. Nos livros encontramos tudo isso!  Ler para uma criança negra é apresentar a ela esse mundo.

 Leia para uma criança negra e mostre a nossa história.

10- É apresentar a eles a possibilidade para criarem suas próprias histórias

Quanto mais nossas crianças negra lerem, mas elas se sentirão confortáveis em criam suas próprias histórias.

No facebook da Era uma vez o mundo, é possível ver minha curica Isha Bentia e o pequeno Mathias contando suas próprias histórias. Clique e se divirta com eles!
Postado em 17 de março de 2016 por Lu Bento

Hoje resolvi listar algumas coisinhas que a gente vive  e faz que estão relacionados a maternidade preta. Costumo pensar a minha maternidade, e a maternidade das mulheres negras em geral, como uma maternância.  Porque tudo que a gente faz no processo de criar filhos nessa sociedade racista, de modo que nossas crias saibam o seu valor e saibam se posicionar no mundo são também atos de militância, por mais anti-militante que a mãe seja.

Ser mãe preta é…

…saber que sua cria sofrerá racismo em algum momento da vida, e você nada pode fazer pra evitar que isso aconteça.

…ouvir por aí que é uma bênção que sua cria tenha nascido com o “cabelo bom“.

…saber que, mesmo que determinadas doenças preexistentes sejam mais recorrentes na população negra como a hipertensão, ninguém tem o direito de dizer que você não deve ter filhos por causa disso sem prévia avaliação médica.

…ser considerada a babá se sua cria nasce com uma tonalidade de pele mais clara.

…estar mais vulnerável a sofrer violência obstétrica porque os médicos acham que você é naturalmente “forte”, não deve ficar reclamando de dor.

…recomendar sempre ao seu filho sair com a carteira de identidade, mesmo se for logo ali na esquina, e se possível, com alguma outra carteirinha de escola, de clube, de qualquer outra coisa que ele frequente que  possa sinalizar pra polícia em caso de dura que ele não é bandido.

 

… Ouvir questionamentos sobre quando você vai passar química no cabelo a suas crias: “é uma maldade deixar a criança com os cabelos assim desse jeito!”

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…saber que seu menino deixa de ser visto como uma criança  pela sociedade por volta dos 5 anos e passa a ser visto como uma ameaça, um criminoso em potencial.

 

…saber que é preciso ensinar a sua cria a se amar com mais dedicação que outras mães não-negras, porque a sociedade estará o tempo todo ensinado suas crias a se odiarem.

 

… ensinar seus filhos a evitar falar com mulheres brancas na rua, inclusive para pedir informações, porque podem ser imediatamente considerados bandidos, sem sequer uma chance de provar que não é.

 

… ter que ouvir de um médico em plena ultrassonografia de uma gravidez de risco que você deveria fazer um planejamento familiar, sem que essa pessoa sequer saiba nada da sua vida e do seu planejamento familiar.

 

…ouvir inúmeros comentários sexistas e racistas se você engravida “cedo”.

 

…precisar ensinar pras crias a “parecer inocente” mesmo sendo inocente.

 

 

…sentir uma felicidade enorme quando sua filha se reconhece em alguém na TV, numa revista, num outdoor: “olha mamãe, ela é pretinha igual a gente!”

 

… precisar explicar pras crias que nem tudo que seus amiguinho brancos fazem, ela deve fazer também. Explicar que a culpa sempre cai em cima dos negros, que a punição para os negros é sempre mais rigorosa e cruel.

 

…saber que a professora demonstrará mais afeto pelas crianças brancas da turma e que sua cria vai precisar de uma atenção a mais pra lidar com essa sutil rejeição.

 

… empoderar cotidianamente nossas crias para que elas possam enfrentar o mundo.

 

…saber que qualquer falha de seu filho negro será lido como um crime que deve ser punido, e que se fosse um jovem branco seria algo que precisa ser tratado, educado.

 

… saber que você vai passar por louca e não terá o apoio da maioria quando você denunciar alguma situação de discriminação na escola das crias.

 

…buscar referências em todos os lugares possíveis para que suas crias se inspirem e vejam que podem alcançar todos os seus sonhos.

…é receber dicas de “como deixar o nariz das suas crias mais fininho”.

 

… Ouvir de suas crias questionamentos do tipo “porque eu sou negro?” ” porque as pessoas não gostam de negros?” “Porque meu cabelo é crespo? ” e saber que tudo isso está embutido de um sofrimento enorme, não são só curiosidades infantis, são verdadeiros desabafos.

 

…correr meio mundo pra achar um livro que tenha um personagem negra ou negro para que sua cria se identifique, porque não são tão fáceis de achar nas grandes livrarias.

 

…acolher suas crias que sofrem discriminação por seguirem uma religiosidade de matriz africana.

 

…consolar as crias que foram preteridas na formação de parzinho da festa junina.

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…saber a diferença que faz para sua filha ganhar uma  boneca negra de presente.

…saber que se seu filho adolescente curte funk, ele será automaticamente lido pela sociedade como bandido, diferente do que acontece com um adolescente branco.

 

…saber que se sua filha negra adolescente engravida ela terá ainda menos oportunidades que uma adolescente branca grávida. E sofrerá ainda mais julgamentos e preconceitos.

 

… saber que seu filho sempre será visto como marginal e como o culpado em alguma situação, mesmo que o contexto deixe explícito a pouca probabilidade de envolvimento da sua cria na situação.

 

… ser alvo de racismo em consulta pre-natais por aqueles que deveriam nos acolhe e nos dar suporte.

 

…ter que aturar sempre alguém sugerindo prender o black da sua filha, mesmo sabendo que ela e você acham que o cabelo fica muito mais bonito solto. “Porque assim ela fica mais bonitinha, arrumadinha

 

… receber a sugestão de esterilização definitiva após o segundo filho. “Depois desse vamos ligar né?

 

…ser lida como invariavelmente como promíscua se seus filhos têm país diferentes.

…ensinar seu filho negro a observar, quando está na rua, onde estão os policiais e a movimentação deles, para que ele não fique muito perto nem demonstre medo exagerado. Qualquer contato visual um pouco mais prolongado ou temeroso e seu menino leva uma dura.

 

… ensinar sua filha a se defender em transportes públicos lotados daqueles abusadores que acabam que “não pega nada dar uma roçadinha nessa negrinha

 

… saber que redução da maioridade penal é um ação que visa atingir diretamente os jovens negros.

 

…saber que suas crias podem ser as únicas pessoas negras nos espaços que elas frequentam e que isso pode resultar em  uma invisibilidade nesses espaços.  É a professora que não escuta especificamente a pergunta deles, é a diretora que ignora as denúncias de racismo, são os colegas que os excluem das brincadeiras, das tarefas em grupo…

 

…preparar seus filhos  adolescentes a agirem com serenidade quando a polícia parar um ônibus e só revistar as pessoas negras, os homens negros.

 

… ensinar quando é prudente reagir ao racismo e quando pode ser um risco concreto a sua vida.

 

…não encontrar nas grandes lojas uma mochila sequer que tenha um personagem negro par que suas crias se identifiquem.

 

…trocar um sorriso cúmplice  felicidade quando encontramos outras mães pretas em ambiente predominantemente brancos.

 

… ser espelho para suas crias. Nosso visual, nossa postura diante da vida, nossa relação com a nossa negritude são observadas e aprendidas pelas crias.

 

… ensinar, em pleno século XXI, que é preciso ser duas (três, dez…) vezes melhor que os outros para que o nosso talento prevaleça ao preconceito.

 

…saber que a maioria das crianças disponibilizadas para adoção são crianças negras como as suas crias, e por esse motivo são rejeitadas pela maioria dos pretendentes à adoção.

 

… sentir um aperto no peito cada vez que uma criança negra como as suas para no sinal para pedir esmolas ou vender coisas para sobreviver.charge- risco de morte

 

…saber que o índice de mortalidade de jovens negros é muito maior que de jovens brancos.

…saber que a gente nunca está suficientemente preparada quando uma situação de discriminação racial acontece, por mais que a gente tente antever e se prevenir.

 

…saber que todos esses desafios se somam aos desafios da maternidade em geral.


Postado em 1 de setembro de 2015 por Lu Bento

Como vocês sabem, comecei esse ano uma livraria itinerante com o meu marido, a InaLivros. E como empreendedora, acho importante me qualificar e aprender ao máximo sobre isso que eu estou se disponibilizando a fazer. Pois bem, resolvi me inscrever e participar do 4º Fórum de Mulheres Empreededoras, organizado pela Rede Mulher Empreededora e patrocinado e apoiado por uma série de empresas grandes, dentre elas a AVON e o Itaú.  Até aí, beleza. Lindo demais fortalecer iniciativas de empreendedorismo protagonizadas por mulheres. Mas… e as mulheres negras?

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No evento, eram umas 10 mulheres negras na parte da manhã, num universo de mais de 500 mulheres.  Sendo que dessas 10 que eu contei, provavelmente algumas não se reconheçam, ou se autoafirmem como negras. Na parte da tarde o número subiu um pouco, erámos cerca de 20 (sim, não faz diferença nenhuma num universo de mais de 500 brancas, mas faz com que a gente já possa trocar algumas ideias!) No começo, na minha inocência de quem está envolvida em um monte de eventos afros, e está em contato com outras empreendedoras negras todos os finais de semana em eventos e todos os dias no facebook e no whatsapp, eu tinha certeza que chegaria lá e encontraria uma série de rostinhos conhecidos, mulheres que estão empreendendo e consolidando seus negócios na área de moda e produtos artesanais e esperava também mulheres que trabalham no ramo alimentícios e de serviços, já que somos muitas nessas áreas também. Esperava trocar muitos cartões, conhecer melhor alguns trabalhos e até mesmo estabelecer parcerias…

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A imagem do cartaz do evento não era essa. Essa é a imagem do folheto e tem uma mão preta ultra escondida.

Mas não foi bem assim. Todas as palestrantes eram brancas, as participantes também, até o cartaz do evento só tinha mãoszinhas brancas, pra deixar bem claro com quem elas pretendiam falar naquele espaço. De cara me senti desconfortável e foi ao banheiro caprichar em um turbante pra mostrar que eu estava ali mesmo, preta e diva, participando do fórum, das mentorias, trocando cartões como qualquer uma delas. Apesar disso, da minha saia estampada e da minha blusa vermelha totalmente diferente do uniforme pretinho básico das recepcionistas,  ainda fui alvo de perguntas inconvenientes  por parte de uma participante sobre onde é o banheiro, ou sobre como ela poderia conseguir um copo de água e sobre alguma outra coisa que foi ignorada por mim pra que ela percebesse que eu não estava ali pra responder a todas as suas perguntas sobre questões operacionais do evento.  Também não escapei de ser ignorada pela moça que estava entregando revistas na saída do auditório pras participantes que saiam, mesmo estando mais próxima a ela que outras mulheres, ela passou direto por mim e foi entregar às mulheres brancas.

Nas falas das palestrantes, destaco a total desconexão do mundo que algumas vivem com a nossa realidade. Uma se tornou CEO de uma empresa ao 26 anos, dando continuidade aos negócios da família. Outra gostava do trabalho, a empresa ia fechar, e ela pediu a empresa como presente de aniversário de casamento e o marido deu. Outra foi instigada por um cliente a comprar  uma outra empresa que estava prestes a fechar e ela comprou, mesmo “sem ter o dinheiro pra pagar”. Ou seja,  não são realidades de pessoas que trabalham pra garantir a sua subsistência, que empreendem e que precisam viver disso imediatamente, pois tem contas pra pagar, bocas pra alimentar…

mulher exportação empreendedorasOutro ponto que me chamou atenção é que a imagem da mulher negra ainda é utilizada como um recurso pra determinadas empresas. Uma empresa de exportação, fez uma divulgação em parceria com a própria Rede Mulher Empreendedora explorando a imagem da mulher negra e o estereótipo de “mulata tipo exportação”, em uma referencia não só sexista como racista também. Porque um evento que só coloca imagens de mulheres brancas em suas divulgações, só tem mulheres brancas palestrantes, resolve colocar uma imagem de mulher negra justamente na propaganda de algo para exportação? É coincidência demais pro meu gosto.

Cadê as mulheres negras empreendedoras?

Mulheres negras são empreendedoras desde que chegaram no Brasil. Lavadeiras, cozinheiras, quituteiras, diaristas, artesãs… estamos no mercado de trabalho informal ou autônomo há muito mais tempo que às recentes demandas feministas da década de 60 e 70 do século passado. Temos expertise na área de empreendedorismo, pois foi com criatividade e trabalho que muitas mulheres negras sustentaram suas famílias ao longo dos anos  e sustentam até hoje.

Ao mesmo tempo, a cada dia cresce mais o número de mulheres negras empreendendo, seja por trabalhar autonomamente na sua área de formação profissional, com consultoria e prestação de serviços,  seja por comercializarem roupas, brinquedos, acessórios, alimentos e diversos outros produtos em feiras e eventos por toda a cidade.

As mulheres negras empreendedoras existem e estão por aí trabalhando duro, consolidando novos negócios, inovando, diversificando seus pontos de atuação  e precisam ser fortalecidas em suasmulher negra empreendedora trajetórias e experiências. Espero que em breve possamos ter um espaço tão adequado quanto este para nossas trocas de experiências, networking, parcerias, mentorias e fortalecimento coletivo de nossos negócios.

Pesquisando na internet, vi que na Bahia, ano passado, rolou um Seminário Mulher Negra Empreededora, uma iniciativa do Sebrae e da Secretaria de Políticas das Mulheres do Estado da Bahia (SPM-BA). É muito gratificante saber que já existem iniciativas nesse sentido. Não sei sobre esse tipo de evento em outras cidades, mas espero que já estejam construindo algo nesse sentido.

Foi bom pra você?

De um modo geral, o evento foi bom. Com certeza farei o possível para participar da próxima edição porque acredito que precisamos nos apropriar desses espaços que também são nossos. Mulheres negras empreendem desde sempre neste país, temos experiência e vivência nessa área que vem de antes da emancipação feminina e isso precisa ser valorizado.   Fora isso, o evento trouxe informações importantes pra quem decide empreender. Conheci um pouco sobre o projeto 10 mil mulheres e pude ouvir sobre experiências em diversos setores que contribuem para que a gente busque melhorias para o nosso próprio trabalho. Além disso, soube do Prêmio Mulheres Tech em Sampa e achei a iniciativa muito interessante por estimular mulheres a conhecer mais sobre tecnologia, empreendedorismo digital, programação…

Além disso fiz contatos interessantes, conheci algumas experiências  bem sucedidas de gestão de negócios que podem nos inspirar com o trabalho na InaLivros.

Postado em 2 de abril de 2015 por Lu Bento

 

No LêproErê dessa semana um livro pequenininho com uma mensagem bem poderosa. Você precisa conhecer essa autora cubana e vai se surpreender em como um livro aparentemente curto pode ser tão impactante.

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Livro Juvenil

LêproErê - Cartas para a minha mãe

Livro:Cartas a minha mãe

Autora: Teresa Cárdenas

Editora:Pallas

Esse é um livrinho pequenininho de uma autora cubana parece que não é de nada. Mas na realidade, através de cartas que uma menina órfã escreve para sua mãe morta, sentimos a cada página como o racismo e o machismo podem ser destrutivo na vida das mulheres. O livro trata de relações fragmentadas e do sofrimento que tudo isso causa numa menina.

Quando eu li, estava fragilizada pela internação de Mini Bentia. Coincidiu com um momento que eu estava voltando a ler sobre feminismo, voltando a me envolver mais nas discussões sobre questão racial. Talvez tudo isso me fez ficar bem impactada pela crueldade com que a avó e a tia tratam a menina, e por toda a dor que permeia as relações estabelecidas entre as personagens.

A editora coloca o livro como juvenil. Primeiro eu tive uma certa resistência a essa classificação, achei o livro muito pesado. Depois, pensando com a minha cabeça de professora, vejo que daria uma boa leitura complementar para uma aula de sociologia. A leitura em si flui muito bem e é bem rápida, o livro é bem curtinho.  Mas quando você se envolve com o sofrimento das personagens, não é uma leitura nada leve.

Teresa Cárdenas é uma premiada escritora cubana e escreve muito bem sobre ancestralidade. Conheça mais sobre a autora!

Resumindo: não é gostosinho de ler, apesar de ser bem escrito e bem traduzido,  mas é importante para que a gente não caia nessas armadilhas do patriarcado que constantemente coloca as mulheres umas contra as outras.


Esse o foi LêproErê da semana! Até o próximo.

Postado em 16 de fevereiro de 2015 por Lu Bento

 

Em dezembro do ano passado a revista Pais&Filhos fez uma reportagem de capa sobre racismo e como lidar com ele. Na capa, colocou a foto de um menina de cabelos cacheados. Longe de mim dizer que ela não deve sofrer racismo e que ela não é negra, mas está na cara que essa menina pouco representa quem sofre racismo cotidianamente.

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Não é de hoje que nós, negros, somos ignorados pela publicidade. Nas revistas sobre maternidade e criação de filhos, as crianças e as famílias negras raramente são encontradas. Não temos espaço para dividir e refletir sobre questões que nos afligem, como racismo na escola, a construção da identidade racial da criança ou sobre dicas de como cuidar do cabelo afro das nossas meninas.

É fácil a gente lidar com essa questão afirmando que a revista é um lixo, que ela reproduz uma série de preconceitos e conceitos duvidosos sobre criação dos filhos, e por isso não devemos nos importar por não ter negros. Esse é o caminho mais simples, o da negação.

Mas tudo isso não é sobre a qualidade da publicação. É sobre representatividade. Eu quero crianças negras lá mesmo que a revista fale sobre maravilhosas cesáreas eletivas, tenha propagandas de chupetas, mamadeiras e andadores (não, andadores não, essa porcaria já está proibida!) ou que tenha coluna de pediatra patrocinada por marca de leite em pó. Até porque, existem várias pessoas negras que concordam com algumas dessa atitudes, e nosso objetivo aqui não é julgar. A luta é pela plena inclusão do negro, é pela visibilidade das crianças negras, das mulheres, da nossa estética, das nossas questões.

E não é por falta de solicitação do público. Já escrevi e-mails para essas revistas questionando e solicitando mais negros em suas páginas. No facebook, já vi inúmeras manifestações de leitores questionando a ausência de negros e essas revistas simplesmente se calam diante desta realidade. Sei que não sou a única que faz isso, muitas pessoas notam essa demanda e as revistas sabem bem que tem uma parcela do público muito insatisfeita com essa falta de representatividade em suas páginas.

Ter mais negros nessas revistas não é importante só pra nós negros que queremos acompanhar uma publicação sobre maternidade e criação de filhos. É importante para todos. Todos têm o direito de conviver com a diversidade. Todos têm o dever de ensinar pras crianças o que é diversidade e como respeitar as especificidades de cada um.

Optar por não colocar negros em suas páginas mesmo sendo constantemente alertados por essas falhas é deixar clara a sua linha editorial racista, é transparecer sua vontade de segregar o negro a um determinado espaço de invisibilidade. Não nos querem  na mídia, menos como  de consumidores em potencial de determinados produtos e serviços.

A inspiração dessa postagem veio quando eu encontrei uma reclamação de um pai no site Reclame Aqui falando sobre a falta de representatividade nas revistas. Um pai faz a seguinte reclamação no site:

“Hoje comemoro o meu primeiro Dias dos Pais! Quando minha esposa estava grávida pensamos em assinar essa revista, mas comprávamos avulsamente nas bancas e tínhamos um motivo: nunca vimos um bebê negro na capa da revista.
Mesmo sendo a população não-branca, maioria no Brasil, vocês só publicam capa com bebês de traços europeus, pergunto: vocês são racistas ou é falta de uma política de igualdade??? “

A pergunta foi bem clara e direita, exatamente o que muitas pessoas postam na página do Facebook da revista e comentam cotidianamente. A representante da revista, em um arroubo de sinceridade, respondeu isso:

reclame aqui2

A reclamação e a resposta da revista podem ser vistos  neste link aqui.

Diante dessa clara demonstração do posicionamento da revista, que podemos inferir que não é muito diferente do posicionamento da outra revista do estilo, fica ainda mais claro que precisamos fazer algo. Não podemos simplesmente aceitar essa tentativa de  nos manter à margem da sociedade.

Cabe a nós, negros, e especificamente à mães pretas,  brigarmos por representação nesses espaços e também construirmos espaços de sociabilidade alternativos, onde possamos interagir e debater sobre questões relativas à maternidade e maternagem consciente.

Veja mais em Combate ao Racismo e Educação


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