Postado em 19 de julho de 2016 por Lu Bento

Mães de UTI

A médica chegou e disse:

– Mãe, vamos ter que entubar essa gatinha.

Na hora eu pensei: “Entubar?  Que merda! Isso é colocar a menina em coma induzido! Isso não pode ser tão grave assim!” Mas respondi prontamente:

– Tudo bem doutora. Se isso é o melhor pra ela se recuperar, faça isso!

– Certo. Faremos o procedimento amanhã pela manhã se a saturação dela não melhorar nesta noite.

Saí do quartinho dela na UTI e fui para a copa, local onde os pais se reuniam e comiam alguma coisa nos poucos minutos que saiam do lado de filhos. Queria chorar, mas as lágrimas não viam. Me achei um pouco insensível, por nem conseguir chorar pela minha filha. Logo chegaram duas mães e me perguntaram como a minha pequena estava. Eu logo falei da entubação. Precisava compartilhar aquilo com que tinha mais experiência nessa vida de mãe de UTI.

– É melhor assim. Sedados eles deixam fazer  medicação direto e melhoram mais rápido. Bronquiolite é assim mesmo, assusta bastante mas eles logo se recuperam. Vira e mexe tem criança com bronquiolite por aqui, e logo eles tem alta. – Falou uma delas.

Na hora o meu receio foi embora. Se era o que precisava ser feito pra ela melhora, que fosse feito! No dia anterior eu tinha me impressionado bastante com a força daquelas mulheres. Uma tinha um filho com câncer em estado terminal. O menino estava lá fazendo um tratamento experimental há mais de 3 meses, na expectativa de aumentar a sua sobrevida.  A outra tinha uma bebê da idade da minha. A menina nunca tinha saído do hospital. Havia nascido prematura, não entendi direito o caso dela, mas a mãe estava bem animada com a possibilidade de ir para casa com uma estrutura de homecare nos próximos meses. maes de uti

Aquela conversa me encheu de força. Voltei no quartinho da Naíma e ela dormia calmamente, apesar da respiração ofegante e cansada. Efeito da medicação da noite. Falei pra ela que ela seria entubada, que ficaria dormindo sem se preocupar em respirar, porque uma maquinhinha faria isso por ela. Esse soninho duraria alguns dias, mas eu estaria lá com ela o tempo todo. E quando ela acordasse, ela voltaria pra casa, respirando direitinho, pra gente brincar de roda com a Aisha e o papai como no dia em que tudo isso começou.

Foi aí que eu percebi porque eu não chorava. Não existia espaço para choros e lamentações. Minha filha precisava de mim. E naquela noite, percebi de onde vinha a força daquelas mulheres que eu tanto admirava desde entrei na UTI.

 

Vivido em: Novembro de 2014

Escrito em: Julho de 2016

 

 

Postado em 26 de fevereiro de 2016 por Lu Bento
Ano passado falei como foi difícil encontrar uma mochila adequada pra Isha Bentia. Se quiser relembrar a saga é só clicar aqui.  Esse ano precisei buscar uma mochila nova pras meninas, já que Mini Bentia já está crescidinha e não vai mais usar bolsa de bebê. E não foi fácil encontrar algo que não tivesse princesas ou personagens brancas.
Eu já tinha uma ideia bem definida: vou procurar a mochila de rodinhas da Qui Qui Biscuit, a Mini Bentia passa a usar a mochila da irmã, e Isha Bentia ganha uma mochila de rodinhas como ela tanto quer. Fica todo mundo com a mesma estampa da Bom Bom, personagem negra da marca, e fica tudo certo.
O plano tava lindo, mas colocá-lo em prática foi mais difícil que eu esperava. Fui para o Brás, aquele mundo do consumismo, e andei pelas lojas de bolsas certas que só encontraria o que buscava na mesma loja que comprei a mochila. E de fato não encontrei nada diferente das mochilas com personagens da Disney ou com personagens brancas na maioria das lojas.
Após enfrentar a resistência das vendedora que invarialvente tentam te forçar a falar se é mochila pra menino ou pra menina, elas sempre me mostravam só modelos com personagens brancas. Quando eu optei por iniciar a abortarem falando que eu procurava uma mochila infantil sem personagens famosos, no máximo com alguns bichinhos, elas logo falavam que não havia nada neste estilo. Minhas esperanças de sair do Brás já estavam esgotando quando finalmente cheguei na loja onde havia comprado a mochila da Isha Bentia.
logo dei de cara com uma mochila com uma outra personagem da coleção que eu procurava e perguntei se não tinha a mochila de rodinha da BomBom. Não tinha. E a sem rodinhas, a de cargas nas costas mesmo? Não tinha. Tenha previsão de nova remessa? Não, aquele era o último modelo disponível. Decepção era o meu nome.
Fiquei arrasada com a possibilidade de não conseguir uma mochila pras minhas meninas. Não estava disposta a pagar quase 500 reais por um kit de mochila e lancheira. Também não queria comprar uma mochila sem graça e ficar ouvindo o ano inteiro como a mochila da Sofia e maravilhosa, a da Vitória é um espetáculo e a da Sabrina que tem um monte de bolsos.  Isso não é uma competição, mas sempre  dá aquela sensação de #menasmain quando a gente não consegue agradar as crias.mochila1
Por sorte encontrei a lancheira e o estojo e já separei pra minha compra. A lancheira, que em lojas virtuais custava 50 reais, e estava sempre em falta, na loja física estava por menos da metade do preço. E comecei a pensar em alternativa pra mochila da Isha Bentia.
A minha primeira opção foi me render às personagens famosas da Disney. Vi a mochila da Dra. Brinquedos e pensei que seria uma boa ideia optar por ela. Custava mais de 200 reais só a mochila de rodinhas. Ainda faltaria a lancheira. Além do mais, Isha Bentia não curte o desenho da Dra. Brinquedos, por mais que eu coloque de vez enquanto na Tv. Não ia rolar.
Já estava decidida a ir pra casa e tentar novamente outro dia, quando um vendedor me mostrou uma mochila de rodinhas, sem imagem de personagem. Ela era lilás e rosa,  tinha um bordado escrito princesa em inglês (nem tudo é perfeito nesse mundo sexista) e, tinha uma rodinha que acendia ao girar. Foi o suficiente pra agradar a minha curica. E o custo de menos de 100 reais foi  decisivo pra agradar meu bolso.
mochila 2Comprei a mochila, certa de que foi o melhor negócio que eu poderia fazer nesse contexto, mas continuei com essa questão na cabeça. Como proporcionar às curicas um material escolar mais representativo, que não corrobore essa indústria capitalista que quer nos obrigar a adotar determinados padrões. E comecei a ver também outras mães pretas preocupadas com tudo isso.
Então eu percebi que não adianta esperar que as grandes empresas façam produtos que nos representem. Precisamos exigir representatividade, mas precisamos também dar valor as iniciativas de pequenos empreendedores que já estão produzindo artigo voltados para a população negra. Já existe uma variedade de pequenas marcas que vendem cadernos com estampas afro e com bonecas negras. Assim como mochilas, capas para livros, estojos…
O jeito é pesquisar. Garimpar mesmo esses produtos e valorizar os empresários negros que estão se esforçando pra ocupar essa lacuna. Demanda existe. Produto também! Basta a gente conseguir conectar esse dois pontos.  Precisamos começar a praticar o consumo consciente. Um consumo que vai além do desejo de obter o produto. Precisamos consumir de forma que possamos fortalecer iniciativas que corroboram a nossa visão de mundo.
Espero que ano que vem seja mais fácil encontrar um material escolar que realmente seja representativo para as minhas filhas.
Postado em 10 de dezembro de 2015 por Lu Bento
A vida não tá fácil pra ninguém. Eu sei. Mas quando você não está bem consigo mesmo, a vida fica ainda mais difícil de se levar. É o que está rolando por aqui. Em meio a uma maré de planos frustrados, como não conseguir dar contada da pós, do blog, das crianças, do casamento, dos meus projetos pessoais… E de tudo mais que se acumula como a bagunça na minha casa, o desânimo bate, entra, senta e fica pra um cafezinho que se estende ao longo do tempo.
Pois é, ando cansada e desanimada pra caramba, sem estímulo pra nada e fazendo só o necessário pra não parar de vez. Em meio a essa sobrecarga física e emocional, aqueles cuidados básicos com a nossa autoestima vão sendo deixados de lado. Tenho que sair? Qualquer roupa limpa serve! Tenho que comer? Qualquer coisa que mate a fome rápido já dá conta. Cuidar da aparência, da saúde? Nem pensar!
Mas como isso aqui não nasceu pra ser um muro de lamentações, bora falar de coisa boa (e não é Tekpix!).
Tenho circulado muitos eventos voltados para a valorização da população negra nos últimos meses. O trabalho com ablackwomenlivraria InaLivros está muito bacana e tem nos proporcionado uma vivência muito rica neste sentido. Em geral, a mulherada vai super produzida, com a maquiagem, o cabelo, as roupas impecáveis. É um verdadeiro desfile de divas! E eu lá, toda mais ou menos, com roupa que estava  minimamente decente. No começo isso nem me incomodava, mas agora tenho prestado mais atenção nas fotos e vejo o quanto o meu visual largado pesa na minha (falta) de autoestima. Parece que eu não pertenço a esse lugar no qual as mulheres cuidam dos filhos, do próprio negócio e ainda conseguem desfilar lindas por aí. E talvez de fato não seja esse o meu universo. Mas com certeza não sou um ser totalmente avesso a ele, se fosse nada disso me incomodaria tanto.
Como já falei antes, estou em uma constante luta contra a minha falta de disposição para me produzir, me cuidar… Mas esse mês, no Odarah Bazar, aconteceu algo que me fez refletir mais sobre a minha aparência e sobre como eu tenho lidado com tudo isso. Uma amiga tem uma marca de roupas, a Camisetas Jazztopia,  e durante a montagem do evento, por um acaso, ela me mostrou um vestido lindo que ela tinha acabo de produzir. Na hora eu achei linda, mas quando ela disse ser tamanho único,  imaginei que não caberia em mim. Depois decidi provar o vestido, certa de que não caberia e morrendo de medo de alargar tentando vestir. Fui para o banheiro, e inicialmente tentei provar do cima do meu próprio vestido, já que ele não caberia em mim mesmo. Quando o vestido coube, vi que precisaria tirar o vestido e baixo pra poder ver realmente o modelo. Tirei a minha a roupa, coloquei tudo de novo e ai a magia aconteceu: eu me vi linda!
Sério, há tempos não me via assim! O vestido tem um decote que valorizou meios seios de uma forma que eu não tenho me permitido usar nos últimos anos. Seja porque eles estão grandes demais depois de ter engordado e amamentado, seja porque não dá pra usar decotes tendo que pegar criança no colo e no chão toda hora. Enfim, eu me senti maravilhosa com o vestido.

O vestido Jazztopia

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Depois que eu vesti este vestido parece que minha energia mudou. Me sentido mais bonita, eu me senti mais confiante, mas segura. Passei a andar com a coluna ereta, com a postura melhor. Passei a falar com mais firmeza. Parecia que eu tinha voltado a ser a mesma mulher de anos atrás. E o mesmo tempo que foi reconfortante, foi revelador pra mim perceber o quanto da minha personalidade e do meu modo de ver e encarar a vida estão escondidos em uma capa de desleixo que eu insisto em usar cotidianamente.
Aquele vestido me fez perceber o quanto minha autoestima precisa ser trabalhada para que eu possa ter forças e ferramentas para conseguir alcançar alguns dos meus objetivos que foram tão negligenciados neste ano. Então eu tomei uma decisão: 2016 precisa ser um ano de retomada da minha autoestima como mulher, como mãe, como profissional, como pessoa. Preciso cuidar mais de mim. E é nesse sentido que eu pretendo trabalhar em 2016.
É difícil pensar que as curicas não podem vir em primeiro lugar nas minhas decisões, mas como cuidar delas se eu não consigo cuidar nem de mim? Já estava planejando fazer um quadro de inspirações para 2016 e esse episódio me fez decidir que meu primeiro quadro de inspirações deverá focar a minha saúde e bem estar. Isso significa que finalmente farei algo concreto para cuidar da minha saúde, bem como para melhora a minha autoestima. Isso envolve reeducação alimentar, exercícios, idas aos médicos,  cuidados com a pele, com o cabelo, com as unhas.
Assim como em 2015 eu decidi me expor mais, no sentido de não ter medo de falar o que eu penso e de ser vista pelas pessoas,  para 2016 eu decido me olhar mais. Me enxergar mais. Sei que o não-olhar para a minha aparência é uma tentativa de não ver também minhas dores e feridas internas, emocionais. E por isso mesmo acredito que o processo de cuidado estético servirá como um portal para que eu cuide também de feridas que eu cultivo consciente ou inconscientemente nos últimos anos.
Não será fácil, não será rápido, não será simples. Mas quando eu vesti aquele vestido a autoestima voltou. E eu não estou disposta a deixá-la escapar novamente.
Postado em 30 de novembro de 2015 por Lu Bento

Sou mãe (de duas crianças pequenas), mulher, esposa, dona de casa, servidora pública, empresária,busy mom3 estudante, blogueira, gestora de conteúdo de um site.  Só pra falar as ocupações mais frequentes. Sim, sou uma mãe multitarefa. Dá pra dar conta de tudo? Não, não dá. E eu acabo fazendo coisas pela metade, do jeito que dá, na última hora. Isso é bom? Não, não é. Mas também não é bom pra mim abrir mão de alguma dessas identidade. Tudo que eu faço (ou tento fazer) atualmente tem uma razão de ser pra mim. Um sentido, uma fonte de prazer, uma fonte de realização.  Sou o tipo de pessoa que não se realiza fazendo uma coisa só. Muito menos uma de cada vez. Mesmo que no conjunto da obra, não saia uma coisa perfeita, sou um quebra-cabeça formado por cada uma dessas peças, e uma peça faltando é um pedaço de mim incompleto.

Quisera eu poder dar conta de tudo que eu faço no dia-a-dia. Quisera eu poder aproveitar minhas horas com mais qualidade! Mas isso aqui não é um muro de lamentações. Hoje eu tenho total consciência que o tempo é uma construção social. A gente constrói nosso tempo. A gente define, a cada decisão, quais são as nossas prioridades. O que dá tempo de fazer e o que não dá tempo. São essencialmente escolhas.

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Meu compromisso comigo, hoje, é ter tempo pra me dedicar com maior qualidade a cada um dos meus afazeres. Mesmo com os imprevistos. Mesmo com as mudanças de prumo e os sucessivos novos cálculos da rota. Haja flexibilidade para mudar de caminho o tempo todo. Mas se tem uma coisa que eu sou é flexível com relação aos meus planos. Quanto menos rígidos, melhor.

Sei que muitas mulheres tem rotinas mais complicadas que a minha, trabalham e estudam tanto quanto eu, ou até mais e dão conta de todos os afazeres. Sei também de gente que faz muito menos coisas e ainda está achando muito. Isso é relativo e pessoal. O que a gente faz, como ocupamos nosso tempo, são decisões pessoais que depende do nosso estilo de vida, nossos objetivos e possibilidades.

busy mom2No momento, me é possível estudar, fazer uma nova pós-graduação e me qualificar na área em que eu trabalho. Estou estudando um monte de coisa nova, mergulhando em um mundo que eu não domino, sendo desafiada a compreender termos técnicos, a refletir sobre questões que não faziam parte do meu cotidiano na graduação e na outra pós que eu fiz.  Ao mesmo tempo, também surgiu a oportunidade de começar um negócio próprio, trabalhar com algo que eu amo (livros!). Tenho que abrir mão da tarde no sofá pra sair pra trabalhar? Tenho. E abro mão com prazer. Porque faço isso junto com a minha família. A gente sai e todos juntos vendemos livros, eu, o marido e as curicas. E tem sido momentos maravilhosos ao lado deles.

Eu conto um pouquinho dessa minha vida porque essas transformações estão no meu cotidiano mas também estão em mim. Acho que essa meu momento multitarefa tem muito a ver com os 30 que chegaram e com eles chagou também uma vontade de construir mais, produzir mais.  E a cada nova tarefa eu descubro um novo prazer, uma nova possibilidade de atuação nesse mundo, um novo interesse.

Tem sido gostoso sair da caixinha da maternidade e explorar outras possibilidades. Tem sido odarah1gostoso ver que a maternidade era apenas um dos meus caminhos. Lógico que nada que eu faço agora desconsidera a minha dimensão mãe. As curicas estão crescendo cada vez mais independentes (tudo bem, Mini Bentia ainda é  um grudezinho), e é muito bacana vê-las criando autonomia. Ver que o centro do mundo delas não sou mais eu, que elas ficam bem em outros ambiente, interagindo com outras pessoas. Por que o que eu quero, no final das contas, é criar mulheres que se bastam, que corram atrás dos seus sonhos, que não sejam emocionalmente dependentes de ninguém, apesar de manterem vínculos fortes com aqueles que elas amem. E pra isso, eu quero me tornar esse tipo de mulher que eu espero estar criando. A criação começa por mim.

E eu acho que estou me criando bem.

Postado em 12 de março de 2015 por Lu Bento

Mini Bentia completou 1 ano. E que ano! Ela chegou abalando nossas estruturas e eu não poderia deixar de escrever o quanto essa menina é especial pra todos nós.

Postado em 9 de março de 2015 por Lu Bento

Antes mesmo do filho nascer precisamos tomar uma decisão que vai ter impacto por toda a vida deste novo ser: definir o nome pelo qual ele será registrado e chamado pelo resto da vida. Hoje vamos falar um pouco sobre a escolha do nome do bebê e com eu escolhi nos nomes das curicas.

Postado em 6 de março de 2015 por Lu Bento

autoestima como empoderamento feminino

Um dia entrei no meu facebook e vi uma imagem na minha linha do tempo com a seguinte frase: “Uma mãe que irradia amor próprio  e autoconfiança, na verdade, vacina sua filha contra baixa autoestima.“* Aquilo me marcou. Sou mãe de duas meninas e minha autoestima ia ladeira abaixo desde que perdi meu primeiro bebê. Percebi que era hora de fazer alguma coisa concreta ou minhas filhas cresceriam tendo um péssimo exemplo em casa.

Me olhei no espelho demoradamente e refleti sobre o que eu vinha fazendo por mim mesma nos últimos 7 anos. Logo depois que perdi o primeiro bebê (ainda espero conseguir parir um relato de aborto e da violência obstétrica que sofri na ocasião), comecei a estudar pra concursos públicos. Não demorou muito e passei em alguns e foi bem elogiada pelas pessoas com quem convivo. Todos reconheciam o quão difícil é passar em um concurso e que eu tinha conseguido até relativamente rápido resultados pelos meus esforços. Para mim, eu simplesmente não tinha feito mais que a minha obrigação, afinal, era para isso que eu estudava. Me concentrava mas nos concursos que eu não passei e vivia remoendo o fato de ter errado várias coisas bobas nas provas. Nos concursos que eu passei me comparava com os primeiros colocados e me achava burra por não ter conseguido melhores posições.

Na faculdade, não procurava um grupo de pesquisa porque não me achava boa o suficiente. Fazer a prova do mestrado então, nem pensar! Da menina que falava bem nas aulas e não tinha problemas em se expressar em público quando criança pouco restou. Expressava minhas opiniões cada vez menos e com isso ia me anulando.

A verdade é que eu me culpava enormemente pelo aborto. Se eu não era capaz de segurar um bebê na barriga, o que eu poderia fazer direito? Nada né! Uma baixa autoestima que inicialmente pode ter sido motivada por um fato que me trouxe enorme tristeza foi se perpetuando ao longo do tempo e afetando todos os setores da minha vida. Quando engravidei de Isha Bentia, eu já sabia que precisaria ficar de repouso durante toda a gravidez. A sensação de estar mais doente do que grávida permeou os nove meses e reforçou em mim mais uma sensação de  “fracasso”. Nem uma gestante normal eu poderia ser! A amamentação exclusiva que também não rolou (meu relato de amamentação pode ser visto aqui) foi outro marco nesse meu processo de autodepreciação.

Quando Mini Bentia chegou, achei que conseguiria parir naturalmente. Não consegui. Precisei de uma cesárea no meio do trabalho de parto e acabei com mais um motivo pra me autossabotar emocionalmente. Então eu me tornei aquela que não consegue segurar um bebê no útero sem ajuda externa, não consegue ter uma gestação normal, não consegue parir e não consegue amamentar. Que porcaria de mãe que eu sou? Que porcaria de mulher/mamífera eu sou?

A terapia sempre ajuda neste lado mais deprê da coisa, mas nem sempre consegue nos fazer lidar com essas pequenas autossabotagens cotidianas. A falta de tempo e duas crianças pequenas pra criar me davam passe livre pra priorizar as necessidades das meninas, da casa, do marido, do trabalho e deixar as minhas demandas para último plano. Quero comprar uma roupa nova? Não posso, tenho que comprar isso pras curicas. Preciso me exercitar? Não posso, não tenho tempo livre. Quero voltar a estudar? Não posso, deixa o marido primeiro. Gostaria de fazer tal coisa? Não posso, tenho que cuidar da casa.

Nunca fui das mais vaidosas, mas percebo que nos últimos anos tenho ficado cada vez mais largada. Com a chegada das filhas então, meu tempo pra cuidar de mim mesma foi reduzido a zero e eu não fazia nada pra mudar isso. E nem me lamentava muito quanto a isso, a falta de tempo era a minha justificativa pra andar por aí toda largada.

Então, quando eu vi essa imagem com a frase eu percebi que se não começasse a fazer algo por mim minhas filhas teriam como exemplo uma mãe/mulher que não se cuida, que não se ama.

Por isso decidi começar a cuidar de mim. Claro que começar a se cuidar é um processo e escrever o blog faz parte disso. Precisei começar a escrever pra encontrar uma forma de me expressar, de expressar minhas opiniões e sentimentos e sair da letargia do “tá tudo bem.” o tempo todo. E me expressando consegui me enxergar.

Não estou ainda fazendo nem um terço do que eu gostaria de fazer por mim mesma, mas já tenho tempo pra me exercitar, já cuido melhor da minha pele, do meu cabelo, da minha saúde. Estou me organizando pra voltar a estudar. Já consigo gastar meu dinheiro com algo pra mim sem culpa. Consigo ir ao médico e ao dentista quando preciso e comecei a tirar algumas selfies quando gosto do meu visual. São pequenos passos mas são fundamentais. Isso tudo é empoderamento. Cuidar de si é um processo que não pode ser colocado como um item menos importante na lista de prioridades. Estou cuidando de mim, e assim cuido delas.

Que essa minha mudança de atitude comece a vacinar minhas meninas desde pequenas.

* Pesquisando na internet, as informações indicam que a frase é de Naomi Wolf. Não consegui encontrar uma fonte realmente confiável que me confirmasse essa informação. Quem souber confirmar a autoria, por favor, me ajude.

Postado em 30 de dezembro de 2014 por Lu Bento

Fim de ano e sempre vem aquela vontade de fazer um balanço do como foi o ano que está acabando. Quanto a isso, eu não passo vontade! Sempre faço minha retrospectiva, e  compartilho a de 2014 com vocês.

Quando eu me dedico a lembrar o que foi marcante pra mim esse ano, a primeira coisa que vem a mente foi o período que a Mini Bentia passou internada. Mas é lógico que esse não foi o momento mais importante, muito menos determinante para que 2014 seja classificado como um ano ruim.

92620d2c538feb4c559d167e9acbc164Comecei 2014 imensamente feliz por ter segurado minha filha na barriga. Pra quem tem pressão alta e IIC, uma combinação ótima pra aumentar o risco de parto prematuro, cada semana de gravidez é uma vitória. Acompanhando as ultras, a curica crescendo bem devagar, mais devagar que o “normal”. Mas tava crescendo no ritmo dela, bem, saudável. Venci também o medo e me permiti curtir um pouco a gravidez de uma maneira mais normal, repousando menos e vivendo mais.

Com a viagem do marido, Mini Bentia que seria nossa paulistana, acabou indo nascer no Rio. Foi uma reviravolta em nossos planos e eu tive a oportunidade de fazer uma das escolhas mais importantes da minha vida: procurar uma equipe humanizada pra me ajudar a trazer Mini Bentia ao mundo.

Eu, que sempre tive um certo distanciamento de médicos, conheci uma equipe maravilhosa e aprendi que é possível ter muito amor na relação médico-paciente. Não que eu não tenha sido bem tratada pelas minhas obstetras fofas anteriores, não tenho dúvidas que a Dra. Luciana e a Dra. Rosana foram excelentes pra mim, me passaram segurança e confiança pra encarar uma gravidez de risco, nunca me botaram medo e sempre me passaram tranquilidade. Só não estavam preparadas pra sair do esquema cirurgia-agendada-para-trazer-bebê-ao-mundo. Tive a sorte de conseguir me informar e escolher uma forma mais calorosa de receber minha filha nesse mundo com uma equipe que me fez ver o mundo de outra maneira, me fez valorizar ainda mais esse momento. Como eu sou grata a essas pessoas!!

E antes de Mini Bentia chega, ainda deu tempo de pular carnaval, ver o mar, passear com a Isha Bentia, com o marido…

Mini Bentia chegou um meio a um turbilhão de emoções, chegou de uma maneira um pouco conturbada, mas a confiança na equipe e a serenidade que tem tomado conta de mim nesses momentos difíceis só me fizeram ter certeza que ao amanhecer Mini Bentia estaria nos meus braços!

A amamentação foi difícil? Foi. Rolou uma deprê pós-parto? Sim. O ritmo de viagens do marido tava pesado demais pra gente sustentar a situação? Estava. As meninas ficaram doentes? Muitas vezes. Cuidar de duas não é tão fácil quanto eu esperava? Não é. Mas esse ano eu aprendi que os problemas têm a dimensão e a importância que a gente dá.

Esse ano, mais uma vez, pude ver e viver o quanto somos amados pelas pessoas que nós cercam. Uma carona oferecida, uma oferta pra cuidar de Isha Bentia enquanto a Mini Bentia estava no hospital, uma oferta pra cuidar de Mini Bentia enquanto Isha Bentia estava no hospital, um abraço apertado, uma mensagem perguntando por notícias, uma presente sem um motivo especial, uma visita que lava a louça, uma companhia para um passeio no parque, uma oferta pra levar a gente na rodoviária pra ir viajar, visitas lindas e generosas pra conhecer Mini Bentia, uma mensagem pra saber se está tudo bem… Tantos e tão diversos gestos de carinho vindo de todos os lados. Quanto amor recebemos esse ano!! Espero conseguir ao longo da minha vida retribuir e distribuir tanto amor quanto o que eu tenho recebido.

Isha Bentia esteve internada por 5 dias. Um susto. Um fim de semana doente, melhora e vai pra creche. De lá uma ligação, a mãe sai desesperada pra encontrar a filha, uma ambulância, hospital, internação. Foi duro ver uma menina cheia de energia presa no hospital, sem poder sair pra brincar. Mais duro ainda foi descobrir que uma mãe não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. A pequenininha teve que se adaptar na creche (graças as pessoas maravilhosas de lá, ela ficou super bem, se sentiu em casa!) e a grandinha teve a atenção exclusiva que precisava. Não era nada. Saiu de lá prontinha pra sua festa de aniversário no dia seguinte. Um presentão pra família!

Mas foi a internação de Mini Bentia que leva sem contestação o título de “o susto do ano”. De manhã a menina brincando de roda com os pais e a irmã. De noite, internada na UTI, sedada, com respirador. Tudo tão rápido e tão intenso que me fez refletir sobre a vida e a morte. E me fez ver que a morte não deve ser um medo, mesmo nos momentos mais difíceis. A morte faz parte da vida, e cada um tem o seu tempominibentia no hospital e sua missão por aqui. Essa forma de ver o mundo me deu a serenidade necessária pra encarar ao lado dela todo esse processo de internação. E me fez não temer tanto vida dela. Mais uma vez, encontrei amor num hospital. Conheci mães com filhos na UTI transbordavam felicidade e aprendi que a felicidade é uma escolha. E dúvidas, a força delas despertou a minha força interior pra lidar com as dificuldades. Aprendi que mãe não se divide, se multiplica ao passar o dia todo na UTI com Mini Bentia e chegar em casa a noite e brincar com Isha Bentia, dar banho, comida…

Nesse ano que a maternidade foi o carro-chefe, não posso esquecer o quanto sou grata a generosidade dos meus colegas de trabalho. Tanto tempo ausente e sempre bem recebida. Sou muito feliz em trabalhar com pessoas e num ambiente que se tem prazer em estar.

No relacionamento, completamos 5 anos de casados com a certeza de que queremos estar juntos cada vez mais, mesmo não sendo tão fácil quanto possa parecer. Não conseguimos comemorar com gostaríamos, mas conseguimos fazer nossa primeira viagem em família, o que foi muito especial. A lua-de-mel ainda está no papel como um plano futuro, e espero que 2015 a traga pra realidade.

Pensando mais especificamente sobre mim, foi o ano dos meus 30. Foi um ano de busca pela a minha essência, pelas minhas crenças, meus objetivos e expectativas nessa vida. O que eu gosto, o que eu não gosto, o que eu tolero, o que eu não suporto. Foi um ano de autoconhecimento . Foi um ano de profunda reflexão. Me permiti experimentar coisas novas, como uma massagem relaxante, um jantar num restaurante japonês ou falar mais em público. Até topei participar de um programa de televisão mostrando o nascimento de Mini Bentia!  Comecei um blog e uma página no Facebook.

Começo 2015 cheia de planos, sonhos, metas. Muitos ficarão pelo caminho, afinal, imprevistos acontecem sejam eles bons ou ruins. Quero voltar a estudar, me exercitar, cuidar melhor da minha saúde. Quero ser menos bagunceira, me alimentar melhor, quero ser mais ativa na defesa das questões que eu acredito. Quero conviver mais com meus afilhados, quero ver menos televisão, quero viver bons momentos com meus familiares e amigos. Quero produzir menos lixo, quero fazer boas ações, quero ter tempo pra cuidar de mim. Enfim, são tantos quereres que 2015 será, no que depender de mim, um ano muito rico em experiências. É o que eu desejo pra mim é e pra todos.

Feliz 2015!

Postado em 9 de dezembro de 2014 por Lu Bento
Amamentação tandem

Sempre soube que eu ia amamentar. Desde quando meus seios cresceram, aos 9 anos. Menstruei cedo, me desenvolvi cedo, então aos 9 pra 10 anos já tinha seio. Muito maior que as meninas da minha idade. Maior que os das meninas mais velhas.

Cresci achando meus seios lindos e morrendo de orgulho pois iria meus filhos teriam amamentação materna exclusiva e em livre demanda pelo menos até o 6º mês e obviamente nós seguiríamos com a amamentação até os 2 anos ou mais. E eu ainda seria doadora de leite!!!

Um dos primeiros sintomas de gravidez que eu notava eram os seios maiores e mais sensíveis.  Todos falavam que eu ia ter muito leite. Minha mãe, minhas avós, todas amamentaram. Ninguém teve dificuldade nenhuma. Meus seios nunca chegaram a vazar durante a gravidez, mas eu sabia que isso não era um problema, meu peito tinha sido feito pra amamentar,  a mulher tem a capacidade de amamentar e a criança tem o reflexo de aprender a mamar,  então é a ordem natural da coisa.  A criança nasce, mama na primeira hora de vida, e logo o colostro vem e tudo vai se ajeitando. É um pouco difícil, tem que acertar a pega, o peito pode empedrar, o bico rachar, mas tudo se acerta com paciência, esforço e dedicação. E muito amor.

Na vida real, quando Isha Bentia nasceu numa cesárea “de emergência” às 38 semanas e 1 dia eu ainda não tinha leite. Nem colostro. Nem uma gotinha de nada se me apertasse o seio. Tudo bem, não precisa sair quando aperta, a sucção do bebê é muito mais eficiente.  Ela nasceu quase de madrugada, depois de eu ter passado um dia inteiro na emergência do hospital fazendo exames, observando, em jejum, cansada, com sono. Sem nenhuma experiência com bebês e me sentindo totalmente incapaz de ficar com uma recém-nascida sem a supervisão de alguém experiente,  eu inocentemente aceitei que ela passasse a noite toda no berçário. Lógico que lá ela tomou fórmula na chuquinha pelo menos umas 3 vezes.  Quando veio pro quarto pra mim, ela tinha acabado de tomar uma chuquinha com fórmula (eu pedi pra ela vir as 6h da manhã e ela só chegou as 7h porque estavam dando fórmula antes de mandar pra mãe!!!!).  Praticamente não orientavam como colocar para mamar. Às vezes que eu pedia ajuda e  a equipe chegava, tentava colocar meu seio na boca da bebê por alguns minutos, não saía nada. Então eles falavam pra dar a chuquinha e depois tentar de novo na próxima mamada dali a 3 horas.

Resumo da história: a menina tomou fórmula desde a maternidade. Tentei tirar no primeiro mês e para isso fui a banco de leite, acertei a pega, a pediatra deu todas a orientações para ficar só amamentando, deixava ela mamar em livre demanda mesmo que isso significasse ficar o dia inteiro com ela no peito. Fazia a massagem que eu aprendi antes de amamentar, tentava ficar em um ambiente tranquilo e relaxada. Não acreditava nessas coisa de que tinha que comer isso ou beber aquilo, mas seguia firme a recomendação de comer bem e beber muito líquido. Porém, ao final do primeiro mês ela não teve o ganho esperado de peso, mal recuperou o peso de nascida então bateu o desespero e passamos a complementar de rotina.  Foi um baque pra mim. Fiquei arrasada, destruída, todas as minhas fantasias sobre a amamentação ruíam e eu fiquei sem chão. Pra mim era 8 ou 80. Se era o complemento que alimentava ela, ela não precisava ficar no meu peito. Colocá-la pra mamar só me deixava deprimida. Me sentia traída cada vez que alguém se oferecia para dar mamadeira pra ela, como se aquela pessoa desejasse secretamente que eu falhasse na amamentação para que ela pudesse alimentar minha filha. O marido se tornou o principal culpado de tudo isso. Além de ter me falado de brincadeira antes da filha nascer que precisava comprar NAN pra ela ficar forte, foi a primeira pessoa que eu vi dando chuquinha pra ela. Me senti desnecessária.

Depois de muito sofrer, percebi que a amamentação não era só o alimento. Tinha também a parte dos anticorpos, do vínculo que se construía quando aquele serzinho ficava te olhando nos olhos com os seios na boca. Tentei reverter a situação, fizemos a técnica da relactação para estimular a produção do leite, aluguei uma bomba e nos horários que ela não estava mamando eu tentava tirar um pouco de leite pra estimular o seio e pra fazer a translactação com o meu próprio leite. Quando não utilizava a técnica da relactação, dava os fórmula com colherzinha ou no copinho, para que ela não se acostumasse com o bico da mamadeira. Não dava chupeta por não achar necessário e para não haver confusão de bicos.

Com o tempo, tudo foi ficando cada vez mais difícil e acabamos optando pela praticidade de deixar ela um pouco no peito e depois dar a mamadeira. E assim foi até os 7 meses, quando Isha Bentia mordeu meu seio, eu reclamei com ela e ela nunca mais quis mamar.

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Com Mini Bentia eu tava certa de que tudo seria diferente. Não deixaria que dessem fórmula na maternidade. Já sabia que eles nascem com uma reserva e que as poucas gotinhas de colostro que saíssem eram suficientes para o que ela precisava no hospital. Não deixaria ela ficar um segundo sequer fora da minha vista e ninguém daria fórmula pra ela escondido de mim. Levaria a gravidez até o máximo possível para que ela nascesse quando nós já estivéssemos prontas e o leite viesse com mais faculdade. Estava me preparando para um parto natural humanizado, mas sabia que talvez não fosse rolar. Tudo bem, o importante é que eu ia amamentar numa boa depois, e com uma equipe legal, com certeza ela iria imediatamente para o meu seio após nascer.

Mini Bentia nasceu uma cesariana intra-parto com 39 semanas e 5 dias. Nasceu de madrugada e foi direto pro peito. Eu parecia uma zumbi de tanto sono mas não deixei ela ficar no berçário. Colocava ela no peito a todo instante, e quando apertava logo via umas gotinhas de colostro. A equipe do hospital sempre vinha me orientar em como amamentar, como acertar a pega. Não sei porque isso aconteceu, mas a glicose de Mini Bentia baixou mais que o esperado. Vieram com um copinho de fórmula infantil pra que eu desse pra ela. Não dei. Deixei ela no peito torcendo pra ser o suficiente e foi. Por pouco tempo. Na outra medição a glicose estava normal, e eu fiquei mais tranquila. Achei que tivesse evitado que ela tomasse fórmulas já no hospital. No dia seguinte, levaram Mini Bentia ao berçário pra fazer algum exame e quando voltaram com ela me avisaram que tinham dado fórmula pra ela. Surtei. Falei q não eram pra ter feito isso sem a minha autorização. Chorei horrores, alto, berrando. Muito. Um escândalo mesmo.  A técnica de enfermagem que fez isso nunca mais apareceu na minha frente. O marido ficou preocupadíssimo e começou a procurar um banco de leite, pra ver se complementando com leite humano caso fosse necessário eu ficaria mais calma. Veio um enfermeira especialista em amamentação ficar comigo em todas as mamadas me ajudando (obrigada Paloma!). A pediatra me ligou pedindo desculpas por não ter me avisado que isso poderia acontecer, ficou um tempão no celular só me ouvindo chorar. E olha que eu fiquei um tempão chorando mesmo, sem dizer uma palavra sequer!!! Te amo Fabíola!

A via crucis com Mini Bentia foi: amamentação em livre demanda com pega correta, retirar leite na bombinha e dar na colher ou no copinho e depois passamos pra translactação, 3 pediatras  e todas falando que eu tinha condições de amamentar sem precisar complementar, família me mandando descansar, consultora em amamentação, grupo virtual de apoio a amamentação,  banco de leite, vídeos no youtube, remédio pra ansiedade, vasta bibliografia sobre amamentação, terapia de casal, oscilações entre a vontade de continuar e a decisão de não amamentar mais pra não ficar nesse estresse todo e Mini Bentia sempre ganhando menos peso que o esperado, com dificuldades pra recuperar o peso do nascimento. Tudo isso temperado com crises de choro da mãe, vontade de desistir de tudo, medo, estresse, frustração por precisar fazer outra cesárea, por não amamentar exclusivamente… Ou seja, sintomas da depressão pós-parto.

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Nada disso me dava paz, me senti a mais fracassada das mulheres, algo deveria ser muito errado em mim por eu não conseguir amamentar minhas crias sem precisar de complemento.  O marido, na tentativa de entender porque aquilo tudo me perturbava dessa maneira, me disse “Lu, porque você fica desse jeito? As meninas estão bem, você está amamentado, só precisa de ajuda!” Argumentei que eu não podia nem nutrir as minhas filhas, se  fosse antigamente e não houvesse fórmula elas iriam morrer de fome (dramática!) por minha culpa. Ele logo complementou “você não é a mãe preta do leite.“.

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Essa frase foi pra mim a revelação de tudo. Me fez realmente refletir sobre toda a expectativa que eu mesma coloco sobre mim. Sim, eu me sentia a mãe preta do leite. Aquela que amamenta todo mundo com seus seios fartos que estão sempre jorrando leite. Aquela que faz os bebês ficarem roliços, cheios de dobrinhas só com o seu leite. Não, eu não sou esta. E não, minhas bebê nãos são do tipo roliças. Não, seios grandes não é garantia de ter muito leite. Mas não vazar e não empedrar também não é garantia de que não tenha leite suficiente. E leite materno nunca é fraco.

Tenho certeza de que pra Mini Bentia eu tive leite suficiente para seguir com amamentação exclusiva. Mas não tive condições psicológicas pra seguir sem complementar. Com Isha Bentia provavelmente também, mas não tive tanto suporte quanto eu precisava.

Quem sabe numa próxima (o marido pira quando eu venho com essas ideias!) eu consiga mais paz de espírito pra lidar com essa situação e até consiga finalmente amamentar exclusivamente?

Ps: Eu estou me prometendo escrever um relato de amamentação há tempos. Hoje ele nasceu em plena madrugada, depois da felicidade imensa de poder pegar Mini Bentia no colo e colocá-la novamente no peito depois de 10 dias. Mini Bentia segue internada, mas já se alimenta e já mama. E como mama essa pequenininha!

PS2: Este texto foi publicado inicialmente no blogspot no dia 17/11/2014

 

 

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